28.7.14

Mirada #2

tenho admirado ações mínimas. microscópicas. a recusa por protagonismos.

nem mesmo o Lobo da Estepe estava certo da sua relação com a vida burguesa mantida pela classe intelectual de sua época, ora alimentando-a da sua escrita, ora nutrindo-se dela: teatro, cinema, bons livros.
 
“...a força vital da burguesia não se apoia de maneira alguma nas particularidades de seus membros normais, porém nas dos extraordinários e numerosos outsiders, que, em consequência, a querem rodear com a vaga indecisão e a elasticidade de seus ideais. Convive sempre na burguesia uma grande multidão de naturezas fortes e selvagens. Nosso Lobo da Estepe, Harry, é um exemplo característico”. 

depois que perdi o pai, a vida ficou menor. é verdade. volto para a rua ainda por ser asfaltada. o velho corcel cuja bateria estava sempre arriada. para os pés da minha mãe na terra vermelha. para um tempo em que os irmãos se escondiam no telhado. para um quintal com bananeiras.

lembrei das lições de física, quando o professor abria aos poucos o mapa do universo. a terra, o sistema solar, a galáxia. ao final disse: "vocês... menos que um grão de areia". saí com o mapa na cabeça. entendi que a galáxia era desejar tudo. queria ter sido artista e caí no curso de Letras.

das aulas de mitologia, veio o mito de Narciso e o perigo de se apaixonar por si mesmo.

difícil remexer pastas e arquivos do meu pai. pastas que se misturam às minhas. o antigo quarto. a velha estante. memórias recapeadas no presente.

o que sobrará do meu pai quando partirmos? de mim, de você?

ontem, reencontrei as lições de latim:

"reformido arma quae vulnerant, lupos qui ululant, malos homines a quibus uirtus impugnatur". 

Ele [o Lobo], que se desenvolveu muito mais do que se espera de um burguês, ele [o Lobo], que conhece as delícias da meditação e também as sombrias alegrias do ódio e do ódio contra si mesmo, ele [o Lobo], que despreza a lei, a virtude, o senso comum, é, no entanto, um prisioneiro forçado da burguesia, e não pode escapar a ela. E, assim, em torno do núcleo da burguesia se sobrepõem amplas camadas de humanidade, muitos milhares de vidas e inteligências, cada uma das quais surgida certamente da burguesia e disposta a uma vida sem reservas, mas que continua dependente da burguesia por sentimentos infantis e um tanto contagiada em sua debilidade pela intensidade vital; embora desterradas da burguesia, continuam de certo modo pertencendo a ela, obrigadas a ela e a seu serviço, pois à burguesia assenta perfeitamente o contrário da máxima do Grande: "Quem não está contra mim, está comigo". 

“Temo as armas que ferem, os lobos que uivam...”


22.7.14

contra o estado de polícia

o corpo grita

um antídoto para o desamor:

corra, dance, resista 





Cena do filme Mauvais Sang (1986), de Leos Carax,
com Denis Lavant

26.6.14


Cacilda&Walmor

“Estragão: Vamos embora!
Vladimir: A gente não pode.
Estragão: Por que?
Vladimir: Estamos esperando Godot.
Estragão: É mesmo.”

("Esperando Godot", Samuel Beckett)

“Todas as tentativas de separar-se fracassaram, em face da exigência que um tem do outro. Juntos, os dois podem esperar interminavelmente. O homem precisa do irmão, condenado que está a viver. E essa pungente fraternidade é a vitória sobre o nada."

(Sábato Magaldi)
























foto retirada da web, autoria não encontrada

11.6.14

CECÍLIA MEIRELES - da estante de livros da casa dos meus pais. a primeira poeta que eu li.   


A poeta foi um dia 
Como aqueles que se foram e outros que irão
Ela, que cantou uma canção da tarde no campo, 
estrada depois de estrada, 
Falou em cercas de flores, palmeiras,
serra azul, água calada.

Como a poeta,
andando sozinhos,
por cima de pedras,
atravessando vales e bosques,
buscamos aquela tarde
em que ainda sentávamos juntos.

E de tanto olhar para longe,
não vendo o que se passa perto,
nosso peito tornado também puro deserto
Subir morro, descer em seguida.
Caminhando sozinhos ao longo da noite,
buscando a estrela que foi da poeta, agora sendo nossa, um dia.



22.5.14

preciso de um par de tênis para caminhada
de um vidro com o perfume que acabou
de uma luva e ferramentas de jardinagem
de terra e de vasos para plantar
preciso das palavras e das imagens contidas nelas
recortar fotografias
varrer o chão


17.5.14

“O cavaleiro da triste figura” é a legenda que acompanha esta fotografia encontrada em uma das pastas de retratos do meu pai.

Ao nos dizer toda a sua vida que morria, “não chegarei aos seus 15, 18 e formatura”, seu Gaivota teve a façanha de enganar a morte, pois sua esposa e filhos viviam com a dúvida se ela de fato viria. Também dizia, em relação aos filhos, “a criação deveria ser como a dos cavalos: quando adultos, correm livres pelos descampados e encontram cada um o seu destino”. Nos últimos dias, porém, não cansou de repetir: “olha, vocês estão viajando muito, se receberem a notícia da minha morte, terão trabalho para voltar”. 

O corpo descansa agora. Dorme e sonha o livro:

“E começou a tocar uma harpa suavissimamente. Ouvindo isto, ficou D. Quixote pasmado, porque logo naquele instante lhe acudiram à memória as infinitas aventuras, semelhantes àquela, de reixas e de jardins, músicas, requebros e desvanecimentos, que lera nos seus livros de cavalaria”.

A alma permanece no vento, no verde das árvores, no canto dos pássaros; e nesta imagem que hoje confirma a sua ausência, como objetos fora do lugar: a bengala, o chapéu, os óculos sobre a escrivaninha.




11.5.14

O voo do seu Gaivota,  meu pai

Meu pai tem agora as mãos sobre o peito 
Dorme um sono profundo e não quer que o acordemos
Deixou um livro na cabeceira: "As minas do rei Salomão"
Sentei ao seu lado, abri outro livro que o acompanhava e li alguma poesia do Drummond

*a casa sempre esteve em construção



19.4.14

Havia visto apenas um trecho de "Juventude" (1951), do Bergman, assistido hoje na Mostra dedicada ao diretor no Cine Humberto Mauro. Sempre que pensava em Bergman, vinha uma atmosfera estanha, ligada ao silêncio e ao invisível da morte. Alguns detalhes me chamavam a atenção: a presença dos relógios, a caixa de costura e a reincidência do gesto de coser uma peça de roupa ou pregar um botão, assoalhos de madeira que rangem um som defunto, rostos recortados, bocas silenciosas e a se silenciarem, poucas lágrimas... Recentemente, alguns filmes me trouxeram com mais intensidade o mar, o céu, o vento, o canto dos pássaros... a luz refletida na água como purpurina. Também: as carruagens de circo e a decadência de uma arte em vias de desaparecer, o Bergman dos comerciais de TV, do documentário, a câmera voltada para os bastidores das filmagens, para o retrato da mãe, para os primeiros passos do seu filho Daniel. 

O trecho que um amigo havia me mostrado corresponde ao momento em que Maria e Henrik começam a desenhar sobre a capa de um disquinho e os desenhos ganham vida, possível homenagem ao cinema de animação, compondo um pequeno teatrinho que narra a história desse jovem casal. Embora tenha me emocionado em vários de seus filmes, não me recordo de ter os olhos cheios de água como hoje, depois do salto de Henrik. Para Godard, “o filme mais bonito de Bergman”. De arrebatar, sem dúvida. Talvez porque "o desenho não é a forma, é a maneira de ver a forma". Resta uma aproximação entre duas imagens que já deve ter sido feita por algum estudioso do seu cinema: a bailarina de Degas e Maria de Bergman, em “Juventude”.

20.3.14

A releitura de um texto do antropólogo e cineasta Ruben Caixeta, "Jean Rouch: o sonho mais forte que a morte" (revista Devires v.2, n. 1, 2004), me levou ao filme "A pirâmide humana" de 1961, em que o tema do racismo é mais uma vez abordado por Rouch. O cineasta convida alguns alunos de um colégio na cidade Abidjan (Costa do Marfim), no contexto da independência africana, para examinar o que pode ser a relação entre brancos e negros através da realização de um filme, numa tentativa de mostrar o que “pode ser daqui pra frente”. Cito: “nesse projeto revela-se tanto uma postura política do autor quanto uma estética do documentário: se quisermos olhar para a realidade, temos que olhar para a frente, onde ela se encontra, não somente para o mundo das coisas ‘dadas’ ou ‘construídas’, mas para o mundo da imaginação e do invisível”. Creio que os corpos dançantes desses jovens, impressos pela câmera de Rouch, talvez falem de uma imaginação agora um tanto perdida, em tempos de dilaceramento de corpos que antes dançavam, e do invisível que só no instante da morte deve ser compreendido.

Scène de danse, La Pyramide Humaine:





7.3.14

O avião cortando as nuvens
Tive uma ideia
Não uma ideia justa
Mas justo uma ideia
Nessa tela de projeção que é o céu,
as nuvens,
recortes de branco e cinza,
3D?

Vejo a ideia.
Daí abro o livro* que me acompanha: 

- “Ensaiar para ver, ‘ver não isto ou aquilo, mas somente ver se há algo a ver’”; 

- “Decompor para reencontrar a força do ver, para transformar de novo o ato de olhar num acontecimento, para ver se ainda conseguimos construir o sentido com as imagens”;

Pois voar para mim sempre foi uma aventura: 

- Câmera lenta/ efeito pintura:  “trata-se também de diminuir a velocidade como se pilota um avião, no olho”.

Na tela imaginária, pensei: se o avião cair, por motivo técnico ou um urubu preso à turbina, desacelero a velocidade do corpo em queda com/no pensamento? Perdi o medo da queda, o risco que nos acompanha, todos juntos ao mesmo tempo agora.

Da boca (e não mais da pedra) brota uma flor. As imagens se fundem, contundem e se dissolvem como ideias-nuvens. 



*citações de Philippe Dubois sobre Godard. 



para César e Oswaldo
para Carla e Raquel  
para o Leo e alunos



1.2.14

O avô era fotógrafo amador. Fazia as pessoas posarem em cenários improvisados. O motivo desta foto é a sua famosa lambreta. Não conheci o vô Benedito, mas dizem que fora querido e muito amado. Nesta imagem, sua sobrinha Thereza e o sobrinho-neto Marco.


14.1.14


nas tardes das nossas vidas
enquanto você teoriza 
faço versos 

quando a noite se aproxima
com o cair das tardes das nossas vidas
sentamos no jardim

você me dá seus pensamentos
e eu
meu coração 

(para Manoel)




3.11.13


se no deserto de nossas vidas
quando nos encontrarmos 
flores para enfeitar os dias
como nesta manhã que anuncia a sua chegada  


















imagem retirada da web sem autoria 
 

20.10.13


adoeci
e minha mãe repousa ao lado
em meio à agitação da rua: cães,  passos, motocicleta, foguete, tiro?
penso nos corpos  quando se encontram
no momento em que tomam consciência de estarem juntos
nos amores que se foram prematuros
na prima que pulou dos arcos de um viaduto,
no centro de Belo Horizonte

no quão esquecemos do outro
por displicência 
ou mera infidelidade
na estupidez desse morrer de amor

penso na pulseira que veio da Turquia
nesta pedra verde que imita esmeralda
a segunda pedra mais forte,
perdendo para o diamante
no quanto ainda hei de viver para envolvê-la no pulso
pergunto: um amor na amizade pode ser mais duro do que a morte?

tudo isso enquanto minha mãe repousa ao lado
eu convalescente
ela dormindo o sono dos justos




11.9.13


poema para um bom dia



Acordei sem você e achei estranho


Entre a cama e o chão não havia uma escada

Nem uma janela que mira outras janelas e o infinito

A sensação do voo, o perigo

Sem caixas ou arquivos do seu mundo de curiosidades

Apenas o som do trem que leva minério para a China


e dos pássaros no quintal

que insistem cantar o amor 

o mesmo que agora adentra 

todos os cômodos da casa 




1.9.13


Prelúdio de Curitiba



Como se aqui estivesse

sinto a sua mão sobre o meu corpo

imaginando a minha mão sobre o seu



Como se aqui estivesse

envolvo-me em seus abraços

entregando-me sem restrição



Como se aqui estivesse

comigo neste quarto escuro

ponho-me a beijar seu rosto

e adormeço no seu ombro

depois de me possuir



Adormecendo os dois

desse cansaço dos corpos e da escrita

nada igual a outro tempo

partimos então do início 

como se aqui estivesse


31.8.13



É certo que são ovelhas e não uma cabra caída sobre os seixos. No fundo, um pastor e dois cachorros que quase não podem ser vistos. As montanhas nos levam à praia, onde um homem contempla o infinito, enquanto uma criança nos atravessa com o olhar. Ulisses provavelmente nunca esteve nos vales de Andorra*, embora próximos do mediterrâneo, mas isso não impede que este pequeno cartão, que se passa em Porto de Envalira, nos conecte, por aproximação ou contraste, criaturas naturais e fantásticas como o cordeiro de Deus e a cabra mitológica de Agnès Varda. 



























*O sexto menor país da Europa, localizado entre o nordeste da Espanha e o sudoeste da França | língua oficial: catalão. 

24.8.13

O último leitor 

Ao se lembrar de uma fotografia de Guevara lendo em cima de uma árvore, condensando aqui o silêncio e o isolamento, mas também a vigília, Ricardo Piglia diz: “a leitura permanece como um resto do passado, em meio à experiência da ação pura, do desprovimento e da violência, na guerrilha, na montanha”. Depois do Duelo, no Bordello, estava lá Guevara, numa prateleira, entre o gin e a vodka. 


(para Manoel)



11.8.13





Qual o destino de um poema? Um filme em processo. Descubro uma cena de confraternização após o término das filmagens num edifício da Avenida da Liberdade. Lisboa, julho de 2012. Separados agora pelo mar, envio uma carta do Brasil para Portugal, lembrando os amigos que ficaram lá. Cito: Ana Martins Marques, Al Berto, Hilda Hilst, Júlia de Carvalho Hansen, para dar conta de uma saudade impronunciável. Os textos se misturam, falam de casas, resistência política, amor, ausência e escrita. A poesia que há nas ruas e se dissolve na concha da língua. O destino? Francisca Manuel, Daniel Ribao, Carolina Fenati, Priscila Amoni, Eduardo Fonseca, Bernardo Rb, Julia Hansen, Mira, Marta Viegas e António Poppe. Também aos queridos que passaram por lá. A quem mais esta carta possa chegar. Morei tão pequeno e fui feliz nas Escadinhas de São Crispim. 

Realização: Glaura Cardoso Vale e Francisca Manuel

Agradecimento especial a Samuel Marotta e Roberto Bellini, pelas dicas e incentivo.