31.8.12


leio um livro 

cartas de guerra

cochilo por um segundo na rede 

enquanto balança


o sol queima o rosto

neste despertar da manhã


penso nos afazeres da casa

no rio em você

30.8.12

sendo sua nesta noite 

em que a lua permanece cheia

você vem e adentra inteiro


mergulha em água corrente

buscando abrigo

no meu peito


minha língua percorrendo sua boca

encontra suavidade juventude 

sem abandono


meu corpo espera

a cama o espera

o quarto preparado para os dois



(para você, meu segredo)

21.8.12

levanto liberta luz

vontade de poesia

sentimento fecundo

que em mim habita  


palavras como ventania

buscando a imagem mais uma vez do rio


ah o rio 

atravessa nosso espírito

águas cheias de saudade

amor e sal

19.8.12


Condenada a viver em nostalgia

Permaneço na cama que o recebe

Penso enquanto leio

O bicho se levantando do assoalho

Comendo restos sobre um jornal

Na noite que atravessa insone

O silêncio do dia que não vem



14.8.12

guarani dorme sono tranquilo 
na cama de amar quem queira amor
sonha o poeta
se tornando parte dele
guarani deita a saliva na concha da língua
tudo que sonha o sonhador 


29.7.12



Adraga


Quantas promessas em frente ao mar?

Tantos pedidos ainda por fazer

A impossibilidade de amar apenas um

Embora, quando me possui em seu quarto,

Faço-me inteiramente sua

Apenas sua



Em frente ao mar das promessas

Vejo que em mim habita

Sentimentos capazes de mover meu espírito

E nesse mar gelado 

Busco mais uma vez 

O seu corpo sobre o meu 

6.7.12

sobre quando nasci morri
o gosto líquido denso na garganta
ainda hoje sonho sufocar o ventre
à espera da manhã seguinte 
depois da nossa pequena morte 



1.7.12


Saudação do Anjo

vejo ao longe um rio
que corre entre montanhas
duas mulheres e uma criança

o vento abre minhas asas
com tal força
que me leva para um lugar distante

não posso voltar,
banhar nessas águas
e acariciar sua face

vou de costas para o futuro
para lembrar dessa imagem
que o tempo tornará fragmento

meus grandes olhos
que sempre viram ruínas
agora veem a paisagem

pintada à mão
num prato



25.6.12

Na sua maneira de olhar por dentro 
vejo embarcações 
o sol iluminar a morte
como se houvesse luz nas trevas

Alguns não regressaram
do mergulho em águas turvas
o mar a roncar, a roncar 
perturbando o sonho

Mas você, marinheiro,
voltou abraçado à noite
trazendo os peixes do mar
e uma flor para coroar Iemanjá





23.6.12

marinheiro bonito
que a sereia do mar levou
dorme sono tranquilo



peixe 
olhou sem olhar
o marinheiro no colo de Iemanjá


oxalá Deus permita
que seu beijo na minha boca
dure uma vida 




8.6.12


és belo homem e poeta 

ela todo amor  
flor pássaro mulher água
sua índia guarani
que em seu ombro repousa  
e lambe a sua boca
mel ardor

vem, amor guarani
tocar o ventre que acolhe e deseja
vem
não demora

entre o nascer e o morrer
está o tempo
a árvore silêncio agora

30.5.12


o olho do poeta


assim como o rio
que reflete nossa alma
sua luz atravessa meu corpo 
e alcança o espírito
transformando tempestade em calmaria


outro dia me vi refletida em seus olhos
sou pássaro 
e não sabia




26.5.12


Aeroporto

um casal joga dados na bandeja de plástico
há duas horas disputam números
tento ler e o barulho entorpece a leitura

uma família de portugueses está para partir de Angola
junto a outras tantas
para se abrigar num hotel nas proximidades de Lisboa
o país aguarda a independência 
um jipe chega à porta
o cão late
o filho desmaia
levam o pai

os dados batem sobre a bandeja plástica
entediados, o casal e eu
o som se dispersa 

agora vozes de mulheres ganham autonomia
misturadas as do casal
que volta a jogar os dados na bandeja

os aviões decolam
e o som do aeroporto forma uma massa
que atravessa mais uma vez a leitura 

o pai teria morrido?
– não, minha senhora, 
estou apenas dizendo as regras do hotel
sinto muito,
terão que dividir o mesmo quarto
veja bem,
tem a sorte de estar neste hotel
um dos melhores
cinco estrelas! – 
o pai há-de chegar

penso na casa,
nos livros empilhados, 
no texto a ser escrito

pessoas passam
voltam a passar
o casal foi embora

olho ao redor
café, água, rebuçados nas bandejas 
continuo a leitura 

aeroporto

lance de dados que abole o acaso
impróprio para a poesia
cenário ideal para o aborrecimento

14.5.12



Sr. G. Huberman 


eles gritam
gritam como se fossem dizer: terra à vista!
gritam ao pé da minha janela 
encerrando mais um dia de trabalho 


tenho sono
uma pilha de livros para ler
xícaras de café se acumulam na pia 
penso em você


como seria bom 
se chegasse uma mensagem 
e pudesse descer as escadinhas
deixando ecoar os gritos que ditam o fim do expediente  


eles olham ao redor 
conferem pela última vez se está tudo no lugar 
e se despedem sorrindo 
como em todas as tardes

11.5.12



um velho deitado sobre o rio


lá ao fundo está o rio
como pintura fotocopiada
o céu se impõe perante a ruína 
e modifica o dia


o frio se aproxima da noite
quando a chuva finalmente lava as escadinhas
nada como ver emoldurado
o velho sobre o rio


da janela de onde se vê 
um velho sobre a cama 
guardando para si
aquilo que não há de ser dito





7.5.12

venho pra cama e não consigo dormir
as costas doem
queimam como fogo 


o peso da escrita


os livros conversam comigo
procuro por um poema
que possa narrar esta noite 
em que corremos perigo 

19.4.12

Noite infinita 


terminado um livro
já não há mais o passado
o que há em mim hoje se traduz
na escadaria que liga o Castelo à Sé de Lisboa
uma luz indescritível invade a casa
atravessando as frestas da janela
o amante veio me visitar 
e foi embora
para não mais voltar



16.4.12

Lisboa


Aqui o frio corta como lâmina
Os dedos já não respondem ao apelo do lápis
Todo o corpo treme
Dizem que é quase verão
Se vier na mesma intensidade
Estaremos todos fritos
Como sardinhas na chapa