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11.9.13


poema para um bom dia



Acordei sem você e achei estranho


Entre a cama e o chão não havia uma escada

Nem uma janela que mira outras janelas e o infinito

A sensação do voo, o perigo

Sem caixas ou arquivos do seu mundo de curiosidades

Apenas o som do trem que leva minério para a China


e dos pássaros no quintal

que insistem cantar o amor 

o mesmo que agora adentra 

todos os cômodos da casa 




1.9.13


Prelúdio de Curitiba



Como se aqui estivesse

sinto a sua mão sobre o meu corpo

imaginando a minha mão sobre o seu



Como se aqui estivesse

envolvo-me em seus abraços

entregando-me sem restrição



Como se aqui estivesse

comigo neste quarto escuro

ponho-me a beijar seu rosto

e adormeço no seu ombro

depois de me possuir



Adormecendo os dois

desse cansaço dos corpos e da escrita

nada igual a outro tempo

partimos então do início 

como se aqui estivesse


6.7.12

sobre quando nasci morri
o gosto líquido denso na garganta
ainda hoje sonho sufocar o ventre
à espera da manhã seguinte 
depois da nossa pequena morte 



30.5.12


o olho do poeta


assim como o rio
que reflete nossa alma
sua luz atravessa meu corpo 
e alcança o espírito
transformando tempestade em calmaria


outro dia me vi refletida em seus olhos
sou pássaro 
e não sabia




11.5.12



um velho deitado sobre o rio


lá ao fundo está o rio
como pintura fotocopiada
o céu se impõe perante a ruína 
e modifica o dia


o frio se aproxima da noite
quando a chuva finalmente lava as escadinhas
nada como ver emoldurado
o velho sobre o rio


da janela de onde se vê 
um velho sobre a cama 
guardando para si
aquilo que não há de ser dito





28.9.11

meu bem

procuro um amor solene
um canto para me deitar
mas é preciso que a cama esfrie
antes de por outro no lugar

ou será apenas mais um
sem que eu possa
o poema endereçar

22.9.11

álvaro de campos

li seus versos pela manhã

neles encontrei um nome
para a solidão que devora os dias

três, quatro ruas apenas

da casa para o trabalho
do trabalho para o bar
do bar para a cama que o recebe

meu corpo tomado pelo seu

permanece insone 

escreve todas as noites sem fim
aguardando a hora de dormir
e não mais acordar

10.9.11

Morro como meu filho no ventre
porque é insuportável conviver com a dor

Morro como quem pede abrigo

querendo apenas uma cama para se deitar

Morro como todas morreram
para nascer num poema

Morro como despencam
as folhas das árvores
com a chegada do vento

Morro para que a alegria prevaleça
como a última lembrança

Morro deixando vestígios
de uma vida ordinária

Morro como morrem os pássaros
que caem dos ninhos

Morro como quem espera
o tempo das chuvas

Morro para que ninguém saiba

5.7.11

Em torno delas

Florbela Espanca, aos 36 anos

 

Longe de ti são ermos os caminhos

Sylvia Plath, aos 30 anos

 

A seiva
jorra como lágrimas, como água capaz de lutar
para refazer o seu espelho
sobre uma rocha


Alejandra Pizarnik, aos 36 anos

Adorava frequentar cafés

Eu choro debaixo do meu nome
Eu agito lenços na noite e barcos sedentos de realidade
dançam comigo
Eu oculto cravos
para escarnecer dos meus sonhos enfermos


Ana Cristina César, aos 31 anos


Roubei tua surdina, me joguei ao mar,
estou fazendo água. Dá o bote.


O que atormentava estas mulheres, meu Deus

Por que acabar tão cedo a vida?
Por amar demais o universo em torno delas
ou por desamor? 

Insuportável peso da espera

Hilda Hilst, aos 73 anos


E se eu ficasse eterna?
Demonstrável
Axioma de pedra


O mundo delas não diferente do meu

29.6.11

Flúmen  
                                        para a nica 


Quis dormir por três dias
Para experimentar a solidão extrema
Na estranheza do sonho
Porque somente dormindo não nos sabemos sozinhos

Quis dormir por três dias
Para cessar toda a dor
E a tristeza ter um fim
Porque os homens andam tristes

Quis que o mundo dormisse comigo
Por apenas três dias
Quão assustador é o quarto
E não mais temer dormir e não acordar


30.3.11

tenho a alma fortemente ferida
não sei como traçar novo destino
uma vontade de encontrar mais uma vez no infinito
as possibilidades de amar o ainda não vivido

12.3.11

Na cabeceira, O capital de Marx
O Aleph de Borges
O vermelho e o negro de Stendhal
A divina comédia de Dante
Mas o que impera é Do desejo de Hilda Hilst

Os livros são o mundo
Uma parcela de conforto
Nas noites sem fim
Em estado de vigília

Se o poeta insone é um apaixonado
Não há outra saída a não ser escrever
Para que os livros na cabeceira
Não possam morrer

5.3.11

haverá tempo para mais um poema?
quantas noites sem dormir
à espera de que a palavra dê conta
dos sonhos que não apaziguam a alma

se a ajuda tardar
talvez o tempo irá dizer
o mistério que há nas letras

já não sei o que escrevo, 
quando escrevo, 
se escrevo

toda a vida é infinita

18.2.11

na parede branca escrevo

és pura 
como a água que o rio recebe
levando para o mar
todo o encantamento

antes, deita sobre as margens 
seus versos que ora navego
do amor que sonho revelar
a lembrança das noites quentes
buscando no céu o abrigo das estrelas 
encobertas pela lua que brilha cheia

tantos livros para serem lidos
tantos chás que não fizemos

quantas plantas a casa ainda precisa?

és quente
como a cor da aurora
que toca o dia 
e sua escrita 

----
para ana martins

17.2.11

em frente ao mar
numa noite de chuva e triste
cantei um samba
pela beleza e alegria
que há em você

ana,
como todas as anas,
no nome também o seu inverso
como se não houvesse o outro lado
o avesso

queria que toda a dor se dissipasse
minha irmã querida
e que pudéssemos seguir
para sítios ainda não vistos
descobrindo o infinito que há nas coisas

vamos ana
e que tenhamos esperança
de um dia tudo encontrar
de não desperdiçar sorrisos
quando se quer chorar

segue ana
a sua fotografia
depois nos diz o que há nelas
perdoando a nossa ignorância
pois não se pode compreender tudo
e tudo saber

o que há em você
falta em mim
o que posso lhe dar
apenas uns versos
sem métrica
versos imperfeitos 

----
para anica 

21.1.11

FLORBELA # 2

de tanto sonhar que dormia
um dia ela dormiu
mas deixou versos impagáveis
para que continuássemos sonhando 

Florbela,
é tão cedo morrer na sua idade?

31.12.10

quando ele a vir novamente
somente o tempo poderá dizer
se o amor se espalhou pelo mundo
e encontrou o seu destino

da parte dela
uma flor colhida na madrugada
nada mais importante
do que a doce despedida

foi assim que Florbela encerrou seu diário
esquecendo-se do mundo que havia nela
não mais cabendo a dor
assim como num sonho eterno 

22.10.10


e se um dia a chuva...

Florbela,

é tão triste morrer na sua idade?
vejo seus olhos, penitentes

 
Florbela:

Ser-se novo é ter-se o Paraíso,
É ter-se a estrada larga, ao sol, florida,
Aonde tudo é luz e graça e riso!


Florbela,

e se um dia a chuva
pudesse ter lavado seu espírito
teria dormido como um anjo
e não morreria em sua dor
despedida


Florbela:


A minha Dor é um convento ideal
Cheio de claustros, sombras, arcarias,
Aonde a pedra em convulsões sombrias
Tem linhas dum requinte escultural.


Florbela

de roxo, violeta e lilás
seu vestido no dia em que se tornou imagem
em mim, seus sonetos são agora
noites e manhãs


Florbela: 

O sol morreu ... e veste luto o mar ...
E eu vejo a urna de oiro, a balouçar,
À flor das ondas, num lençol de espuma. 

Florbela,

e se um dia...

20.10.10

                                          para eduardo assis
                                                     (dos comentários ali embaixo)


como a vida às vezes me parece tão estranha...

é adormecer para encontrar nos sonhos a verdade?

acordo triste e febril

hei-de ver os cisnes um dia

de o encontrar nesta terra cinzenta em frente ao relógio?

eis que me pego sorrindo

de imaginar o meu mundo ainda se construindo

não temo mais a morte

e com isso celebro a vida

o que seria de mim

poeta e mística

não fosse você

meu caro amigo?

vá ver o lago

tão logo chego e não será um engano

2.8.10

Pensei na morte?
Tardes melancólicas
Embora o céu esteja limpo
Queimei o braço com o ferro
Feri com a faca o meu peito
Marcas indeléveis
A impossibilidade de congelar o tempo
Por isso eu canto


para meus pais
diante de tudo que passou