19.11.06

da leitura de "negro el diez" - cortázar

A estrela

Nasce a claridade.
As cores se espalham.
Mas a dor se abriga inteira.
Toda a luz se abisma.

(simples)

Derramar lírios.
Palavras, silêncio.


(para o ronaldo)

15.11.06

Plano de uma mulher deitando a imagem

Se esta não é umas das cenas que mais arrebata a poetisa,
pelo menos é a que mais imprime nela o sonho



















sair sem destino.
sair.

à sua frente,
um carro que filma.


(para cacá maia)

23.10.06

o vento beija a água*

se tocar o alto da montanha sentirá o tempo

/[T]ir-ran/[!] ir/[T]ir-ran/[!]/[T]ir-ran/
ir ir ir

possível dizer ao vento
abrande o meu peito
ir ir ir

traga para meu corpo a agilidade dos pássaros a cortar o céu,
a força da tempestade
ir ir ir

sou urso, sou ar, sou pedra
homem pronto para beijar a água
ir ir ir

/ir-rrá[n]/[!]/ir-rrá[n]/[!]/ir-rrá[n]/

/OU/


*transcriação de música ensinada aos inuit pelo vento.
(para pierrou)

18.10.06

Antes dos 40

Não se tem como saber se o cara vai dar um artista,
salvo erro se ele for um gênio
e acabar por morrer cedo
de acidente, doença ou suicídio.
Lembrando que muitos morrem prematuramente,
não vingam,
expelidos pelo corpo da mãe
por algum motivo maior do que eles.
Maior ainda será o imenso silêncio.
Talvez aqui,
nesse lugar original,
esteja o cara.
Livre da sua jornada,
ausente de corpo, apelos, certezas,
e memória
- o intervalo que buscamos, ou a agônica saudade de uma feliz existência.

Aos sobreviventes,
resta não saber,
ou achar que se sabe,
vivendo.

A arte é um porrrrrrrrre...
(um bêbado virando a esquina, amparado pelas duas pernas,
em total descompasso).
Existência é mero detalhe, meus chuchus.

12.10.06

Alma raiada

Há um sentimento mentiroso dentro da gente,
não arde.
Ficamos a tomar leite da caixa.
Estourar bolhas sobre a língua.
Sentir o ar entrar e sair,
o dente falhar.

Ouço da janela do quarto:
40º graus.
O cobertor está quentinho,
obrigada.

Animais atravessam ruas
entre carros e bicicletas.

(se der ouvidos aos amigos,
ficará como estátua)

Há quem delire com um pouco de febre.
- Saudade das vacas.

24.9.06

Onomatopoese*

TUM TI TI TUM pode ser apenas uma onomatopéia para o barulho do tambor.
Talvez possamos, com poesia, descobrir o intervalo-imagem que não necessite de letras garrafais para expressar o som desse instrumento que atravessa a infância
(aprendemos a bater com colher o prato).
Talvez essa imagem, ainda por vir, nos faça recordar da brilhante cena em que o BA-TI-TUM do tambor dessincroniza o discurso planejado de Hitler.
Talvez,
para o jovem Oskar,
fosse mesmo
apenas vontade de não crescer.





















*homenagem 2 # ao cinema menor

O Tambor (Die Blechtrommel, 1979)
Direção Volker Schlöndorff
Baseado em livro de Günter Grass
Título em inglês: The tin drum

22.9.06

Fotografia de Farrokhzad

Por que deveria parar, por quê?
Se a vida começa ali nos campos de trigo,
se eu posso correr até o peito arrebentar.
Daria meia volta
ou
chegaria até o fim,
onde me perderia.
Restariam apenas
rosas, um pequeno atalho.
Poesia.

"Sound, sound, sound,
Only sound remains" (FF)

* para oswaldo, por ter me apresentado o cinema menor

21.9.06

É tão bonito o caixilho de tabuinhas a bater com o vento
Êxtase num dia
Ressaca no outro
Alarme disparado lá fora

13.9.06

como as coisas são*









*uma mulher bonita.

(foto: glaura.
retrabalhada por ana carvalho)

12.9.06

penso no doce de laranja.
raspas de limão sobre a espuma de leite.
queimadinho de açúcar.

o natal é uma hiperglicemia.

6.9.06

Todo mundo passa por tristeza um dia.
Mas é um ato extremamente solitário
Olhar pela janela,
Numa tarde fria.
Ver a rua se iluminar.
Não ser nenhuma das meninas de botas brancas
A dar sinal para o ónibus.
Acho mesmo
que a grade da janela não impede poesia.

4.9.06

a cozinha não era de ladrilho azul-claro
um armário branco não surgia da parede
nas portas, não havia losangos de treliça
prateleiras não exibiam panos quadriculadinhos de vermelho e branco
apenas vidro canelado nas janelas
e um refrigerador com tarja de madeira atravessada
sobre a mesa,
um bolo de fubá e biscoitos de polvilho frito
três xícaras
três gerações se encontrariam para tomar café
palavras no sono,
confusas.


*para minha mãe e vó doquinha

1.9.06

gosto de café com leite
e pão doce mergulhado na xícara.


a respeito de las meninas
o homem subindo/descendo as escadas.


eu via aqueles olhos azuis.

25.8.06

O livro de que falei

Não estava longe da mesinha.
Dois passos, teria lhe dado
sem dor, sem ressentimento.
Mas você bateu a porta,
não disse adeus.
Sem esperanças de que retornaria,
dei a outro que aqui esteve.
Este me beijou.
Quarta-feira, Julho 26, 2006*
inferno
Para Glaura


escrito de tempo de dor

Nel mezzo del cammin di nostra vita
mi ritrovai per una selva oscura
che la diritta via era smarrita
Ahi quanto a dir qual era è cosa dura
esta selva selvaggia e aspra e forte
che nel pensier rinova la paura!

Dante

e o arco se dobra e o fio timbra
uma dor profunda
os dedos sangram e o punho vibra em
àsperas veias
um gosto amargo na garganta
o timbre em dó
a garganta em nó
a flecha em rispe
o golpe e o furo
no porcelanato branco do chão
rastos rubros
escorregados

João Lúcio Penharvel

*retirado de confligerante