24.9.06

Onomatopoese*

TUM TI TI TUM pode ser apenas uma onomatopéia para o barulho do tambor.
Talvez possamos, com poesia, descobrir o intervalo-imagem que não necessite de letras garrafais para expressar o som desse instrumento que atravessa a infância
(aprendemos a bater com colher o prato).
Talvez essa imagem, ainda por vir, nos faça recordar da brilhante cena em que o BA-TI-TUM do tambor dessincroniza o discurso planejado de Hitler.
Talvez,
para o jovem Oskar,
fosse mesmo
apenas vontade de não crescer.





















*homenagem 2 # ao cinema menor

O Tambor (Die Blechtrommel, 1979)
Direção Volker Schlöndorff
Baseado em livro de Günter Grass
Título em inglês: The tin drum

22.9.06

Fotografia de Farrokhzad

Por que deveria parar, por quê?
Se a vida começa ali nos campos de trigo,
se eu posso correr até o peito arrebentar.
Daria meia volta
ou
chegaria até o fim,
onde me perderia.
Restariam apenas
rosas, um pequeno atalho.
Poesia.

"Sound, sound, sound,
Only sound remains" (FF)

* para oswaldo, por ter me apresentado o cinema menor

21.9.06

É tão bonito o caixilho de tabuinhas a bater com o vento
Êxtase num dia
Ressaca no outro
Alarme disparado lá fora

13.9.06

como as coisas são*









*uma mulher bonita.

(foto: glaura.
retrabalhada por ana carvalho)

12.9.06

penso no doce de laranja.
raspas de limão sobre a espuma de leite.
queimadinho de açúcar.

o natal é uma hiperglicemia.

6.9.06

Todo mundo passa por tristeza um dia.
Mas é um ato extremamente solitário
Olhar pela janela,
Numa tarde fria.
Ver a rua se iluminar.
Não ser nenhuma das meninas de botas brancas
A dar sinal para o ónibus.
Acho mesmo
que a grade da janela não impede poesia.

4.9.06

a cozinha não era de ladrilho azul-claro
um armário branco não surgia da parede
nas portas, não havia losangos de treliça
prateleiras não exibiam panos quadriculadinhos de vermelho e branco
apenas vidro canelado nas janelas
e um refrigerador com tarja de madeira atravessada
sobre a mesa,
um bolo de fubá e biscoitos de polvilho frito
três xícaras
três gerações se encontrariam para tomar café
palavras no sono,
confusas.


*para minha mãe e vó doquinha

1.9.06

gosto de café com leite
e pão doce mergulhado na xícara.


a respeito de las meninas
o homem subindo/descendo as escadas.


eu via aqueles olhos azuis.

25.8.06

O livro de que falei

Não estava longe da mesinha.
Dois passos, teria lhe dado
sem dor, sem ressentimento.
Mas você bateu a porta,
não disse adeus.
Sem esperanças de que retornaria,
dei a outro que aqui esteve.
Este me beijou.
Quarta-feira, Julho 26, 2006*
inferno
Para Glaura


escrito de tempo de dor

Nel mezzo del cammin di nostra vita
mi ritrovai per una selva oscura
che la diritta via era smarrita
Ahi quanto a dir qual era è cosa dura
esta selva selvaggia e aspra e forte
che nel pensier rinova la paura!

Dante

e o arco se dobra e o fio timbra
uma dor profunda
os dedos sangram e o punho vibra em
àsperas veias
um gosto amargo na garganta
o timbre em dó
a garganta em nó
a flecha em rispe
o golpe e o furo
no porcelanato branco do chão
rastos rubros
escorregados

João Lúcio Penharvel

*retirado de confligerante

23.8.06

Podemos escrever sobre qualquer coisa.
O copo de leite em cima da mesa, o guardanapo dobrado em três,
o barulho dos talheres no prato.

Irene deitava de bruços,
com o travesseiro comprimindo a barriga.

19.8.06

*para matias monteiro (o autor da obra)

deparo com objetos que me remetem à infância.
(pátio, cantina, bala macia)
unidos, certa vez, levei um tombo.
a meninada riu, corei.
- irmãos siameses?
"o tempo secou o assunto".














"objetos siameses"
por matias monteiro
foto: daiane souza/UnB agência

12.8.06

O geriatra

*para ricardo garro

o geriatra não escreve.
não se trata de um blog conceitual,
não.
a página é branca
simplesmente porque ele não quer escrever.
e continuará lá, persistindo,
até o dia em que um arqueólogo,
fuçando nos guardados de uma mulher velha,
encontrá um papel que diz:
"ressucitei o blog numa tentativa de parar de falar com o espelho.
(...)
não tem nada lá,
mas um dia vai ter.
dê uma olhada de vez em quando para que eu tenha algum leitor.
reminiscências da L`Argent de Poche,
um abraço".

(mania de arquivos)

11.8.06

O encontro

*para dois amigos que vão morar em Lisboa


Encontrei no bailarico
o meu amor.
Laquê no cabelo, vestido comprido, sorriso no canto da boca.
Eu, Ribão, soltinho pra ela:
“Carol, Carol minha, te dou uma flor."


***


Do amor
o amor que sinto por ti.

8.8.06

Irene Rios

"Ele vai me destruir".
Irene repetia várias vezes, enquanto o leite esquentava no fogão.
Não reparando as bolhas,
como poderia ouvir?


O apelo silencioso:
"Irene, Irene, Irene".

5.8.06

esquina.
estamos num bar da Serra.
na calçada:
mesas amarelas, cadeiras, um ponto de táxi.
do balcão a garçonete diz
bolinho, linguiça, empadinha.
mulheres e homens num entra e sai.
fecho os olhos.
(como se fosse aos 13 anos,
no bar do tio Clóvis, em Água Branca)

tudo igual:
talheres, pratos, pessoas.
se virar para trás, lembrá do avô.