30.1.09

Das inseguranças do poeta
Já disse um dia o catador
Três palavras incompletas
O amor desta vez não dá

9.1.09

Chuva de temporada*

Meu doce amigo
Estamos aqui,
Eu e você,
Embriagados nesta noite
Sem perspectiva de mudar o tempo
Distribuindo baldes pela casa

- Mas o calor não tarda
- É... Amanhã fará sol
- Com cerveja


-----------
*Para o Rafa e o Grave

5.1.09

Do cotidiano da entomologista

O cotidiano que o anônimo julga interessante pode ser simples e patético.
Então, resta sorrir entre parênteses?
Assim quando se acorda depois de uma noite sem pesadelos.
O cotidiano pode ser leve ou árduo,
como o amor ou a escrita.

Passando dias sem arrancar um verso, uma frase que seja, a poetisa levanta as têmporas diante do espelho.

- Merda!

Metáforas são fáceis.
Deliberá-las sem trava, crê, não é tarefa da poesia deste tempo.

Mas que tempo é este?

Muitas vespas a invadir a casa nesta noite.
Depois das chuvas que alagam ruas e avenidas,
o sono a despencar as pálpebras,
pura lama.

Jargão e superficialidade
O cotidiano dos jornais e suas tendências
Um rio que volta a transbordar
Um corpo, seis tiros, o caso arquivado
A faixa dividida em três ou mais
Dez dias de conflito, mais de 500 mortos, milhares de feridos
Um time de juniores vence um de seus adversários
E um ator estrangeiro às voltas no Rio de Janeiro

30.12.08

Canção de ninar*

Entre o sono e o estar acordado
Penso frases que me são caras
Jamais irei reproduzi-las tal qual se processam em mim
Porém, se as ouço apenas e não escrevo
Uma insônia absurda toma a mim o sonho desejado
Da cama à caderneta, o que se perdeu?
O pensamento mais ágil do que os dedos
Uma laranja para a digestão
Amor embalado por uma canção de jazz
O menino dorme

-------
* para Matias Monteiro, às 5h da matina

27.12.08

De cartas e canções

Poderia endereçar a você todos os poemas
Mas o que nos separa
A idade, a monogamia?

Atingir com palavras
Este sentimento comum que atrai os homens
(Amor)
Ouço sua voz, um violão
Ouço amargar uma espécie de solidão

A noite garoando inteira
Vento úmido cortando a espinha
Pés descalços no assoalho frio

Aqui, pairam versos seus
Os meus
Na gaveta, apenas rascunhos
de um romance sem graça

Não posso lhe desejar agora
(Minto)
Desejar eu posso

Aporia

Se desvio o olhar é por insegurança
Mas vejo seu rosto recortado na parede branca
Na noite tudo padece

Seus olhos floresta
Sonhei você
Hesitei

Adentrar na floresta
Ajustar o foco
Desfocar o fundo

Amar você?
O toque pareceu impossível

Desenhos

Talvez quisesse uma terra boa
Neste descampado onde vi pinturas rupestres
Crença na origem
Talvez duvidasse da existência dos homens antes dos homens
Se a matriz do desavisado é o plágio
A minha é o fingimento

18.12.08

Palu

A aldeia fica afastada do grande centro
O sol impera ao meio-dia
queima florestas

Se fosse esperar pelo tempo
não traçaria dois círculos e uma reta

– A estrada precisa atravessar sítios

Os olhos ardendo em febre
Ignorou o gesto do velho Soba

– Talvez não vingue por aqui

16.12.08

Se o sono dos justos vem com o cair da noite
O meu
Carregado de pesadelos
A casa, goteira e mofo
O andar de cima guarda algum mistério
Na caixa escura, a imagem da Senhora Aparecida
(o vestido faltando um pedaço)

– Quando as coisas irão melhorar?
Dizia o pai:
– Breve...

12.12.08

Sem teoria

Na sala de estar: uma cadeira, alguns livros, objetos de porcelana
A TV exibe imagens desgastadas
Não sei se padeço de algum mal
Porção de tempo

20.11.08

As horas que separam a noite da entrevista
O lugar mais confortável
A escrita?

14.11.08

[Ritornelo]

Começar com gestos repetitivos

Abrir mais de uma vez a porta antes de sair de casa

[ver se a chave do gás está virada,
se o ferro está desligado]

Abrir mais uma vez a casa

12.11.08

Pergunta não feita a Carlos Alberto Prates Correia

Em Cabaré Mineiro, após a canção enlevada pelo personagem anônimo de Nelson Dantas e a bela jovem, cena que nos encanta pela delicadeza do gesto amoroso, a onça-mulher é morta pelo personagem em seguida.
Medo ou amor de morte?

18.10.08

dos encontros não programados*

Morrer em Dionísio
Renascer em Pessoa
É de Bethânia o canto atravessado no amor

você está na noite
jamais pegará o telefone
e ligará para ela

mas não deixará de ler jornais

-----
*para kk, joão e rafa

17.10.08

dos desejos dos poetas

O poema, também uma espécie de traição?
Quantos escritos não postados
Em umas poucas palavras poderia lhe revelar o mundo
(amor)

sentimentos não se escondem numa gaveta
(falsa impressão)

Do portão ao quarto,
sete, oito lances de escada
Menino dos olhos
(floresta)

incapacidade do corpo:
magoar quem não mereça

5.10.08

Notas para uma biografia s/d

Jogaram suas valises no trem
Partiram pouco antes do galo cantar
Para o Rio de Janeiro
Nicolau e seu pai almoçam no vagão restaurante ao meio-dia em ponto
A passagem pela capital mineira será lembrada em encontros banais
Lufada nas pestanas
A comida sacolejando no estômago

4.10.08

Notas de Nicolau Paropas

seja paciente com os vaidosos
deixe que inflem o ego
permita-lhes dizer mais do que deveriam
que haja surdina!
conquistarás o mundo

28.9.08

O dia depois do dia

Amor mal curado se resolve na ressaca
No diálogo com o vaso sanitário,
percebe-se a potência do corpo
A tentativa desesperadora de retificar a merda de uma embriaguez

24.9.08

À maneira de Nicolau Paropas

Os poemas falam a dor, a desonra, a desforra
Também as cabrochas, o desespero, o amor
Um jovem, um tiro, três décadas atrás
No guión, propostas indecorosas
Durante semanas, o peso do tempo
Sorriso a derreter os dentes
Morte, engano

Sentados à mesa
– Prato de sopa, água, pão, azeite para regar