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16.6.17

o tom da sua voz

o seu rosto sisudo

parece carregar o peso do mundo


dos dentes afastados,

faço passagem,

mas nem assim


nunca sorri?




9.6.17

o pai tinha verdadeiro fascínio pelas máquinas. por isso, viajar de trem é para mim uma aventura. restam poucos por aqui. em Santa Tereza, morando perto da linha férrea, perdia tempo na passarela, aguardando a passagem dos vagões que levam o minério pra China. 

organizando as lembranças, encontrei alguns de seus bilhetes de viagem. o pouco que resta de todos nós e a caligrafia herdada. 

passaram-se três anos e é como se nunca tivesse embarcado naquele comboio.




28.12.16



A ficção de abertura do livro Histórias naturais, de Marcílio França Castro, me fez lembrar mais uma vez a cena em que Jerry Lewis, ator e mímico, toca uma máquina de escrever imaginária. Cena que Lewis havia realizado também nos palcos e que depois repetiria para a TV. No livro, o personagem, que domina a técnica da datilografia, se torna dublê das mãos de escritores como Kerouac, Hemingway, Cortázar, dentre outros, em produções cinematográficas.

"Foi assim a minha dublagem, a primeira delas, uma datilografia sem rumo nem freio, mas de certo modo gloriosa, posso dizer, até que em algum ponto elevado da minha concentração, depois de horas de estúdio e exausto, uma brisa soprava sei lá de onde, eu me desligava de tudo, como se daquela clivagem pudesse nascer uma forma própria de atuar. Por um instante todos os pensamentos sumiam e minhas mãos simplesmente deslizavam como um cavalo selvagem, naquele estágio do galope em que o corpo chega quase a flutuar e nem sente as patas sobre o chão".

O leitor, convidado para essa aventura, se sentirá dentro de um set de filmagem e se familiarizará com os nomes das máquinas de escrever que possibilitaram obras como “Os Autonautas da Cosmopista”. Livro que serviu a um dos roteiros que as mãos do personagem dublaria: “A estrada e a história corriam sem enredo, em preto e branco, preenchidas apenas pela expectativa de um acontecimento”. Mas é mais do que atmosfera ou máquinas de que se trata.

A leitura me trouxe outra lembrança. Meu pai, que datilografava sem olhar o teclado, tinha o hábito de virar a cabeça, voltando os olhos pra gente, para demonstrar sua habilidade ao conduzir uma Olivetti Linea 98, salvo engano, que até pouco tempo habitava o extinto quartinho de bagunça, como costumávamos chamar, junto a mantimentos e roupas por passar. Gostava de ler, sobretudo romances policiais e contos fantásticos, e se orgulhava de ter conhecido Murilo Rubião, no antigo Banco Hipotecário, onde meu pai trabalhava, nas tardes que o escritor lá ia. Acredito que adoraria o “Roteiro para duas mãos”, de Marcílio França Castro, e leria sem nostalgia. Uma vez que o computador permitiu a ele o mergulho em espaços e tempos distintos, para além da vida protocolar da contabilidade, aprendendo rapidamente como se dava a passagem para o outro lado, com o advento da Internet – atravessar a página branca, como as letras que a perfuravam e ficavam marcadas no rolo, atravessar, como sua imaginação sonhara. A ficção de França Castro faz o mesmo com a gente:

“A paisagem dos campos de algodão, os estilhaços de fontes e tipos datilográficos atravessando a estrada, as pontes, as Rochosas, o deserto, as linhas de tinta correndo como uma locomotiva davam uma sensação de unidade entre os mundos. Às vezes eu tinha uma vontade danada de gritar”.

Como leitora errática e desobediente, levei um tempo para terminar as quarenta e uma páginas dessa ficção, mastigando amendoim japonês, ao passo que revirava os arquivos, à procura do que restou do tac-tac-tac do meu pai.

Era para ser apenas uma nota de agradecimento ao Marcílio, pela prazerosa leitura, e acabou por ser tornar fragmento de uma existência, com esta fotografia.
 
 

25.8.16

Gradiva, aquela que avança, é nome de uma escultura romana e de uma novela de Wilhelm Jensen. Sobre o personagem arqueólogo, fisgado pela imagem da jovem esculpida, Freud escreveu "Delírios e sonhos na Gradiva de Jensen". Mais tarde, Raymonde Carrasco faria um belíssimo filme intitulado “Gradiva - Esquisse I”. Pouco tempo depois, em “Tutuguri-Tarahumaras 79”, Raymonde Carrasco e seu companheiro gis Hébraud atualizam mais uma vez essa figura, filmando mulheres e homens que avançam. O resultado disso são cenas belíssimas dos Tarahumara (“os dos pés ligeiros”), povo milenar do México conhecido por correr, caminhando por terrenos irregulares, por centenas de quilômetros diários. Mars Gradivus.

Os filmes com os Tarahumara nos chegaram para a mostra Olhar: um ato de resistência, idealizada por Andrea Tonacci, exibidos em 16mm, durante o forumdoc.bh.2015. Desde então, estas imagens permaneceram em mim.

Fotograma 1:
Tutuguri-Tarahumaras 79 (1979), filme de Raymonde Carrasco. Fotografia e montagem: Régis Hébraud

Fotograma 2:
Gradiva - Esquisse I (1978), filme de Raymonde Carrasco. Fotografia de Bruno Nuytten, assistente Dominique Le Rigoleur. Montagem: Anne-France Lebrun.

Imagem 3:
Gradiva, baixo relevo da primeira metade do século II, detalhe.



30.8.15

nem forma nominal, nem pintor

Gerúndio Volpi

é o nome deste morador de quintal

figura o seu sorriso a forma de um enigma


nem espiral, nem infinito

seca ao sol com os livros cheios de umidade

e quando nos vê

esconde-se nas folhagens de uma trepadeira que se enamora do mamoeiro






















versado por:  Glaura Cardoso Vale e Eduardo Assis Martins 

com: Rita Gabrielli


18.8.15


descobri novo nome
orelha-de-moleque
que se multiplica
e cresce
entre o muro e o chão de cimento
aguardando a sua visita
 

 para Ludmilla Zago


22.7.15

Anastomose


leio em seus veios o correr do sangue

aflitivo depois de arrancado o tronco



leio a sua sorte de folha que pendeu sobre o cimento

somos folhas que rutilam com o vento









13.6.15

hoje é aniversário dele
 
que encontrei assim, outro dia, em meio a uma reforma
 
das muitas reformas que vivemos em Lisboa
 
ele, dividido em muitos, continua a caminhada silenciosa
 
enquanto furadeiras adentram nos ouvidos
 
do Chiado à Baixa Pombalina
 
com Fernando Pessoa
 
 
 

7.6.15


uma mulher descascando batatas 

a porta entreaberta 

na soleira, três gatos olham para fora da imagem

o vendedor de peixes anuncia a chegada 

sardinhas, carapaus, robalo, gambas 

uma mulher descascando batatas

três gatos permanecem imóveis 

antes da sopa























foto: Toni Schneiders

31.5.15

Poeta de Montevidéu


Torres altas em lugar de montanhas 

Mar verde

Arcos que nos levam a esplanadas

O poeta repousa versos igualmente a luz que adentra o quarto

Vê de longe o céu e as nuvens 

Vê através do espelho 

O mundo   























para Eassis e sua amada, Rita

foto: Assis Martins

18.5.15

subo a escadaria 
o cão late 
um gato mia
contra passos pesados sobre a madeira irregular
pé ante pé firme no assoalho
enquanto voar parece mais possível























para a Chica

16.12.14

que coisa mais antiga
gato ronronando no telhado 

longe das cercas elétricas
procurando um quintal?
 

comunicam com outros gatos
sempre na madrugada
e vão sonhando telhados

onde possam namorar

 
























polaroid: Andrei Tarkovsky

21.9.14


tempo das jabuticabas


sem chuva
desta vez vieram miúdas
ainda que muito doces

mas o poeta saiu em fuga
fez a mala

[camisas e loção de barba]

partiu para outros rumos



com Vicente Cardoso Vale

 

10.8.14

Escadarias que levam ao gabinete do poeta 




imagem retirada da web: Edward Hopper

4.8.14

Estávamos caminhando na Avenida da Liberdade próximos à Estação de Comboios do Rossio
Passou por nós um homem alto, grisalho, vestido de preto
Eis que Ribão o cumprimenta em tom suave: "Pedro"
Ainda sem entender aquela visão
Segun
dos que pareciam uma eternidade
"Pedro..."
E ele olhou para trás, como quem se sente agraciado pelo vento em dias quentes
Olhou para trás e acenou com a mão
Talvez tivesse sorrido
Mas só consegui mirar seus olhos
Os mesmos que miraram Vanda, Zita, Ventura...


(Para Ribão)

 

22.7.14

contra o estado de polícia

o corpo grita

um antídoto para o desamor:

corra, dance, resista 





Cena do filme Mauvais Sang (1986), de Leos Carax,
com Denis Lavant

26.6.14


Cacilda&Walmor

“Estragão: Vamos embora!
Vladimir: A gente não pode.
Estragão: Por que?
Vladimir: Estamos esperando Godot.
Estragão: É mesmo.”

("Esperando Godot", Samuel Beckett)

“Todas as tentativas de separar-se fracassaram, em face da exigência que um tem do outro. Juntos, os dois podem esperar interminavelmente. O homem precisa do irmão, condenado que está a viver. E essa pungente fraternidade é a vitória sobre o nada."

(Sábato Magaldi)
























foto retirada da web, autoria não encontrada

17.5.14

“O cavaleiro da triste figura” é a legenda que acompanha esta fotografia encontrada em uma das pastas de retratos do meu pai.

Ao nos dizer toda a sua vida que morria, “não chegarei aos seus 15, 18 e formatura”, seu Gaivota teve a façanha de enganar a morte, pois sua esposa e filhos viviam com a dúvida se ela de fato viria. Também dizia, em relação aos filhos, “a criação deveria ser como a dos cavalos: quando adultos, correm livres pelos descampados e encontram cada um o seu destino”. Nos últimos dias, porém, não cansou de repetir: “olha, vocês estão viajando muito, se receberem a notícia da minha morte, terão trabalho para voltar”. 

O corpo descansa agora. Dorme e sonha o livro:

“E começou a tocar uma harpa suavissimamente. Ouvindo isto, ficou D. Quixote pasmado, porque logo naquele instante lhe acudiram à memória as infinitas aventuras, semelhantes àquela, de reixas e de jardins, músicas, requebros e desvanecimentos, que lera nos seus livros de cavalaria”.

A alma permanece no vento, no verde das árvores, no canto dos pássaros; e nesta imagem que hoje confirma a sua ausência, como objetos fora do lugar: a bengala, o chapéu, os óculos sobre a escrivaninha.




19.4.14

Havia visto apenas um trecho de "Juventude" (1951), do Bergman, assistido hoje na Mostra dedicada ao diretor no Cine Humberto Mauro. Sempre que pensava em Bergman, vinha uma atmosfera estanha, ligada ao silêncio e ao invisível da morte. Alguns detalhes me chamavam a atenção: a presença dos relógios, a caixa de costura e a reincidência do gesto de coser uma peça de roupa ou pregar um botão, assoalhos de madeira que rangem um som defunto, rostos recortados, bocas silenciosas e a se silenciarem, poucas lágrimas... Recentemente, alguns filmes me trouxeram com mais intensidade o mar, o céu, o vento, o canto dos pássaros... a luz refletida na água como purpurina. Também: as carruagens de circo e a decadência de uma arte em vias de desaparecer, o Bergman dos comerciais de TV, do documentário, a câmera voltada para os bastidores das filmagens, para o retrato da mãe, para os primeiros passos do seu filho Daniel. 

O trecho que um amigo havia me mostrado corresponde ao momento em que Maria e Henrik começam a desenhar sobre a capa de um disquinho e os desenhos ganham vida, possível homenagem ao cinema de animação, compondo um pequeno teatrinho que narra a história desse jovem casal. Embora tenha me emocionado em vários de seus filmes, não me recordo de ter os olhos cheios de água como hoje, depois do salto de Henrik. Para Godard, “o filme mais bonito de Bergman”. De arrebatar, sem dúvida. Talvez porque "o desenho não é a forma, é a maneira de ver a forma". Resta uma aproximação entre duas imagens que já deve ter sido feita por algum estudioso do seu cinema: a bailarina de Degas e Maria de Bergman, em “Juventude”.

20.3.14

A releitura de um texto do antropólogo e cineasta Ruben Caixeta, "Jean Rouch: o sonho mais forte que a morte" (revista Devires v.2, n. 1, 2004), me levou ao filme "A pirâmide humana" de 1961, em que o tema do racismo é mais uma vez abordado por Rouch. O cineasta convida alguns alunos de um colégio na cidade Abidjan (Costa do Marfim), no contexto da independência africana, para examinar o que pode ser a relação entre brancos e negros através da realização de um filme, numa tentativa de mostrar o que “pode ser daqui pra frente”. Cito: “nesse projeto revela-se tanto uma postura política do autor quanto uma estética do documentário: se quisermos olhar para a realidade, temos que olhar para a frente, onde ela se encontra, não somente para o mundo das coisas ‘dadas’ ou ‘construídas’, mas para o mundo da imaginação e do invisível”. Creio que os corpos dançantes desses jovens, impressos pela câmera de Rouch, talvez falem de uma imaginação agora um tanto perdida, em tempos de dilaceramento de corpos que antes dançavam, e do invisível que só no instante da morte deve ser compreendido.

Scène de danse, La Pyramide Humaine: