30.6.06

Rimini

o vento sopra
a linha do cabelo segue em direção contrária
dedos tocam a nuca numa noite de ventania

assim como um sonho felliniano...
o vento, o mar, o beijo


*para vivi e serginho

28.6.06

LA JETÉE

Vi num filme do Marker:

Orly,
Um homem corre em direção a uma lembrança da infância:
o rosto de uma mulher sorrindo.

Não encontrando caminho possível,
tomba sobre o asfalto.

(Era a própria morte que entrevia)

16.6.06

# da segunda vez que vi o avesso

o muco estava lá, como um pêndulo
da narina até a garganta
a microcâmera viu
o médico constatou não ser um delírio

a imaginação dá voltas.

2.6.06

Tarefa do revisor

Os últimos dias se resumem a dicionários e gramáticas.
(como idéia fixa, obsessiva)
Há quem ache fetiche nisto:
xícara de café, olhos vermelhos, ardor nas costas,
e cu dormente.

25.5.06

minha personagem agora usa óculos.
os olhos:
um fechado, o outro a piscar.
- como máquina de tirar retrato.

16.5.06

tento adivinhar como se arranca uma dor.
não está em mim.
tento.
o problema consiste em...
- onde vai dar este caminho?
- qual caminho?
o pássaro inicia seu vôo.
talvez busque
(no fio de água que engole a montanha)
um possível pouso.


# para amarelo-rubro (poeta dos poetas)

13.5.06

atriz pornô

ele vê playboy. também me excito.
acho aquela imagem igualmente sedutora.
entrar. deitar a imagem.
ele me deseja depilada.
este capricho da civilização.

quero ser
selvagem.

12.5.06

11.5.06

de estar farto (ou) fulo da vida,
resta chorar.
(ou) socar a parede imaginando a cara de alguém.
vidro não é bom.
chorar faz bem. alivia o ódio, que se transforma em raiva
e se torna outra coisa que não os dois.
nem ódio, nem raiva:
desprezo.
desprezo é bom.
– razão dos poetas?

socar a parede,
sangrar sem corte,
mergulhar as mãos em água morna
salgada.

8.5.06

o encontro

na mesa de escrever
as mãos soletram.
unhas postiças (acúleos pungentes),
esmalte, anéis.
ela se prepara para sair.
sai.
se eu não tocar esta imagem:
- morro.









- morre.

28.4.06

Já reparou que se a gente parar para pensar não fala?
De costas para o amante.
(Mas olhava a tarde).
Se aproximou da janela.
– er näherte sich dem Fenster.
Tocou levemente o vidro.
– berührte sanft die Scheibe.
Vem.
Não disse mais nada.


*para joão e ursula.

24.4.06

uma asa dependurada na parede.
submersa, uma escada.
a menina quer voltar.
nada a impede.

# de uma ilustração em diário frágil

23.4.06

Arrebatada


– Você já leu Le ravissement de Lol V. Stein? Repito: Você já seguiu junto comigo Lol V. Stein pelas ruas? Aliás, você já me viu Lola seguindo alguém pelas ruas?
Um homem, num café, disse ter visto. Esquisita, mas discreta.
– Lol.
– Je.
– Lol.
– Je.
“She's mine”, o alguém no balcão.
Não!
“Lol is mine”.



*para blue- white.

30.3.06

Tongue-in-cheek

# para nica – a respeito do seu cotidiano americano-esquizofrênico

Quantas anas cabem dentro da banana…?
Alguns escritores, para suportar o cotidiano, riam de si mesmos adquirindo assim o hábito de uma escrita leve, entenda-se leveza. Isso seria um tipo de ironia refinada, desfrutada por alguns cuja vida muitas vezes era até dramática. O caso de Ferreira Botelho pode ser um bom exemplo.
Algum tempo depois vieram os surrealistas que viram pessoas em objetos, objetos em pessoas e criaram seres que não se metamorfosearam por completo.
Corpo de homem, cabeça de maçã:
o cotidiano substituindo a figura do centauro ou do minotauro.
Mas, aqui, não espere do “mito” o que o mito representa… E me pergunto se Teseu não se lembraria do ditado "one apple a day…”, devorando assim a suculenta e gigantesca cabeça verde de Magritte.
Outro dia, a respeito de Gogol, pensei no nariz a passear pelas ruas.
A função da hipérbole é causar estranhamento: alguém já viu um nariz gigante dando ordens por aí?
Para quem já sonhou ser um e-mail e a dificuldade de baixar um arquivo consistia numa azeitona entalada na garganta, isso de nariz me soa até muito realista.
Não há nada demais…, somente a transformação de brincadeiras e de estórias extraordinárias da infância – ou dessa nossa possibilidade de ver nas nuvens baianas, animais, almofadas, algodão – em algo mais insólito, transposto para um universo igualmente especial. A pedra contém a escultura mas o homem, para constatar, vai lá e dá umas lascadinhas…
Já outros pintam pássaros de pedra voando…
nem pedra, nem pássaro, é tinta sobre tela… o tal poema de que lhe falei.

*Os olhos ficando aguçados na leitura do episódio da banana…

Faço, então, uma inversão, nos moldes da literatura infantil:

a fome era tanta
que,
diante do risco da queixa,
a banana devorou a ana.

29.3.06

# lições de tradução #

os cus de judas
ou
le cul de judas
ou
der judas kuss
ou
de judas kus
ou
in culo al mondo
ou
sarutul lui iuda
ou
hinsides helvete
ou
de forrudda
ou
sjovernes odyssé
ou
hevonkuusessa
ou
south of nowhere…

como vê, quando não tem cu, tem judas, salvo erro de entendimento do sueco, norueguês, dinamarquês.
ando enferrujada.
em inglês, somente a idéia persiste.
isso é o que chamamos de tradução não-literal.

*resta ainda uma outra tradução, de língua eqüidistante:
“saduj ed suc so”. mas a publicação ainda não está prevista, por causa da alta do betelnut.

27.3.06

# final de gripe #

engraçado. estava lá.
entre o útero e a realidade.
ainda sonolenta.
fiz uma poesia sobre este meu estado.
falando de como a percepção fica diferente.
embriaguez sem remédio.
cheguei aqui para escrever.
esqueci.