levamos a vida no trabalho
o corpo reclama
e a gente
que só sabe levar a vida no trabalho
ignora
mas é chegada a hora
de numa cama
dormir até acordar
ai meu amigo,
queria mesmo
depois da vida que se leva no trabalho
era em seu ombro
repousar
11.11.11
31.10.11
2. fragmento no bolso
o seu sorriso me transporta para o sul de Luanda. numa praia que vi quase deserta.
praia de puro sal
onde a imensidão do mar provoca uma saudade.
acompanhei as tardes virarem noite
e as noites virarem dia.
o sol, antes mesmo de tocar o infinito, se desmanchava
como uma bola de fogo que se desfaz com o vento,
misturando no céu matizes que não posso descrever.
lá, percebi que estava sozinha. que o amor era também uma invenção
e que apenas a mim pertencia.
assim como os versos que por ora lia ou escrevia.
sempre suspeitei disso.
certa noite, vendo-o dormir, me lembrei dessas imagens eternizadas pela memória.
toquei seu corpo sem que percebesse.
e o menino, em pele de homem, abrandou meu coração,
do mais puro afeto.
nesse momento, tive medo de que despertasse dos seus sonhos
e descobrisse o meu segredo.
alguém haverá de compreender tudo isso um dia.
o seu sorriso me transporta para o sul de Luanda. numa praia que vi quase deserta.
praia de puro sal
onde a imensidão do mar provoca uma saudade.
acompanhei as tardes virarem noite
e as noites virarem dia.
o sol, antes mesmo de tocar o infinito, se desmanchava
como uma bola de fogo que se desfaz com o vento,
misturando no céu matizes que não posso descrever.
lá, percebi que estava sozinha. que o amor era também uma invenção
e que apenas a mim pertencia.
assim como os versos que por ora lia ou escrevia.
sempre suspeitei disso.
certa noite, vendo-o dormir, me lembrei dessas imagens eternizadas pela memória.
toquei seu corpo sem que percebesse.
e o menino, em pele de homem, abrandou meu coração,
do mais puro afeto.
nesse momento, tive medo de que despertasse dos seus sonhos
e descobrisse o meu segredo.
alguém haverá de compreender tudo isso um dia.
30.10.11
1. fragmentos no bolso
Nesta manhã, enquanto tudo parece calmo, lembrei-me do seu rosto colado à janela. Você sorrindo. Era ainda dezembro e não sabíamos por quanto tempo adormeceríamos juntos. Foi súbita a sua partida. Hoje as palavras me faltam. Não sei se escreverei todos os dias como antes. Faltam-me ânimo, coragem, vontade. Um romance por fazer. Fragmentos deixados de lado. Já não mais existem gavetas e os papéis se espalham pelo quarto. Uma pequena caixa guarda cadernos inconclusos. Os livros em colunas até o teto.
Vontade de me lançar em outro corpo
sem medo, restrição ou condições.
Como caminhar de mãos dadas numa praia.
18.10.11
uma canção de amor
passei a suspeitar da dor
porque era preciso
e na solidão que ela produz
passei a suspeitar da dor
porque era preciso
e na solidão que ela produz
encontro versos menores
para que você
apenas você
pudesse tocar
não falar das paixões
é quase impossível
o calor dos corpos na cama
a noite que se torna dia para que você
apenas você
pudesse tocar
não falar das paixões
é quase impossível
o calor dos corpos na cama
e das mágoas passadas
dessas que deixam marcas
uma canção de amor
entrego-me completamente
despindo-me de toda vaidade dessas que deixam marcas
uma canção de amor
entrego-me completamente
deixando de lado a timidez
lançando-me no abismo
lançando-me no abismo
para que o poema não morra
e da pedra
faça brotar uma flor
e da pedra
10.10.11
8.10.11
6.10.11
29.9.11
28.9.11
22.9.11
álvaro de campos
li seus versos pela manhã
neles encontrei um nome
para a solidão que devora os dias
três, quatro ruas apenas
da casa para o trabalho
do trabalho para o bar
do bar para a cama que o recebe
meu corpo tomado pelo seu
permanece insone
escreve todas as noites sem fim
aguardando a hora de dormir
e não mais acordar
li seus versos pela manhã
neles encontrei um nome
para a solidão que devora os dias
três, quatro ruas apenas
da casa para o trabalho
do trabalho para o bar
do bar para a cama que o recebe
meu corpo tomado pelo seu
permanece insone
escreve todas as noites sem fim
aguardando a hora de dormir
e não mais acordar
15.9.11
Biografia literária (ao querido Mangabeira e aos jovens leitores)
A minha biografia literária sofre do mesmo mal que o da maioria dos jovens da minha época que não faziam parte (nem de longe) da paidéia aristocrática. A escola me fez ler todos os livros da Coleção vaga-lume e eu li até descobrir o poema "Ismália" de Alphonsus de Guimaraens, quando começava a perceber o mundo se abrindo na estante de casa. Meu pai consumia tudo que podia e nunca fez questão de nos apresentar ou impor a leitura. Mas reproduzia em voz alta o que sabia dos clássicos, dos manuais de medicina e das ficções científicas. Desde então passei a desenvolver a escuta e perceber cada dobra do corpo no ato da fala. Ele contava muitas histórias como se fossem aventuras dele. Daí passei a desconfiar de que não nos dizia toda a verdade. Precisava rapidamente conferir nos livros todo aquele emaranhado de histórias narradas pelo meu pai. Tornei-me uma leitora esquizofrênica, catando trechos de tudo que podia ler sem que ninguém percebesse, porque havia livros proibidos para minha idade, incluindo gibis pornográficos mocados num cantinho onde a Barsa imperava.
Do poema “Ismália”, aos 13 anos, a Werther, na juventude. Tentei compreender o que é desejar duas coisas ao mesmo tempo e a impossibilidade de realização do desejo a não ser pelo fim trágico. Essa é a tensão das duas histórias. Quanto à de Goethe, meu pai advertia que o livro conduziu, na época de seu lançamento, ao suicídio de vários jovens comovidos com o sofrimento do pobre Werther. Percebi que era preciso ler com distanciamento, o contrário disso seria a loucura. Descobri que os poetas antecipavam as coisas pra gente e que não precisávamos ser tão literais nas nossas ações. Nesse sentido, quando não era a vida a nos dizer, como leitores a gente também amadurecia à força.
A minha biografia literária sofre do mesmo mal que o da maioria dos jovens da minha época que não faziam parte (nem de longe) da paidéia aristocrática. A escola me fez ler todos os livros da Coleção vaga-lume e eu li até descobrir o poema "Ismália" de Alphonsus de Guimaraens, quando começava a perceber o mundo se abrindo na estante de casa. Meu pai consumia tudo que podia e nunca fez questão de nos apresentar ou impor a leitura. Mas reproduzia em voz alta o que sabia dos clássicos, dos manuais de medicina e das ficções científicas. Desde então passei a desenvolver a escuta e perceber cada dobra do corpo no ato da fala. Ele contava muitas histórias como se fossem aventuras dele. Daí passei a desconfiar de que não nos dizia toda a verdade. Precisava rapidamente conferir nos livros todo aquele emaranhado de histórias narradas pelo meu pai. Tornei-me uma leitora esquizofrênica, catando trechos de tudo que podia ler sem que ninguém percebesse, porque havia livros proibidos para minha idade, incluindo gibis pornográficos mocados num cantinho onde a Barsa imperava.
Do poema “Ismália”, aos 13 anos, a Werther, na juventude. Tentei compreender o que é desejar duas coisas ao mesmo tempo e a impossibilidade de realização do desejo a não ser pelo fim trágico. Essa é a tensão das duas histórias. Quanto à de Goethe, meu pai advertia que o livro conduziu, na época de seu lançamento, ao suicídio de vários jovens comovidos com o sofrimento do pobre Werther. Percebi que era preciso ler com distanciamento, o contrário disso seria a loucura. Descobri que os poetas antecipavam as coisas pra gente e que não precisávamos ser tão literais nas nossas ações. Nesse sentido, quando não era a vida a nos dizer, como leitores a gente também amadurecia à força.
É saudável nos distanciar das "verdades" do livro e compreender que a literatura lida com a ironia. Mas a maioria dos meus amigos que liam, liam pouco, ocupados com o eterno movimento da conquista, e não estavam interessados em desenvolver sobre assuntos tão complicados, a não ser como artifício de sedução.
Por fim, descobri a física e, ao desdobrar um mapa do universo, vi que Ismália era uma gota no oceano e Werther um ser perdido no espaço. Encantei-me com as possibilidades de ler no céu o infinito que nos aguardava. Porém, ao invés de ir pra física, fui fazer letras, para apreender um pouco mais o infinito que há nos livros.
Um amigo dizia que os poetas só amam aquilo que escrevem e que não se importam com os leitores.
Glaura C.
Belo Horizonte, 15 de setembro de 2011
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