14.2.11

autocromo #9 - por eduardo 

















ele colheu uma flor
para calar a tristeza
e seu corpo foi tomado pela esperança
de que lhe arrebatassem a alma

13.2.11

autocromo #8

ana e maria

queria escrever uma carta para vocês duas
para expressar a minha angústia
meu desejo de companhia

na minha carta,
além de um punhado de açúcar,
postaria o amor que sinto
por seus escritos e fotografias

um beijo
glaura


 
autochrome #8

ana and maria

I'd like to write you both a letter
to convey my distress
longing for company...

in this letter,
beside a pinch of sugar,
I would post the love I feel
for your writings and pictures.

kisses,
glaura

---

versão para o inglês: eassis

9.2.11

A casa de Neide é essencialmente sonora
As cigarras tornam a noite percussiva
Vou lá ver o mar
O mar é o amor que o vento carrega
e se encarrega de trazer
O mar é o amor lembrado

7.2.11


lá, onde o sol encontra o rio
a correnteza leva o passado
e transforma a tarde em noite
o tempo dilatado da espera

lá, onde o sol encontra o rio

não há pressa, nem verdades
da margem, sonhamos ver a lua
o presente tornado futuro

5.2.11

4.2.11

autochrome #3 - para a Nica



















"minha jóia querida"
assim o jovem soldado 
se dirige à mulher amada

2.2.11

autochrome #2  - para o Edu






















o seio direito
levemente adocicado 
que o vento possa trazer 
mais uma vez a alegria

1.2.11

autochrome #1


se um dia um pássaro
se um dia pudesse voar
se eu fosse um pássaro
poderia levá-lo, meu amor, 
para bem longe
beijar seu rosto
sentir o calor do seu corpo
num lugar onde não exista dor



31.1.11

Todas as vezes que o vejo aflito
Uma parte de mim se entristece
Tão sozinho num quarto escuro
Pensando a vida nos olhos dela
Do amor perdido, mas não esquecido
Resta então um sorriso
Assim todos os corpos passeiam no infinito
E quando a noite cair inteira
Busca, meu bem, uma estrela
A esperança de um abrigo

29.1.11

Insônia
O som do ventilador preenche o quarto
Há quanto tempo estou acordada?
O trem acaba de passar
Trazendo carga e pessoas
Seu delírio é minha alegria 
Embala o meu sono
Pedindo a noite que vai virando dia

28.1.11

Hipocondria
 
a garganta coçando
o ar faltando
o rosto parecendo um enxame
é estranho pensar que vai morrer
justo quando 
a garganta coça
o ar falta
e o rosto parece um enxame
o calor é tanto que a gente delira
já não se sabe os sintomas de uma intoxicação
o mundo começa a derreter
o que se espera é uma brisa
ou se refrescar no mar

27.1.11

                                              
Ela é cândida
Seu gosto leve e delicado
Uma pintura traduz seu espírito
Lenço amarrado nos cabelos
Deusa grega tornada sonho
O azul é a cor do mar

















  para Wild Wilde


noite quente
nela tudo dorme
só não dorme o meu amor
que o mar encontrou

noite quente
se um dia o deserto de minha vida
não mais mirar o oceano
que eu busque um sorriso
ao menos um sorriso
e nele desfaça toda a dor

noite quente
nela tudo dorme
só não dorme o seu nome
que o mar levou

26.1.11

Ponta de Lança  #2

                                                
 

O sertão que meu coração habita é por natureza 
Antropofágico
É pra lá que eu quero ir um dia
Entre os vales de mar e pedra
Terra de sol, terra salgada
Quando caminhar por uma trilha e encontrar uma vereda
Molharei os pés na água e cruzando os dedos
Hei-de amar um poeta 

um grande lagarto verde,
com olhos de pedra e água

Do lado de cá 
O sertão é ave rara, olhos de diamante  
Assim como os dos poetas
A devorarem parte da alma 

um atropelo de sinos processionais
no silêncio
lá fora tudo volta
à espetaculosa tranquilidade de Minas



24.1.11

Ponta de Lança  #1

Em outubro de 1954 morre
Oswald de Andrade
Passados mais de meio século, alguns ainda buscam o que seja um movimento de arte revolucionária
Um ideário estético engajado
Poetas desconfiados de si mesmos, insatisfeitos (Mário)
Há poeta satisfeito?
Passados mais de meio século, leio cartas dos modernistas aos seus companheiros
Na mesa o perfume Tarsila
Presente de 12 anos para minha sobrinha
Era para ir junto uma carta, um livro com gravuras, uma poesia
A tentativa de restituir um tempo que nem eu mesma vivi
Tarsila
é um perfume cítrico
Oswald reivindica na estante a não dependência da Europa européia
Da qual "nada podemos esperar"
A atenção voltada à América Latina
Que nos deu Neruda e Guillen
Hoje simplesmente flertamos
Seja qual for o continente, a ética ou estética
E não nos abismamos
Todo o mundo é que nos devora
 
Seu passado, o meu 
O frescor das laranjeiras  

 

23.1.11

na minha casa os gerânios crescem durante o dia
enquanto o seu sorriso atravessa as manhãs
e se instala no coração quando a noite se aproxima
colho os gerânios para a mesa do jantar
você vem e afaga o meu corpo
sentindo a vida pulsar no ventre

21.1.11

FLORBELA # 2

de tanto sonhar que dormia
um dia ela dormiu
mas deixou versos impagáveis
para que continuássemos sonhando 

Florbela,
é tão cedo morrer na sua idade?

19.1.11

busquei o amor e encontrei o mar
e o coração bateu como da primeira vez
há quem um dia compreenderá este sentimento
há quem leia Llansol e não encontre Pessoa
há quem pense que amar é fugir de si mesmo
há quem deseje simplesmente um lugar entre as montanhas
onde possa voltar


seu sorriso pela manhã é imensurável
meu corpo inteiro procura o seu todos os dias
mas você é ave rara
que voa sem destino
cortando o infinito

18.1.11

a saudade é tanta
que às vezes o coração repete 
e inverte o som do mar

9.1.11

8.1.11

FLORBELA #1




















Não sou eu, nem você, nem ela
Mas a força que vem de um lugar 
Não aquém, nem além
Apenas um lugar onde se possa lembrar 
Em cinza escrevo seu nome
A língua roçando o céu da sua boca

3.1.11

os poemas encontram um nome

quem é você
que meu corpo e alma possui
e dentro de mim transforma
sentimentos jamais compreendidos?

diz, você,
que tudo controla e conduz,
sobre meus pulsos envolvidos pelas suas mãos
sobre meus dedos a tocarem sua face lânguida

venha abrir a porta
e sentir o hálito da manhã
o vento a sussurrar palavras de amor
acariciando a pele

deita sobre mim nesta noite
tome o meu corpo como seu
hoje e sempre
buscando o sorriso rompendo a madrugada


 

2.1.11

Amigo amante 

o poeta esconde algumas referências não por descuido 
fingindo ignorá-las
sua escrita se instala nos porões da alma
foi assim mas nem sempre

que o poeta possa ser livre
para não mais esconder o que sente





31.12.10

quando ele a vir novamente
somente o tempo poderá dizer
se o amor se espalhou pelo mundo
e encontrou o seu destino

da parte dela
uma flor colhida na madrugada
nada mais importante
do que a doce despedida

foi assim que Florbela encerrou seu diário
esquecendo-se do mundo que havia nela
não mais cabendo a dor
assim como num sonho eterno 

30.12.10

Mussulo

De uma ponta a outra da ilha
Casas de folhas de palmeira
O mar imenso
A mugir como um touro

Do outro lado
O amor
Sonha beijar com os pés na água
Sob a influência do azul
A ofuscar-lhe a vista

Correr os dedos na areia
Os pulsos frouxos girando na superfície informe
A escassez dos versos a se perderem na ausência de rima

O sol de África é uma bola de fogo

(anotações de viagem. diário sem data)

28.12.10


Tudo atravessa o meu corpo
como um mergulho de serpente na água
Do cedro observo o vale
a se perder de vista

Tombando sobre um jardim
não vejo mais as cores
Apenas a noite se dissolvendo
no céu da sua boca

Não escrevo para mandar recado
mas se um dia nos encontrarmos...
Que possamos construir outro presente
rumo ao infinito que é nosso



27.12.10

pode ser que ao acordar
eu me sinta serena
para seguir o mistério que há nas letras

talvez tome para mim o que há em você
de incertezas

a dúvida alimenta a alma
e o corpo reage na cama
pode ser que amanhã o espírito anoiteça

26.12.10

A tristeza é inerente ao meu corpo
Não acredito que possa ser feliz
Das vezes que fui
Refutei

O poeta se sente condenado
Pelo destino que traçou para si e para os outros
Seus personagens

25.12.10

Caros leitores,

Resolvi atualizar o blog e perdi a ferramenta antiga Echo e todos os comentários desde 2004. 
A Echo não quer permitir mais a minha moderação a não ser que eu pague $10 por mês. Triste fim de mensagens que eu tanto adorava rever e, o pior, os poemas que delas surgiam. 
Desafio: Nica, Edu, Ricardo e João, vamos reinventar tudo? Calosa Frida que chora por não ter sido prudente em copiar tudo antes. Não consigo recuperar a versão rosa e tudo que lá continha de marginal. 
Mas uma liberdade imensa esta, de começar do zero. Poderia até apagar algumas postagens mas não seria justo com o leitor que me sabe inocente, ganhando o sabor da carne nos dentes mais tarde. 

É isso aí. Onde encontro um tom branco?! Escrevo sobre o branco, não mais sobre o rosa! Da cor da neve por onde caminha o editor.

Beijo, 
Glaura. 
assim a imagem de um coração
como nesta fotografia
tardes que passei com ela
diz o poeta parado na esquina



20.12.10

Escuta

Quantos poemas para confessar?
Nesta terça-feira de carnaval
vejo a festa acontecer
por entre os vidros do bar
Mais uma vez seu rosto recortando a parede branca
Não posso conter este impulso
Querer escrever sem declarar
Não posso tocar seu rosto
E lhe beijar agora

Como confessar nesta terça-feira de carnaval?
Os poemas se arrebentam em folhos
Em cada dobra
Uma nova imagem se dissolve no céu da boca
A voz se contém
como uma colher tocando a língua

Declarar por poemas
que não se fazem entender
A metáfora é sempre artificiosa
Mas quando o sol nascer
A maquiagem derretendo a face
como chuva que lava o asfalto
Talvez não me arrependa
de nada dizer
                                                        Amor,

Ao menos  me tirar para dançar, você poderia
Quem sabe já o tenha feito em sonho?
Quem sabe?

(diário sem data)

10.12.10

Pablo Neruda


o vento desta noite gira no céu e canta
como quem pede licença
para invadir a madrugada
adentrando os segredos mais profundos
que a alma resguarda

8.12.10

sobre a finitude

foi meu pai quem me ensinou as letras
a ele devo a estante com os clássicos da literatura
e, ainda que precariamente, também sobre a história da arte
os livros serviram como guia em dias sombrios
o medo da morte

a ele, gaivota, tudo que eu puder lhe dar de amor em vida

6.12.10

o tempo do poema
muitas horas em frente ao computador
e nada
nem um poeminha que seja!
ô vidinha esta do consumo

2.12.10

Fico pensando se as coisas devem ser tão definitivas assim
O quão definitivo já é o futuro que nos aguarda
Se uma flor cresce no jardim,
É sentimento fecundo
Se a deixamos morrer,
Foi por esquecimento

26.11.10

pode o poema custar a vida do poeta?
cortei a pele com a faca
para que a dor da alma se instalasse no corpo
tudo que posso lhe dar
é uma cicatriz

23.11.10

Kawase*
 
Encontrar o mundo e sua superfície
Tocar a superfície 
As imagens tocam a morte

Sua maior certeza
Estar ainda vivo 

Incerto somente
O outro mundo que o aguarda

Ela filma para viver, para se sentir viva,
Para se relacionar com o mundo,
Talvez para se encontrar consigo mesma no mundo
Interroga a si e os outros
Deixa aparente suas dúvidas, angústias, ressentimentos e dissabores
Também a ternura  
Nas palavras sinceras que resistem

Adormece o crítico, com o pôr-do-sol
Cujo ciclo independe de nós
Cerejeiras amarelas em flor

A você
Uma carta para não fazer morrer este sentimento

---
*ao querido amigo Fred que está sozinho na Suíça e que não pode desfrutar das tardes chuvosas de domingo

13.11.10


que dia o amor vem o mar encontrar?

perco noites de sono
horas buscando versos
palavras que descrevam este sentimento

tudo no mundo num único poema?

tudo é a vida!
seus olhos sutilmente desencontrados
enxergam para além das incertezas
e pousam sobre mim
pedindo mais um dia que seja

mas o mar é temeroso

náufragos que somos
e vamos tentando suspeitar
da manhã que chega

o homem que eu amo

tem olhos de floresta
a floresta é tudo aquilo que eu vejo

10.11.10

Às vezes a palavra corta como uma lâmina afiada
E fere quem a gente quer esteja bem
A palavra não revela o apelo deste corpo
E fere a minha alma
Que adormece sem que se perceba
Embalada pelo som de um trem 



--------------
para o poeta que dorme em meus braços

7.11.10

Quando não se espera nada,
De repente somos tomados pelo sentimento
Como saber se é chegada a hora?
Como saber se é você
e não outro
A despertar o amor em mim adormecido?
Que o vento sussurre em meus ouvidos
E diga mais uma vez
Vá!
Ou não
Fique!

2.11.10

O barco

Ela sentada à mesa
Ele pensando na vida
Trocam duas, três palavras
Louvre, Orsay, Montparnasse
Traçam destinos no mapa
Saint-François-Xavier/ Invalides
Ou se preferir
Uma caminhada pela Avenue du Maréchal Gallieni

A casa é como um barco  
Se tornando memória
Da janela da pequena sala,
Ainda se pode ver as ondas baterem na proa,
também o cair da tarde sobre uma falésia 

 
Paris, 2007
para Gustavo Schettino
que me recebeu como uma amiga

31.10.10

Notre Dame

Para você, meu amor,
que anda longe
deixei estes versos
para quando nos encontrarmos
Sabendo que as ruas por onde caminho
foram também suas
As mesmas janelas fotografo
e a luz que incide sobre os telhados
(neste cair da tarde)

Do alto da escadaria
avistamos Notre Dame
A saudade que em mim habita
tomo nota

(anotações de viagem, diário sem data)

30.10.10

É preciso ter o espírito livre
Para que o corpo encontre a metade que lhe cabe
Vaguemos pelo mundo
E busquemos cada vez mais as pessoas do mundo

Perdidos na imensidão da noite
Como poetas vorazes  
Certos de que ninguém nos compreende
Seria preciso mais mil anos?

As paixões cegas são as que menos interessam
Livres de toda posse e de toda arrogância
Podemos ver o mar
Sem pensar no que oprime o presente

27.10.10

Quando vem a chuva
O vento passa a rir
E ri áspero levantando o vestido

Nesta noite chuvosa e de ventania
Se nos encontrássemos por acaso
Poderíamos tomar algo quente
Vendo a chuva e vento terminarem seu rito de passagem

26.10.10

A queda de Ícaro
 
                                para tio Marco

O dia após o outro dia
Ícaro escolhe a quem tocar com os dedos rosa

Sua queda provém do desejo de ir mais alto
do que os ares pudessem lhe fazer voar

Ícaro tem os pulsos firmes

mas o coração frágil
Em busca da liberdade
pediu rasgando os céus
que seu corpo pendesse no mar 


22.10.10


e se um dia a chuva...

Florbela,

é tão triste morrer na sua idade?
vejo seus olhos, penitentes

 
Florbela:

Ser-se novo é ter-se o Paraíso,
É ter-se a estrada larga, ao sol, florida,
Aonde tudo é luz e graça e riso!


Florbela,

e se um dia a chuva
pudesse ter lavado seu espírito
teria dormido como um anjo
e não morreria em sua dor
despedida


Florbela:


A minha Dor é um convento ideal
Cheio de claustros, sombras, arcarias,
Aonde a pedra em convulsões sombrias
Tem linhas dum requinte escultural.


Florbela

de roxo, violeta e lilás
seu vestido no dia em que se tornou imagem
em mim, seus sonetos são agora
noites e manhãs


Florbela: 

O sol morreu ... e veste luto o mar ...
E eu vejo a urna de oiro, a balouçar,
À flor das ondas, num lençol de espuma. 

Florbela,

e se um dia...
tenho medo de mim
quando anoitece o quarto
mas logo uma pequena fonte de luz
vinda de uma fresta
invade meu corpo e minha alma

há esperanças neste mundo?
o sono não vem
e com ele a espera dos dias felizes

20.10.10

                                          para eduardo assis
                                                     (dos comentários ali embaixo)


como a vida às vezes me parece tão estranha...

é adormecer para encontrar nos sonhos a verdade?

acordo triste e febril

hei-de ver os cisnes um dia

de o encontrar nesta terra cinzenta em frente ao relógio?

eis que me pego sorrindo

de imaginar o meu mundo ainda se construindo

não temo mais a morte

e com isso celebro a vida

o que seria de mim

poeta e mística

não fosse você

meu caro amigo?

vá ver o lago

tão logo chego e não será um engano

18.10.10

Rilkiana
  
para você, meu segredo,
que habita meu corpo inteiro
uma flor para acariciar seu rosto
nesta noite escura

em meus braços,
como um anjo recém-caído,
adormeceu de repente
e dormimos os dois
com o canto dos pássaros

despertei com o sussurrar do vento
e vigiei seu sono
vi a primeira luz da manhã iluminar sua face
com a ponta dos dedos,
contornei seus olhos e sua boca 
declarando amor verdadeiro

12.10.10

Mesmo que me peça,
Não saberei explicar por onde passam todos estes sentimentos que atravessam os dias
Provavelmente inventarei uma dor que não existe
Um amor ausente,
Um beijo de despedida

Outro dia senti o perfume da noite
Pensei em você
Nos seus versos misturados aos meus
No quão impreciso é o futuro que nos aguarda

Colhi o cheiro da noite

Da pedra brota uma flor
Que irá enfeitar a nossa mesa
Adentrando os desejos mais profundos
Sinto-me cada vez mais forte perante a mesquinhez do mundo

10.10.10

A passageira
                                                      Para Raquel Junqueira

A sombra das árvores a incidir na casa
O corredor guarda o corpo
Embocadura
O corpo gemendo
Lentidão dos gestos

Andar por entre as árvores
Lábios afastados
Beleza indecisa
A boca mordendo o vestido
Sombra sobre a forma

O homem caminha em direção a ela
Presa à sombra
Não tem como escapar ao apelo do corpo
Rola pelas escadas
Tem as mãos vazias
Os olhos febris
Um peso nos ombros
Ferida que não estanca

Desfalecida, deixa pender a mão
Adentra na noite
As pedras recebem a água da manhã
Ensopada, vê os ânimos se renovarem
Despe-se agora

Abandona o corpo
Olha o rio como da primeira vez
A floresta que o rio reflete

A nudez da planície
A chuva se dirigindo ao mar
O mar é o que não vejo

(anotações de viagem, diário sem data)

6.10.10

dois corpos se encontram na noite infinita
e se separam na manhã seguinte
é sempre um despedir
não adianta forçar o destino

 

os caminhos são múltiplos
os corpos que se encontram na noite infinita
e se separam na manhã seguinte
não são garantia de felicidade
 

algo está para acontecer
temos o mundo e a escrita
a escrita é o amor, o ódio, a alegria
ao mesmo tempo outra coisa
superior a qualquer sentimento comum aos homens