28.8.09

Tempo de embriaguez

Olha a voz que me resta, minha alegria
O coração
Um pote até aqui de mágoa
A gota que falta, meu coração,
Não

10.8.09

Uísque

quantos copos eu ainda hei-de beber?
se caminho assim desgovernada
e a você posto versos de outrora
ah! quanta lida
quanto amor pelos livros que ora devoro

descubro tardiamente fragmentos de um passado inconfesso
o tempo desperdiçando as horas
queria dizer, mas não tenho boca
meus olhos aguardam os seus
o dia a clarear os lençóis
a você trago uma rosa

6.8.09

El paseo*

A esta altura
a vagar pela cidade
Sem nenhum entendimento
Não dando conta do valor que aos poucos se agrega à vida
Sem saber se o dinheiro chega ao fim do mês
Sem compreender de fato os procedimentos teóricos que me cercam
Achando tudo um grande engodo
Forçando para que faça algum sentido

Ao passo
Tortura a escrita
Por não ter algo que valha tanto a pena

Enquanto aqui caminho
Dispersando palavras
E a ti vejo longe, como uma pintura antiga
A parede do meu quarto perdendo o tom azul
Os sonhos de outrora
Uma estante sem graça
E uns restos de poemas mal passados a limpo

Cortázar caminha por Paris
Olha Paris
Erraticamente descobre fragmentos
Corpos que passeiam,
A música que se faz ouvir,
O sorriso da bela jovem no café de Montparnasse

Eu aqui neste meu horizonte limitado
Ah! Cortázar
Entre as montanhas a me sufocar os versos
O vinho a descer goela abaixo
A ouvir Coltrane

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* para meu editor

25.5.09

Hilda*

Que seja alcoólatra e desbocada como HH
Mas que não falte a beleza
Dos amantes...
Ah! Como soube, com o mais puro gesto
Versos impagáveis

Que dela herde a escrita eloqüente
A pura lucidez e franqueza

Merda!

Depois o gozo

Desapontá-la talvez
Chamaste de parnasianas as poetisas
Então, infeliz da personagem inventada?
Acreditar no amor, nos pássaros, no vento
Melhor para a poesia destes tempos


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*para Viola

17.5.09

regozijo

No corpo a inscrição do nome
A faca a atravessar a carne
Em estado febril não se distingue sonho de realidade
O suor a molhar os lençóis

4.5.09

ao ler Michel Foucault

O que me conecta ao amolador de facas?
Seu chamado ritmado
Som a cortar o ar
O código a ser decifrado
O fato de ter facas?

Fou-cault

12.4.09

Uma canção para José Luis Braga*

O seu canto é tão bonito
que a manhã chegou
com o sol na minha janela

O seu canto é tão bonito
que o vento trouxe
o amor, então, não se acabou

O seu canto é tão bonito
que a hora chegou
e é hora de levantar

O seu canto é tão bonito
que atravessou o dia
e já é noite pra descansar

Seu olhar é tão bonito
que encanta meus sonhos
E sonho mais uma vez com sua voz

A tocar os dias
toda manhã

é de manhã
...

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* José Luis Braga é integrante do grupo graveola e o lixo polifônico – música que inspira o cotidiano da poetisa. Esta canção ou poema é um presente de aniversário para o Zélu.

28.3.09

António Reis e Margarida Cordeiro*

A poesia que imprime o cotidiano
se faz carne
Não lubrificar as dobradiças
Primeira regra do poeta

A tábua a ranger
emite um som familiar
Janelas a bater com o vento
Passos em volta

Casas velhas, empoeiradas,
o mofo a corroer os lençóis
Poeira fina cobrindo a cômoda

A esta hora da noite
nem querosene, nem velas

Separa as partes rente ao osso
Pão, vinho, e um pouco de mel
No preparo do jantar

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* Para Ribão, para Nica, por uma proposta cinematográfica

23.3.09

Quantos poemas endereçados a você haverei de escrever
E nunca se dará conta disso
A não ser que alguém o diga
E eu negue eternamente

16.3.09

Lisboa

Saudades de estar no estrangeiro,
onde não é necessário explicar tudo.

2.3.09

POR ENTRE AS FRESTAS*

No pátio de um convento, uma freira surge por trás de uma porta, emerge do fundo da imagem, caminha e toca o sino.
No plano seguinte, o longo corredor tem suas portas abertas, uma a uma, sob o repique do sino no fora-de-campo, sob o som dos passos das freiras.
'Ave Maria', diz a personagem como quem saúda o nascer do dia, o nascer da luz que se imprime no anteparo sensível do cinematógrafo.
Quando as portas se abriam ao tempo, o som já habitava o fora-de-campo.**


O trecho acima se refere a um filme do cineasta francês Robert Bresson, mas poderia ser um excerto de romance.

Um romance no qual a linguagem cinematográfica já faria parte do vocabulário do leitor e as imagens textuais dialogariam entre si à maneira do cinema.

Não quero com isso confundir as duas experiências.

Apenas lembrar que CINEMA e LITERATURA conversam,

por solicitação, por empréstimo (GODARD).

Ninguém irá discordar que há um aspecto formal na obra de alguns cineastas atravessado pela escrita. Como a espada no peito de Píramo a tingir de vermelho as amoras.
Como o instante da dor (que não cessa) ao ver/não ver o amor dilacerado pelos leões.

Amores impossíveis.
Cheiro de gás (CHANTAL).
Uma mulher sobe até o terraço e vê o corpo pender.
Outra lamenta seu amigo.

BALTHAZAR, BALTHAZAR

Rigor e silêncio.


Ler é ler.
Há quem acredite no saber enciclopédico. Já os amantes da conversa ao vento passariam anos com apenas um trecho de romance no bolso, ruminando-o, imprimindo ambiguidade no silêncio. 

A espada, o sangue, o tempo das amoras.

Imagens a se dissolverem no instante em que se abandona o livro.
Imagens a fixar em nós uma experiência indecifrável. Quando indeléveis.
Imagens frágeis como os mortais.

Em tempos de guerra, onde andará a ternura?
A incomunicabilidade a produzir fins trágicos.

Sagas, odes, trovas, cantigas, escárnio, fingimento
Há quanto tempo não dormimos?

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*para Pedrinho, cujo trabalho me inspirou o dia
**Pedro Aspahan, “Entre a escuta e a visão: o lugar do espectador na obra de Robert Bresson” (2008).

5.2.09

Ao menos uma vez

No cair da tarde
A luz incide um verde oliva
Incrivelmente posso tocar a cor
Mas não posso descrevê-la

1.2.09

daqui sai um poema, quem sabe?
carregado de afetos
mas o livro que me aguarda,
tem opinião contrária

30.1.09

Das inseguranças do poeta
Já disse um dia o catador
Três palavras incompletas
O amor desta vez não dá

9.1.09

Chuva de temporada*

Meu doce amigo
Estamos aqui,
Eu e você,
Embriagados nesta noite
Sem perspectiva de mudar o tempo
Distribuindo baldes pela casa

- Mas o calor não tarda
- É... Amanhã fará sol
- Com cerveja


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*Para o Rafa e o Grave

5.1.09

Do cotidiano da entomologista

O cotidiano que o anônimo julga interessante pode ser simples e patético.
Então, resta sorrir entre parênteses?
Assim quando se acorda depois de uma noite sem pesadelos.
O cotidiano pode ser leve ou árduo,
como o amor ou a escrita.

Passando dias sem arrancar um verso, uma frase que seja, a poetisa levanta as têmporas diante do espelho.

- Merda!

Metáforas são fáceis.
Deliberá-las sem trava, crê, não é tarefa da poesia deste tempo.

Mas que tempo é este?

Muitas vespas a invadir a casa nesta noite.
Depois das chuvas que alagam ruas e avenidas,
o sono a despencar as pálpebras,
pura lama.

Jargão e superficialidade
O cotidiano dos jornais e suas tendências
Um rio que volta a transbordar
Um corpo, seis tiros, o caso arquivado
A faixa dividida em três ou mais
Dez dias de conflito, mais de 500 mortos, milhares de feridos
Um time de juniores vence um de seus adversários
E um ator estrangeiro às voltas no Rio de Janeiro