vejo ao longe um rio que corre entre montanhas duas
mulheres e uma criança
o
vento abre minhas asas com
tal força que
me leva para um lugar distante
não
posso voltar, banhar
nessas águas e
acariciar sua face
vou
de costas para o futuro para
lembrar dessa imagem que
o tempo tornará fragmento
meus
grandes olhos que
sempre viram ruínas agora
veem a paisagem
pintada
à mão num
prato
25.6.12
Na sua maneira de olhar por dentro
vejo embarcações
o sol iluminar a morte
como se houvesse luz nas trevas
Alguns não regressaram
do mergulho em águas turvas
o mar a roncar, a roncar
perturbando o sonho
Mas você, marinheiro,
voltou abraçado à noite
trazendo os peixes do mar
e uma flor para coroar Iemanjá
23.6.12
marinheiro bonito
que a sereia do mar levou
dorme sono tranquilo
peixe
olhou sem olhar
o marinheiro no colo de Iemanjá
oxalá Deus permita
que seu beijo na minha boca
dure uma vida
8.6.12
és belo homem e poeta
ela todo amor
flor pássaro mulher água
sua índia guarani
que em seu ombro repousa
e lambe a sua boca
mel ardor
vem, amor guarani
tocar o ventre que acolhe e deseja
vem
não demora
entre o nascer e o morrer
está o tempo
a árvore silêncio agora
30.5.12
o olho do poeta
assim como o rio que reflete nossa alma sua luz atravessa meu corpo e alcança o espírito transformando tempestade em calmaria
outro dia me vi refletida em seus olhos sou pássaro e não sabia
26.5.12
Aeroporto um casal joga dados na bandeja de plástico há duas horas disputam números tento ler e o barulho entorpece a leitura uma família de portugueses está para partir de Angola junto a outras tantas para se abrigar num hotel nas proximidades de Lisboa o país aguarda a independência um jipe chega à porta o cão late o filho desmaia levam o pai os dados batem sobre a bandeja plástica entediados, o casal e eu o som se dispersa agora vozes de mulheres ganham autonomia misturadas as do casal que volta a jogar os dados na bandeja os aviões decolam e o som do aeroporto forma uma massa que atravessa mais uma vez a leitura o pai teria morrido? – não, minha senhora, estou apenas dizendo as regras do hotel sinto muito, terão que dividir o mesmo quarto veja bem, tem a sorte de estar neste hotel um dos melhores cinco estrelas! – o pai há-de chegar penso na casa, nos livros empilhados, no texto a ser escrito pessoas passam voltam a passar o casal foi embora olho ao redor café, água, rebuçados nas bandejas continuo a leitura aeroporto lance de dados que abole o acaso impróprio para a poesia cenário ideal para o aborrecimento
14.5.12
Sr. G. Huberman
eles gritam gritam como se fossem dizer: terra à vista! gritam ao pé da minha janela encerrando mais um dia de trabalho
tenho sono uma pilha de livros para ler xícaras de café se acumulam na pia penso em você
como seria bom se chegasse uma mensagem e pudesse descer as escadinhas deixando ecoar os gritos que ditam o fim do expediente
eles olham ao redor conferem pela última vez se está tudo no lugar e se despedem sorrindo como em todas as tardes
11.5.12
um velho deitado sobre o rio
lá ao fundo está o rio como pintura fotocopiada o céu se impõe perante a ruína e modifica o dia
o frio se aproxima da noite quando a chuva finalmente lava as escadinhas nada como ver emoldurado o velho sobre o rio
da janela de onde se vê um velho sobre a cama guardando para si aquilo que não há de ser dito
venho pra cama e não consigo dormir as costas doem queimam como fogo
o peso da escrita
os livros conversam comigo procuro por um poema que possa narrar esta noite em que corremos perigo
19.4.12
Noite infinita
terminado um livro já não há mais o passado o que há em mim hoje se traduz na escadaria que liga o Castelo à Sé de Lisboa uma luz indescritível invade a casa atravessando as frestas da janela o amante veio me visitar e foi embora para não mais voltar
16.4.12
Lisboa
Aqui o frio corta como lâmina Os dedos já não respondem ao apelo do lápis Todo o corpo treme Dizem que é quase verão Se vier na mesma intensidade Estaremos todos fritos Como sardinhas na chapa
13.4.12
do amor e da escrita
5.4.12
tentei escrever um poema solene juro que tentei para me despedir um poema que pudesse falar da imensa alegria que sinto um poema que não fosse meramente descritivo mas que aflorasse nele um encontro que não se sabe onde, quando, como ainda por ser escrito? são tantos versos sem endereço sem motivo
tomo tudo como verdadeiro queria poder lhe dar o melhor de mim porém sou apenas alguém em busca de qualquer coisa que me tire do lugar em você existo mais do que em qualquer outro que tenha possuído a carne e o grito penso em minh'alma condenada a seguir à espera de um abrigo penso em romper a noite também o medo penso nos poemas que ofereço sem preço
26.3.12
da mãe, herdei o sorriso
do pai, o gosto pela escrita
nesta foto, em que os dois aparecem felizes caminhando na Avenida Afonso Pena dos anos 60,
não havia ainda o peso do cotidiano, nem as dores de um passado
nem a ausência do vô Benedito, possível autor da fotografia
nem a perda irreparável do tio Marco
os dois caminham rumo à promessa de felicidade
numa época de opressão, compondo a massa anônima
uma família comum, vinda do interior, em busca de trabalho
a vantagem de vir de uma família comum é a possibilidade de reinventar a própria história
sem apego, sem assinatura
10.3.12
(ontem eu tive uma queda de pressão na rua, a vista ficou escura e me socorreram
tive muito medo de não conseguir. não sou muito afeita a mudanças.
mas a vida é um lançar-se contínuo.
cada vez mais fica evidente que perdemos muito tempo em desespero)
7.3.12
mostra, João, a sua canção
e que seja simples
para que possamos compreender
os mistérios do entardecer
tocando as coisas tais como são
ou não
as que se modificam sobre o seu violão
vem abrandar os dias como o vento
nas noites de calor
e faça da sua canção
o seu gesto de amor
daqui, vejo o azul
e um pássaro a cortar o céu
arriscando rimas próprias de um tempo
que não conhecemos:
Wallace Stevens
3.3.12
e daí você vem e me beija me abraça e torna a me beijar nesse movimento incerto vem com seu canto e violão repousa no meu ombro em busca de abrigo vem dormir comigo
27.2.12
o tempo resta como um apêndice
é necessário aprender a ir
para não supurá-lo
vou partir, meu segredo
preciso aprender a morrer em outras terras
logo retorno e o amor também
será enfim a vez do nosso? ou escolheremos os dois cada um, um destino
23.2.12
foi numa quarta-feira de cinzas
que o meu carnaval acabou
junto dele o beijo de despedida
já não tenho forças
nem mesmo o último poema
nem mesmo você
7.2.12
sempre pensei que a casa fosse um lugar de acolhimento
e não uma prisão
ao mesmo tempo, trancava portas e gavetas
criando obstáculos para evitar
a passagem de desconhecidos
essa falsa ideia de segurança
enquanto o medo apavora aqui dentro
durante muito tempo a casa foi apenas o quarto
onde acumulava livros, roupas e discos
enquanto as portas e gavetas permaneciam trancadas
descobria no quarto escuro a possibilidade de não temer o mundo
portas e gavetas trancadas
não permitiam a passagem de desconhecidos
tampouco da escrita
* escrito especialmente para you tell me | versão para o inglês Ana Carvalho
31.1.12
que eu seja sua
não por aparência
que me faça sua
quando me toma em seus braços
e que possa ouvir
sem pranto
a sua canção
que eu lute madrugada afora
pelas palavras que agora ofereço
e saiba encontrar palavras sem tropeços
que eu diga
num só gesto
o amor que se inicia
sem se dissipar num gozo
eis que desfaleço mais uma vez
e mais uma
confiando no seu olhar
meu sorriso
se puder me possuir
como me possui a noite
romperei os céus para o encontrar
assim um pássaro
à procura de abrigo
que não existam despedidas
nem mesmo a morte
que não me ignore
e me eleja
não apenas em busca da beleza
26.1.12
um homem, um violão
como não desejar sua boca
e não entregar meu corpo inteiro?
a alegria ronda a casa
o quarto tomado pelo calor da minha dura hora
há esperança nos versos
há delicadeza no gesto
fazendo-me mulher e pura
sorri, ao tocar meu rosto
12.1.12
linha do equador o mais perto que consegui chegar aqui, o sol desaparece mais rápido ao tocar o infinito felicidades pra você, julia hansen
8.1.12
para você, meu segredo,
que tem meu coração
sem se dar conta disso
aceita mais uma vez os poemas que ofereço? e o meu corpo inteiro
3.1.12
O sol chega depois de muito chover
O quarto pode enfim compartilhar da luz do meio-dia
Secar paredes
Cheiro de mofo que invade a casa
Sensação de espera
Os livros úmidos
Como meu corpo
No calor da hora
Numa noite febril
30.12.11
Só sinto o presente
Não consigo viver da lembrança
tampouco de imaginar o futuro
Só sei que é dor, quando dói
Não sinto frio
a menos que invada o quarto
Sinto o corte sangrar quando a faca atravessa o punho Consigo pensar seu sorriso mas não saberia capturá-lo com os olhos de quem olha apaixonado
É preciso que a noite chegue e que me tome em seus braços É preciso possuir o meu corpo, como antes No poema, vivo a lembrança e imagino o futuro Apenas na sua presença se torna carne
15.12.11
meu bem,
não importa a quem este corpo pertença
se é pelo seu que clama e chora
pelas noites sem fim
pelo beijo
pela luz da manhã
a romper em versos
vem mais uma vez, vem?
na sua cama
adormeço
vem trazer a paz
abrandar a minha alma
ensaiando nova despedida
11.12.11
mira (para carol e ribão)
11.11.11
levamos a vida no trabalho o corpo reclama e a gente que só sabe levar a vida no trabalho ignora mas é chegada a hora de numa cama dormir até acordar
ai meu amigo, queria mesmo depois da vida que se leva no trabalho era em seu ombro repousar
31.10.11
2. fragmento no bolso
o seu sorriso me transporta para o sul de Luanda. numa praia que vi quase deserta. praia de puro sal onde a imensidão do mar provoca uma saudade. acompanhei as tardes virarem noite e as noites virarem dia.
o sol, antes mesmo de tocar o infinito, se desmanchava como uma bola de fogo que se desfaz com o vento, misturando no céu matizes que não posso descrever.
lá, percebi que estava sozinha. que o amor era também uma invenção e que apenas a mim pertencia. assim como os versos que por ora lia ou escrevia. sempre suspeitei disso.
certa noite, vendo-o dormir, me lembrei dessas imagens eternizadas pela memória. toquei seu corpo sem que percebesse. e o menino, em pele de homem, abrandou meu coração, do mais puro afeto.
nesse momento, tive medo de que despertasse dos seus sonhos e descobrisse o meu segredo. alguém haverá de compreender tudo isso um dia.
30.10.11
17# do canto
1. fragmentos no bolso
Nesta manhã, enquanto tudo parece calmo, lembrei-me do seu rosto colado à janela. Você sorrindo. Era ainda dezembro e não sabíamos por quanto tempo adormeceríamos juntos. Foi súbita a sua partida. Hoje as palavras me faltam. Não sei se escreverei todos os dias como antes. Faltam-me ânimo, coragem, vontade. Um romance por fazer. Fragmentos deixados de lado. Já não mais existem gavetas e os papéis se espalham pelo quarto. Uma pequena caixa guarda cadernos inconclusos. Os livros em colunas até o teto.
Vontade de me lançar em outro corpo sem medo, restrição ou condições. Como caminhar de mãos dadas numa praia.
23.10.11
enquanto o céu nos olha
18.10.11
uma canção de amor
passei a suspeitar da dor
porque era preciso
e na solidão que ela produz
encontro versos menores
para que você
apenas você
pudesse tocar
não falar das paixões
é quase impossível
o calor dos corpos na cama
a noite que se torna dia
e das mágoas passadas
dessas que deixam marcas
uma canção de amor
entrego-me completamente
despindo-me de toda vaidade
deixando de lado a timidez
lançando-me no abismo
para que o poema não morra
e da pedra
faça brotar uma flor
17.10.11
bucólica
10.10.11
um novo tempo se aproxima
trazendo o riso de um garoto
enquanto o vento toca a face,
vem como ninguém
deitar nos meus braços
abranda os dias com as suas mãos
abraçando o meu corpo
pois os seus abraços
provocam a minha alegria
e permaneceremos os dois
inertes
aguardando mais uma manhã chegar
8.10.11
prenúncio
pelo cotidiano partilhado por todos os poemas que não pude lhe endereçar resta nos arquivos esta canção quando ainda sonhávamos juntos um mundo a ser conquistado esteja bem, que eu estarei também
6.10.11
perco-me mais uma vez na imensidão da noite procuro um rosto ou o rastro do seu sorriso e quando meu corpo encontra o seu não há forma de controle restrição da vontade e me coloco mais uma vez perante o espelho na tentativa de compreender o que de fato movimenta sentidos e desejos