Gradiva,
aquela que avança, é nome de uma escultura romana e de uma novela de
Wilhelm Jensen. Sobre o personagem arqueólogo, fisgado pela imagem da
jovem esculpida, Freud escreveu "Delírios e sonhos na Gradiva de
Jensen". Mais tarde, Raymonde Carrasco faria um belíssimo filme
intitulado “Gradiva - Esquisse I”. Pouco tempo depois, em
“Tutuguri-Tarahumaras 79”, Raymonde Carrasco e seu companheiro Régis Hébraud
atualizam mais uma vez essa figura, filmando mulheres e homens que
avançam. O resultado disso são cenas belíssimas dos Tarahumara (“os
dos pés ligeiros”), povo milenar do México conhecido por correr, caminhando por terrenos irregulares, por centenas de quilômetros diários. Mars Gradivus.
Os filmes com os Tarahumara nos
chegaram para a mostra Olhar: um ato de resistência, idealizada por
Andrea Tonacci, exibidos em 16mm, durante o forumdoc.bh.2015. Desde
então, estas imagens permaneceram em mim.
Fotograma 1:
Tutuguri-Tarahumaras 79 (1979), filme de Raymonde Carrasco. Fotografia e montagem: Régis Hébraud
Fotograma 2:
Gradiva - Esquisse I (1978), filme de Raymonde Carrasco. Fotografia de
Bruno Nuytten, assistente Dominique Le Rigoleur. Montagem: Anne-France
Lebrun.
Imagem 3:
Gradiva, baixo relevo da primeira metade do século II, detalhe.
25.8.16
8.1.16
Aos domingos, quando lá íamos ao centro da cidade, meu pai passava pela
banca de revistas de um amigo na Praça Sete, comprava o jornal e
figurinhas para o meu álbum. Seguíamos pela Afonso Pena até a igreja São
José. Durante a homilia, eu sabia que ele pensava em seus mortos e
agradecia por estarmos com saúde. De pé, a cena que me vem à mente é de
um semblante muito sério, o olhar compenetrado para frente. Sentado,
tinha os cotovelos apoiados nos joelhos e o rosto coberto pelas mãos. Já
as minhas mãos, elas estavam suficientemente ocupadas com ilustrações e
sonhos para fazer o sinal da cruz. Hoje, sou eu a pensar em meus mortos e agradecer por estarmos com saúde. Ao reencontrar a igreja restaurada, imagino –
com a expressão herdada
– que meu pai se alegraria de vê-la assim.
sequência: Manoel Neto
2.11.15
18.8.15
22.7.15
6.7.15
Antes de dormir, ela sempre se sentava na escada que dava acesso ao quarto
Pensava nas compras que fizera,
nas moedas que sobraram,
na caixa de retratos onde todos os dias as guardava
Hoje ficaram em cima da mesa, o cansaço era enorme
Ao acordar, o dia renovaria os ânimos
A escada, as compras, as moedas, os retratos
Imagem de Francisca Manoel
7.6.15
31.5.15
18.5.15
8.5.15
O
meu pai era contador de um banco do Estado e saía aos fins de semana
dizendo que iria trabalhar. Nessa época, eu andava com minha amiga de
infância na casa da tia dela, nossa vizinha, que nos recebia com bolos,
biscoitos e suco Tang. Seu marido, coronel reformado, sempre
quando me via perguntava: "cadê o seu pai?". Eu respondia que ele havia
ido trabalhar. Então, com seu bigode de coronel e com os cabelos
penteados para trás com vaselina, dizia, em tom baixo, com olhar endereçado: "bancos não abrem aos fins de semana".
Tinha apenas 9 anos e achava tudo aquilo muito estranho. Só mais tarde compreendi que meu pai se apaixonara por uma colega e que não era recíproco, construindo para si um amor platônico. Minha mãe nunca nos disse uma palavra que nos fizesse revoltar contra ele. Quando chegava bêbado, ela o enfrentava com um ferro de passar roupas, fervendo como brasa. Era tão segura de si que, com um cabo de vassoura em punho, separava brigas dos meus irmãos já marmanjos.
Tinha apenas 9 anos e achava tudo aquilo muito estranho. Só mais tarde compreendi que meu pai se apaixonara por uma colega e que não era recíproco, construindo para si um amor platônico. Minha mãe nunca nos disse uma palavra que nos fizesse revoltar contra ele. Quando chegava bêbado, ela o enfrentava com um ferro de passar roupas, fervendo como brasa. Era tão segura de si que, com um cabo de vassoura em punho, separava brigas dos meus irmãos já marmanjos.
De modo que, aos 20 anos, quando fui pedida em
noivado, olhei com desconfiança para o passado, achei deveras curto em
relação ao que o futuro me aguardava. Não aceitei, obviamente, o que
deixou meu primeiro namorado em choque. Sei que hoje está feliz – isso me conforta.
Não
me orientei pela bravura de minha mãe, talvez porque
achei desnecessário passar roupas e cultivar a ideia de ter filhos para
usar
cabos de vassoura. O que já não fazia sentido para quem acabara de
ingressar na Universidade e descoberto Hilda Hilst. Quanto ao
coronel, soube que, na altura de morrer, fez tanta força que lhe saíram
os excrementos.
16.3.15
Poemas de Curitiba II
O lençol azul clarinho no varal
Mas ontem era um velho com lenço azul no pescoço
A casa da pianista visitada
No desencontrar de janelas
É tão antiga quanto o sofrer à toa
Por pequenas queixas no corpo
Ações, bocejos, objetos fora do lugar
Os risos atravessam essas janelas
E adentram cômodos do pensamento
No pequeno apertamento
Vejo o velho, mas não a vejo, pianista
Apenas o canto da cama onde repousa
Sempre coberta por uma manta xadrez
Ela, pianista, o mistério que habita
Tais edifícios no centro da melancólica e triste cidade
Curitiba
O lençol azul clarinho no varal
Mas ontem era um velho com lenço azul no pescoço
A casa da pianista visitada
No desencontrar de janelas
É tão antiga quanto o sofrer à toa
Por pequenas queixas no corpo
Ações, bocejos, objetos fora do lugar
Os risos atravessam essas janelas
E adentram cômodos do pensamento
No pequeno apertamento
Vejo o velho, mas não a vejo, pianista
Apenas o canto da cama onde repousa
Sempre coberta por uma manta xadrez
Ela, pianista, o mistério que habita
Tais edifícios no centro da melancólica e triste cidade
Curitiba
26.12.14
20.12.14
16.12.14
6.12.14
do tempo em que cantávamos e fazíamos poesia
todo mundo junto
da ausência do Oswaldo
da presença pulsante da musa Jupira
evoé!
quem mandou Frederico dizer
que a saudade virou sal da idade
Joyce canta o corpo estendido no chão
que seja somente um cantar e não verdade
que os corpos possam estar de pé ou sentados
dançando ou junto ao balcão
baixa lá no centro
lá o mundo é menor,
mas cabe muita gente
ao invés de virarmos juízes ou candidatos
viremos a mesa
viremos o copo
que Ana quebrou outro dia
e se cortou para não ferir ninguém
todo mundo junto
da ausência do Oswaldo
da presença pulsante da musa Jupira
evoé!
quem mandou Frederico dizer
que a saudade virou sal da idade
Joyce canta o corpo estendido no chão
que seja somente um cantar e não verdade
que os corpos possam estar de pé ou sentados
dançando ou junto ao balcão
baixa lá no centro
lá o mundo é menor,
mas cabe muita gente
ao invés de virarmos juízes ou candidatos
viremos a mesa
viremos o copo
que Ana quebrou outro dia
e se cortou para não ferir ninguém
21.9.14
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