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16.6.17

o tom da sua voz

o seu rosto sisudo

parece carregar o peso do mundo


dos dentes afastados,

faço passagem,

mas nem assim


nunca sorri?




6.7.15



Antes de dormir, ela sempre se sentava na escada que dava acesso ao quarto

Pensava nas compras que fizera, 

nas moedas que sobraram,  

na caixa de retratos onde todos os dias as guardava


Hoje ficaram em cima da mesa, o cansaço era enorme

Ao acordar, o dia renovaria os ânimos

A escada, as compras, as moedas, os retratos  


 


















Imagem de Francisca Manoel




7.6.15


uma mulher descascando batatas 

a porta entreaberta 

na soleira, três gatos olham para fora da imagem

o vendedor de peixes anuncia a chegada 

sardinhas, carapaus, robalo, gambas 

uma mulher descascando batatas

três gatos permanecem imóveis 

antes da sopa























foto: Toni Schneiders

31.5.15

Poeta de Montevidéu


Torres altas em lugar de montanhas 

Mar verde

Arcos que nos levam a esplanadas

O poeta repousa versos igualmente a luz que adentra o quarto

Vê de longe o céu e as nuvens 

Vê através do espelho 

O mundo   























para Eassis e sua amada, Rita

foto: Assis Martins

18.5.15

subo a escadaria 
o cão late 
um gato mia
contra passos pesados sobre a madeira irregular
pé ante pé firme no assoalho
enquanto voar parece mais possível























para a Chica

8.5.15


O meu pai era contador de um banco do Estado e saía aos fins de semana dizendo que iria trabalhar. Nessa época, eu andava com minha amiga de infância na casa da tia dela, nossa vizinha, que nos recebia com bolos, biscoitos e suco Tang. Seu marido, coronel reformado, sempre quando me via perguntava: "cadê o seu pai?". Eu respondia que ele havia ido trabalhar. Então, com seu bigode de coronel e com os cabelos penteados para trás com vaselina, dizia, em tom baixo, com olhar endereçado: "bancos não abrem aos fins de semana".

Tinha apenas 9 anos e achava tudo aquilo muito estranho. Só mais tarde compreendi que meu pai se apaixonara por uma colega e que não era recíproco, construindo para si um amor platônico. Minha mãe nunca nos disse uma palavra que nos fizesse revoltar contra ele. Quando chegava bêbado, ela o enfrentava com um ferro de passar roupas, fervendo como brasa. Era tão segura de si que, com um cabo de vassoura em punho, separava brigas dos meus irmãos já marmanjos. 


De modo que, aos 20 anos, quando fui pedida em noivado, olhei com desconfiança para o passado, achei deveras curto em relação ao que o futuro me aguardava. Não aceitei, obviamente, o que deixou meu primeiro namorado em choque. Sei que hoje está feliz – isso me conforta. 

Não me orientei pela bravura de minha mãe, talvez porque achei desnecessário passar roupas e cultivar a ideia de ter filhos para usar cabos de vassoura. O que já não fazia sentido para quem acabara de ingressar na Universidade e descoberto Hilda Hilst. Quanto ao coronel, soube que, na altura de morrer, fez tanta força que lhe saíram os excrementos.

16.3.15

Poemas de Curitiba II


O lençol azul clarinho no varal 

Mas ontem era um velho com lenço azul no pescoço 

A casa da pianista visitada 

No desencontrar de janelas 

É tão antiga quanto o sofrer à toa

Por pequenas queixas no corpo 

Ações, bocejos, objetos fora do lugar

Os risos atravessam essas janelas 

E adentram cômodos do pensamento 

No pequeno apertamento 

Vejo o velho, mas não a vejo, pianista

Apenas o canto da cama onde repousa

Sempre coberta por uma manta xadrez

Ela, pianista, o mistério que habita

Tais edifícios no centro da melancólica e triste cidade 

Curitiba   

 

22.5.14

preciso de um par de tênis para caminhada
de um vidro com o perfume que acabou
de uma luva e ferramentas de jardinagem
de terra e de vasos para plantar
preciso das palavras e das imagens contidas nelas
recortar fotografias
varrer o chão


11.5.14

O voo do seu Gaivota,  meu pai

Meu pai tem agora as mãos sobre o peito 
Dorme um sono profundo e não quer que o acordemos
Deixou um livro na cabeceira: "As minas do rei Salomão"
Sentei ao seu lado, abri outro livro que o acompanhava e li alguma poesia do Drummond

*a casa sempre esteve em construção



19.8.12


Condenada a viver em nostalgia

Permaneço na cama que o recebe

Penso enquanto leio

O bicho se levantando do assoalho

Comendo restos sobre um jornal

Na noite que atravessa insone

O silêncio do dia que não vem



29.7.12



Adraga


Quantas promessas em frente ao mar?

Tantos pedidos ainda por fazer

A impossibilidade de amar apenas um

Embora, quando me possui em seu quarto,

Faço-me inteiramente sua

Apenas sua



Em frente ao mar das promessas

Vejo que em mim habita

Sentimentos capazes de mover meu espírito

E nesse mar gelado 

Busco mais uma vez 

O seu corpo sobre o meu 

26.5.12


Aeroporto

um casal joga dados na bandeja de plástico
há duas horas disputam números
tento ler e o barulho entorpece a leitura

uma família de portugueses está para partir de Angola
junto a outras tantas
para se abrigar num hotel nas proximidades de Lisboa
o país aguarda a independência 
um jipe chega à porta
o cão late
o filho desmaia
levam o pai

os dados batem sobre a bandeja plástica
entediados, o casal e eu
o som se dispersa 

agora vozes de mulheres ganham autonomia
misturadas as do casal
que volta a jogar os dados na bandeja

os aviões decolam
e o som do aeroporto forma uma massa
que atravessa mais uma vez a leitura 

o pai teria morrido?
– não, minha senhora, 
estou apenas dizendo as regras do hotel
sinto muito,
terão que dividir o mesmo quarto
veja bem,
tem a sorte de estar neste hotel
um dos melhores
cinco estrelas! – 
o pai há-de chegar

penso na casa,
nos livros empilhados, 
no texto a ser escrito

pessoas passam
voltam a passar
o casal foi embora

olho ao redor
café, água, rebuçados nas bandejas 
continuo a leitura 

aeroporto

lance de dados que abole o acaso
impróprio para a poesia
cenário ideal para o aborrecimento

14.5.12



Sr. G. Huberman 


eles gritam
gritam como se fossem dizer: terra à vista!
gritam ao pé da minha janela 
encerrando mais um dia de trabalho 


tenho sono
uma pilha de livros para ler
xícaras de café se acumulam na pia 
penso em você


como seria bom 
se chegasse uma mensagem 
e pudesse descer as escadinhas
deixando ecoar os gritos que ditam o fim do expediente  


eles olham ao redor 
conferem pela última vez se está tudo no lugar 
e se despedem sorrindo 
como em todas as tardes

7.5.12

venho pra cama e não consigo dormir
as costas doem
queimam como fogo 


o peso da escrita


os livros conversam comigo
procuro por um poema
que possa narrar esta noite 
em que corremos perigo 

19.4.12

Noite infinita 


terminado um livro
já não há mais o passado
o que há em mim hoje se traduz
na escadaria que liga o Castelo à Sé de Lisboa
uma luz indescritível invade a casa
atravessando as frestas da janela
o amante veio me visitar 
e foi embora
para não mais voltar



16.4.12

Lisboa


Aqui o frio corta como lâmina
Os dedos já não respondem ao apelo do lápis
Todo o corpo treme
Dizem que é quase verão
Se vier na mesma intensidade
Estaremos todos fritos
Como sardinhas na chapa

6.9.11

Caiçara - CE

 

Nesse dia havia três cães a nos seguir. Vinham na trilha e remexiam carcaças, ossadas de animais que não identificávamos. Eles vinham como a gente vinha, também em três, atentos aos sons da mata e fugindo das formigas vermelhas que nos maltratavam os pés. O caminho não era longo. Abaixávamos no entrecruzar das árvores, para que os galhos não nos furassem a face.

O destino era a lagoa, onde pudemos desfrutar da água morna e cristalina, vendo a lua e o sol ao mesmo tempo. Os dedos rosa da aurora a nos encher de esperança quando tocam o infinito. 

















Fotos de Philipi Bandeira


6.8.11

António Lobo Antunes

Os relógios
A casa de Bergman
Também o peso de papel
Uma imagem da infância
                                Kane
As tias a rodopiar pelo assoalho
como bailarinas na caixinha de música
                                                 Mozart

Então é assim que se escreve?
Pousar a caneta no papel
Fazer correr as palavras
Repetir, repetir, repetir
Deixar que o tempo se encarregue do resto

30.12.10

Mussulo

De uma ponta a outra da ilha
Casas de folhas de palmeira
O mar imenso
A mugir como um touro

Do outro lado
O amor
Sonha beijar com os pés na água
Sob a influência do azul
A ofuscar-lhe a vista

Correr os dedos na areia
Os pulsos frouxos girando na superfície informe
A escassez dos versos a se perderem na ausência de rima

O sol de África é uma bola de fogo

(anotações de viagem. diário sem data)