Primeiro foi a água
Dos seres que dela surgiram
Homens-peixe desejaram caminhar
Fez-se então uma terra vermelha
Diferentemente da que haviam experimentado no oceano,
Uma poeira ainda mais fina ofuscou-lhes a visão
Descobriram o vento
O calor a arder as têmporas
Aprenderam a tanger a terra com gotas de suor
Fizeram instrumentos
Descobriu-se que o céu já existia há anos
Mais tarde, sua infinita beleza
Inventaram o vinho
Por vezes a pequenez os apanhava completos
Majestosos no tempo
Fugidios, os poetas
Seus olhos
A floresta que veio depois
Da cicatriz escorria-se um líquido pegajoso
Surgiram ruas e avenidas
O barulho dos carros a atravessar-lhes a noite
Previram o desaparecimento da água
Mas não quiseram o retorno
Preferiram compor sinfonias
Ode às estrelas
------------------------------------------------
*para Bu Guanambis e Rafa Barros
31.8.08
28.8.08
Novamante*
Pequena imagem num selo
Um homem tocando piano - Liszt
(corta para)
Mulher segurando espelho
De Portinari a primeira
Novamante a segunda
-------------------------------
* para edu
Um homem tocando piano - Liszt
(corta para)
Mulher segurando espelho
De Portinari a primeira
Novamante a segunda
-------------------------------
* para edu
18.8.08
Das dinâmicas do dia
17.8.08
Monte Alegre
Provavelmente
Na Grécia Antiga
As mulheres (tendo voz)
Clamando por seus filhos
Encheriam
de porrada
A boca recalcada dos fazedores de guerra
Sem dentes,
O poeta
Uma besta-quadrada
A guerra,
Invenção dos homens
para a multiplicação de filmes enlatados
Açoitar o inimigo
com palavras vulgares
Coisa do fascismo
Na Grécia Antiga
As mulheres (tendo voz)
Clamando por seus filhos
Encheriam
de porrada
A boca recalcada dos fazedores de guerra
Sem dentes,
O poeta
Uma besta-quadrada
A guerra,
Invenção dos homens
para a multiplicação de filmes enlatados
Açoitar o inimigo
com palavras vulgares
Coisa do fascismo
10.8.08
Jonathan Mangabeira
Não compreendo seu sorriso
Ri para mim dizendo até logo
Nos pés o suor do asfalto
(becos, avenidas, BRs)
Nas mãos marcas esferográficas
Poderia caber o mundo em versos rimados
Escrever caminhando
Poeta
Vinte e quatro horas por dia
Ri para mim dizendo até logo
Nos pés o suor do asfalto
(becos, avenidas, BRs)
Nas mãos marcas esferográficas
Poderia caber o mundo em versos rimados
Escrever caminhando
Poeta
Vinte e quatro horas por dia
9.8.08
6.8.08
educação na pedra
um grito violento atrás da porta
o tiro que atravessou o jovem
atormenta gerações
aristocracia paidéia
em restos de livros
comidos por traças
a casa minando água
as pessoas dos retratos desaparecendo no tempo
um bife pra cinco,
no domingo refresco
aristocracia paidéia ou
o imaginário bufão
o tiro que atravessou o jovem
atormenta gerações
aristocracia paidéia
em restos de livros
comidos por traças
a casa minando água
as pessoas dos retratos desaparecendo no tempo
um bife pra cinco,
no domingo refresco
aristocracia paidéia ou
o imaginário bufão
2.8.08
Da Torre Mais Alta*
Falemos na mocidade presa
Deprimida
Delicadeza perder a vida
Da alma
Não posso negar
Flores sobre a mesa vazia
Disse: – Acaba (devagar)
Promessas ao vento
O bem que seja
Aspiro
Retirante
Amor derradeiro
Ao menos pudesse sonhar
Diria palavras
Erguida aos céus
Sede estranha que ofusca a garganta
Que campos visitar?
Condenada
Duvidando do hálito amargo
Moscas selvagens
Na imagem que assola
Uma senhora, um grito
Quem rezaria Ave Maria?
Oprimida mocidade
A pureza, o encanto
Num estalar de dedos,
Que o tempo venha
– Arthur!
Sua poesia esfola viva
-------
*para Quel Junqueira, para Fred Sabino
Deprimida
Delicadeza perder a vida
Da alma
Não posso negar
Flores sobre a mesa vazia
Disse: – Acaba (devagar)
Promessas ao vento
O bem que seja
Aspiro
Retirante
Amor derradeiro
Ao menos pudesse sonhar
Diria palavras
Erguida aos céus
Sede estranha que ofusca a garganta
Que campos visitar?
Condenada
Duvidando do hálito amargo
Moscas selvagens
Na imagem que assola
Uma senhora, um grito
Quem rezaria Ave Maria?
Oprimida mocidade
A pureza, o encanto
Num estalar de dedos,
Que o tempo venha
– Arthur!
Sua poesia esfola viva
-------
*para Quel Junqueira, para Fred Sabino
13.7.08
para o tirano oswaldiano
ô caralho!
estou puta
que a sua poesia tá melhor que a minha
anacrônico é tu, cara de angu
pro caralho que te partiu
tenho que trabalhá
desemprego assola
papo intelectual conversa de botequim
volto já
se me tirar eu berro, falô, glauborô albino
amo
tão desesperadamente
não entendeu que não sou glauceste e sim glaucoma?
estou puta
que a sua poesia tá melhor que a minha
anacrônico é tu, cara de angu
pro caralho que te partiu
tenho que trabalhá
desemprego assola
papo intelectual conversa de botequim
volto já
se me tirar eu berro, falô, glauborô albino
amo
tão desesperadamente
não entendeu que não sou glauceste e sim glaucoma?
12.7.08
à ciel ouvert
ser celestial pousou em mim perfeito.
matanada-nativa. amor pelos pássaros, dislexia.
esta dor inexata,
abandono. não entendo.
arrogância.
circunlóquio.
anacronia maculada.
pro escambau o contemplativo.
prejudica a vida.
permissão para sonhar.
verdade quase-nada. queimapele.
fui ver onde-dá. "tempestê à ciel ouvert"
glauboró-aurá, glauceste, glaucoma.
matanada-nativa. amor pelos pássaros, dislexia.
esta dor inexata,
abandono. não entendo.
arrogância.
circunlóquio.
anacronia maculada.
pro escambau o contemplativo.
prejudica a vida.
permissão para sonhar.
verdade quase-nada. queimapele.
fui ver onde-dá. "tempestê à ciel ouvert"
glauboró-aurá, glauceste, glaucoma.
21.6.08
Da impossibilidade de descrever as coisas
(um livro-poema para Rafael Barros)
O homem atravessa três ruas até o escritório
No percurso, avalia o tempo, compra um jornal, toma um café
Corre o olho pela vitrine:
meias, um casaco de lã, caixa de lenços
Ontem recebeu uma carta
Receita para amar
O destino de um poema
Umidade deixada pela chuva fez lembrar a casa da infância
A avó cozinhando mingau,
a mãe preparando a mesa do jantar
Corpo ardendo em febre
(água e açúcar)
Correr no tempo
A memória a trazer o gesto
Quis ver o rio, mas já era hora de levantar a porta
Atender ao chamado insistente do dia
Três ruas até o escritório
(um livro-poema para Rafael Barros)
O homem atravessa três ruas até o escritório
No percurso, avalia o tempo, compra um jornal, toma um café
Corre o olho pela vitrine:
meias, um casaco de lã, caixa de lenços
Ontem recebeu uma carta
Receita para amar
O destino de um poema
Umidade deixada pela chuva fez lembrar a casa da infância
A avó cozinhando mingau,
a mãe preparando a mesa do jantar
Corpo ardendo em febre
(água e açúcar)
Correr no tempo
A memória a trazer o gesto
Quis ver o rio, mas já era hora de levantar a porta
Atender ao chamado insistente do dia
Três ruas até o escritório
15.6.08
tradução e sonho*
sonhei
descoberto o segredo de llansol
a fase de um poema
to be
vi no traço,
não inventei o sonho
esquecendo-se do que foi visto
enrolou-se no pano
o traço
invenção de um parto
a mulher sangra mais de uma vez
* para carolina fenati
descoberto o segredo de llansol
a fase de um poema
to be
vi no traço,
não inventei o sonho
esquecendo-se do que foi visto
enrolou-se no pano
o traço
invenção de um parto
a mulher sangra mais de uma vez
* para carolina fenati
23.5.08
aparentemente sós*
dos pequenos gestos do cotidiano
lustrar os móveis da casa
deitar água nas plantas
fazer o almoço de domingo
convidar a família
uns restos de amor,
um livro, uma vela, um copo d’água
*para bernard
lustrar os móveis da casa
deitar água nas plantas
fazer o almoço de domingo
convidar a família
uns restos de amor,
um livro, uma vela, um copo d’água
*para bernard
30.4.08
Tarde desperdiçada
Não quero lhe chatear
Uma prece aos ignorantes
Esta dor é temporária
O estômago está vazio, eu sei
Deixe a melancolia instalar de vez
Três livros para ler
Perdida em Tchaikovsky
Escrevo um poema
Você vai me reprimir porque tenho uma casa a varrer?
Uma prece aos ignorantes
Esta dor é temporária
O estômago está vazio, eu sei
Deixe a melancolia instalar de vez
Três livros para ler
Perdida em Tchaikovsky
Escrevo um poema
Você vai me reprimir porque tenho uma casa a varrer?
28.4.08
Seus olhos, ou da polifonia nesta manhã desconsolada*
Talvez fosse melhor não mencionar nada
Que o tempo se encarregue de dizer,
na experiência dos dias,
o apelo deste corpo
Um copo d’água, por favor
Não adianta negar
O espírito transita no tilintar das lágrimas
Alegria, gozo e dor
Nesta manhã de sábado,
a cabeça ainda zumbindo,
vejo sua asa partir no chão
Três movimentos ao redor do corpo
No sonho ainda se podia ouvir
instrumentos, vozes,
passantes a bater o pé no cimento
Corte seco
Um dia inteiro pela frente
Arrumar a casa
Postar o lixo, roupa no varal
Misturar arroz no feijão
Barulho que vem do asfalto
anuncia a partida e chegada dos carros
Crianças brincando no jardim
Esquartejam gafanhotos no meu cérebro
Cumprida a ordem
À tarde estarei na cama
Um romance que não acaba
Livros de poesia
No cair do dia,
talvez uma festa,
um jantar entre amigos
ou o sono dos justos
Escrever é menos complicado sob efeito do álcool
A palavra corta a folha
Navalha afiada
Os dedos sangrando
Nem clichê, nem rima
Sem lentes de aumento
Não há foco que resista
Espera a ressaca passar
-------------------------------------------------
*depois do Graveola, também para o Rafa
Que o tempo se encarregue de dizer,
na experiência dos dias,
o apelo deste corpo
Um copo d’água, por favor
Não adianta negar
O espírito transita no tilintar das lágrimas
Alegria, gozo e dor
Nesta manhã de sábado,
a cabeça ainda zumbindo,
vejo sua asa partir no chão
Três movimentos ao redor do corpo
No sonho ainda se podia ouvir
instrumentos, vozes,
passantes a bater o pé no cimento
Corte seco
Um dia inteiro pela frente
Arrumar a casa
Postar o lixo, roupa no varal
Misturar arroz no feijão
Barulho que vem do asfalto
anuncia a partida e chegada dos carros
Crianças brincando no jardim
Esquartejam gafanhotos no meu cérebro
Cumprida a ordem
À tarde estarei na cama
Um romance que não acaba
Livros de poesia
No cair do dia,
talvez uma festa,
um jantar entre amigos
ou o sono dos justos
Escrever é menos complicado sob efeito do álcool
A palavra corta a folha
Navalha afiada
Os dedos sangrando
Nem clichê, nem rima
Sem lentes de aumento
Não há foco que resista
Espera a ressaca passar
-------------------------------------------------
*depois do Graveola, também para o Rafa
7.4.08
2.4.08
2.3.08
Nada como antes
As pernas saradas das mordidas de pulga
Costas arqueadas
Antes era normal
Voar em sonho
Deitar o azeite no pão
Vinho e jazz
Costas arqueadas
Antes era normal
Voar em sonho
Deitar o azeite no pão
Vinho e jazz
16.2.08
Do mundo
Esfregar bobagens na cara
Da verdade que imprime o mundo
(ruir)
Discurso armado
– Foda-se! – disse um bêbado
e me bebeu inteira.
Da verdade que imprime o mundo
(ruir)
Discurso armado
– Foda-se! – disse um bêbado
e me bebeu inteira.
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