26.3.12

da mãe, herdei o sorriso 
do pai, o gosto pela escrita
nesta foto, em que os dois aparecem felizes caminhando na Avenida Afonso Pena dos anos 60,
não havia ainda o peso do cotidiano, nem as dores de um passado
nem a ausência do vô Benedito, possível autor da fotografia 
nem a perda irreparável do tio Marco
os dois caminham rumo à promessa de felicidade
numa época de opressão, compondo a massa anônima
uma família comum, vinda do interior, em busca de trabalho
a vantagem de vir de uma família comum é a possibilidade de reinventar a própria história
sem apego, sem assinatura


10.3.12

(ontem eu tive uma queda de pressão na rua, a vista ficou escura e me socorreram 
 tive muito medo de não conseguir. não sou muito afeita a mudanças. 
mas a vida é um lançar-se contínuo. 
cada vez mais fica evidente que perdemos muito tempo em desespero) 

7.3.12

mostra, João, a sua canção
e que seja simples
para que possamos compreender
os mistérios do entardecer
   
tocando as coisas tais como são
ou não
as que se modificam sobre o seu violão

vem abrandar os dias como o vento
nas noites de calor
e faça da sua canção
o seu gesto de amor

daqui, vejo o azul
e um pássaro a cortar o céu
arriscando rimas próprias de um tempo
que não conhecemos:

                                 Wallace  Stevens


3.3.12

e daí você vem e me beija
me abraça e torna a me beijar
nesse movimento incerto
vem com seu canto e violão
repousa no meu ombro
em busca de abrigo
vem dormir comigo

27.2.12

o tempo resta como um apêndice
é necessário aprender a ir
para não supurá-lo
vou partir, meu segredo
preciso aprender a morrer em outras terras
logo retorno

e o amor também
será enfim a vez do nosso?

ou escolheremos os dois
cada um, um destino

23.2.12

foi numa quarta-feira de cinzas
que o meu carnaval acabou
junto dele o beijo de despedida
já não tenho forças
nem mesmo o último poema
nem mesmo você

7.2.12

sempre pensei que a casa fosse um lugar de acolhimento
e não uma prisão
ao mesmo tempo, trancava portas e gavetas
criando obstáculos para evitar
a passagem de desconhecidos
essa falsa ideia de segurança
enquanto o medo apavora aqui dentro 

durante muito tempo a casa foi apenas o quarto
onde acumulava livros, roupas e discos 
enquanto as portas e gavetas permaneciam trancadas
descobria no quarto escuro a possibilidade de não temer o mundo

portas e gavetas trancadas 
não permitiam a passagem de desconhecidos
tampouco da escrita

* escrito especialmente para you tell me | versão para o inglês Ana Carvalho

31.1.12

que eu seja sua
não por aparência
que me faça sua
quando me toma em seus braços
e que possa ouvir
sem pranto
a sua canção

que eu lute madrugada afora
pelas palavras que agora ofereço
e saiba encontrar palavras sem tropeços

que eu diga
num só gesto
o amor que se inicia
sem se dissipar num gozo
eis que desfaleço mais uma vez
e mais uma
confiando no seu olhar 
meu sorriso


se puder me possuir
como me possui a noite
romperei os céus para o encontrar
assim um pássaro 
à procura de abrigo

que não existam despedidas
nem mesmo a morte
que não me ignore
e me eleja
não apenas em busca da beleza



26.1.12

um homem, um violão
como não desejar sua boca
e não entregar meu corpo inteiro?
a alegria ronda a casa
o quarto tomado pelo calor da minha dura hora

há esperança nos versos
há delicadeza no gesto
fazendo-me mulher e pura
sorri, ao tocar meu rosto


12.1.12

linha do equador
o mais perto que consegui chegar
aqui, o sol desaparece mais rápido ao tocar o infinito
felicidades pra você, julia hansen


8.1.12

para você, meu segredo,
que tem meu coração
sem se dar conta disso
aceita mais uma vez
os poemas que ofereço?
e o meu corpo inteiro



3.1.12

O sol chega depois de muito chover
O quarto pode enfim compartilhar da luz  do meio-dia
Secar paredes
Cheiro de mofo que invade a casa
Sensação de espera

Os livros úmidos
Como meu corpo
No calor da hora
Numa noite febril

30.12.11

Só sinto o presente
Não consigo viver da lembrança
tampouco de imaginar o futuro
Só sei que é dor, quando dói
Não sinto frio
a menos que invada o quarto

Sinto o corte sangrar
quando a faca atravessa o punho
Consigo pensar seu sorriso
mas não saberia capturá-lo
com os olhos de quem olha apaixonado

É preciso que a noite chegue
e que me tome em seus braços
É preciso possuir o meu corpo, como antes
No poema, vivo a lembrança e imagino o futuro
Apenas na sua presença
se torna carne

15.12.11

meu bem,
não importa a quem este corpo pertença
se é pelo seu que clama e chora
pelas noites sem fim
pelo beijo
pela luz da manhã
a romper em versos

vem mais uma vez, vem?

na sua cama
adormeço
vem trazer a paz
abrandar a minha alma
ensaiando nova despedida

11.11.11

levamos a vida no trabalho
o corpo reclama
e a gente 
que só sabe levar a vida no trabalho
ignora 
mas é chegada a hora 
de numa cama 
dormir até acordar


ai meu amigo,
queria mesmo
depois da vida que se leva no trabalho
era em seu ombro
repousar

31.10.11

2. fragmento no bolso


o seu sorriso me transporta para o sul de Luanda. numa praia que vi quase deserta.
praia de puro sal 

onde a imensidão do mar provoca uma saudade. 
acompanhei as tardes virarem noite 
e as noites virarem dia. 

o sol, antes mesmo de tocar o infinito, se desmanchava  
como uma bola de fogo que se desfaz com o vento,
misturando no céu matizes que não posso descrever.

lá, percebi que estava sozinha. que o amor era também uma invenção 

e que apenas a mim pertencia. 
assim como os versos que por ora lia ou escrevia.
sempre suspeitei disso.

certa noite, vendo-o dormir, me lembrei dessas imagens eternizadas pela memória. 

toquei seu corpo sem que percebesse. 
e o menino, em pele de homem, abrandou meu coração,
do mais puro afeto.

nesse momento, tive medo de que despertasse dos seus sonhos
e descobrisse o meu segredo.
alguém haverá de compreender tudo isso um dia.  




30.10.11

17# do canto

1. fragmentos no bolso

Nesta manhã, enquanto tudo parece calmo, lembrei-me do seu rosto colado à janela. Você sorrindo. Era ainda dezembro e não sabíamos por quanto tempo adormeceríamos juntos. Foi súbita a sua partida. Hoje as palavras me faltam. Não sei se escreverei todos os dias como antes. Faltam-me ânimo, coragem, vontade. Um romance por fazer. Fragmentos deixados de lado. Já não mais existem gavetas e os papéis se espalham pelo quarto. Uma pequena caixa guarda cadernos inconclusos. Os livros em colunas até o teto.

Vontade de me lançar em outro corpo 
sem medo, restrição ou condições. 
Como caminhar de mãos dadas numa praia.