28.9.10

sonho com um mundo sem excessos
e nele apenas a página branca
e um único poema

23.9.10

Entre continentes
(o meio é o mar)

                       para Nica e Ribão 
                       por uma proposta cinematográfica

aquilo que nos afeta
neste cotidiano
faz valer estes versos
que ora trago em imagens

caminha sempre pensando
as ruas, o rio, o canto e o amor
uma flor nascendo
em cada uma das fendas
destas paredes brancas

sinto saudades de todos
ao navegar nesta luz
refletida no Tejo

um barco passeia pelo plano
atravessando o quadro

(anotações de viagem, diário sem data)
Sintra
                                                                                 

O rio que corre entre as macieiras
Deságua no mar e não em outro rio
O que mais me impressiona
É o mar
A devorar as rochas 


(anotações de viagem, diário sem data)

21.9.10

Amor

Desperdiçaram esta palavra
                                  Amor
Em muitos livros e filmes
que  não valem a pena

Usaram, por outro lado,
o amor (ou a ausência dele)
para fazer poemas nos intervalos do dia

Do amor
(o sentimento)
Quem o tem sabe

O poeta está sentado sozinho
Numa mesa de bar
A espera do amor entrar
Como uma lufada ele o vê
O amor, porém, passou longe
Como um golpe
E o poeta escreve a dor de não poder amar ninguém 

(anotações de viagem, diário sem data)

19.9.10

é estranho olhar para os objetos e não perceber nada neles
é estranho quando o cotidiano não lhe traz sentimento algum
onde você está?
sinto-me seca, vazia
o camponês partido em três
todos os poemas espalhados na cama
poemas que um dia
hão de narrar a vida...

17.9.10

De Angola trago um vestido, uma rosa, uma pequena escultura

Na esperança de ver novamente seu horizonte

Ouvir seu canto

Tatear o seu ar

Relatar seu pranto



Das viagens que ainda não fiz

Circuladas no mapa

Já se tornaram saudade

De tempos ainda não vividos

De livros ainda não lidos

Poemas ainda não escritos



A árvore centenária guarda seu nome

Guarda você

E estes versos 

(anotações de viagem, diário sem data)

14.9.10

Sinto nostalgia do tempo em que escrevia no sobrado da Serra
A atmosfera do escritório, os livros na estante
Os galhos das árvores na janela imprimiam um ritmo incomum
O vento fazendo curva na Oriente
Os gatos da vizinha empoleirados


Era feliz o tempo em que os amigos lá iam
E fazíamos festa
Tudo passou pela sala escura

O tempo hoje é um florescer contínuo
Não cabendo mais a melancolia
Tateando as letras
Procuro uma imagem escondida
O sorriso de agora que não posso revelar 


para Nica, Edu e Garro

13.9.10

Memórias I


Ela fez as malas. Buscou colocar na bolsa alguns pequenos objetos da casa que tinha mais afeição. São apenas objetos de porcelana e metal. Lembranças de viagens escassas. Olhou para dentro de si e viu um mundo precário.  Um passado estilhaçado. O pai, um louco adorável, nunca soube que ela chorava escondida atrás da porta do quarto. Desde então, quando o quarto não conseguia abrigar sua alma, procurou descobrir esconderijos pela casa. Passava horas no escuro contando até mil. Adormecia. Inventou uma realidade paralela. Jogos de enganar a solidão, de enganar a morte. Sempre temeu a morte. O pai repetia insistentemente que o mundo não valia a pena. Ela tinha apenas seis anos quando perdera a ilusão, se dando conta das paixões febris que tornavam este mundo doente. Procurou se encontrar na noite sem fim. Abandonou os esconderijos e mirou o céu.  As estrelas pareciam lhe sorrir. Primeiro achou, pelas histórias que a mãe contava, que eram as pessoas que morriam e que lá estavam felizes. As três Marias haveriam de andar sempre juntas.  A maior, Estrela Dalva - cujo brilho ofuscava os olhos. Depois descobriu que eram corpos celestes, que poderia passar por dentro delas, que Dalva não era estrela, que se chamava Vênus, e que a vida era finita. Não se reconheceu no universo, imaginou a própria morte, viu seu corpo tornar poeira fina, dessas que o vento carrega. Tocou na terra e viu que de lá surgiam pequenos insetos, todos eles trabalhando independentemente dela, de seus medos. Mirou as árvores, os pássaros, as vespas. Sorriu com o dia. Esperou a chuva e se viu novamente sozinha. Na estante de livros se deparou com os clássicos, também com as imagens que narram a história da arte. Reconheceu-se fascinada pelas figuras antes das letras. Aprendeu a decompor as cenas. Com o olhar aguçado, tomando para si as particularidades da vida, começou a desvendar os horrores e maravilhas da realidade que se faz nos livros. Voltou a se esconder na solidão do quarto depois de descoberto que podia escrever, escrever, escrever.  O relógio marcou a hora de ir. Não olhou o entorno. Esqueceu o caderno, esqueceu do último poema. Fechou o passado em ata.

2.9.10

Ruy Duarte de Carvalho

                                     
Marquei no mapa um lugar
onde o tempo demore a passar:
Namíbia.
Suportarei o deserto?

Amor ao vento

que balança o véu
que cobre o seu rosto

As cartas são afagos

Seu canto
para ser lembrado



para o Zetho 
que muito sabe desta vida 
pela carta enviada ao amigo 
por compartilhar sua Angola comigo
 

1.9.10

das imagens que ora carrego
o corpo de uma jovem
derretendo no chão de agosto

a ideia primeira
a mão pendida 
o sopro do vento

ela tem os cabelos claros
um sorriso amável
uns olhos desconfiados

a culpa que carrego comigo
não saber distinguir
rumor de grito

a carta*

por que eu haveria de apagá-la?
por que preciso apagá-la?
tão lindas palavras me chegam
com o vento nesta tarde de calor
como é lindo poder ler você

que amor é este entre os homens?
que amor é este que se encontra
entre as flores que caem das árvores
e o rio cuja margem não se alcança
só sei fazer poemas, minha amiga
e hoje quase desisti

eu me sinto enfraquecida
triste e risonha

*para Nica
toda palavra é crueldade
a palavra fere

(censura e dor)

no amor
não há miséria

no silêncio se faz
um filho

29.8.10

foi em agosto

é estranho voltar ao bairro da infância
tudo parece familiar
ao mesmo tempo distante
 

os doidos do bairro
são os mesmos doidos
cada vez mais doidos
 

minha mãe a lhes dar comida
eles a agradecerem a Deus
ao Sr. Nosso Jesus Cristo

estamos a envelhecer

como antes o velho padeiro e português
ou o espanhol da casa verde

estamos a envelhecer, amiga

já se passaram anos...
ainda não nasceram os filhos

tudo igual no bairro da infância

e você como uma estrela
que do céu ri da nossa sorte

23.8.10

Eassis

na caixa de correios
um cartão
o cartão de um amigo
triste a distância
este estar sozinho?

dos afetos

que vêm e vão
vez em quando, a alegria

doces tardes de agosto

cuja luz (que luz!) não tem igual
e o frio que timidamente vai nos deixando
não tarda esquecido

o tempo está seco

mas o amor floresce
como as flores vespertinas

meu amigo,

você é um querido.
Van Gogh repousa
entre as estampas e memórias 
daqui a pouco
nos encontramos para uma cerveja
quiçá um jogo de cartas?



19.8.10

a vespa e a orquídea

5#10

entre seus olhos
o meio
nosso amor é rizomático
não tem início nem fim
sempre em vias de se fazer
no infinito

você atravessa em mim
desejos segredados
eu em você sou vespa e orquídea

no rio
roendo as margens
adquirimos velocidade no meio

o filósofo diz:
faça a linha e nunca o ponto

o poeta diz:
o mundo do rio não é o mundo da ponte


o que é o amor?
justo onde ele se esconde

16.8.10

A noite infinita

4#10


Meus olhos procuram os seus na noite incerta.
Ao encontrá-los buscam,
escondido atrás da árvore dos enamorados,
o abrigo dos dias felizes. 

É tão puro e simples aqui dentro de mim.
Como mergulhar os pés em água morna e sal
para lavar o corte.
Ou cobrir o rosto com as mãos
e reaparecer logo em seguida. 

Negra noite sem fim. 

Meus olhos que procuram os seus
são olhos de avenca.
Encontrando seu sorriso em cada uma das nossas manhãs.
Pudesse não permitiria que existisse a dor
ou que nenhum mal alguém lhe fizesse.  

Meu bem, durma um sono tranquilo.
A chuva renovará o ar
e a esperança de uma vida mais sincera.
A você uma flor e os meus encantos. 

Um bom dia vem quando menos se espera.

9.8.10

Sentados na Irlanda

                                                      Para o Eduardo Assis     

Nem sempre o que eu escrevo
é o que eu escrevo
Às vezes é exatamente o sentimento atravessando a alma
Como uma lâmina afiada
Por vezes, a evidência de uma voz alheia
Um grito
Quase sempre blefo
Como num jogo de cartas

Aprendi a ganhar muitos feijões no pôquer

Fingindo não saber jogar
A tabela de combinações ao lado
Não é que as cartas me saíam por entre os dedos?
Pousá-las uma a uma
Requinte de sarcasmo
Ai como é gostoso o gosto de cerveja...

Alguém está na Irlanda

Vagando pelas ruas
Se perdendo nas livrarias e cafés
Procurando uma mesa, alguns feijões
Cortando o baralho em três
Quem me ensinou a blefar


6.8.10

Maria Madalena

Sentirá a pedra rasgar a carne
Sem a intervenção de Deus
Sob tortura,
Não há quem resista em silêncio
Prevalecerá a versão do algoz
 
Engana-se quem acredita aqui ser diferente 
Com a faca o carrasco corta a carne,
Divide as partes e as redistribui
Da ferida escorre um líquido quente 
A liberdade um ato de lograr?