31.5.15

Poeta de Montevidéu


Torres altas em lugar de montanhas 

Mar verde

Arcos que nos levam a esplanadas

O poeta repousa versos igualmente a luz que adentra o quarto

Vê de longe o céu e as nuvens 

Vê através do espelho 

O mundo   























para Eassis e sua amada, Rita

foto: Assis Martins

18.5.15

subo a escadaria 
o cão late 
um gato mia
contra passos pesados sobre a madeira irregular
pé ante pé firme no assoalho
enquanto voar parece mais possível























para a Chica

8.5.15


O meu pai era contador de um banco do Estado e saía aos fins de semana dizendo que iria trabalhar. Nessa época, eu andava com minha amiga de infância na casa da tia dela, nossa vizinha, que nos recebia com bolos, biscoitos e suco Tang. Seu marido, coronel reformado, sempre quando me via perguntava: "cadê o seu pai?". Eu respondia que ele havia ido trabalhar. Então, com seu bigode de coronel e com os cabelos penteados para trás com vaselina, dizia, em tom baixo, com olhar endereçado: "bancos não abrem aos fins de semana".

Tinha apenas 9 anos e achava tudo aquilo muito estranho. Só mais tarde compreendi que meu pai se apaixonara por uma colega e que não era recíproco, construindo para si um amor platônico. Minha mãe nunca nos disse uma palavra que nos fizesse revoltar contra ele. Quando chegava bêbado, ela o enfrentava com um ferro de passar roupas, fervendo como brasa. Era tão segura de si que, com um cabo de vassoura em punho, separava brigas dos meus irmãos já marmanjos. 


De modo que, aos 20 anos, quando fui pedida em noivado, olhei com desconfiança para o passado, achei deveras curto em relação ao que o futuro me aguardava. Não aceitei, obviamente, o que deixou meu primeiro namorado em choque. Sei que hoje está feliz – isso me conforta. 

Não me orientei pela bravura de minha mãe, talvez porque achei desnecessário passar roupas e cultivar a ideia de ter filhos para usar cabos de vassoura. O que já não fazia sentido para quem acabara de ingressar na Universidade e descoberto Hilda Hilst. Quanto ao coronel, soube que, na altura de morrer, fez tanta força que lhe saíram os excrementos.

16.3.15

Poemas de Curitiba II


O lençol azul clarinho no varal 

Mas ontem era um velho com lenço azul no pescoço 

A casa da pianista visitada 

No desencontrar de janelas 

É tão antiga quanto o sofrer à toa

Por pequenas queixas no corpo 

Ações, bocejos, objetos fora do lugar

Os risos atravessam essas janelas 

E adentram cômodos do pensamento 

No pequeno apertamento 

Vejo o velho, mas não a vejo, pianista

Apenas o canto da cama onde repousa

Sempre coberta por uma manta xadrez

Ela, pianista, o mistério que habita

Tais edifícios no centro da melancólica e triste cidade 

Curitiba   

 

26.12.14

o interessante é que vendo tudo
não veem ninguém

pessoas se despedem da vida
outras despem vidas

uns comemoram
outros se frustram

no tempo em que aqueles cuspiam fogo  
era engraçado 

agora o mundo se esvai
com as chamas que saem da sua boca 

20.12.14

se algum dia me descobrirem poeta

não vou dizer que fiz poesia 


mas que fiz escândalo


isso porque 


se há poesia possível para mim 


ela está entre o piano e uma voz rouca 








(ao Manoel)

16.12.14

que coisa mais antiga
gato ronronando no telhado 

longe das cercas elétricas
procurando um quintal?
 

comunicam com outros gatos
sempre na madrugada
e vão sonhando telhados

onde possam namorar

 
























polaroid: Andrei Tarkovsky

6.12.14

do tempo em que cantávamos e fazíamos poesia
 

todo mundo junto
 

da ausência do Oswaldo
 

da presença pulsante da musa Jupira


evoé!


quem mandou Frederico dizer
 

que a saudade virou sal da idade

Joyce canta o corpo estendido no chão
 

que seja somente um cantar e não verdade
 

que os corpos possam estar de pé ou sentados
 

dançando ou junto ao balcão


baixa lá no centro
 

lá o mundo é menor,
 

mas cabe muita gente


ao invés de virarmos juízes ou candidatos
 

viremos a mesa
 

viremos o copo
 

que Ana quebrou outro dia
 

e se cortou para não ferir ninguém 



21.9.14


tempo das jabuticabas


sem chuva
desta vez vieram miúdas
ainda que muito doces

mas o poeta saiu em fuga
fez a mala

[camisas e loção de barba]

partiu para outros rumos



com Vicente Cardoso Vale

 

10.8.14

Escadarias que levam ao gabinete do poeta 




imagem retirada da web: Edward Hopper

4.8.14

Estávamos caminhando na Avenida da Liberdade próximos à Estação de Comboios do Rossio
Passou por nós um homem alto, grisalho, vestido de preto
Eis que Ribão o cumprimenta em tom suave: "Pedro"
Ainda sem entender aquela visão
Segun
dos que pareciam uma eternidade
"Pedro..."
E ele olhou para trás, como quem se sente agraciado pelo vento em dias quentes
Olhou para trás e acenou com a mão
Talvez tivesse sorrido
Mas só consegui mirar seus olhos
Os mesmos que miraram Vanda, Zita, Ventura...


(Para Ribão)

 

2.8.14

enquanto a vizinha coloca pela terceira vez a mesma música
aquela da novela e na altura de preencher vazios
numa casa envolta por uma cerca laminada que corta mais do que faca
só posso ter por ela um sentimento de ternura
há sinceridade nisso
mesmo sabendo que dormirei lá pelas três da madrugada



(para Manoel)












28.7.14

Mirada #2

tenho admirado ações mínimas. microscópicas. a recusa por protagonismos.

nem mesmo o Lobo da Estepe estava certo da sua relação com a vida burguesa mantida pela classe intelectual de sua época, ora alimentando-a da sua escrita, ora nutrindo-se dela: teatro, cinema, bons livros.
 
“...a força vital da burguesia não se apoia de maneira alguma nas particularidades de seus membros normais, porém nas dos extraordinários e numerosos outsiders, que, em consequência, a querem rodear com a vaga indecisão e a elasticidade de seus ideais. Convive sempre na burguesia uma grande multidão de naturezas fortes e selvagens. Nosso Lobo da Estepe, Harry, é um exemplo característico”. 

depois que perdi o pai, a vida ficou menor. é verdade. volto para a rua ainda por ser asfaltada. o velho corcel cuja bateria estava sempre arriada. para os pés da minha mãe na terra vermelha. para um tempo em que os irmãos se escondiam no telhado. para um quintal com bananeiras.

lembrei das lições de física, quando o professor abria aos poucos o mapa do universo. a terra, o sistema solar, a galáxia. ao final disse: "vocês... menos que um grão de areia". saí com o mapa na cabeça. entendi que a galáxia era desejar tudo. queria ter sido artista e caí no curso de Letras.

das aulas de mitologia, veio o mito de Narciso e o perigo de se apaixonar por si mesmo.

difícil remexer pastas e arquivos do meu pai. pastas que se misturam às minhas. o antigo quarto. a velha estante. memórias recapeadas no presente.

o que sobrará do meu pai quando partirmos? de mim, de você?

ontem, reencontrei as lições de latim:

"reformido arma quae vulnerant, lupos qui ululant, malos homines a quibus uirtus impugnatur". 

Ele [o Lobo], que se desenvolveu muito mais do que se espera de um burguês, ele [o Lobo], que conhece as delícias da meditação e também as sombrias alegrias do ódio e do ódio contra si mesmo, ele [o Lobo], que despreza a lei, a virtude, o senso comum, é, no entanto, um prisioneiro forçado da burguesia, e não pode escapar a ela. E, assim, em torno do núcleo da burguesia se sobrepõem amplas camadas de humanidade, muitos milhares de vidas e inteligências, cada uma das quais surgida certamente da burguesia e disposta a uma vida sem reservas, mas que continua dependente da burguesia por sentimentos infantis e um tanto contagiada em sua debilidade pela intensidade vital; embora desterradas da burguesia, continuam de certo modo pertencendo a ela, obrigadas a ela e a seu serviço, pois à burguesia assenta perfeitamente o contrário da máxima do Grande: "Quem não está contra mim, está comigo". 

“Temo as armas que ferem, os lobos que uivam...”


22.7.14

contra o estado de polícia

o corpo grita

um antídoto para o desamor:

corra, dance, resista 





Cena do filme Mauvais Sang (1986), de Leos Carax,
com Denis Lavant

26.6.14


Cacilda&Walmor

“Estragão: Vamos embora!
Vladimir: A gente não pode.
Estragão: Por que?
Vladimir: Estamos esperando Godot.
Estragão: É mesmo.”

("Esperando Godot", Samuel Beckett)

“Todas as tentativas de separar-se fracassaram, em face da exigência que um tem do outro. Juntos, os dois podem esperar interminavelmente. O homem precisa do irmão, condenado que está a viver. E essa pungente fraternidade é a vitória sobre o nada."

(Sábato Magaldi)
























foto retirada da web, autoria não encontrada

11.6.14

CECÍLIA MEIRELES - da estante de livros da casa dos meus pais. a primeira poeta que eu li.   


A poeta foi um dia 
Como aqueles que se foram e outros que irão
Ela, que cantou uma canção da tarde no campo, 
estrada depois de estrada, 
Falou em cercas de flores, palmeiras,
serra azul, água calada.

Como a poeta,
andando sozinhos,
por cima de pedras,
atravessando vales e bosques,
buscamos aquela tarde
em que ainda sentávamos juntos.

E de tanto olhar para longe,
não vendo o que se passa perto,
nosso peito tornado também puro deserto
Subir morro, descer em seguida.
Caminhando sozinhos ao longo da noite,
buscando a estrela que foi da poeta, agora sendo nossa, um dia.



22.5.14

preciso de um par de tênis para caminhada
de um vidro com o perfume que acabou
de uma luva e ferramentas de jardinagem
de terra e de vasos para plantar
preciso das palavras e das imagens contidas nelas
recortar fotografias
varrer o chão


17.5.14

“O cavaleiro da triste figura” é a legenda que acompanha esta fotografia encontrada em uma das pastas de retratos do meu pai.

Ao nos dizer toda a sua vida que morria, “não chegarei aos seus 15, 18 e formatura”, seu Gaivota teve a façanha de enganar a morte, pois sua esposa e filhos viviam com a dúvida se ela de fato viria. Também dizia, em relação aos filhos, “a criação deveria ser como a dos cavalos: quando adultos, correm livres pelos descampados e encontram cada um o seu destino”. Nos últimos dias, porém, não cansou de repetir: “olha, vocês estão viajando muito, se receberem a notícia da minha morte, terão trabalho para voltar”. 

O corpo descansa agora. Dorme e sonha o livro:

“E começou a tocar uma harpa suavissimamente. Ouvindo isto, ficou D. Quixote pasmado, porque logo naquele instante lhe acudiram à memória as infinitas aventuras, semelhantes àquela, de reixas e de jardins, músicas, requebros e desvanecimentos, que lera nos seus livros de cavalaria”.

A alma permanece no vento, no verde das árvores, no canto dos pássaros; e nesta imagem que hoje confirma a sua ausência, como objetos fora do lugar: a bengala, o chapéu, os óculos sobre a escrivaninha.




11.5.14

O voo do seu Gaivota,  meu pai

Meu pai tem agora as mãos sobre o peito 
Dorme um sono profundo e não quer que o acordemos
Deixou um livro na cabeceira: "As minas do rei Salomão"
Sentei ao seu lado, abri outro livro que o acompanhava e li alguma poesia do Drummond

*a casa sempre esteve em construção



19.4.14

Havia visto apenas um trecho de "Juventude" (1951), do Bergman, assistido hoje na Mostra dedicada ao diretor no Cine Humberto Mauro. Sempre que pensava em Bergman, vinha uma atmosfera estanha, ligada ao silêncio e ao invisível da morte. Alguns detalhes me chamavam a atenção: a presença dos relógios, a caixa de costura e a reincidência do gesto de coser uma peça de roupa ou pregar um botão, assoalhos de madeira que rangem um som defunto, rostos recortados, bocas silenciosas e a se silenciarem, poucas lágrimas... Recentemente, alguns filmes me trouxeram com mais intensidade o mar, o céu, o vento, o canto dos pássaros... a luz refletida na água como purpurina. Também: as carruagens de circo e a decadência de uma arte em vias de desaparecer, o Bergman dos comerciais de TV, do documentário, a câmera voltada para os bastidores das filmagens, para o retrato da mãe, para os primeiros passos do seu filho Daniel. 

O trecho que um amigo havia me mostrado corresponde ao momento em que Maria e Henrik começam a desenhar sobre a capa de um disquinho e os desenhos ganham vida, possível homenagem ao cinema de animação, compondo um pequeno teatrinho que narra a história desse jovem casal. Embora tenha me emocionado em vários de seus filmes, não me recordo de ter os olhos cheios de água como hoje, depois do salto de Henrik. Para Godard, “o filme mais bonito de Bergman”. De arrebatar, sem dúvida. Talvez porque "o desenho não é a forma, é a maneira de ver a forma". Resta uma aproximação entre duas imagens que já deve ter sido feita por algum estudioso do seu cinema: a bailarina de Degas e Maria de Bergman, em “Juventude”.