1.2.14

O avô era fotógrafo amador. Fazia as pessoas posarem em cenários improvisados. O motivo desta foto é a sua famosa lambreta. Não conheci o vô Benedito, mas dizem que fora querido e muito amado. Nesta imagem, sua sobrinha Thereza e o sobrinho-neto Marco.


14.1.14


nas tardes das nossas vidas
enquanto você teoriza 
faço versos 

quando a noite se aproxima
com o cair das tardes das nossas vidas
sentamos no jardim

você me dá seus pensamentos
e eu
meu coração 

(para Manoel)




3.11.13


se no deserto de nossas vidas
quando nos encontrarmos 
flores para enfeitar os dias
como nesta manhã que anuncia a sua chegada  


















imagem retirada da web sem autoria 
 

20.10.13


adoeci
e minha mãe repousa ao lado
em meio à agitação da rua: cães,  passos, motocicleta, foguete, tiro?
penso nos corpos  quando se encontram
no momento em que tomam consciência de estarem juntos
nos amores que se foram prematuros
na prima que pulou dos arcos de um viaduto,
no centro de Belo Horizonte

no quão esquecemos do outro
por displicência 
ou mera infidelidade
na estupidez desse morrer de amor

penso na pulseira que veio da Turquia
nesta pedra verde que imita esmeralda
a segunda pedra mais forte,
perdendo para o diamante
no quanto ainda hei de viver para envolvê-la no pulso
pergunto: um amor na amizade pode ser mais duro do que a morte?

tudo isso enquanto minha mãe repousa ao lado
eu convalescente
ela dormindo o sono dos justos




11.9.13


poema para um bom dia



Acordei sem você e achei estranho


Entre a cama e o chão não havia uma escada

Nem uma janela que mira outras janelas e o infinito

A sensação do voo, o perigo

Sem caixas ou arquivos do seu mundo de curiosidades

Apenas o som do trem que leva minério para a China


e dos pássaros no quintal

que insistem cantar o amor 

o mesmo que agora adentra 

todos os cômodos da casa 




1.9.13


Prelúdio de Curitiba



Como se aqui estivesse

sinto a sua mão sobre o meu corpo

imaginando a minha mão sobre o seu



Como se aqui estivesse

envolvo-me em seus abraços

entregando-me sem restrição



Como se aqui estivesse

comigo neste quarto escuro

ponho-me a beijar seu rosto

e adormeço no seu ombro

depois de me possuir



Adormecendo os dois

desse cansaço dos corpos e da escrita

nada igual a outro tempo

partimos então do início 

como se aqui estivesse


31.8.13



É certo que são ovelhas e não uma cabra caída sobre os seixos. No fundo, um pastor e dois cachorros que quase não podem ser vistos. As montanhas nos levam à praia, onde um homem contempla o infinito, enquanto uma criança nos atravessa com o olhar. Ulisses provavelmente nunca esteve nos vales de Andorra*, embora próximos do mediterrâneo, mas isso não impede que este pequeno cartão, que se passa em Porto de Envalira, nos conecte, por aproximação ou contraste, criaturas naturais e fantásticas como o cordeiro de Deus e a cabra mitológica de Agnès Varda. 



























*O sexto menor país da Europa, localizado entre o nordeste da Espanha e o sudoeste da França | língua oficial: catalão. 

24.8.13

O último leitor 

Ao se lembrar de uma fotografia de Guevara lendo em cima de uma árvore, condensando aqui o silêncio e o isolamento, mas também a vigília, Ricardo Piglia diz: “a leitura permanece como um resto do passado, em meio à experiência da ação pura, do desprovimento e da violência, na guerrilha, na montanha”. Depois do Duelo, no Bordello, estava lá Guevara, numa prateleira, entre o gin e a vodka. 


(para Manoel)



11.8.13





Qual o destino de um poema? Um filme em processo. Descubro uma cena de confraternização após o término das filmagens num edifício da Avenida da Liberdade. Lisboa, julho de 2012. Separados agora pelo mar, envio uma carta do Brasil para Portugal, lembrando os amigos que ficaram lá. Cito: Ana Martins Marques, Al Berto, Hilda Hilst, Júlia de Carvalho Hansen, para dar conta de uma saudade impronunciável. Os textos se misturam, falam de casas, resistência política, amor, ausência e escrita. A poesia que há nas ruas e se dissolve na concha da língua. O destino? Francisca Manuel, Daniel Ribao, Carolina Fenati, Priscila Amoni, Eduardo Fonseca, Bernardo Rb, Julia Hansen, Mira, Marta Viegas e António Poppe. Também aos queridos que passaram por lá. A quem mais esta carta possa chegar. Morei tão pequeno e fui feliz nas Escadinhas de São Crispim. 

Realização: Glaura Cardoso Vale e Francisca Manuel

Agradecimento especial a Samuel Marotta e Roberto Bellini, pelas dicas e incentivo.

19.4.13

há muito não escrevo um poema
para revelar o que sinto


dizer, ao pousar a cabeça no seu ombro,
que sonho o infinito


lá não há dor, nem tormento
apenas sono profundo


hoje vi o dia amanhecer no seu quarto
olhei você dormindo


todas às vezes que o encontro sem hora e lugar
meu corpo estremece


tenho vontade de lhe abraçar
mas hesito


não sabendo o que dizer
escondo-me nas conversas alheias


porque uma insegurança se instala
como o amor cravado na pedra


3.12.12

como nasce um poema*


Pela fresta da janela 

atravessa um galho

enquanto você 

sonha árvores 



Sobre o seu corpo

calo o meu corpo

e na sua boca

deito a minha boca



Permita em seu sonho

que eu adentre inteira

como esta luz

que invade o quarto




*enquanto dormia,

a sombra das árvores

acariciava a parede branca





26.10.12


Pousou sobre mim

Um anjo de asa partida

E dorme profundamente

Atravessando a madrugada


Seus olhos são tenros

Pele clara que cega o dia

A boca é pura água

No meu corpo percorrendo


Se na vida a gente quis

Dizer um ao outro

Aquilo que deveras sente

Os corpos calam e não mentem

17.10.12

Caros amigos e leitores,

depois de 8 anos de escrita quase diária tirei temporariamente o Tempestade do ar. Ruptura necessária para renovar este espaço de publicação e começar a preparação do livro que deverá vir após a defesa da tese.

Por isso o acesso agora está restrito. 

Muito obrigada por sempre.

Um beijo,
Glaura.

7.10.12


Sicília 


a vi tão viva outro dia

olhos brilhantes 

largo sorriso

um, dois, três

sempre morre um amigo


envolvida pelo Mediterrâneo 

ilha que vê os homens agora chorarem

a tragédia de outros homens

cantam os poetas

luto e dor


(para a Brisa que hoje lembrou de um dia em que tudo era ainda o começo 
e havia muita vida)

20.9.12

Os nossos corpos falarão no escuro do quarto

a você todo o meu amor 


nesta e em outra vida



O jovem soldado rente ao chão


suas lágrimas adentram na terra 


não nasce uma só flor



6.9.12


cinco mil pessoas 
uma ciranda 
a coisa mais linda que vivi nos últimos tempos

oh Dandaraoh Dandara oh, 
a nossa luta aqui vale mais que ouro em pó



31.8.12


leio um livro 

cartas de guerra

cochilo por um segundo na rede 

enquanto balança


o sol queima o rosto

neste despertar da manhã


penso nos afazeres da casa

no rio em você

30.8.12

sendo sua nesta noite 

em que a lua permanece cheia

você vem e adentra inteiro


mergulha em água corrente

buscando abrigo

no meu peito


minha língua percorrendo sua boca

encontra suavidade juventude 

sem abandono


meu corpo espera

a cama o espera

o quarto preparado para os dois



(para você, meu segredo)

21.8.12

levanto liberta luz

vontade de poesia

sentimento fecundo

que em mim habita  


palavras como ventania

buscando a imagem mais uma vez do rio


ah o rio 

atravessa nosso espírito

águas cheias de saudade

amor e sal