31.8.13
É certo que são ovelhas e não uma cabra caída sobre os seixos. No fundo, um pastor e dois cachorros que quase não podem ser vistos. As montanhas nos levam à praia, onde um homem contempla o infinito, enquanto uma criança nos atravessa com o olhar. Ulisses provavelmente nunca esteve nos vales de Andorra*, embora próximos do mediterrâneo, mas isso não impede que este pequeno cartão, que se passa em Porto de Envalira, nos conecte, por aproximação ou contraste, a criaturas naturais e fantásticas como o cordeiro de Deus e a cabra mitológica de Agnès Varda.
*O sexto menor país da Europa, localizado entre o nordeste da Espanha e o sudoeste da França | língua oficial: catalão.
24.8.13
O último leitor
Ao se lembrar de uma fotografia de Guevara lendo em cima de uma árvore, condensando aqui o silêncio e o isolamento, mas também a vigília, Ricardo Piglia diz: “a leitura permanece como um resto do passado, em meio à experiência da ação pura, do desprovimento e da violência, na guerrilha, na montanha”. Depois do Duelo, no Bordello, estava lá Guevara, numa prateleira, entre o gin e a vodka.
(para Manoel)
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Ao se lembrar de uma fotografia de Guevara lendo em cima de uma árvore, condensando aqui o silêncio e o isolamento, mas também a vigília, Ricardo Piglia diz: “a leitura permanece como um resto do passado, em meio à experiência da ação pura, do desprovimento e da violência, na guerrilha, na montanha”. Depois do Duelo, no Bordello, estava lá Guevara, numa prateleira, entre o gin e a vodka.
(para Manoel)
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11.8.13
Qual o destino de um poema? Um filme em processo. Descubro uma cena de confraternização após o término das filmagens num edifício da Avenida da Liberdade. Lisboa, julho de 2012. Separados agora pelo mar, envio uma carta do Brasil para Portugal, lembrando os amigos que ficaram lá. Cito: Ana Martins Marques, Al Berto, Hilda Hilst, Júlia de Carvalho Hansen, para dar conta de uma saudade impronunciável. Os textos se misturam, falam de casas, resistência política, amor, ausência e escrita. A poesia que há nas ruas e se dissolve na concha da língua. O destino? Francisca Manuel, Daniel Ribao, Carolina Fenati, Priscila Amoni, Eduardo Fonseca, Bernardo Rb, Julia Hansen, Mira, Marta Viegas e António Poppe. Também aos queridos que passaram por lá. A quem mais esta carta possa chegar. Morei tão pequeno e fui feliz nas Escadinhas de São Crispim.
Realização: Glaura Cardoso Vale e Francisca Manuel
Agradecimento especial a Samuel Marotta e Roberto Bellini, pelas dicas e incentivo.
19.4.13
há muito não escrevo um poema
para
revelar o que sinto
dizer, ao pousar a cabeça no seu ombro,
que sonho o infinito
lá não há dor, nem tormento
apenas sono profundo
hoje vi o dia amanhecer no seu quarto
olhei você dormindo
todas às vezes que o encontro sem hora e lugar
meu corpo estremece
tenho vontade de lhe abraçar
mas hesito
não sabendo o que dizer
escondo-me nas conversas alheias
porque uma insegurança se instala
como o amor cravado na pedra
dizer, ao pousar a cabeça no seu ombro,
que sonho o infinito
lá não há dor, nem tormento
apenas sono profundo
hoje vi o dia amanhecer no seu quarto
olhei você dormindo
todas às vezes que o encontro sem hora e lugar
meu corpo estremece
tenho vontade de lhe abraçar
mas hesito
não sabendo o que dizer
escondo-me nas conversas alheias
porque uma insegurança se instala
como o amor cravado na pedra
3.12.12
como nasce um poema*
Pela fresta da janela
atravessa um galho
enquanto você
sonha árvores
Sobre o seu corpo
calo o meu corpo
e na sua boca
deito a minha boca
Permita em seu sonho
que eu adentre inteira
como esta luz
que invade o quarto
*enquanto dormia,
a sombra das árvores
acariciava a parede branca
26.10.12
17.10.12
Caros amigos e leitores,
depois de 8 anos de escrita quase diária tirei temporariamente o Tempestade do ar. Ruptura necessária para renovar este espaço de publicação e começar a preparação do livro que deverá vir após a defesa da tese.
Por isso o acesso agora está restrito.
Muito obrigada por sempre.
Um beijo,
Glaura.
depois de 8 anos de escrita quase diária tirei temporariamente o Tempestade do ar. Ruptura necessária para renovar este espaço de publicação e começar a preparação do livro que deverá vir após a defesa da tese.
Por isso o acesso agora está restrito.
Muito obrigada por sempre.
Um beijo,
Glaura.
7.10.12
Sicília
olhos brilhantes
largo sorriso
um, dois, três
sempre morre um amigo
envolvida pelo Mediterrâneo
ilha que vê os homens agora chorarem
a tragédia de outros homens
cantam os poetas
luto e dor
luto e dor
(para a Brisa que hoje lembrou de um dia em que tudo era ainda o começo
e havia muita vida)
20.9.12
6.9.12
31.8.12
30.8.12
21.8.12
19.8.12
14.8.12
29.7.12
Adraga
Quantas promessas em frente ao mar?
Tantos pedidos ainda por fazer
A impossibilidade de amar apenas um
Embora, quando me possui em seu quarto,
Faço-me inteiramente sua
Apenas sua
Em frente ao mar das promessas
Vejo que em mim habita
Sentimentos capazes de mover meu espírito
E nesse mar gelado
Busco mais uma vez
O seu corpo sobre o meu
6.7.12
1.7.12
Saudação do Anjo
vejo ao longe um rio
que corre entre montanhas
duas mulheres e uma criança
o
vento abre minhas asas
com tal força
que me leva para um lugar distante
com tal força
que me leva para um lugar distante
não
posso voltar,
banhar nessas águas
e acariciar sua face
banhar nessas águas
e acariciar sua face
vou
de costas para o futuro
para lembrar dessa imagem
que o tempo tornará fragmento
para lembrar dessa imagem
que o tempo tornará fragmento
meus
grandes olhos
que sempre viram ruínas
agora veem a paisagem
que sempre viram ruínas
agora veem a paisagem
pintada
à mão
num prato
num prato
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