Da impossibilidade de descrever as coisas
(um livro-poema para Rafael Barros)
O homem atravessa três ruas até o escritório
No percurso, avalia o tempo, compra um jornal, toma um café
Corre o olho pela vitrine:
meias, um casaco de lã, caixa de lenços
Ontem recebeu uma carta
Receita para amar
O destino de um poema
Umidade deixada pela chuva fez lembrar a casa da infância
A avó cozinhando mingau,
a mãe preparando a mesa do jantar
Corpo ardendo em febre
(água e açúcar)
Correr no tempo
A memória a trazer o gesto
Quis ver o rio, mas já era hora de levantar a porta
Atender ao chamado insistente do dia
Três ruas até o escritório
21.6.08
15.6.08
tradução e sonho*
sonhei
descoberto o segredo de llansol
a fase de um poema
to be
vi no traço,
não inventei o sonho
esquecendo-se do que foi visto
enrolou-se no pano
o traço
invenção de um parto
a mulher sangra mais de uma vez
* para carolina fenati
descoberto o segredo de llansol
a fase de um poema
to be
vi no traço,
não inventei o sonho
esquecendo-se do que foi visto
enrolou-se no pano
o traço
invenção de um parto
a mulher sangra mais de uma vez
* para carolina fenati
23.5.08
aparentemente sós*
dos pequenos gestos do cotidiano
lustrar os móveis da casa
deitar água nas plantas
fazer o almoço de domingo
convidar a família
uns restos de amor,
um livro, uma vela, um copo d’água
*para bernard
lustrar os móveis da casa
deitar água nas plantas
fazer o almoço de domingo
convidar a família
uns restos de amor,
um livro, uma vela, um copo d’água
*para bernard
30.4.08
Tarde desperdiçada
Não quero lhe chatear
Uma prece aos ignorantes
Esta dor é temporária
O estômago está vazio, eu sei
Deixe a melancolia instalar de vez
Três livros para ler
Perdida em Tchaikovsky
Escrevo um poema
Você vai me reprimir porque tenho uma casa a varrer?
Uma prece aos ignorantes
Esta dor é temporária
O estômago está vazio, eu sei
Deixe a melancolia instalar de vez
Três livros para ler
Perdida em Tchaikovsky
Escrevo um poema
Você vai me reprimir porque tenho uma casa a varrer?
28.4.08
Seus olhos, ou da polifonia nesta manhã desconsolada*
Talvez fosse melhor não mencionar nada
Que o tempo se encarregue de dizer,
na experiência dos dias,
o apelo deste corpo
Um copo d’água, por favor
Não adianta negar
O espírito transita no tilintar das lágrimas
Alegria, gozo e dor
Nesta manhã de sábado,
a cabeça ainda zumbindo,
vejo sua asa partir no chão
Três movimentos ao redor do corpo
No sonho ainda se podia ouvir
instrumentos, vozes,
passantes a bater o pé no cimento
Corte seco
Um dia inteiro pela frente
Arrumar a casa
Postar o lixo, roupa no varal
Misturar arroz no feijão
Barulho que vem do asfalto
anuncia a partida e chegada dos carros
Crianças brincando no jardim
Esquartejam gafanhotos no meu cérebro
Cumprida a ordem
À tarde estarei na cama
Um romance que não acaba
Livros de poesia
No cair do dia,
talvez uma festa,
um jantar entre amigos
ou o sono dos justos
Escrever é menos complicado sob efeito do álcool
A palavra corta a folha
Navalha afiada
Os dedos sangrando
Nem clichê, nem rima
Sem lentes de aumento
Não há foco que resista
Espera a ressaca passar
-------------------------------------------------
*depois do Graveola, também para o Rafa
Que o tempo se encarregue de dizer,
na experiência dos dias,
o apelo deste corpo
Um copo d’água, por favor
Não adianta negar
O espírito transita no tilintar das lágrimas
Alegria, gozo e dor
Nesta manhã de sábado,
a cabeça ainda zumbindo,
vejo sua asa partir no chão
Três movimentos ao redor do corpo
No sonho ainda se podia ouvir
instrumentos, vozes,
passantes a bater o pé no cimento
Corte seco
Um dia inteiro pela frente
Arrumar a casa
Postar o lixo, roupa no varal
Misturar arroz no feijão
Barulho que vem do asfalto
anuncia a partida e chegada dos carros
Crianças brincando no jardim
Esquartejam gafanhotos no meu cérebro
Cumprida a ordem
À tarde estarei na cama
Um romance que não acaba
Livros de poesia
No cair do dia,
talvez uma festa,
um jantar entre amigos
ou o sono dos justos
Escrever é menos complicado sob efeito do álcool
A palavra corta a folha
Navalha afiada
Os dedos sangrando
Nem clichê, nem rima
Sem lentes de aumento
Não há foco que resista
Espera a ressaca passar
-------------------------------------------------
*depois do Graveola, também para o Rafa
7.4.08
2.4.08
2.3.08
Nada como antes
As pernas saradas das mordidas de pulga
Costas arqueadas
Antes era normal
Voar em sonho
Deitar o azeite no pão
Vinho e jazz
Costas arqueadas
Antes era normal
Voar em sonho
Deitar o azeite no pão
Vinho e jazz
16.2.08
Do mundo
Esfregar bobagens na cara
Da verdade que imprime o mundo
(ruir)
Discurso armado
– Foda-se! – disse um bêbado
e me bebeu inteira.
Da verdade que imprime o mundo
(ruir)
Discurso armado
– Foda-se! – disse um bêbado
e me bebeu inteira.
2.2.08
Fevereiro
Fui ver a chuva
que cai inteira
Na montanha, duas, três árvores apenas
Alguns casarões e uma neblina
que cai inteira
Na montanha, duas, três árvores apenas
Alguns casarões e uma neblina
28.1.08
21.1.08
radiografado
7.1.08
Sonhar morbidez
Vez em quando posso lhe dizer palavras delicadas
Pedaços de algodão, água para lavar o corte
Comer o algodão
Sonhar que se morre sufocando
No desespero do quarto escuro a faca em punho
Palavras delicadas ao vento
nomeiam a loucura do outro
Pedaços de algodão, água para lavar o corte
Comer o algodão
Sonhar que se morre sufocando
No desespero do quarto escuro a faca em punho
Palavras delicadas ao vento
nomeiam a loucura do outro
1.1.08
Caixa acústica
Numa caixa de plástico crescem animais estranhos
Metade pássaro e homem
Algumas linhas costuram a barriga em espiral
São postados algodão e açúcar
Um rio corre por dentro
Alguns peixes tentam fugir para a superfície
e sentem o ar cegá-los
Não podendo voltar, criam pernas
Tornam-se guardiões da água
O homem quer virar peixe alado
Não consegue
Seu corpo está ardendo
Da boca vemos brotar uma árvore
Flores explodem um líquido pegajoso
Os lábios se arrebentam
Palavras são como eletricidade
O som invade a caixa
as paredes tremem
(oxigênio)
A caixa é como uma estufa
Transforma seres eletrônicos em animais da terra
Metade pássaro e homem
Algumas linhas costuram a barriga em espiral
São postados algodão e açúcar
Um rio corre por dentro
Alguns peixes tentam fugir para a superfície
e sentem o ar cegá-los
Não podendo voltar, criam pernas
Tornam-se guardiões da água
O homem quer virar peixe alado
Não consegue
Seu corpo está ardendo
Da boca vemos brotar uma árvore
Flores explodem um líquido pegajoso
Os lábios se arrebentam
Palavras são como eletricidade
O som invade a caixa
as paredes tremem
(oxigênio)
A caixa é como uma estufa
Transforma seres eletrônicos em animais da terra
29.12.07
Da lembrança
Esqueci novamente de acender a luz
Deixei cair sobre a mesa batom e moedas
No canto esquerdo da sala há uma foto sua
Entre os bibelôs uma estampa
Meu pai dizia que a natureza do homem é suicida
Preparo para a festa
São duas horas da manhã
A geladeira está vazia
Nada é importante agora
Deixei cair sobre a mesa batom e moedas
No canto esquerdo da sala há uma foto sua
Entre os bibelôs uma estampa
Meu pai dizia que a natureza do homem é suicida
Preparo para a festa
São duas horas da manhã
A geladeira está vazia
Nada é importante agora
28.12.07
No deserto do Arizona
Assistia ingenuamente a esta série e pensava nos dois cientistas condenados a vagar no tempo. "Quem iria querer enfrentar dinossauros e conflitos armados apenas para provar que a máquina não era mero desperdício ao Estado?"
(um jovem galã e um pensador maduro)
No deserto do Arizona estava escondida a maior de todas as invenções da vida moderna.
A lógica da aventura consistia em enfrentar o perigo, as paixões e o abandono, mas resta a dúvida sobre os procedimentos metodológicos dessa viagem.
Hoje compreendo melhor, apesar de não me recordar dos episódios – a não ser da antológica imagem espiralar que leva os dois personagens para passear no tempo. Tudo pelo entretenimento que contém a descoberta, ou o desejo impossível de sair ileso das tormentas e colapsos do mundo?
A máquina do tempo é uma homenagem ao cinema que se acreditava fazer na época
no deserto do Arizona.

(o túnel e o tempo)
(um jovem galã e um pensador maduro)
No deserto do Arizona estava escondida a maior de todas as invenções da vida moderna.
A lógica da aventura consistia em enfrentar o perigo, as paixões e o abandono, mas resta a dúvida sobre os procedimentos metodológicos dessa viagem.
Hoje compreendo melhor, apesar de não me recordar dos episódios – a não ser da antológica imagem espiralar que leva os dois personagens para passear no tempo. Tudo pelo entretenimento que contém a descoberta, ou o desejo impossível de sair ileso das tormentas e colapsos do mundo?
A máquina do tempo é uma homenagem ao cinema que se acreditava fazer na época
no deserto do Arizona.

(o túnel e o tempo)
27.12.07
Com Sinatra*
Ouço Sinatra cantar
Como é bom encerrar elegantemente esta temporada
e também triste
como um filme antigo
(Your fabulous face)
Cinco minutos mais, cinco minutos mais
para estar em seus braços
Apenas cinco minutos mais
(I see, I see)
Posso ver você
Lá do outro lado
Posso ser você
Onde o rosto toca o vento
Dançar com o corpo mole
no escuro
(I lost my heart)
Queria falar sobre coisas assim
Cantar assim
(Every time. You and I. Every time)
Nem chá, nem suco de tomate
(A cup of coffee, please)
----------------
*para a equipe
Como é bom encerrar elegantemente esta temporada
e também triste
como um filme antigo
(Your fabulous face)
Cinco minutos mais, cinco minutos mais
para estar em seus braços
Apenas cinco minutos mais
(I see, I see)
Posso ver você
Lá do outro lado
Posso ser você
Onde o rosto toca o vento
Dançar com o corpo mole
no escuro
(I lost my heart)
Queria falar sobre coisas assim
Cantar assim
(Every time. You and I. Every time)
Nem chá, nem suco de tomate
(A cup of coffee, please)
----------------
*para a equipe
19.12.07
b. brecht
A fumaça (der rauch) mistura no vento uma cor delicada
Alguns pontos de luz a atravessam
Sorte o dia ter amanhecido claro
Nas árvores uma poeira fina
Ao entardecer esperamos chuva no lago
para João Lúcio
Alguns pontos de luz a atravessam
Sorte o dia ter amanhecido claro
Nas árvores uma poeira fina
Ao entardecer esperamos chuva no lago
para João Lúcio
13.12.07
Pazes com o imaginário*
O tronco estava úmido
Entre as folhas das árvores restos de chuva
O nariz fica gelado nesta época do ano
Tenho apenas três páginas de anotações
(a saudade é algo para se beber)
Aceite um ramo
------------------------------------
*para Cinara Araújo
Entre as folhas das árvores restos de chuva
O nariz fica gelado nesta época do ano
Tenho apenas três páginas de anotações
(a saudade é algo para se beber)
Aceite um ramo
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*para Cinara Araújo
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