tenho
admirado ações mínimas. microscópicas. a recusa por protagonismos.
nem mesmo
o Lobo da Estepe estava certo da sua relação com a vida burguesa mantida pela classe intelectual de sua época, ora
alimentando-a da sua escrita, ora nutrindo-se dela: teatro, cinema, bons
livros.
“...a força vital da burguesia não se apoia de
maneira alguma nas particularidades de seus membros normais, porém nas dos
extraordinários e numerosos outsiders, que, em consequência, a querem rodear
com a vaga indecisão e a elasticidade de seus ideais. Convive sempre na burguesia
uma grande multidão de naturezas fortes e selvagens. Nosso Lobo da Estepe, Harry,
é um exemplo característico”.
depois
que perdi o pai, a vida ficou menor. é verdade. volto para a rua ainda por ser
asfaltada. o velho corcel cuja bateria estava sempre arriada. para os pés da
minha mãe na terra vermelha. para um tempo em que os irmãos se escondiam no
telhado. para um quintal com bananeiras.
lembrei
das lições de física, quando o professor abria aos poucos o mapa do universo. a
terra, o sistema solar, a galáxia. ao final disse: "vocês... menos que um
grão de areia". saí com o mapa na cabeça. entendi que a galáxia era desejar tudo. queria ter sido artista e caí no curso de Letras.
das aulas
de mitologia, veio o mito de Narciso e o perigo de se apaixonar por si mesmo.
difícil
remexer pastas e arquivos do meu pai. pastas que se misturam às minhas. o
antigo quarto. a velha estante. memórias recapeadas no presente.
o que
sobrará do meu pai quando partirmos? de mim, de você?
ontem,
reencontrei as lições de latim:
"reformido
arma quae vulnerant, lupos qui ululant, malos homines a quibus uirtus
impugnatur".
Ele [o Lobo], que se desenvolveu muito mais do que
se espera de um burguês, ele [o Lobo], que conhece as delícias da meditação e
também as sombrias alegrias do ódio e do ódio contra si mesmo, ele [o Lobo],
que despreza a lei, a virtude, o senso comum, é, no entanto, um prisioneiro
forçado da burguesia, e não pode escapar a ela. E, assim, em torno do núcleo da
burguesia se sobrepõem amplas camadas de humanidade, muitos milhares de vidas e
inteligências, cada uma das quais surgida certamente da burguesia e disposta a
uma vida sem reservas, mas que continua dependente da burguesia por sentimentos
infantis e um tanto contagiada em sua debilidade pela intensidade vital; embora
desterradas da burguesia, continuam de certo modo pertencendo a ela, obrigadas
a ela e a seu serviço, pois à burguesia assenta perfeitamente o contrário da
máxima do Grande: "Quem não está contra mim, está comigo".
“Temo as
armas que ferem, os lobos que uivam...”