23.7.06

Bárbara

* para edmundo

quando vejo Bárbara
o queixo fica no chão.
- algum amor no passado, algum arrependimento?
não sei.

um cigarro, um copo de cerveja
anéis...

Bárbara está sozinha.
meu coração
não.











bárbara - vandré silveira
filme de carlos gradim
roteiro: glaura cardoso vale
adaptação do conto "e a situação, como é que está?", de edmundo novaes
foto: bianca aun
fonte: www.odeoncompanhiateatral.com.br

10.7.06

o salmão é um peixe muito generoso.
eu
que não como mais carne
sei disso.

30.6.06

Rimini

o vento sopra
a linha do cabelo segue em direção contrária
dedos tocam a nuca numa noite de ventania

assim como um sonho felliniano...
o vento, o mar, o beijo


*para vivi e serginho

28.6.06

LA JETÉE

Vi num filme do Marker:

Orly,
Um homem corre em direção a uma lembrança da infância:
o rosto de uma mulher sorrindo.

Não encontrando caminho possível,
tomba sobre o asfalto.

(Era a própria morte que entrevia)

16.6.06

# da segunda vez que vi o avesso

o muco estava lá, como um pêndulo
da narina até a garganta
a microcâmera viu
o médico constatou não ser um delírio

a imaginação dá voltas.

2.6.06

Tarefa do revisor

Os últimos dias se resumem a dicionários e gramáticas.
(como idéia fixa, obsessiva)
Há quem ache fetiche nisto:
xícara de café, olhos vermelhos, ardor nas costas,
e cu dormente.

25.5.06

minha personagem agora usa óculos.
os olhos:
um fechado, o outro a piscar.
- como máquina de tirar retrato.

16.5.06

tento adivinhar como se arranca uma dor.
não está em mim.
tento.
o problema consiste em...
- onde vai dar este caminho?
- qual caminho?
o pássaro inicia seu vôo.
talvez busque
(no fio de água que engole a montanha)
um possível pouso.


# para amarelo-rubro (poeta dos poetas)

13.5.06

atriz pornô

ele vê playboy. também me excito.
acho aquela imagem igualmente sedutora.
entrar. deitar a imagem.
ele me deseja depilada.
este capricho da civilização.

quero ser
selvagem.

12.5.06

11.5.06

de estar farto (ou) fulo da vida,
resta chorar.
(ou) socar a parede imaginando a cara de alguém.
vidro não é bom.
chorar faz bem. alivia o ódio, que se transforma em raiva
e se torna outra coisa que não os dois.
nem ódio, nem raiva:
desprezo.
desprezo é bom.
– razão dos poetas?

socar a parede,
sangrar sem corte,
mergulhar as mãos em água morna
salgada.

8.5.06

o encontro

na mesa de escrever
as mãos soletram.
unhas postiças (acúleos pungentes),
esmalte, anéis.
ela se prepara para sair.
sai.
se eu não tocar esta imagem:
- morro.









- morre.

28.4.06

Já reparou que se a gente parar para pensar não fala?
De costas para o amante.
(Mas olhava a tarde).
Se aproximou da janela.
– er näherte sich dem Fenster.
Tocou levemente o vidro.
– berührte sanft die Scheibe.
Vem.
Não disse mais nada.


*para joão e ursula.

24.4.06

uma asa dependurada na parede.
submersa, uma escada.
a menina quer voltar.
nada a impede.

# de uma ilustração em diário frágil

23.4.06

Arrebatada


– Você já leu Le ravissement de Lol V. Stein? Repito: Você já seguiu junto comigo Lol V. Stein pelas ruas? Aliás, você já me viu Lola seguindo alguém pelas ruas?
Um homem, num café, disse ter visto. Esquisita, mas discreta.
– Lol.
– Je.
– Lol.
– Je.
“She's mine”, o alguém no balcão.
Não!
“Lol is mine”.



*para blue- white.

30.3.06

Tongue-in-cheek

# para nica – a respeito do seu cotidiano americano-esquizofrênico

Quantas anas cabem dentro da banana…?
Alguns escritores, para suportar o cotidiano, riam de si mesmos adquirindo assim o hábito de uma escrita leve, entenda-se leveza. Isso seria um tipo de ironia refinada, desfrutada por alguns cuja vida muitas vezes era até dramática. O caso de Ferreira Botelho pode ser um bom exemplo.
Algum tempo depois vieram os surrealistas que viram pessoas em objetos, objetos em pessoas e criaram seres que não se metamorfosearam por completo.
Corpo de homem, cabeça de maçã:
o cotidiano substituindo a figura do centauro ou do minotauro.
Mas, aqui, não espere do “mito” o que o mito representa… E me pergunto se Teseu não se lembraria do ditado "one apple a day…”, devorando assim a suculenta e gigantesca cabeça verde de Magritte.
Outro dia, a respeito de Gogol, pensei no nariz a passear pelas ruas.
A função da hipérbole é causar estranhamento: alguém já viu um nariz gigante dando ordens por aí?
Para quem já sonhou ser um e-mail e a dificuldade de baixar um arquivo consistia numa azeitona entalada na garganta, isso de nariz me soa até muito realista.
Não há nada demais…, somente a transformação de brincadeiras e de estórias extraordinárias da infância – ou dessa nossa possibilidade de ver nas nuvens baianas, animais, almofadas, algodão – em algo mais insólito, transposto para um universo igualmente especial. A pedra contém a escultura mas o homem, para constatar, vai lá e dá umas lascadinhas…
Já outros pintam pássaros de pedra voando…
nem pedra, nem pássaro, é tinta sobre tela… o tal poema de que lhe falei.

*Os olhos ficando aguçados na leitura do episódio da banana…

Faço, então, uma inversão, nos moldes da literatura infantil:

a fome era tanta
que,
diante do risco da queixa,
a banana devorou a ana.