
22.10.06
18.10.06
Antes dos 40
Não se tem como saber se o cara vai dar um artista,
salvo erro se ele for um gênio
e acabar por morrer cedo
de acidente, doença ou suicídio.
Lembrando que muitos morrem prematuramente,
não vingam,
expelidos pelo corpo da mãe
por algum motivo maior do que eles.
Maior ainda será o imenso silêncio.
Talvez aqui,
nesse lugar original,
esteja o cara.
Livre da sua jornada,
ausente de corpo, apelos, certezas,
e memória
- o intervalo que buscamos, ou a agônica saudade de uma feliz existência.
Aos sobreviventes,
resta não saber,
ou achar que se sabe,
vivendo.
A arte é um porrrrrrrrre...
(um bêbado virando a esquina, amparado pelas duas pernas,
em total descompasso).
Existência é mero detalhe, meus chuchus.
salvo erro se ele for um gênio
e acabar por morrer cedo
de acidente, doença ou suicídio.
Lembrando que muitos morrem prematuramente,
não vingam,
expelidos pelo corpo da mãe
por algum motivo maior do que eles.
Maior ainda será o imenso silêncio.
Talvez aqui,
nesse lugar original,
esteja o cara.
Livre da sua jornada,
ausente de corpo, apelos, certezas,
e memória
- o intervalo que buscamos, ou a agônica saudade de uma feliz existência.
Aos sobreviventes,
resta não saber,
ou achar que se sabe,
vivendo.
A arte é um porrrrrrrrre...
(um bêbado virando a esquina, amparado pelas duas pernas,
em total descompasso).
Existência é mero detalhe, meus chuchus.
12.10.06
Alma raiada
Há um sentimento mentiroso dentro da gente,
não arde.
Ficamos a tomar leite da caixa.
Estourar bolhas sobre a língua.
Sentir o ar entrar e sair,
o dente falhar.
Ouço da janela do quarto:
40º graus.
O cobertor está quentinho,
obrigada.
Animais atravessam ruas
entre carros e bicicletas.
(se der ouvidos aos amigos,
ficará como estátua)
Há quem delire com um pouco de febre.
- Saudade das vacas.
não arde.
Ficamos a tomar leite da caixa.
Estourar bolhas sobre a língua.
Sentir o ar entrar e sair,
o dente falhar.
Ouço da janela do quarto:
40º graus.
O cobertor está quentinho,
obrigada.
Animais atravessam ruas
entre carros e bicicletas.
(se der ouvidos aos amigos,
ficará como estátua)
Há quem delire com um pouco de febre.
- Saudade das vacas.
24.9.06
Onomatopoese*
TUM TI TI TUM pode ser apenas uma onomatopéia para o barulho do tambor.
Talvez possamos, com poesia, descobrir o intervalo-imagem que não necessite de letras garrafais para expressar o som desse instrumento que atravessa a infância
(aprendemos a bater com colher o prato).
Talvez essa imagem, ainda por vir, nos faça recordar da brilhante cena em que o BA-TI-TUM do tambor dessincroniza o discurso planejado de Hitler.
Talvez,
para o jovem Oskar,
fosse mesmo
apenas vontade de não crescer.


*homenagem 2 # ao cinema menor
O Tambor (Die Blechtrommel, 1979)
Direção Volker Schlöndorff
Baseado em livro de Günter Grass
Título em inglês: The tin drum
Talvez possamos, com poesia, descobrir o intervalo-imagem que não necessite de letras garrafais para expressar o som desse instrumento que atravessa a infância
(aprendemos a bater com colher o prato).
Talvez essa imagem, ainda por vir, nos faça recordar da brilhante cena em que o BA-TI-TUM do tambor dessincroniza o discurso planejado de Hitler.
Talvez,
para o jovem Oskar,
fosse mesmo
apenas vontade de não crescer.


*homenagem 2 # ao cinema menor
O Tambor (Die Blechtrommel, 1979)
Direção Volker Schlöndorff
Baseado em livro de Günter Grass
Título em inglês: The tin drum
22.9.06
Fotografia de Farrokhzad
Por que deveria parar, por quê?
Se a vida começa ali nos campos de trigo,
se eu posso correr até o peito arrebentar.
Daria meia volta
ou
chegaria até o fim,
onde me perderia.
Restariam apenas
rosas, um pequeno atalho.
Poesia.
"Sound, sound, sound,
Only sound remains" (FF)
* para oswaldo, por ter me apresentado o cinema menor
Se a vida começa ali nos campos de trigo,
se eu posso correr até o peito arrebentar.
Daria meia volta
ou
chegaria até o fim,
onde me perderia.
Restariam apenas
rosas, um pequeno atalho.
Poesia.
"Sound, sound, sound,
Only sound remains" (FF)
* para oswaldo, por ter me apresentado o cinema menor
21.9.06
12.9.06
6.9.06
4.9.06
a cozinha não era de ladrilho azul-claro
um armário branco não surgia da parede
nas portas, não havia losangos de treliça
prateleiras não exibiam panos quadriculadinhos de vermelho e branco
apenas vidro canelado nas janelas
e um refrigerador com tarja de madeira atravessada
sobre a mesa,
um bolo de fubá e biscoitos de polvilho frito
três xícaras
três gerações se encontrariam para tomar café
palavras no sono,
confusas.
*para minha mãe e vó doquinha
um armário branco não surgia da parede
nas portas, não havia losangos de treliça
prateleiras não exibiam panos quadriculadinhos de vermelho e branco
apenas vidro canelado nas janelas
e um refrigerador com tarja de madeira atravessada
sobre a mesa,
um bolo de fubá e biscoitos de polvilho frito
três xícaras
três gerações se encontrariam para tomar café
palavras no sono,
confusas.
*para minha mãe e vó doquinha
1.9.06
25.8.06
Quarta-feira, Julho 26, 2006*
inferno
Para Glaura
escrito de tempo de dor
Nel mezzo del cammin di nostra vita
mi ritrovai per una selva oscura
che la diritta via era smarrita
Ahi quanto a dir qual era è cosa dura
esta selva selvaggia e aspra e forte
che nel pensier rinova la paura!
Dante
e o arco se dobra e o fio timbra
uma dor profunda
os dedos sangram e o punho vibra em
àsperas veias
um gosto amargo na garganta
o timbre em dó
a garganta em nó
a flecha em rispe
o golpe e o furo
no porcelanato branco do chão
rastos rubros
escorregados
João Lúcio Penharvel
*retirado de confligerante
inferno
Para Glaura
escrito de tempo de dor
Nel mezzo del cammin di nostra vita
mi ritrovai per una selva oscura
che la diritta via era smarrita
Ahi quanto a dir qual era è cosa dura
esta selva selvaggia e aspra e forte
che nel pensier rinova la paura!
Dante
e o arco se dobra e o fio timbra
uma dor profunda
os dedos sangram e o punho vibra em
àsperas veias
um gosto amargo na garganta
o timbre em dó
a garganta em nó
a flecha em rispe
o golpe e o furo
no porcelanato branco do chão
rastos rubros
escorregados
João Lúcio Penharvel
*retirado de confligerante
23.8.06
19.8.06
12.8.06
O geriatra
*para ricardo garro
o geriatra não escreve.
não se trata de um blog conceitual,
não.
a página é branca
simplesmente porque ele não quer escrever.
e continuará lá, persistindo,
até o dia em que um arqueólogo,
fuçando nos guardados de uma mulher velha,
encontrá um papel que diz:
"ressucitei o blog numa tentativa de parar de falar com o espelho.
(...)
não tem nada lá,
mas um dia vai ter.
dê uma olhada de vez em quando para que eu tenha algum leitor.
reminiscências da L`Argent de Poche,
um abraço".
(mania de arquivos)
o geriatra não escreve.
não se trata de um blog conceitual,
não.
a página é branca
simplesmente porque ele não quer escrever.
e continuará lá, persistindo,
até o dia em que um arqueólogo,
fuçando nos guardados de uma mulher velha,
encontrá um papel que diz:
"ressucitei o blog numa tentativa de parar de falar com o espelho.
(...)
não tem nada lá,
mas um dia vai ter.
dê uma olhada de vez em quando para que eu tenha algum leitor.
reminiscências da L`Argent de Poche,
um abraço".
(mania de arquivos)
11.8.06
O encontro
*para dois amigos que vão morar em Lisboa
Encontrei no bailarico
o meu amor.
Laquê no cabelo, vestido comprido, sorriso no canto da boca.
Eu, Ribão, soltinho pra ela:
“Carol, Carol minha, te dou uma flor."
***
Do amor
o amor que sinto por ti.
Encontrei no bailarico
o meu amor.
Laquê no cabelo, vestido comprido, sorriso no canto da boca.
Eu, Ribão, soltinho pra ela:
“Carol, Carol minha, te dou uma flor."
***
Do amor
o amor que sinto por ti.
8.8.06
Irene Rios
"Ele vai me destruir".
Irene repetia várias vezes, enquanto o leite esquentava no fogão.
Não reparando as bolhas,
como poderia ouvir?
O apelo silencioso:
"Irene, Irene, Irene".
Irene repetia várias vezes, enquanto o leite esquentava no fogão.
Não reparando as bolhas,
como poderia ouvir?
O apelo silencioso:
"Irene, Irene, Irene".
5.8.06
esquina.
estamos num bar da Serra.
na calçada:
mesas amarelas, cadeiras, um ponto de táxi.
do balcão a garçonete diz
bolinho, linguiça, empadinha.
mulheres e homens num entra e sai.
fecho os olhos.
(como se fosse aos 13 anos,
no bar do tio Clóvis, em Água Branca)
tudo igual:
talheres, pratos, pessoas.
se virar para trás, lembrá do avô.
estamos num bar da Serra.
na calçada:
mesas amarelas, cadeiras, um ponto de táxi.
do balcão a garçonete diz
bolinho, linguiça, empadinha.
mulheres e homens num entra e sai.
fecho os olhos.
(como se fosse aos 13 anos,
no bar do tio Clóvis, em Água Branca)
tudo igual:
talheres, pratos, pessoas.
se virar para trás, lembrá do avô.
2.8.06
Gliederfüßler*
uma picada de inseto na palma da mão.
não consigo escrever,
não consigo pensar.
*Arthropoden
não consigo escrever,
não consigo pensar.
*Arthropoden
23.7.06
Bárbara
* para edmundo
quando vejo Bárbara
o queixo fica no chão.
- algum amor no passado, algum arrependimento?
não sei.
um cigarro, um copo de cerveja
anéis...
Bárbara está sozinha.
meu coração
não.

bárbara - vandré silveira
filme de carlos gradim
roteiro: glaura cardoso vale
adaptação do conto "e a situação, como é que está?", de edmundo novaes
foto: bianca aun
fonte: www.odeoncompanhiateatral.com.br
quando vejo Bárbara
o queixo fica no chão.
- algum amor no passado, algum arrependimento?
não sei.
um cigarro, um copo de cerveja
anéis...
Bárbara está sozinha.
meu coração
não.

bárbara - vandré silveira
filme de carlos gradim
roteiro: glaura cardoso vale
adaptação do conto "e a situação, como é que está?", de edmundo novaes
foto: bianca aun
fonte: www.odeoncompanhiateatral.com.br
30.6.06
28.6.06
16.6.06
2.6.06
27.5.06
25.5.06
16.5.06
13.5.06
11.5.06
de estar farto (ou) fulo da vida,
resta chorar.
(ou) socar a parede imaginando a cara de alguém.
vidro não é bom.
chorar faz bem. alivia o ódio, que se transforma em raiva
e se torna outra coisa que não os dois.
nem ódio, nem raiva:
desprezo.
desprezo é bom.
– razão dos poetas?
socar a parede,
sangrar sem corte,
mergulhar as mãos em água morna
salgada.
resta chorar.
(ou) socar a parede imaginando a cara de alguém.
vidro não é bom.
chorar faz bem. alivia o ódio, que se transforma em raiva
e se torna outra coisa que não os dois.
nem ódio, nem raiva:
desprezo.
desprezo é bom.
– razão dos poetas?
socar a parede,
sangrar sem corte,
mergulhar as mãos em água morna
salgada.
8.5.06
28.4.06
24.4.06
23.4.06
Arrebatada
– Você já leu Le ravissement de Lol V. Stein? Repito: Você já seguiu junto comigo Lol V. Stein pelas ruas? Aliás, você já me viu Lola seguindo alguém pelas ruas?
Um homem, num café, disse ter visto. Esquisita, mas discreta.
– Lol.
– Je.
– Lol.
– Je.
“She's mine”, o alguém no balcão.
Não!
“Lol is mine”.
*para blue- white.
– Você já leu Le ravissement de Lol V. Stein? Repito: Você já seguiu junto comigo Lol V. Stein pelas ruas? Aliás, você já me viu Lola seguindo alguém pelas ruas?
Um homem, num café, disse ter visto. Esquisita, mas discreta.
– Lol.
– Je.
– Lol.
– Je.
“She's mine”, o alguém no balcão.
Não!
“Lol is mine”.
*para blue- white.
30.3.06
Tongue-in-cheek
# para nica – a respeito do seu cotidiano americano-esquizofrênico
Quantas anas cabem dentro da banana…?
Alguns escritores, para suportar o cotidiano, riam de si mesmos adquirindo assim o hábito de uma escrita leve, entenda-se leveza. Isso seria um tipo de ironia refinada, desfrutada por alguns cuja vida muitas vezes era até dramática. O caso de Ferreira Botelho pode ser um bom exemplo.
Algum tempo depois vieram os surrealistas que viram pessoas em objetos, objetos em pessoas e criaram seres que não se metamorfosearam por completo.
Corpo de homem, cabeça de maçã:
o cotidiano substituindo a figura do centauro ou do minotauro.
Mas, aqui, não espere do “mito” o que o mito representa… E me pergunto se Teseu não se lembraria do ditado "one apple a day…”, devorando assim a suculenta e gigantesca cabeça verde de Magritte.
Outro dia, a respeito de Gogol, pensei no nariz a passear pelas ruas.
A função da hipérbole é causar estranhamento: alguém já viu um nariz gigante dando ordens por aí?
Para quem já sonhou ser um e-mail e a dificuldade de baixar um arquivo consistia numa azeitona entalada na garganta, isso de nariz me soa até muito realista.
Não há nada demais…, somente a transformação de brincadeiras e de estórias extraordinárias da infância – ou dessa nossa possibilidade de ver nas nuvens baianas, animais, almofadas, algodão – em algo mais insólito, transposto para um universo igualmente especial. A pedra contém a escultura mas o homem, para constatar, vai lá e dá umas lascadinhas…
Já outros pintam pássaros de pedra voando…
nem pedra, nem pássaro, é tinta sobre tela… o tal poema de que lhe falei.
*Os olhos ficando aguçados na leitura do episódio da banana…
Faço, então, uma inversão, nos moldes da literatura infantil:
a fome era tanta
que,
diante do risco da queixa,
a banana devorou a ana.
Quantas anas cabem dentro da banana…?
Alguns escritores, para suportar o cotidiano, riam de si mesmos adquirindo assim o hábito de uma escrita leve, entenda-se leveza. Isso seria um tipo de ironia refinada, desfrutada por alguns cuja vida muitas vezes era até dramática. O caso de Ferreira Botelho pode ser um bom exemplo.
Algum tempo depois vieram os surrealistas que viram pessoas em objetos, objetos em pessoas e criaram seres que não se metamorfosearam por completo.
Corpo de homem, cabeça de maçã:
o cotidiano substituindo a figura do centauro ou do minotauro.
Mas, aqui, não espere do “mito” o que o mito representa… E me pergunto se Teseu não se lembraria do ditado "one apple a day…”, devorando assim a suculenta e gigantesca cabeça verde de Magritte.
Outro dia, a respeito de Gogol, pensei no nariz a passear pelas ruas.
A função da hipérbole é causar estranhamento: alguém já viu um nariz gigante dando ordens por aí?
Para quem já sonhou ser um e-mail e a dificuldade de baixar um arquivo consistia numa azeitona entalada na garganta, isso de nariz me soa até muito realista.
Não há nada demais…, somente a transformação de brincadeiras e de estórias extraordinárias da infância – ou dessa nossa possibilidade de ver nas nuvens baianas, animais, almofadas, algodão – em algo mais insólito, transposto para um universo igualmente especial. A pedra contém a escultura mas o homem, para constatar, vai lá e dá umas lascadinhas…
Já outros pintam pássaros de pedra voando…
nem pedra, nem pássaro, é tinta sobre tela… o tal poema de que lhe falei.
*Os olhos ficando aguçados na leitura do episódio da banana…
Faço, então, uma inversão, nos moldes da literatura infantil:
a fome era tanta
que,
diante do risco da queixa,
a banana devorou a ana.
29.3.06
# lições de tradução #
os cus de judas
ou
le cul de judas
ou
der judas kuss
ou
de judas kus
ou
in culo al mondo
ou
sarutul lui iuda
ou
hinsides helvete
ou
de forrudda
ou
sjovernes odyssé
ou
hevonkuusessa
ou
south of nowhere…
como vê, quando não tem cu, tem judas, salvo erro de entendimento do sueco, norueguês, dinamarquês.
ando enferrujada.
em inglês, somente a idéia persiste.
isso é o que chamamos de tradução não-literal.
*resta ainda uma outra tradução, de língua eqüidistante:
“saduj ed suc so”. mas a publicação ainda não está prevista, por causa da alta do betelnut.
os cus de judas
ou
le cul de judas
ou
der judas kuss
ou
de judas kus
ou
in culo al mondo
ou
sarutul lui iuda
ou
hinsides helvete
ou
de forrudda
ou
sjovernes odyssé
ou
hevonkuusessa
ou
south of nowhere…
como vê, quando não tem cu, tem judas, salvo erro de entendimento do sueco, norueguês, dinamarquês.
ando enferrujada.
em inglês, somente a idéia persiste.
isso é o que chamamos de tradução não-literal.
*resta ainda uma outra tradução, de língua eqüidistante:
“saduj ed suc so”. mas a publicação ainda não está prevista, por causa da alta do betelnut.
27.3.06
11.3.06
# kein thema
meu pai sempre escreveu cartas.
um dia, comprou envelope, selo, papel de arroz.
num movimento com os punhos escreveu um poema.
endereçou para si mesmo e postou.
quer prova maior de solidão do que essa?
hoje,
para manter o hotmail ativo,
mando mensagens de outra conta para mim mesma e as respondo em seguida.
estranho movimento com os punhos.
quer prova de vidinha mais medíocre do que esta?
meu pai sempre escreveu cartas.
um dia, comprou envelope, selo, papel de arroz.
num movimento com os punhos escreveu um poema.
endereçou para si mesmo e postou.
quer prova maior de solidão do que essa?
hoje,
para manter o hotmail ativo,
mando mensagens de outra conta para mim mesma e as respondo em seguida.
estranho movimento com os punhos.
quer prova de vidinha mais medíocre do que esta?
26.2.06
tédio instalado
do lado de fora
uma chuva fina faz deslizar os carros
carnaval sem carnaval
pessoas conversam na calçada
o vigia apita
um homem vestido de polícia sorri para alguém
“o balancê, balancê…”
do lado de dentro
a cama desfeita, almofadas no chão
sobre a mesa: xícara de café, escultura de gueixa, luminária,
pequenos dicionários, um perfume a evaporar
estranha sobriedade
do lado de fora
uma chuva fina faz deslizar os carros
carnaval sem carnaval
pessoas conversam na calçada
o vigia apita
um homem vestido de polícia sorri para alguém
“o balancê, balancê…”
do lado de dentro
a cama desfeita, almofadas no chão
sobre a mesa: xícara de café, escultura de gueixa, luminária,
pequenos dicionários, um perfume a evaporar
estranha sobriedade
13.2.06
Querida A.R.,
sonhei novamente. Como nesses filmes Norte-americanos… você perseguia eu e a T. e nós corríamos. Muito.
Fugíamos de alguma lembrança?
Do momento… não tenho dúvida.
Do seu trágico destino, restam dores e o sentimento de culpa…
culpa, culpa, culpa…
como as veias pulsam e levam o líquido para o corpo.
Nem o sonho para tornar possível nosso encontro.
Temos medo do que vai dizer. Temos?
Como controlar essas imagens?!
Passaremos então a correr compulsivamente,
da sua dor, do telefonema e do PÁ!
Estamos assim… gente a vagar ruas… sem destino certo. Procurando ver os amigos que não nos querem ver. Não nos querem sentir. Não nos querem ouvir.
Tento pensar em coisas mais práticas. Arredar os móveis, varrer a casa, limpar os livros...
ah! os livros…
O jeito é ser objetivo, percebe?!… o jeito é ser objetivo e só chorar na solidão do banheiro, submersa em água quente, na piscina de plástico…
um salzinho grosso ajuda bem… alivia esse peso do cotidiano nas costas.
As gotas no corpo se misturam às gotas que caem do rosto e o rosto mergulha na água salgada na tentativa de afogar a memória… O cheiro de sangue quente a pingar do colchão, o furo no guarda-roupa e os objetos que se seguiram sem a sua presença.
A cidade continua a mesma.
Helena.
sonhei novamente. Como nesses filmes Norte-americanos… você perseguia eu e a T. e nós corríamos. Muito.
Fugíamos de alguma lembrança?
Do momento… não tenho dúvida.
Do seu trágico destino, restam dores e o sentimento de culpa…
culpa, culpa, culpa…
como as veias pulsam e levam o líquido para o corpo.
Nem o sonho para tornar possível nosso encontro.
Temos medo do que vai dizer. Temos?
Como controlar essas imagens?!
Passaremos então a correr compulsivamente,
da sua dor, do telefonema e do PÁ!
Estamos assim… gente a vagar ruas… sem destino certo. Procurando ver os amigos que não nos querem ver. Não nos querem sentir. Não nos querem ouvir.
Tento pensar em coisas mais práticas. Arredar os móveis, varrer a casa, limpar os livros...
ah! os livros…
O jeito é ser objetivo, percebe?!… o jeito é ser objetivo e só chorar na solidão do banheiro, submersa em água quente, na piscina de plástico…
um salzinho grosso ajuda bem… alivia esse peso do cotidiano nas costas.
As gotas no corpo se misturam às gotas que caem do rosto e o rosto mergulha na água salgada na tentativa de afogar a memória… O cheiro de sangue quente a pingar do colchão, o furo no guarda-roupa e os objetos que se seguiram sem a sua presença.
A cidade continua a mesma.
Helena.
1.2.06
topa gastar um din-din ali?!
esse deveria ser o lema de todos que se atrevem a sair de casa, atravessar a rua e...
um pulinho até a padaria : R$ 16,00…
*quatro pães : R$ 1,72?!!! *manteiga : R$ 2,90
*duas fatias de bolo : R$2,00...
querido, tenho trocado não... um pequeno habitante me olha,
entrecortado.
“nem fudeno que eu quero falá [de literatura]” …
“a vida tem saído muito cara, meu irmão”…
“tem que trabalhá, trabalhá, até o osso”…
“você me aguarde aí, bem sentadinha, que eu preciso ganhá um din-din ali”…
esse deveria ser o lema de todos que se atrevem a sair de casa, atravessar a rua e...
um pulinho até a padaria : R$ 16,00…
*quatro pães : R$ 1,72?!!! *manteiga : R$ 2,90
*duas fatias de bolo : R$2,00...
querido, tenho trocado não... um pequeno habitante me olha,
entrecortado.
“nem fudeno que eu quero falá [de literatura]” …
“a vida tem saído muito cara, meu irmão”…
“tem que trabalhá, trabalhá, até o osso”…
“você me aguarde aí, bem sentadinha, que eu preciso ganhá um din-din ali”…
15.1.06
12.1.06
27.12.05
Ava Gardner
22.12.05
scrapbook
2.12.05
EQUIPE
domingo

água, café:

pessoas

pessoas

pessoas

pessoas confabulando

um antropólogo:

le chat:

a mulher:

patrya yndya yracema do brasyl
a noite segue...

nós! os etnográficos:

os deuses devem estar loucos

3 da manhã


solar

segunda-feira...

JUPIRA!!!

foto de pessoas: carla maia
foto de copos, garrafas e pizzas: glaura c. vale
foto P&B: francilins castilho leal
ilustração: postal canadense

água, café:

pessoas

pessoas

pessoas

pessoas confabulando

um antropólogo:

le chat:

a mulher:

patrya yndya yracema do brasyl
a noite segue...

nós! os etnográficos:

os deuses devem estar loucos

3 da manhã


solar

segunda-feira...

JUPIRA!!!

foto de pessoas: carla maia
foto de copos, garrafas e pizzas: glaura c. vale
foto P&B: francilins castilho leal
ilustração: postal canadense
29.11.05
*PLIN! not found
o que teria acontecido com o dicção aleatória?
***
REGISTROS RECUPERADOS:
AGOSTO 20
para lembrar de helena
se olhar à sua volta perceberá elementos desta intenção de poesia
passará a mão pela mesa e sentirá uma poeirinha fina
descaso com os afazeres domésticos
no alto,
três prateleiras abarrotadas de livros
na mesinha ao lado
agenda de telefone, calculadora, CDs...
apostilas e a carta
que diz:
Querido Greco,
não estou mais em mim
agora só desejo pegar aquele avião
partir pra África
encontrar o amor que se perdeu na guerra
e que não voltou com os outros em 1975.
Cuide-se,
Helena.
AGOSTO 4
Queria postar um texto aqui...
Mas os dedos estão a sangrar.
JULHO 31
O dia em que conheci um escritor em NY
Entrei num café da East Village fugindo da chuva. Nunca havia estado ali antes. Fiquei deslumbrada. Observava tudo e todos. O mostrador de vidro e seus inúmeros produtos. Aquilo era quase uma instalação, só que aqui os objetos se movimentavam entre uma conta e outra,
nunca a mesma vitrine.
Sempre havia um cliente ansioso por um cubano ou um canivete quebra-galho. Admirava também os tecidos. As roupas oscilavam entre o vermelho, o marrom lavado e o bege.
No caixa, uma mulher solitária e seu avental cor de folha seca.
Era quase verão. Ventava muito. Pessoas entrando e saindo do café. Mesas lotadas. Tive que me contentar com o balcão: a cup of coffe, please!?.
Foi aí que o vi.
Um sorrisinho no canto da boca, denúncia de um certo nervosismo, olhar atravessado.
Pensei em timidez.
Não parecia estar animado para o lanche, alguma coisa havia acontecido com ele naquela tarde?
Sonorizava.
Cabelo grisalho. Blusa de lã preta, gola até o queixo. Casaco de couro no encosto da cadeira. Uma caderneta de telefone.
A minha vida estava se perdendo. Eu já acreditava no amor. Em que meu devaneio consistia?
Aquela talvez fosse a única hora para eu me aproximar e dizer: you are a...
Esqueci o café e passei para o copo de conhaque do senhor de blue jeans...
Num impulso,
a gente tinha tudo para dar certo.
Mandei bilhete? Entrei numa briga desgraçada com o garçom porque ele me disse que aquilo não era hábito da casa e eu tentei explicar que eu conhecia o John, fosse esse o nome dele. E que a gente sempre iniciava nossos encontros numa troca de bilhetes. Uma brincadeirinha de amigos apaixonados. O garçom disse lá que eu me enganara, aquele não era o John e eu deveria me conformar com isso. Mas como não era?!... Aquele que eu conheci há dias na Barnes & Noble?! Que conversei horas no trem... não era o Johnny?! Não, John ele não poderia ser, repetiu o garçom. Este dái é... e falou horas, explicou, re-explicou...
O garçom me convenceu a deixar a idéia do bilhete... não perturbaria um grande escritor da cidade... que levaria New Jersey para o topo do mercado editorial, seria o então mais traduzido do mundo... e ainda me disse que ele era excêntrico, várias mulheres insanas já haviam mandado bilhetes e que deixava de freqüentar os lugares por isso, blá blá blá...
Concordei... John não poderia ser mesmo escritor, e, pra ser franca, não se parecia com Paul Auster...
DITO POR NÃO DITO POR GLAURA
***
REGISTROS RECUPERADOS:
AGOSTO 20
para lembrar de helena
se olhar à sua volta perceberá elementos desta intenção de poesia
passará a mão pela mesa e sentirá uma poeirinha fina
descaso com os afazeres domésticos
no alto,
três prateleiras abarrotadas de livros
na mesinha ao lado
agenda de telefone, calculadora, CDs...
apostilas e a carta
que diz:
Querido Greco,
não estou mais em mim
agora só desejo pegar aquele avião
partir pra África
encontrar o amor que se perdeu na guerra
e que não voltou com os outros em 1975.
Cuide-se,
Helena.
AGOSTO 4
Queria postar um texto aqui...
Mas os dedos estão a sangrar.
JULHO 31
O dia em que conheci um escritor em NY
Entrei num café da East Village fugindo da chuva. Nunca havia estado ali antes. Fiquei deslumbrada. Observava tudo e todos. O mostrador de vidro e seus inúmeros produtos. Aquilo era quase uma instalação, só que aqui os objetos se movimentavam entre uma conta e outra,
nunca a mesma vitrine.
Sempre havia um cliente ansioso por um cubano ou um canivete quebra-galho. Admirava também os tecidos. As roupas oscilavam entre o vermelho, o marrom lavado e o bege.
No caixa, uma mulher solitária e seu avental cor de folha seca.
Era quase verão. Ventava muito. Pessoas entrando e saindo do café. Mesas lotadas. Tive que me contentar com o balcão: a cup of coffe, please!?.
Foi aí que o vi.
Um sorrisinho no canto da boca, denúncia de um certo nervosismo, olhar atravessado.
Pensei em timidez.
Não parecia estar animado para o lanche, alguma coisa havia acontecido com ele naquela tarde?
Sonorizava.
Cabelo grisalho. Blusa de lã preta, gola até o queixo. Casaco de couro no encosto da cadeira. Uma caderneta de telefone.
A minha vida estava se perdendo. Eu já acreditava no amor. Em que meu devaneio consistia?
Aquela talvez fosse a única hora para eu me aproximar e dizer: you are a...
Esqueci o café e passei para o copo de conhaque do senhor de blue jeans...
Num impulso,
a gente tinha tudo para dar certo.
Mandei bilhete? Entrei numa briga desgraçada com o garçom porque ele me disse que aquilo não era hábito da casa e eu tentei explicar que eu conhecia o John, fosse esse o nome dele. E que a gente sempre iniciava nossos encontros numa troca de bilhetes. Uma brincadeirinha de amigos apaixonados. O garçom disse lá que eu me enganara, aquele não era o John e eu deveria me conformar com isso. Mas como não era?!... Aquele que eu conheci há dias na Barnes & Noble?! Que conversei horas no trem... não era o Johnny?! Não, John ele não poderia ser, repetiu o garçom. Este dái é... e falou horas, explicou, re-explicou...
O garçom me convenceu a deixar a idéia do bilhete... não perturbaria um grande escritor da cidade... que levaria New Jersey para o topo do mercado editorial, seria o então mais traduzido do mundo... e ainda me disse que ele era excêntrico, várias mulheres insanas já haviam mandado bilhetes e que deixava de freqüentar os lugares por isso, blá blá blá...
Concordei... John não poderia ser mesmo escritor, e, pra ser franca, não se parecia com Paul Auster...
DITO POR NÃO DITO POR GLAURA
26.11.05
24.11.05
The problem is all inside your head, she said to me
The answer is easy if you take it logically
I’d like to help you in your struggle to be free
There must be fifty ways to leave your lover
She said it’s really not my habit to intrude
Furthermore, I hope my meaning won’t be lost or misconstrued
But I’ll repeat myself at the risk of being crude
There must be fifty ways to leave your lover
Fifty ways to leave your lover
Just slip out the back, jack
Make a new plan, stan
You don’t need to be coy, roy
Just get yourself free
Hop on the bus, gus
You don’t need to discuss much
Just drop off the key, lee
And get yourself free
She said it grieves me so to see you in such pain
I wish there was something I could do to make you smile again
I said I appreciate that and would you please explain
About the fifty ways
She said why don’t we both just sleep on it tonight
And I believe in the morning you’ll begin to see the light
And then she kissed me and I realized she probably was right
There must be fifty ways to leave your lover
Fifty ways to leave your lover
Just slip out the back, jack
Make a new plan, stan ...
*50 ways to leave your lover, by paul simon.
The answer is easy if you take it logically
I’d like to help you in your struggle to be free
There must be fifty ways to leave your lover
She said it’s really not my habit to intrude
Furthermore, I hope my meaning won’t be lost or misconstrued
But I’ll repeat myself at the risk of being crude
There must be fifty ways to leave your lover
Fifty ways to leave your lover
Just slip out the back, jack
Make a new plan, stan
You don’t need to be coy, roy
Just get yourself free
Hop on the bus, gus
You don’t need to discuss much
Just drop off the key, lee
And get yourself free
She said it grieves me so to see you in such pain
I wish there was something I could do to make you smile again
I said I appreciate that and would you please explain
About the fifty ways
She said why don’t we both just sleep on it tonight
And I believe in the morning you’ll begin to see the light
And then she kissed me and I realized she probably was right
There must be fifty ways to leave your lover
Fifty ways to leave your lover
Just slip out the back, jack
Make a new plan, stan ...
*50 ways to leave your lover, by paul simon.
24.10.05
9.10.05
seqüência #4 *para pedrães

noite de sábado quente e melancólica
ela se aproxima da janela
toca a persiana
não vê os siameses da vizinha
*deitados no piso da área de serviço,
a se deliciarem com o geladinho da cerâmica.
não estando triste,
abre o porão
de onde saem lembranças fabulosas:
um amor antigo
um sorriso no canto esquerdo,
debussy, bellabartoc, matmos...
muitos cds ainda restam para escutar
até que a noite se transforme em sono
e o sono traga a manhã seguinte.
como a felicidade me faz bem...
assim,
helena.

noite de sábado quente e melancólica
ela se aproxima da janela
toca a persiana
não vê os siameses da vizinha
*deitados no piso da área de serviço,
a se deliciarem com o geladinho da cerâmica.
não estando triste,
abre o porão
de onde saem lembranças fabulosas:
um amor antigo
um sorriso no canto esquerdo,
debussy, bellabartoc, matmos...
muitos cds ainda restam para escutar
até que a noite se transforme em sono
e o sono traga a manhã seguinte.
como a felicidade me faz bem...
assim,
helena.
7.10.05
talvez eu devesse entrar na internet e pesquisar por que a falta de potássio causa tanta dor nas pernas.
(a esta hora não me parece tão lenta)
se eu vomitasse toda a cerveja que acabo de tomar não sentiria tão forte,
absurdamente forte,
esta dor na boca do estômago.
às vezes me sinto meio zonza,
a procurar um lugar quentinho...
quero deitar e dormir
até acordar.
6.10.05
notre dame # ainda helena
gosto do meu headphone
a idéia de compartilhar a voz que me invade soa estranho.
como se qualquer um pudesse também ouvir o que se passa na minha mente.
*às vezes é bom
ter a sensação deste som
doce e agressivo
quebrar a parede alheia, silenciar um coração atrapalhado.
eu, você
(at the moment)
gosto do meu headphone
a idéia de compartilhar a voz que me invade soa estranho.
como se qualquer um pudesse também ouvir o que se passa na minha mente.
*às vezes é bom
ter a sensação deste som
doce e agressivo
quebrar a parede alheia, silenciar um coração atrapalhado.
eu, você
(at the moment)
4.10.05
this is not a funny story
*para meu pai
achei, entre a papelada que ainda resta no meu antigo quarto, um pedaço de madeira escrito:
“minha filha, nunca abra a caixa de pandora. a minha foi aberta e de lá saíram monstros e fantasmas que até hoje me atormentam”.
diria que meu pai é um poeta que teve a carreira amputada; talvez pela perda do irmão ainda jovem, morto estupidamente porque teve medo de ser preso e correu. “M. A. C. V., 20 anos, levou um tiro pelas costas por causa de um bocado de maconha no bolso. chegando em casa, depois de um dia de trabalho, a mãe do jovem deparou com um camburão à sua porta e, dentro, o corpo do caçula”. não foi assim que saiu no noticiário.
não sei se exatamente, mas acredito que seja esse o momento em que, para meu pai, a caixa de pandora tenha sido aberta. não fora por curiosidade que os fantasmas se afloraram, mas por um golpe, que desencadeou uma série de anomalias que não permitiram o distanciamento necessário para uma poesia consciente.
será preciso gerações para que essa história seja passada a limpo. quanto ao poeta, que se manteve guardado todos esses anos, continuará recluso, até ser completamente esquecido.
– ainda resta a teimosa esperança! – um aspirante a escritor gritou do fundo da sala.
*para meu pai
achei, entre a papelada que ainda resta no meu antigo quarto, um pedaço de madeira escrito:
“minha filha, nunca abra a caixa de pandora. a minha foi aberta e de lá saíram monstros e fantasmas que até hoje me atormentam”.
diria que meu pai é um poeta que teve a carreira amputada; talvez pela perda do irmão ainda jovem, morto estupidamente porque teve medo de ser preso e correu. “M. A. C. V., 20 anos, levou um tiro pelas costas por causa de um bocado de maconha no bolso. chegando em casa, depois de um dia de trabalho, a mãe do jovem deparou com um camburão à sua porta e, dentro, o corpo do caçula”. não foi assim que saiu no noticiário.
não sei se exatamente, mas acredito que seja esse o momento em que, para meu pai, a caixa de pandora tenha sido aberta. não fora por curiosidade que os fantasmas se afloraram, mas por um golpe, que desencadeou uma série de anomalias que não permitiram o distanciamento necessário para uma poesia consciente.
será preciso gerações para que essa história seja passada a limpo. quanto ao poeta, que se manteve guardado todos esses anos, continuará recluso, até ser completamente esquecido.
– ainda resta a teimosa esperança! – um aspirante a escritor gritou do fundo da sala.
2.10.05
23.9.05
16.9.05
*notícias da serra: mais nuvens se aproximando
deveríamos trocar o nome da chuva que caiu em BH na semana passada para chuva de granito!
tal o tamanho dos granizos que despencaram do céu e o estrago provocado.
houve um que, por não enxergar nada, tirou a cabeça para fora da janela do carro e acordou com galos horr(or)endos na testa.
outros, da banda de cá, receberam as primeiras pedradas fatais...
vidros pelos ares!!!
como tenho tendência ao medo, olho pro céu toda vez que resolvo sair,
para ver se há ameaça de pedras.
por isso senhores, volto a dizer:
se houver ameaça de chuva, preparem seus capacetes.
deveríamos trocar o nome da chuva que caiu em BH na semana passada para chuva de granito!
tal o tamanho dos granizos que despencaram do céu e o estrago provocado.
houve um que, por não enxergar nada, tirou a cabeça para fora da janela do carro e acordou com galos horr(or)endos na testa.
outros, da banda de cá, receberam as primeiras pedradas fatais...
vidros pelos ares!!!
como tenho tendência ao medo, olho pro céu toda vez que resolvo sair,
para ver se há ameaça de pedras.
por isso senhores, volto a dizer:
se houver ameaça de chuva, preparem seus capacetes.
14.9.05
e-mail muitíssimo pessoal
*aberto aos ouvintes
nica, a bailarina de azul a desfilar em terras geladas.
o pão de mel a aguarda na mesa do café.
ela sonha pastorar em terras distantes.
agora nica dorme. sono leve, gostoso.
do lado dela um homem encantador.
asas de borboleta... a fazer cosquinha na bochecha.
falamos por recados eletrônicos,
como se estivéssemos grudadas,
lado a lado, frente a frente.
ler nica, é ouvir sua voz:
mansinha e quentinha roçar nos ouvidos.
hummm...
os olhos enchem de água,
mas é bom... fica bem aí.
beijo.
*aberto aos ouvintes
nica, a bailarina de azul a desfilar em terras geladas.
o pão de mel a aguarda na mesa do café.
ela sonha pastorar em terras distantes.
agora nica dorme. sono leve, gostoso.
do lado dela um homem encantador.
asas de borboleta... a fazer cosquinha na bochecha.
falamos por recados eletrônicos,
como se estivéssemos grudadas,
lado a lado, frente a frente.
ler nica, é ouvir sua voz:
mansinha e quentinha roçar nos ouvidos.
hummm...
os olhos enchem de água,
mas é bom... fica bem aí.
beijo.
13.9.05
ainda helena
ela queria dormir. ele andando pela casa com suas botinhas de couro legítimo (tuck tuck tuck).
ela, desejo de voltar aos sonhos, onde repousava no ombro de orfeu.
ele continua a andar pela casa com seu radinho de pilha que zune como abelhas no mel.
ela soluça uma felicidade.
Ele, nos seus trejeitos práticos, procura relógio, carteira, celular.
ela levanta, passa os dedos sobre a superfície irregular do móvel de antiquário, toma café.
ele, silêncio.
ela queria dormir. ele andando pela casa com suas botinhas de couro legítimo (tuck tuck tuck).
ela, desejo de voltar aos sonhos, onde repousava no ombro de orfeu.
ele continua a andar pela casa com seu radinho de pilha que zune como abelhas no mel.
ela soluça uma felicidade.
Ele, nos seus trejeitos práticos, procura relógio, carteira, celular.
ela levanta, passa os dedos sobre a superfície irregular do móvel de antiquário, toma café.
ele, silêncio.
12.9.05
11.9.05
frosty – para matias e ribão (o poeta novilúvio)
aonde encontrar Björk?
essa voz doce...
que mistura infância e melancolia.
estaria Björk ancorada em algum mar gelado
no Pólo Norte?
sensação de frio na espinha
arrepiar da pele
the mystery of my flesh
são basicamente dois sons que invadem a porta e quebram o vidro da janela
*sun in my mouth
aonde encontrar Björk?
essa voz doce...
que mistura infância e melancolia.
estaria Björk ancorada em algum mar gelado
no Pólo Norte?
sensação de frio na espinha
arrepiar da pele
the mystery of my flesh
são basicamente dois sons que invadem a porta e quebram o vidro da janela
*sun in my mouth
8.9.05
7.9.05
3.9.05
2.9.05
29.8.05
28.8.05
26.8.05
a retirada dos remédios causa um pouco de ansiedade
igual forçar o sono, rolar de um lado a outro,
sem conseguir retorno
dá coceira nos ossos...
lembrei dos meus discos
esse equilíbrio estranho
sensação de ser som, imagens...
é verdade que meu discman completa 10 anos
segue pulando faixas quando está irritado
mas ainda me acalma
dessa ligeira ansiedade
e seus picos zunindo
(like a badhead in the morning)
visão embaçada
os remédios e sua rotina
igual forçar o sono, rolar de um lado a outro,
sem conseguir retorno
dá coceira nos ossos...
lembrei dos meus discos
esse equilíbrio estranho
sensação de ser som, imagens...
é verdade que meu discman completa 10 anos
segue pulando faixas quando está irritado
mas ainda me acalma
dessa ligeira ansiedade
e seus picos zunindo
(like a badhead in the morning)
visão embaçada
os remédios e sua rotina
24.8.05
querida A. R.,
hoje completa um ano.
desci no centro e comprei entradas para uma peça de teatro (Antígona).
saindo do Palácio das Artes quis entrar no Parque Municipal. de fora da grade me pareceu um lugar tranqüilo para dedicar um minuto a você.
me enganei.
definitivamente não somos cosmopolitas... e de enxeridos ficamos olhando os outros: suas roupas, feições etc.
nem disfarçadamente,
queremos devorar o outro antes que ele nos devore.
ninguém suporta a solidão alheia e logo metem o olho intimidativo.
tentei perceber os patos que correm sobre as águas verdes do lago central...
mas um desejo incontrolado de fugir daquelas pessoas me fez desistir do gesto...
caminhei depressa pela rampa em S e antes de atingir a estrada principal:
uma linda gata branca sai de dentro das árvores...
não vejo muitos gatos soltos na rua ultimamente,
somente os gatos da vizinha do prédio ao lado
(que ficam tomando sol na janela ao final da tarde)
talvez o número de cercas elétricas esteja impedindo os gatos urbanos de circularem entre quintais, ruas e passeios.
mas a gata branca me trouxe você...
era realmente linda
tinha o olhar imperativo, como o seu...
desfilava como uma dama em seu casaco de pele legítimo...
igual ao dia em que me pegou de madrugada em casa e me levou ao hospital,
nunca esquecerei desse dia... seria a última pessoa que eu teria visto se morresse na emergência do Semper, que fica em frente a uma das entradas do parque.
não fui a última pessoa a lhe ver...
hoje completa um ano.
desci no centro e comprei entradas para uma peça de teatro (Antígona).
saindo do Palácio das Artes quis entrar no Parque Municipal. de fora da grade me pareceu um lugar tranqüilo para dedicar um minuto a você.
me enganei.
definitivamente não somos cosmopolitas... e de enxeridos ficamos olhando os outros: suas roupas, feições etc.
nem disfarçadamente,
queremos devorar o outro antes que ele nos devore.
ninguém suporta a solidão alheia e logo metem o olho intimidativo.
tentei perceber os patos que correm sobre as águas verdes do lago central...
mas um desejo incontrolado de fugir daquelas pessoas me fez desistir do gesto...
caminhei depressa pela rampa em S e antes de atingir a estrada principal:
uma linda gata branca sai de dentro das árvores...
não vejo muitos gatos soltos na rua ultimamente,
somente os gatos da vizinha do prédio ao lado
(que ficam tomando sol na janela ao final da tarde)
talvez o número de cercas elétricas esteja impedindo os gatos urbanos de circularem entre quintais, ruas e passeios.
mas a gata branca me trouxe você...
era realmente linda
tinha o olhar imperativo, como o seu...
desfilava como uma dama em seu casaco de pele legítimo...
igual ao dia em que me pegou de madrugada em casa e me levou ao hospital,
nunca esquecerei desse dia... seria a última pessoa que eu teria visto se morresse na emergência do Semper, que fica em frente a uma das entradas do parque.
não fui a última pessoa a lhe ver...
20.8.05
atendendo a pedidos #2
cena 1: ensaio melodramático
ela desliga o computador e inicia uma correria pelos cômodos da casa.
(...)
“aonde está a fotografia cinza?”
- perdeu-se do álbum.
alguém, alguém...
você?!
*no sótão...
cena 2: a queda
sobe as escadas,
tropeça
descobre um fundo falso no último degrau
passagem para uma dimensão que não existe
a chave do sótão está perdida em algum lugar desse vão...
se encoraja e pula
não é bem o que lhe parecia...
cai no porão.
cena 3: uma luz
o porão não está vazio
ela endireita o corpo
percebe um baú no centro,
abre...
não só uma... várias fotografias...
papéis e alguns carimbos (?).
ela desliga o computador e inicia uma correria pelos cômodos da casa.
(...)
“aonde está a fotografia cinza?”
- perdeu-se do álbum.
alguém, alguém...
você?!
*no sótão...
cena 2: a queda
sobe as escadas,
tropeça
descobre um fundo falso no último degrau
passagem para uma dimensão que não existe
a chave do sótão está perdida em algum lugar desse vão...
se encoraja e pula
não é bem o que lhe parecia...
cai no porão.
cena 3: uma luz
o porão não está vazio
ela endireita o corpo
percebe um baú no centro,
abre...
não só uma... várias fotografias...
papéis e alguns carimbos (?).
não sei se lhe parece distante
eu estar ao pé da cama, fazendo a unha.
esmalte de tom café...
*blusa de listras cor de rosa, cabelo amarrado
a queda,
um corte
era dia de feira
sangrava.
agora, o queixo com esparadrapo,
você preparando sopa
a mesa posta
o queixo
pingava
mercúrio cromo (como me soa estranho)
*a memória da cicatriz
eu estar ao pé da cama, fazendo a unha.
esmalte de tom café...
*blusa de listras cor de rosa, cabelo amarrado
a queda,
um corte
era dia de feira
sangrava.
agora, o queixo com esparadrapo,
você preparando sopa
a mesa posta
o queixo
pingava
mercúrio cromo (como me soa estranho)
*a memória da cicatriz
17.8.05
14.8.05
quero todas aquelas imagens
de matias a eassis
esses seres submersos
que constroem poéticas (do vazio)
colam: cartier-bresson, cocteau, bergman
silêncio que habita
*saudades de novilúvio
outros dois seguirão para o norte
onde a neve é mais que intenção
somente todas aquelas imagens para interpretarem o som que invade a minha melancolia
um jazz para os etnográficos errantes
(e o ronaldo a nacar
nos meus livros)
de matias a eassis
esses seres submersos
que constroem poéticas (do vazio)
colam: cartier-bresson, cocteau, bergman
silêncio que habita
*saudades de novilúvio
outros dois seguirão para o norte
onde a neve é mais que intenção
somente todas aquelas imagens para interpretarem o som que invade a minha melancolia
um jazz para os etnográficos errantes
(e o ronaldo a nacar
nos meus livros)
7.8.05
O marido ri na sala.
Ela tenta se concentrar no texto que precisa entregar até o final da próxima semana.
O marido dá uma gargalhada.
Ela
inveja.
O marido salta da cadeira.
Ela tenta entender como o autor constrói aquela narrativa oscilante.
De repente está na guerra colonial de Angola, lutando por uma causa que desconhece... a defender seu país sem ter sequer tido a chance de escolher se queria estar ali.
uma perna pelos ares cai ao seu lado...
podia jurar que era um tronco de árvore a sangrar...
A perna do soldado a faz lembrar da caixa de brinquedos.
Dos pedaços de bonecas. Dos olhos vazados da Guigui que insistia naquele sorriso de covinhas, da cabeça amassada da Fofolete e da Suzi, ou seja, do braço mastigado da Suzi.
A perna ainda é o soldado?
De volta ao acampamento, vê o médico desesperado com a chegada do primeiro morto...
Ele sai da enfermaria e não se importa em dizer:
“Está a dormir a sesta”.
No lado direito, os girassóis exibem, entre a fumaça, o seu bailarico diário.
O estourar de bombas a faz pensar nos foguetes de fim de ano. Como é lindo ver o céu exibir cascatas que oscilam entre o azul e o amarelo...
Feliz 2...
Quando percebe,
já se passaram horas...
o marido está no quarto a tomar chá, ouvir o rádio,
numa serenidade que anuncia o fim do dia...
amanhã, segunda-feira.
Depois da guerra,
providencia um banho quente,
para relaxar os ombros enrijecidos...
acalmar os dedos melancólicos.
Ela tenta se concentrar no texto que precisa entregar até o final da próxima semana.
O marido dá uma gargalhada.
Ela
inveja.
O marido salta da cadeira.
Ela tenta entender como o autor constrói aquela narrativa oscilante.
De repente está na guerra colonial de Angola, lutando por uma causa que desconhece... a defender seu país sem ter sequer tido a chance de escolher se queria estar ali.
uma perna pelos ares cai ao seu lado...
podia jurar que era um tronco de árvore a sangrar...
A perna do soldado a faz lembrar da caixa de brinquedos.
Dos pedaços de bonecas. Dos olhos vazados da Guigui que insistia naquele sorriso de covinhas, da cabeça amassada da Fofolete e da Suzi, ou seja, do braço mastigado da Suzi.
A perna ainda é o soldado?
De volta ao acampamento, vê o médico desesperado com a chegada do primeiro morto...
Ele sai da enfermaria e não se importa em dizer:
“Está a dormir a sesta”.
No lado direito, os girassóis exibem, entre a fumaça, o seu bailarico diário.
O estourar de bombas a faz pensar nos foguetes de fim de ano. Como é lindo ver o céu exibir cascatas que oscilam entre o azul e o amarelo...
Feliz 2...
Quando percebe,
já se passaram horas...
o marido está no quarto a tomar chá, ouvir o rádio,
numa serenidade que anuncia o fim do dia...
amanhã, segunda-feira.
Depois da guerra,
providencia um banho quente,
para relaxar os ombros enrijecidos...
acalmar os dedos melancólicos.
4.8.05
orfeu atravessa o espelho
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