28.1.07

Velho Oeste






A tela não é das maiores.
Tenho uma TV de carvoaria.
A imagem atrita um momento,
Robert Redford e Paul Newman.







Velho Oeste,
se olho, não posso tocar.

27.1.07










Tem a lembrança de uma ida à casa da tia Milá.
Da janela do ônibus uma menina vê o penhasco:
- "Olha mãe! Se a gente cair lá embaixo morre na horinha!"
Então é assim?


(o gato da vizinha não pára de me fitar)

19.1.07

Bom Jardim

tem a história de um cavalo, cego de um olho, que ganhou competição.
tem a história de um menino que se perdia nos bairros de Curvelo. que fazia todos rirem.
tem a história de um outro menino, tão bom, tão doce, que me emociono ao lembrar de sua leveza.
tem a história de uma menina e sua roupa de quadrilha com gigantescas frutas bordadas ao invés das tradicionais flores. a mãe sempre inovava.
tem a história de um casal, tão unido, tão alegre.
(tudo registrado em fotografias)

um sussurro, uma lembrança.

(para Pedrães)

9.1.07

cidade

pessoas caminham em diagonal.
(depois que todas passarem)
ainda estarei sentada
num bar, num café, num ponto de ônibus.
uma caneta, por favor.
nesta noite,
chá quente e uma canção.

(para nica e beto)

4.1.07

Moro numa vila de pescadores. Há dias o céu insiste nublado.
O mar está tranquilo apesar da correnteza.
As pedras sentem o peso da água.
(se fechar os olhos, lembrará dos parentes mortos)
Não há tristeza nos olhos. Apenas o tempo.

Quando o vir, direi palavras desnecessárias.
Distante de você, escrevo melhor o que não sinto.


(Paraty, dezembro de 2006)

25.12.06

quando vejo os pinheiros
altos e assustadores,
penso no jovem Winllink
poeta que, a respeito do amor,
disse ter encontrado
(no extremo norte)
uma flor de vidro.

19.12.06

Encontrar com Angola cria uma certa confusão
(difícil explicar)

É cedo para esquecer seu dilaceramento.
Canto que invade os cômodos da casa.
O português continuará sendo o colonizador?

Olhos condensam passado e presente.
(difícil dizer)
Tudo acaba incerto.

17.12.06










a história é velha.
um amor não correspondido,
uma amizade.
basta fechar os olhos,
para o amor passar.
diria minha mãe, com os olhos fixos no tricô.

10.12.06

com o amor

não se deve comportar
como um caminhão desgovernado.
agir com os sentidos,
também pensar, sorrir.
desconfie sempre da poesia.
o cotidiano é mais duro do que a bela escrita.

(da caderneta de uma mulher velha)
Enquanto o sono não vem.
Não fosse o headphone enlouquecia.
Mais do que insônia, entende?
Talvez soe mais forte que isso.

3.12.06
















se o vejo entre as pessoas,
o espero mais ainda,
meu amor.
sem você sou ar sem vento.
e sem vento,
a noite não pode me tocar.

2.12.06

de encontros e de mensagens

















num simples gesto de apertar a tecla do telefone móvel,
assim como se abre uma caixa de correspondências,
além das urgências do dia:
um sorriso, uma flor.

pousar os braços sobre o corpo
deixar que a noite entre no quarto
sentir o tempo tocar o rosto

antes que me torne sonho,
ainda percebo:
pessoas na calçada, a chuva que cai inteira, o gato a arranhar o vidro.


(para carolina, ana c. e pat)

19.11.06

da leitura de "negro el diez" - cortázar

A estrela

Nasce a claridade.
As cores se espalham.
Mas a dor se abriga inteira.
Toda a luz se abisma.

(simples)

Derramar lírios.
Palavras, silêncio.


(para o ronaldo)

15.11.06

Plano de uma mulher deitando a imagem

Se esta não é umas das cenas que mais arrebata a poetisa,
pelo menos é a que mais imprime nela o sonho



















sair sem destino.
sair.

à sua frente,
um carro que filma.


(para cacá maia)

23.10.06

o vento beija a água*

se tocar o alto da montanha sentirá o tempo

/[T]ir-ran/[!] ir/[T]ir-ran/[!]/[T]ir-ran/
ir ir ir

possível dizer ao vento
abrande o meu peito
ir ir ir

traga para meu corpo a agilidade dos pássaros a cortar o céu,
a força da tempestade
ir ir ir

sou urso, sou ar, sou pedra
homem pronto para beijar a água
ir ir ir

/ir-rrá[n]/[!]/ir-rrá[n]/[!]/ir-rrá[n]/

/OU/


*transcriação de música ensinada aos inuit pelo vento.
(para pierrou)

18.10.06

Antes dos 40

Não se tem como saber se o cara vai dar um artista,
salvo erro se ele for um gênio
e acabar por morrer cedo
de acidente, doença ou suicídio.
Lembrando que muitos morrem prematuramente,
não vingam,
expelidos pelo corpo da mãe
por algum motivo maior do que eles.
Maior ainda será o imenso silêncio.
Talvez aqui,
nesse lugar original,
esteja o cara.
Livre da sua jornada,
ausente de corpo, apelos, certezas,
e memória
- o intervalo que buscamos, ou a agônica saudade de uma feliz existência.

Aos sobreviventes,
resta não saber,
ou achar que se sabe,
vivendo.

A arte é um porrrrrrrrre...
(um bêbado virando a esquina, amparado pelas duas pernas,
em total descompasso).
Existência é mero detalhe, meus chuchus.

12.10.06

Alma raiada

Há um sentimento mentiroso dentro da gente,
não arde.
Ficamos a tomar leite da caixa.
Estourar bolhas sobre a língua.
Sentir o ar entrar e sair,
o dente falhar.

Ouço da janela do quarto:
40º graus.
O cobertor está quentinho,
obrigada.

Animais atravessam ruas
entre carros e bicicletas.

(se der ouvidos aos amigos,
ficará como estátua)

Há quem delire com um pouco de febre.
- Saudade das vacas.