o tom da sua voz
o seu rosto sisudo
parece carregar o peso do mundo
dos dentes afastados,
faço passagem,
mas nem assim
nunca sorri?
Mostrando postagens com marcador diário sem data. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador diário sem data. Mostrar todas as postagens
16.6.17
6.7.15
Antes de dormir, ela sempre se sentava na escada que dava acesso ao quarto
Pensava nas compras que fizera,
nas moedas que sobraram,
na caixa de retratos onde todos os dias as guardava
Hoje ficaram em cima da mesa, o cansaço era enorme
Ao acordar, o dia renovaria os ânimos
A escada, as compras, as moedas, os retratos
Imagem de Francisca Manoel
7.6.15
31.5.15
18.5.15
8.5.15
O
meu pai era contador de um banco do Estado e saía aos fins de semana
dizendo que iria trabalhar. Nessa época, eu andava com minha amiga de
infância na casa da tia dela, nossa vizinha, que nos recebia com bolos,
biscoitos e suco Tang. Seu marido, coronel reformado, sempre
quando me via perguntava: "cadê o seu pai?". Eu respondia que ele havia
ido trabalhar. Então, com seu bigode de coronel e com os cabelos
penteados para trás com vaselina, dizia, em tom baixo, com olhar endereçado: "bancos não abrem aos fins de semana".
Tinha apenas 9 anos e achava tudo aquilo muito estranho. Só mais tarde compreendi que meu pai se apaixonara por uma colega e que não era recíproco, construindo para si um amor platônico. Minha mãe nunca nos disse uma palavra que nos fizesse revoltar contra ele. Quando chegava bêbado, ela o enfrentava com um ferro de passar roupas, fervendo como brasa. Era tão segura de si que, com um cabo de vassoura em punho, separava brigas dos meus irmãos já marmanjos.
Tinha apenas 9 anos e achava tudo aquilo muito estranho. Só mais tarde compreendi que meu pai se apaixonara por uma colega e que não era recíproco, construindo para si um amor platônico. Minha mãe nunca nos disse uma palavra que nos fizesse revoltar contra ele. Quando chegava bêbado, ela o enfrentava com um ferro de passar roupas, fervendo como brasa. Era tão segura de si que, com um cabo de vassoura em punho, separava brigas dos meus irmãos já marmanjos.
De modo que, aos 20 anos, quando fui pedida em
noivado, olhei com desconfiança para o passado, achei deveras curto em
relação ao que o futuro me aguardava. Não aceitei, obviamente, o que
deixou meu primeiro namorado em choque. Sei que hoje está feliz – isso me conforta.
Não
me orientei pela bravura de minha mãe, talvez porque
achei desnecessário passar roupas e cultivar a ideia de ter filhos para
usar
cabos de vassoura. O que já não fazia sentido para quem acabara de
ingressar na Universidade e descoberto Hilda Hilst. Quanto ao
coronel, soube que, na altura de morrer, fez tanta força que lhe saíram
os excrementos.
16.3.15
Poemas de Curitiba II
O lençol azul clarinho no varal
Mas ontem era um velho com lenço azul no pescoço
A casa da pianista visitada
No desencontrar de janelas
É tão antiga quanto o sofrer à toa
Por pequenas queixas no corpo
Ações, bocejos, objetos fora do lugar
Os risos atravessam essas janelas
E adentram cômodos do pensamento
No pequeno apertamento
Vejo o velho, mas não a vejo, pianista
Apenas o canto da cama onde repousa
Sempre coberta por uma manta xadrez
Ela, pianista, o mistério que habita
Tais edifícios no centro da melancólica e triste cidade
Curitiba
O lençol azul clarinho no varal
Mas ontem era um velho com lenço azul no pescoço
A casa da pianista visitada
No desencontrar de janelas
É tão antiga quanto o sofrer à toa
Por pequenas queixas no corpo
Ações, bocejos, objetos fora do lugar
Os risos atravessam essas janelas
E adentram cômodos do pensamento
No pequeno apertamento
Vejo o velho, mas não a vejo, pianista
Apenas o canto da cama onde repousa
Sempre coberta por uma manta xadrez
Ela, pianista, o mistério que habita
Tais edifícios no centro da melancólica e triste cidade
Curitiba
22.5.14
11.5.14
19.8.12
29.7.12
Adraga
Quantas promessas em frente ao mar?
Tantos pedidos ainda por fazer
A impossibilidade de amar apenas um
Embora, quando me possui em seu quarto,
Faço-me inteiramente sua
Apenas sua
Em frente ao mar das promessas
Vejo que em mim habita
Sentimentos capazes de mover meu espírito
E nesse mar gelado
Busco mais uma vez
O seu corpo sobre o meu
26.5.12
Aeroporto
um casal joga dados na bandeja de plástico
há duas horas disputam números
tento ler e o barulho entorpece a leitura
uma família de portugueses está para partir de Angola
junto a outras tantas
para se abrigar num hotel nas proximidades de Lisboa
o país aguarda a independência
um jipe chega à porta
o cão late
o filho desmaia
levam o pai
os dados batem sobre a bandeja plástica
entediados, o casal e eu
o som se dispersa
agora vozes de mulheres ganham autonomia
misturadas as do casal
que volta a jogar os dados na bandeja
os aviões decolam
e o som do aeroporto forma uma massa
que atravessa mais uma vez a leitura
o pai teria morrido?
– não, minha senhora,
estou apenas dizendo as regras do hotel
sinto muito,
terão que dividir o mesmo quarto
veja bem,
tem a sorte de estar neste hotel
um dos melhores
cinco estrelas! –
o pai há-de chegar
penso na casa,
nos livros empilhados,
no texto a ser escrito
pessoas passam
voltam a passar
o casal foi embora
olho ao redor
café, água, rebuçados nas bandejas
continuo a leitura
aeroporto
lance de dados que abole o acaso
impróprio para a poesia
cenário ideal para o aborrecimento
14.5.12
Sr. G. Huberman
eles gritam
gritam como se fossem dizer: terra à vista!
gritam ao pé da minha janela
encerrando mais um dia de trabalho
tenho sono
uma pilha de livros para ler
xícaras de café se acumulam na pia
penso em você
como seria bom
se chegasse uma mensagem
e pudesse descer as escadinhas
deixando ecoar os gritos que ditam o fim do expediente
eles olham ao redor
conferem pela última vez se está tudo no lugar
e se despedem sorrindo
como em todas as tardes
7.5.12
19.4.12
16.4.12
6.9.11
Caiçara - CE
Nesse dia havia três cães a nos seguir. Vinham na trilha e remexiam carcaças, ossadas de animais que não identificávamos. Eles vinham como a gente vinha, também em três, atentos aos sons da mata e fugindo das formigas vermelhas que nos maltratavam os pés. O caminho não era longo. Abaixávamos no entrecruzar das árvores, para que os galhos não nos furassem a face.
O destino era a lagoa, onde pudemos desfrutar da água morna e cristalina, vendo a lua e o sol ao mesmo tempo. Os dedos rosa da aurora a nos encher de esperança quando tocam o infinito.
Fotos de Philipi Bandeira
6.8.11
António Lobo Antunes
Os relógios
A casa de Bergman
Também o peso de papel
Uma imagem da infância
Kane
As tias a rodopiar pelo assoalho
como bailarinas na caixinha de música
Mozart
Então é assim que se escreve?
Pousar a caneta no papel
Fazer correr as palavras
Repetir, repetir, repetir
Deixar que o tempo se encarregue do resto
30.12.10
Mussulo
De uma ponta a outra da ilha
Casas de folhas de palmeira
O mar imenso
A mugir como um touro
Do outro lado
O amor
Sonha beijar com os pés na água
Sob a influência do azul
A ofuscar-lhe a vista
Correr os dedos na areia
Os pulsos frouxos girando na superfície informe
A escassez dos versos a se perderem na ausência de rima
O sol de África é uma bola de fogo
(anotações de viagem. diário sem data)
Assinar:
Postagens (Atom)






