Meu pai barrigudo louco sem dentes.
Sai pela madrugada gritando meus irmãos.
Vou atrás dele. Momentos antes pulava a linha do trem.
A cabeça está pesada.
O sonho escapa os loucos da casa.
29.9.07
12.9.07
Fim do cacimbo*
Cheiro de terra molhada.
Sangue espesso. Barro amontoado.
No alto daquele morro tem um Baobá, sim sinhô.
Os galhos tocam o céu.
De maio a agosto, floresce uma única noite.
De lá, do alto daquele morro,
o mar pode ser visto.
Agora é setembro. Não recomendo.
Terra vermelha, terra molhada.
*para Nazareth Fonseca, para Zetho Gonçalves
Sangue espesso. Barro amontoado.
No alto daquele morro tem um Baobá, sim sinhô.
Os galhos tocam o céu.
De maio a agosto, floresce uma única noite.
De lá, do alto daquele morro,
o mar pode ser visto.
Agora é setembro. Não recomendo.
Terra vermelha, terra molhada.
*para Nazareth Fonseca, para Zetho Gonçalves
5.9.07
Umbigada
O umbigo é um poço
Não tocar nele
Inocente achar que se fala a verdade
Não se transfere o poço
Não se transfere dor
Amar com a pele inflamada
Não tocar nele
Inocente achar que se fala a verdade
Não se transfere o poço
Não se transfere dor
Amar com a pele inflamada
14.8.07
Vento do mar
A noite caiu
Estava com a xícara de chá na mão
Sobre a mesa uns restos de pão
Em tempo de guerra não se arrisca desperdiçar nada
Morreu do efeito do gás
Estava com a xícara de chá na mão
Sobre a mesa uns restos de pão
Em tempo de guerra não se arrisca desperdiçar nada
Morreu do efeito do gás
30.7.07
Lições para amar
Estou a cair, a cair, a cair
Do cineasta que mais inspira a poetisa
Os silêncios, os dramas, os fantasmas
A casa de Bergman
Um relógio sem ponteiros, uma cama, um lençol branco
Seu sopro: - Ágnes...
Do cineasta que mais inspira a poetisa
Os silêncios, os dramas, os fantasmas
A casa de Bergman
Um relógio sem ponteiros, uma cama, um lençol branco
Seu sopro: - Ágnes...
26.7.07
D'este seu pequeno canto de Luanda*
Vento de terra vermelha,
poeira fina que cobre os carros
O sol que cai no mar coagula imensa bola de fogo
Musseques a perder de vista,
ruas por asfaltar,
crianças agarradas às costas
(amor)
Pensar em Luanda
seus mercados, seus ritmos, suas falas
Máquinas de costura reta,
pernas de furar tecido,
língua no céu da boca
Amiga, amiga, amiga...
Pano bonito, estampa de elefante, olha amiga
(para John, Forrest, Marília, e Mário)
*frase extraída de mensagem enviada por John
poeira fina que cobre os carros
O sol que cai no mar coagula imensa bola de fogo
Musseques a perder de vista,
ruas por asfaltar,
crianças agarradas às costas
(amor)
Pensar em Luanda
seus mercados, seus ritmos, suas falas
Máquinas de costura reta,
pernas de furar tecido,
língua no céu da boca
Amiga, amiga, amiga...
Pano bonito, estampa de elefante, olha amiga
(para John, Forrest, Marília, e Mário)
*frase extraída de mensagem enviada por John
20.7.07
Entre as montanhas
Da cama pode-se ver o horizonte.
O céu impondo uma cor turva.
No colchão uma pata de urso mole.
O que mais choca é a estupidez.
No fundo da bacia um rio e uma neblina.
Um filme passando na TV.
O céu impondo uma cor turva.
No colchão uma pata de urso mole.
O que mais choca é a estupidez.
No fundo da bacia um rio e uma neblina.
Um filme passando na TV.
5.7.07
O flautista mágico
A ponta dos dedos corrói a pedra.
Se nasce uma flor espremida entre a pedra e os dedos
dizem que somos poetas vulgares.
Enquanto a água corre no corpo, e a flor teima em nascer,
o corpo quebra pedras no momento inoportuno.
Se nasce uma flor espremida entre a pedra e os dedos
dizem que somos poetas vulgares.
Enquanto a água corre no corpo, e a flor teima em nascer,
o corpo quebra pedras no momento inoportuno.
Naus
Sou um náufrago
tocado pelo ronco do mar.
- Meu amor me espera.
Enamorado de você,
o vento carrega meu espírito.
Se não sou eu a dizer palavras,
a pele queima.
Beijar, beijar, beijar
Num instante sinto frio.
Procuro um canto.
O olhar tenta colher seu sorriso.
Pouso as mãos no assoalho,
toco as irregularidades da madeira.
- Meu amor me espera.
(para Bardo)
tocado pelo ronco do mar.
- Meu amor me espera.
Enamorado de você,
o vento carrega meu espírito.
Se não sou eu a dizer palavras,
a pele queima.
Beijar, beijar, beijar
Num instante sinto frio.
Procuro um canto.
O olhar tenta colher seu sorriso.
Pouso as mãos no assoalho,
toco as irregularidades da madeira.
- Meu amor me espera.
(para Bardo)
25.6.07
De amigos etnográficos
Acabo de chegar em Sintra.
O destino é a Praia das Maçãs.
Ver o litoral.
A cidade é charmosa
onde deveria ter hospedado uns dias.
Tiro impressões de uma tarde.
Sozinha.
Lembrar das pessoas queridas, tarefa do poeta?
O silêncio é mesmo o lugar da escrita.
Corro o risco da metáfora.
Não tenho pressa. Digo devagar.
- A visão é sempre um corte cinematográfico.
(Para Oswaldo)
O destino é a Praia das Maçãs.
Ver o litoral.
A cidade é charmosa
onde deveria ter hospedado uns dias.
Tiro impressões de uma tarde.
Sozinha.
Lembrar das pessoas queridas, tarefa do poeta?
O silêncio é mesmo o lugar da escrita.
Corro o risco da metáfora.
Não tenho pressa. Digo devagar.
- A visão é sempre um corte cinematográfico.
(Para Oswaldo)
23.6.07
19.6.07
De anjos e pássaros
Deixei de escrever há um tempo para dar lugar às notas práticas.
Onde seguir, que rua é melhor pegar, onde ir.
Mudei de casa em Lisboa, mas já estive em mais três e dois hotéis nesta estada Luanda-Dundo-Lisboa-Porto-Vila Real-Paris.
Durante um tempo tive vontade de estar em casa, por uma noite apenas, colocar os pés em água quente e sal.
Beijar Ronaldo. E voltar.
Agora aproveito os últimos dias na cidade de Pessoa e possível visita a Évora e Sintra, lugares que não poderia deixar de conhecer por estarem tão perto. A Praia das Maçãs fica em Sintra e a curiosidade é imensa.
Comprei as cartas de guerra de Lobo Antunes e senti o amor de um jovem casal. Um esforço para se manter vivo.
Na guerra nada parece escrito.
Retomo os exercícios de fixar as ruas e reaprender a me localizar.
Agora, sentada numa igreja de pedra, se fechar os olhos posso estar na de São José, no centro de Belo Horizonte, onde tantas vezes fui.
- Traz de volta o sentimento que me deste na infância. O amor pelos pássaros, pelo ar, pelo céu azul.
Não imploro aos santos uma sanidade. O sentimento beato não deveria ser encoberto.
- Quem nunca pediu a Deus a cura de uma indigestão?
- Rogai por nós.
Desligaram a música. Desço a rua até a Baixa para postar esta carta.
(Para Ronaldo)
Onde seguir, que rua é melhor pegar, onde ir.
Mudei de casa em Lisboa, mas já estive em mais três e dois hotéis nesta estada Luanda-Dundo-Lisboa-Porto-Vila Real-Paris.
Durante um tempo tive vontade de estar em casa, por uma noite apenas, colocar os pés em água quente e sal.
Beijar Ronaldo. E voltar.
Agora aproveito os últimos dias na cidade de Pessoa e possível visita a Évora e Sintra, lugares que não poderia deixar de conhecer por estarem tão perto. A Praia das Maçãs fica em Sintra e a curiosidade é imensa.
Comprei as cartas de guerra de Lobo Antunes e senti o amor de um jovem casal. Um esforço para se manter vivo.
Na guerra nada parece escrito.
Retomo os exercícios de fixar as ruas e reaprender a me localizar.
Agora, sentada numa igreja de pedra, se fechar os olhos posso estar na de São José, no centro de Belo Horizonte, onde tantas vezes fui.
- Traz de volta o sentimento que me deste na infância. O amor pelos pássaros, pelo ar, pelo céu azul.
Não imploro aos santos uma sanidade. O sentimento beato não deveria ser encoberto.
- Quem nunca pediu a Deus a cura de uma indigestão?
- Rogai por nós.
Desligaram a música. Desço a rua até a Baixa para postar esta carta.
(Para Ronaldo)
13.6.07
Em pequena via meu pai cortar o calo com uma navalha.
Vazava em mim um sentimento de sangue.
(Temo os objetos cortantes)
Hoje, na Praça da Figueira, tive medo da vida.
Temi pelos antepassados. Temi por terem cruzado o Atlântico.
Talvez fosse apenas vontade de virar as costas.
Dizem muito adeus por aqui.
A metade que existe em mim, o medo, está no gesto de rasgar o calo em água quente e sal.
Dos livros que meu pai depositou na estante
Quixote, Werther, Dom Casmurro, Glaura.
Vazava em mim um sentimento de sangue.
(Temo os objetos cortantes)
Hoje, na Praça da Figueira, tive medo da vida.
Temi pelos antepassados. Temi por terem cruzado o Atlântico.
Talvez fosse apenas vontade de virar as costas.
Dizem muito adeus por aqui.
A metade que existe em mim, o medo, está no gesto de rasgar o calo em água quente e sal.
Dos livros que meu pai depositou na estante
Quixote, Werther, Dom Casmurro, Glaura.
7.6.07
Poema para Ronaldo
A orquestra acorda suavemente.
Por favor, grita o homem ao centro.
Faz uma pausa.
Quem está de pé no escuro? - diz o maestro.
Os dedos estão leves, a reger os instrumentos.
Homem inquieto.
Em minha mente faço versos menores. Tradução desse som.
Imagino palavra e música.
Procuro Samuel Beckett.
Girar Girar Girar
Diga as regras. Cairei em sono profundo.
Todos os poemas endereçados a você.
Por favor, grita o homem ao centro.
Faz uma pausa.
Quem está de pé no escuro? - diz o maestro.
Os dedos estão leves, a reger os instrumentos.
Homem inquieto.
Em minha mente faço versos menores. Tradução desse som.
Imagino palavra e música.
Procuro Samuel Beckett.
Girar Girar Girar
Diga as regras. Cairei em sono profundo.
Todos os poemas endereçados a você.
1.6.07
Pardon
As máscaras sorriem.
Não é tempo de sonhar.
Se pudesse escreveria compulsivamente.
Mas tudo vira metáfora imprópria.
Corvos no pátio.
Catedral sombria.
Paris
em qualquer museu.
Podemos ser mais perturbados.
Caminhar perdendo o jogo das pernas.
Loucos, portanto.
Não é tempo de sonhar.
Se pudesse escreveria compulsivamente.
Mas tudo vira metáfora imprópria.
Corvos no pátio.
Catedral sombria.
Paris
em qualquer museu.
Podemos ser mais perturbados.
Caminhar perdendo o jogo das pernas.
Loucos, portanto.
27.5.07
Meu pai me ensinou a ver mapas.
Essa estranha maneira de viajar me fez inventar os lugares.
Sempre imaginei na folha achatada como seria sua arquitetura.
Espaço entre os olhos.
Hoje, do alto de um castelo de Lisboa, vejo construções em labirinto.
Parece que sempre estive aqui.
Tudo soa melancólico e triste.
Essa estranha maneira de viajar me fez inventar os lugares.
Sempre imaginei na folha achatada como seria sua arquitetura.
Espaço entre os olhos.
Hoje, do alto de um castelo de Lisboa, vejo construções em labirinto.
Parece que sempre estive aqui.
Tudo soa melancólico e triste.
26.4.07
Rumo ao Norte
Não, não se pode ser covarde com os dedos.
A impaciência ilude o cara.
Estou em Omaha, Saint Louis, Memphis.
Amanhã, no porto, farei versos melhores.
Missouri, Ohio, Mississippi.
- Ao encontrar Dora pedirei desculpas.
Cantarei um ritmo incomum.
Trarei para perto do meu ombro uma mulher sorrindo.
(dos Cadernos de Jazz)
A impaciência ilude o cara.
Estou em Omaha, Saint Louis, Memphis.
Amanhã, no porto, farei versos melhores.
Missouri, Ohio, Mississippi.
- Ao encontrar Dora pedirei desculpas.
Cantarei um ritmo incomum.
Trarei para perto do meu ombro uma mulher sorrindo.
(dos Cadernos de Jazz)
19.4.07
Hibisco
16.4.07
12.4.07
Extracampo*
(O pulso esquerdo dói um pouco.
Não consigo carregar o pires com uma das mãos
e levantar a xícara elegantemente com a outra.)
Não consigo.
Estou cansada.
Trocando palavras.
- Rubricas.
Procurando imagens.
- Contas a pagar.
No canto do armário,
a foto de um falecido,
as primeiras ilustrações,
um argumento.
- Arquivo
(Se girar, queimo a pele.)
*para Sil e Bu/ Ana e Beto.
Não consigo carregar o pires com uma das mãos
e levantar a xícara elegantemente com a outra.)
Não consigo.
Estou cansada.
Trocando palavras.
- Rubricas.
Procurando imagens.
- Contas a pagar.
No canto do armário,
a foto de um falecido,
as primeiras ilustrações,
um argumento.
- Arquivo
(Se girar, queimo a pele.)
*para Sil e Bu/ Ana e Beto.
7.4.07
Clareira
Vejo uma usina sair de dentro da montanha.
Cilindros tocam o céu
e uma fumaça cinza dissolve a atmosfera.
Vejo uma casa verde e uma estufa.
Animais passeando pelo capim.
Um filete de água, roupas no varal.
É dia, e não vejo árvores.
Cilindros tocam o céu
e uma fumaça cinza dissolve a atmosfera.
Vejo uma casa verde e uma estufa.
Animais passeando pelo capim.
Um filete de água, roupas no varal.
É dia, e não vejo árvores.
2.4.07
A dor do poeta
Se perguntar ao poeta,
ele dirá que não sabe como se arranca uma dor.
Eu, que não sou poeta,
também não sei arrancar com as mãos a dor.
Queria ouvir uma música suave,
apenas isso,
mas os ouvidos estão tampados.
Se há música, se há tom suave,
ele passará pelas frestas da janela e tocará o rosto.
Acariciará a pele,
talvez amanhã, talvez sempre.
(para Júnia)
ele dirá que não sabe como se arranca uma dor.
Eu, que não sou poeta,
também não sei arrancar com as mãos a dor.
Queria ouvir uma música suave,
apenas isso,
mas os ouvidos estão tampados.
Se há música, se há tom suave,
ele passará pelas frestas da janela e tocará o rosto.
Acariciará a pele,
talvez amanhã, talvez sempre.
(para Júnia)
22.3.07
De jovens e reacionários
– Jovens e já andam velhos.
(Diz a quinta página do romance a ser lido)
O peito inflado.
Angustiadas esperanças sobre verdade alguma.
O poeta
(nada mais o impede)
espia da janela,
sente fisgar a face.
Trava a respiração.
– Sou eu, sou você falando asneiras?
Fora do estômago, o jantar de ontem
coalhando na pia.
O ar está excessivamente puro nesta manhã.
Os pulmões se arrebentam em folhos.
E a vizinha dos gatos amarga na área de serviço.
Diga alto, por favor,
ninguém dorme na casa.
(Diz a quinta página do romance a ser lido)
O peito inflado.
Angustiadas esperanças sobre verdade alguma.
O poeta
(nada mais o impede)
espia da janela,
sente fisgar a face.
Trava a respiração.
– Sou eu, sou você falando asneiras?
Fora do estômago, o jantar de ontem
coalhando na pia.
O ar está excessivamente puro nesta manhã.
Os pulmões se arrebentam em folhos.
E a vizinha dos gatos amarga na área de serviço.
Diga alto, por favor,
ninguém dorme na casa.
17.3.07
Mesa posta
A faca atravessa o bife dividindo-o em quatro.
Assim, servia o jantar.
Naquela noite, um tio ainda bateria à porta.
(para minha mãe)
Assim, servia o jantar.
Naquela noite, um tio ainda bateria à porta.
(para minha mãe)
12.3.07
Novembro, 1935
Rasgar os dedos ao escrever.
Bela metáfora nos olhos dos outros,
já não dizia o ditado?
Geração triste sem memória.
Bela metáfora nos olhos dos outros,
já não dizia o ditado?
Geração triste sem memória.
8.3.07
Poesia dentro*
De quando a máquina de filmar não é remédio.
Como é bom, numa tarde como esta, deitar a cabeça em fronha limpa.
Longe do sol quente, longe do barulho de buzinas e motores.
Cada vez mais creio que tudo, praticamente tudo, pode virar poesia
quando se tem o peito a arder em febre,
quando o nó, apenas o nó na garganta impede o ar,
quando não o pulso, mas o estômago está cortado,
quando os olhos estão fechados
e a tela escura é apenas passagem cinematográfica.
No sonho, tudo vira poema.
(na ponta dos dedos toca-se o mundo)
*para Ana C., Júnia T., M. Lúcia, Claudete
Como é bom, numa tarde como esta, deitar a cabeça em fronha limpa.
Longe do sol quente, longe do barulho de buzinas e motores.
Cada vez mais creio que tudo, praticamente tudo, pode virar poesia
quando se tem o peito a arder em febre,
quando o nó, apenas o nó na garganta impede o ar,
quando não o pulso, mas o estômago está cortado,
quando os olhos estão fechados
e a tela escura é apenas passagem cinematográfica.
No sonho, tudo vira poema.
(na ponta dos dedos toca-se o mundo)
*para Ana C., Júnia T., M. Lúcia, Claudete
5.3.07
4.3.07
27.2.07
25.2.07
Tableau
Quando Rubia se deita, pende a cabeça no lado esquerdo do colchão.
Não vê luzes piscarem na placa do hotel.
O homem está de pé, espreitando a rua entre as tabuinhas da persiana.
A noite acabou.
Olha para ela e vê um anjo dormindo.
Amanhã partem para outra cidade.
A voz está cansada.
Não vê luzes piscarem na placa do hotel.
O homem está de pé, espreitando a rua entre as tabuinhas da persiana.
A noite acabou.
Olha para ela e vê um anjo dormindo.
Amanhã partem para outra cidade.
A voz está cansada.
16.2.07
Da máquina de fitar
Aprendi (bem ou mal) duas coisas a respeito da literatura:
não confiar na voz do narrador, duas vezes menos na voz do autor.
Discordância e ambiguidade valorizam o diálogo?
A intriga parece ser mais sutil que isso.
"Desculpar-se é ato generoso". A voz de um dos clássicos.
"Se lhe pedir desculpas, ainda assim continuarei a mentir". A mulher que chega no balcão.
"Pedindo desculpas não serei mais o que pareço. Passemos a régua. Estou cansado". Um poeta moderno.
(Ele pede uma xícara de café.
Tem os olhos fixos e tristes.
Já não consegue ver generosidade em nada,
mas se encanta com a jovem que passa.
Ela não o repara.
Anda meio sem jeito.
Tem os dedos firmes na carteira.
Pede fósforos)
Evito anotações.
Não há nada demais,
apenas um gato arranhando o vidro da janela.
Do quarto, poderia escrever até os dedos sangrarem.
Ainda ouço a voz da mulher solfejando.
Ela era como um anjo.
(um romance por fazer, rascunhos - 2004)
não confiar na voz do narrador, duas vezes menos na voz do autor.
Discordância e ambiguidade valorizam o diálogo?
A intriga parece ser mais sutil que isso.
"Desculpar-se é ato generoso". A voz de um dos clássicos.
"Se lhe pedir desculpas, ainda assim continuarei a mentir". A mulher que chega no balcão.
"Pedindo desculpas não serei mais o que pareço. Passemos a régua. Estou cansado". Um poeta moderno.
(Ele pede uma xícara de café.
Tem os olhos fixos e tristes.
Já não consegue ver generosidade em nada,
mas se encanta com a jovem que passa.
Ela não o repara.
Anda meio sem jeito.
Tem os dedos firmes na carteira.
Pede fósforos)
Evito anotações.
Não há nada demais,
apenas um gato arranhando o vidro da janela.
Do quarto, poderia escrever até os dedos sangrarem.
Ainda ouço a voz da mulher solfejando.
Ela era como um anjo.
(um romance por fazer, rascunhos - 2004)
8.2.07
7.2.07
As coisas ardem.
Como numa guerra. Como no amor?
Ainda podemos ler a inscrição no que ficou da máquina de cozinhar.
Forte demais para os olhos.
Tenho taquicardia.
(para carol e ribs)
Como numa guerra. Como no amor?
Ainda podemos ler a inscrição no que ficou da máquina de cozinhar.
Forte demais para os olhos.
Tenho taquicardia.
(para carol e ribs)
3.2.07
Criptologia sobre um mapa em papel cartão
Quando eu tinha 9 anos, meus irmãos jogavam war na sala de jantar. Por ser menina e muito criança ainda, podia apenas ficar sentada vendo-os jogar.
"- Digamos que você seja do serviço de inteligência. Poderá ser consultada a qualquer momento".
Lá, no lugar que ocupava, sem saber ao certo qual dos grupos ajudaria, se um, se todos, percebia pastilhas, aviões e navios avançando territórios. Os exércitos se uniam e tomavam as regiões com estratégias absurdas. Garotos de 14 e 15 anos tinham nas mãos o mundo. Fixar os olhos no mapa colorido de rosa, amarelo e verde, tarefa difícil.
O "inimigo" espuma a boca e arrasa dois continentes inteiros.
É o fim. Não é o fim, por enquanto.
Hoje, lendo o cinema menor, pensei: daqui alguns anos, na falta de água doce, seria capaz dois inimigos de agora se tornarem "amigos" para invadirem territórios juntos?
Observando o war, sabia que não dava para confiar em nenhum dos grupos. Burlavam as regras para que o jogo se tornasse mais emocionante. Além de a inteligência estar constantemente ameaçada.
Sobre a voz com sotaque britânico na rádio iraquiana, a menina de 9 anos diria: "parece mensagem cifrada. Além do endereçado, apenas uma equipe poderia decifrá-la".
"- Digamos que você seja do serviço de inteligência. Poderá ser consultada a qualquer momento".
Lá, no lugar que ocupava, sem saber ao certo qual dos grupos ajudaria, se um, se todos, percebia pastilhas, aviões e navios avançando territórios. Os exércitos se uniam e tomavam as regiões com estratégias absurdas. Garotos de 14 e 15 anos tinham nas mãos o mundo. Fixar os olhos no mapa colorido de rosa, amarelo e verde, tarefa difícil.
O "inimigo" espuma a boca e arrasa dois continentes inteiros.
É o fim. Não é o fim, por enquanto.
Hoje, lendo o cinema menor, pensei: daqui alguns anos, na falta de água doce, seria capaz dois inimigos de agora se tornarem "amigos" para invadirem territórios juntos?
Observando o war, sabia que não dava para confiar em nenhum dos grupos. Burlavam as regras para que o jogo se tornasse mais emocionante. Além de a inteligência estar constantemente ameaçada.
Sobre a voz com sotaque britânico na rádio iraquiana, a menina de 9 anos diria: "parece mensagem cifrada. Além do endereçado, apenas uma equipe poderia decifrá-la".
28.1.07
Velho Oeste
27.1.07
19.1.07
Bom Jardim
tem a história de um cavalo, cego de um olho, que ganhou competição.
tem a história de um menino que se perdia nos bairros de Curvelo. que fazia todos rirem.
tem a história de um outro menino, tão bom, tão doce, que me emociono ao lembrar de sua leveza.
tem a história de uma menina e sua roupa de quadrilha com gigantescas frutas bordadas ao invés das tradicionais flores. a mãe sempre inovava.
tem a história de um casal, tão unido, tão alegre.
(tudo registrado em fotografias)
um sussurro, uma lembrança.
(para Pedrães)
tem a história de um cavalo, cego de um olho, que ganhou competição.
tem a história de um menino que se perdia nos bairros de Curvelo. que fazia todos rirem.
tem a história de um outro menino, tão bom, tão doce, que me emociono ao lembrar de sua leveza.
tem a história de uma menina e sua roupa de quadrilha com gigantescas frutas bordadas ao invés das tradicionais flores. a mãe sempre inovava.
tem a história de um casal, tão unido, tão alegre.
(tudo registrado em fotografias)
um sussurro, uma lembrança.
(para Pedrães)
9.1.07
cidade
pessoas caminham em diagonal.
(depois que todas passarem)
ainda estarei sentada
num bar, num café, num ponto de ônibus.
uma caneta, por favor.
nesta noite,
chá quente e uma canção.
(para nica e beto)
(depois que todas passarem)
ainda estarei sentada
num bar, num café, num ponto de ônibus.
uma caneta, por favor.
nesta noite,
chá quente e uma canção.
(para nica e beto)
4.1.07
Moro numa vila de pescadores. Há dias o céu insiste nublado.
O mar está tranquilo apesar da correnteza.
As pedras sentem o peso da água.
(se fechar os olhos, lembrará dos parentes mortos)
Não há tristeza nos olhos. Apenas o tempo.
Quando o vir, direi palavras desnecessárias.
Distante de você, escrevo melhor o que não sinto.
(Paraty, dezembro de 2006)
O mar está tranquilo apesar da correnteza.
As pedras sentem o peso da água.
(se fechar os olhos, lembrará dos parentes mortos)
Não há tristeza nos olhos. Apenas o tempo.
Quando o vir, direi palavras desnecessárias.
Distante de você, escrevo melhor o que não sinto.
(Paraty, dezembro de 2006)
25.12.06
19.12.06
17.12.06
10.12.06
3.12.06
2.12.06
de encontros e de mensagens

num simples gesto de apertar a tecla do telefone móvel,
assim como se abre uma caixa de correspondências,
além das urgências do dia:
um sorriso, uma flor.
pousar os braços sobre o corpo
deixar que a noite entre no quarto
sentir o tempo tocar o rosto
antes que me torne sonho,
ainda percebo:
pessoas na calçada, a chuva que cai inteira, o gato a arranhar o vidro.
(para carolina, ana c. e pat)
19.11.06
da leitura de "negro el diez" - cortázar
A estrela
Nasce a claridade.
As cores se espalham.
Mas a dor se abriga inteira.
Toda a luz se abisma.
(simples)
Derramar lírios.
Palavras, silêncio.
(para o ronaldo)
Nasce a claridade.
As cores se espalham.
Mas a dor se abriga inteira.
Toda a luz se abisma.
(simples)
Derramar lírios.
Palavras, silêncio.
(para o ronaldo)
15.11.06
Plano de uma mulher deitando a imagem
11.11.06
23.10.06
o vento beija a água*
se tocar o alto da montanha sentirá o tempo
/[T]ir-ran/[!] ir/[T]ir-ran/[!]/[T]ir-ran/
ir ir ir
possível dizer ao vento
abrande o meu peito
ir ir ir
traga para meu corpo a agilidade dos pássaros a cortar o céu,
a força da tempestade
ir ir ir
sou urso, sou ar, sou pedra
homem pronto para beijar a água
ir ir ir
/ir-rrá[n]/[!]/ir-rrá[n]/[!]/ir-rrá[n]/
/OU/
*transcriação de música ensinada aos inuit pelo vento.
(para pierrou)
se tocar o alto da montanha sentirá o tempo
/[T]ir-ran/[!] ir/[T]ir-ran/[!]/[T]ir-ran/
ir ir ir
possível dizer ao vento
abrande o meu peito
ir ir ir
traga para meu corpo a agilidade dos pássaros a cortar o céu,
a força da tempestade
ir ir ir
sou urso, sou ar, sou pedra
homem pronto para beijar a água
ir ir ir
/ir-rrá[n]/[!]/ir-rrá[n]/[!]/ir-rrá[n]/
/OU/
*transcriação de música ensinada aos inuit pelo vento.
(para pierrou)
22.10.06
18.10.06
Antes dos 40
Não se tem como saber se o cara vai dar um artista,
salvo erro se ele for um gênio
e acabar por morrer cedo
de acidente, doença ou suicídio.
Lembrando que muitos morrem prematuramente,
não vingam,
expelidos pelo corpo da mãe
por algum motivo maior do que eles.
Maior ainda será o imenso silêncio.
Talvez aqui,
nesse lugar original,
esteja o cara.
Livre da sua jornada,
ausente de corpo, apelos, certezas,
e memória
- o intervalo que buscamos, ou a agônica saudade de uma feliz existência.
Aos sobreviventes,
resta não saber,
ou achar que se sabe,
vivendo.
A arte é um porrrrrrrrre...
(um bêbado virando a esquina, amparado pelas duas pernas,
em total descompasso).
Existência é mero detalhe, meus chuchus.
salvo erro se ele for um gênio
e acabar por morrer cedo
de acidente, doença ou suicídio.
Lembrando que muitos morrem prematuramente,
não vingam,
expelidos pelo corpo da mãe
por algum motivo maior do que eles.
Maior ainda será o imenso silêncio.
Talvez aqui,
nesse lugar original,
esteja o cara.
Livre da sua jornada,
ausente de corpo, apelos, certezas,
e memória
- o intervalo que buscamos, ou a agônica saudade de uma feliz existência.
Aos sobreviventes,
resta não saber,
ou achar que se sabe,
vivendo.
A arte é um porrrrrrrrre...
(um bêbado virando a esquina, amparado pelas duas pernas,
em total descompasso).
Existência é mero detalhe, meus chuchus.
12.10.06
Alma raiada
Há um sentimento mentiroso dentro da gente,
não arde.
Ficamos a tomar leite da caixa.
Estourar bolhas sobre a língua.
Sentir o ar entrar e sair,
o dente falhar.
Ouço da janela do quarto:
40º graus.
O cobertor está quentinho,
obrigada.
Animais atravessam ruas
entre carros e bicicletas.
(se der ouvidos aos amigos,
ficará como estátua)
Há quem delire com um pouco de febre.
- Saudade das vacas.
não arde.
Ficamos a tomar leite da caixa.
Estourar bolhas sobre a língua.
Sentir o ar entrar e sair,
o dente falhar.
Ouço da janela do quarto:
40º graus.
O cobertor está quentinho,
obrigada.
Animais atravessam ruas
entre carros e bicicletas.
(se der ouvidos aos amigos,
ficará como estátua)
Há quem delire com um pouco de febre.
- Saudade das vacas.
24.9.06
Onomatopoese*
TUM TI TI TUM pode ser apenas uma onomatopéia para o barulho do tambor.
Talvez possamos, com poesia, descobrir o intervalo-imagem que não necessite de letras garrafais para expressar o som desse instrumento que atravessa a infância
(aprendemos a bater com colher o prato).
Talvez essa imagem, ainda por vir, nos faça recordar da brilhante cena em que o BA-TI-TUM do tambor dessincroniza o discurso planejado de Hitler.
Talvez,
para o jovem Oskar,
fosse mesmo
apenas vontade de não crescer.


*homenagem 2 # ao cinema menor
O Tambor (Die Blechtrommel, 1979)
Direção Volker Schlöndorff
Baseado em livro de Günter Grass
Título em inglês: The tin drum
Talvez possamos, com poesia, descobrir o intervalo-imagem que não necessite de letras garrafais para expressar o som desse instrumento que atravessa a infância
(aprendemos a bater com colher o prato).
Talvez essa imagem, ainda por vir, nos faça recordar da brilhante cena em que o BA-TI-TUM do tambor dessincroniza o discurso planejado de Hitler.
Talvez,
para o jovem Oskar,
fosse mesmo
apenas vontade de não crescer.


*homenagem 2 # ao cinema menor
O Tambor (Die Blechtrommel, 1979)
Direção Volker Schlöndorff
Baseado em livro de Günter Grass
Título em inglês: The tin drum
22.9.06
Fotografia de Farrokhzad
Por que deveria parar, por quê?
Se a vida começa ali nos campos de trigo,
se eu posso correr até o peito arrebentar.
Daria meia volta
ou
chegaria até o fim,
onde me perderia.
Restariam apenas
rosas, um pequeno atalho.
Poesia.
"Sound, sound, sound,
Only sound remains" (FF)
* para oswaldo, por ter me apresentado o cinema menor
Se a vida começa ali nos campos de trigo,
se eu posso correr até o peito arrebentar.
Daria meia volta
ou
chegaria até o fim,
onde me perderia.
Restariam apenas
rosas, um pequeno atalho.
Poesia.
"Sound, sound, sound,
Only sound remains" (FF)
* para oswaldo, por ter me apresentado o cinema menor
21.9.06
12.9.06
6.9.06
4.9.06
a cozinha não era de ladrilho azul-claro
um armário branco não surgia da parede
nas portas, não havia losangos de treliça
prateleiras não exibiam panos quadriculadinhos de vermelho e branco
apenas vidro canelado nas janelas
e um refrigerador com tarja de madeira atravessada
sobre a mesa,
um bolo de fubá e biscoitos de polvilho frito
três xícaras
três gerações se encontrariam para tomar café
palavras no sono,
confusas.
*para minha mãe e vó doquinha
um armário branco não surgia da parede
nas portas, não havia losangos de treliça
prateleiras não exibiam panos quadriculadinhos de vermelho e branco
apenas vidro canelado nas janelas
e um refrigerador com tarja de madeira atravessada
sobre a mesa,
um bolo de fubá e biscoitos de polvilho frito
três xícaras
três gerações se encontrariam para tomar café
palavras no sono,
confusas.
*para minha mãe e vó doquinha
1.9.06
25.8.06
Quarta-feira, Julho 26, 2006*
inferno
Para Glaura
escrito de tempo de dor
Nel mezzo del cammin di nostra vita
mi ritrovai per una selva oscura
che la diritta via era smarrita
Ahi quanto a dir qual era è cosa dura
esta selva selvaggia e aspra e forte
che nel pensier rinova la paura!
Dante
e o arco se dobra e o fio timbra
uma dor profunda
os dedos sangram e o punho vibra em
àsperas veias
um gosto amargo na garganta
o timbre em dó
a garganta em nó
a flecha em rispe
o golpe e o furo
no porcelanato branco do chão
rastos rubros
escorregados
João Lúcio Penharvel
*retirado de confligerante
inferno
Para Glaura
escrito de tempo de dor
Nel mezzo del cammin di nostra vita
mi ritrovai per una selva oscura
che la diritta via era smarrita
Ahi quanto a dir qual era è cosa dura
esta selva selvaggia e aspra e forte
che nel pensier rinova la paura!
Dante
e o arco se dobra e o fio timbra
uma dor profunda
os dedos sangram e o punho vibra em
àsperas veias
um gosto amargo na garganta
o timbre em dó
a garganta em nó
a flecha em rispe
o golpe e o furo
no porcelanato branco do chão
rastos rubros
escorregados
João Lúcio Penharvel
*retirado de confligerante
23.8.06
19.8.06
12.8.06
O geriatra
*para ricardo garro
o geriatra não escreve.
não se trata de um blog conceitual,
não.
a página é branca
simplesmente porque ele não quer escrever.
e continuará lá, persistindo,
até o dia em que um arqueólogo,
fuçando nos guardados de uma mulher velha,
encontrá um papel que diz:
"ressucitei o blog numa tentativa de parar de falar com o espelho.
(...)
não tem nada lá,
mas um dia vai ter.
dê uma olhada de vez em quando para que eu tenha algum leitor.
reminiscências da L`Argent de Poche,
um abraço".
(mania de arquivos)
o geriatra não escreve.
não se trata de um blog conceitual,
não.
a página é branca
simplesmente porque ele não quer escrever.
e continuará lá, persistindo,
até o dia em que um arqueólogo,
fuçando nos guardados de uma mulher velha,
encontrá um papel que diz:
"ressucitei o blog numa tentativa de parar de falar com o espelho.
(...)
não tem nada lá,
mas um dia vai ter.
dê uma olhada de vez em quando para que eu tenha algum leitor.
reminiscências da L`Argent de Poche,
um abraço".
(mania de arquivos)
11.8.06
O encontro
*para dois amigos que vão morar em Lisboa
Encontrei no bailarico
o meu amor.
Laquê no cabelo, vestido comprido, sorriso no canto da boca.
Eu, Ribão, soltinho pra ela:
“Carol, Carol minha, te dou uma flor."
***
Do amor
o amor que sinto por ti.
Encontrei no bailarico
o meu amor.
Laquê no cabelo, vestido comprido, sorriso no canto da boca.
Eu, Ribão, soltinho pra ela:
“Carol, Carol minha, te dou uma flor."
***
Do amor
o amor que sinto por ti.
8.8.06
Irene Rios
"Ele vai me destruir".
Irene repetia várias vezes, enquanto o leite esquentava no fogão.
Não reparando as bolhas,
como poderia ouvir?
O apelo silencioso:
"Irene, Irene, Irene".
Irene repetia várias vezes, enquanto o leite esquentava no fogão.
Não reparando as bolhas,
como poderia ouvir?
O apelo silencioso:
"Irene, Irene, Irene".
5.8.06
esquina.
estamos num bar da Serra.
na calçada:
mesas amarelas, cadeiras, um ponto de táxi.
do balcão a garçonete diz
bolinho, linguiça, empadinha.
mulheres e homens num entra e sai.
fecho os olhos.
(como se fosse aos 13 anos,
no bar do tio Clóvis, em Água Branca)
tudo igual:
talheres, pratos, pessoas.
se virar para trás, lembrá do avô.
estamos num bar da Serra.
na calçada:
mesas amarelas, cadeiras, um ponto de táxi.
do balcão a garçonete diz
bolinho, linguiça, empadinha.
mulheres e homens num entra e sai.
fecho os olhos.
(como se fosse aos 13 anos,
no bar do tio Clóvis, em Água Branca)
tudo igual:
talheres, pratos, pessoas.
se virar para trás, lembrá do avô.
2.8.06
Gliederfüßler*
uma picada de inseto na palma da mão.
não consigo escrever,
não consigo pensar.
*Arthropoden
não consigo escrever,
não consigo pensar.
*Arthropoden
23.7.06
Bárbara
* para edmundo
quando vejo Bárbara
o queixo fica no chão.
- algum amor no passado, algum arrependimento?
não sei.
um cigarro, um copo de cerveja
anéis...
Bárbara está sozinha.
meu coração
não.

bárbara - vandré silveira
filme de carlos gradim
roteiro: glaura cardoso vale
adaptação do conto "e a situação, como é que está?", de edmundo novaes
foto: bianca aun
fonte: www.odeoncompanhiateatral.com.br
quando vejo Bárbara
o queixo fica no chão.
- algum amor no passado, algum arrependimento?
não sei.
um cigarro, um copo de cerveja
anéis...
Bárbara está sozinha.
meu coração
não.

bárbara - vandré silveira
filme de carlos gradim
roteiro: glaura cardoso vale
adaptação do conto "e a situação, como é que está?", de edmundo novaes
foto: bianca aun
fonte: www.odeoncompanhiateatral.com.br
30.6.06
28.6.06
16.6.06
2.6.06
27.5.06
25.5.06
16.5.06
13.5.06
11.5.06
de estar farto (ou) fulo da vida,
resta chorar.
(ou) socar a parede imaginando a cara de alguém.
vidro não é bom.
chorar faz bem. alivia o ódio, que se transforma em raiva
e se torna outra coisa que não os dois.
nem ódio, nem raiva:
desprezo.
desprezo é bom.
– razão dos poetas?
socar a parede,
sangrar sem corte,
mergulhar as mãos em água morna
salgada.
resta chorar.
(ou) socar a parede imaginando a cara de alguém.
vidro não é bom.
chorar faz bem. alivia o ódio, que se transforma em raiva
e se torna outra coisa que não os dois.
nem ódio, nem raiva:
desprezo.
desprezo é bom.
– razão dos poetas?
socar a parede,
sangrar sem corte,
mergulhar as mãos em água morna
salgada.
8.5.06
28.4.06
24.4.06
23.4.06
Arrebatada
– Você já leu Le ravissement de Lol V. Stein? Repito: Você já seguiu junto comigo Lol V. Stein pelas ruas? Aliás, você já me viu Lola seguindo alguém pelas ruas?
Um homem, num café, disse ter visto. Esquisita, mas discreta.
– Lol.
– Je.
– Lol.
– Je.
“She's mine”, o alguém no balcão.
Não!
“Lol is mine”.
*para blue- white.
– Você já leu Le ravissement de Lol V. Stein? Repito: Você já seguiu junto comigo Lol V. Stein pelas ruas? Aliás, você já me viu Lola seguindo alguém pelas ruas?
Um homem, num café, disse ter visto. Esquisita, mas discreta.
– Lol.
– Je.
– Lol.
– Je.
“She's mine”, o alguém no balcão.
Não!
“Lol is mine”.
*para blue- white.
30.3.06
Tongue-in-cheek
# para nica – a respeito do seu cotidiano americano-esquizofrênico
Quantas anas cabem dentro da banana…?
Alguns escritores, para suportar o cotidiano, riam de si mesmos adquirindo assim o hábito de uma escrita leve, entenda-se leveza. Isso seria um tipo de ironia refinada, desfrutada por alguns cuja vida muitas vezes era até dramática. O caso de Ferreira Botelho pode ser um bom exemplo.
Algum tempo depois vieram os surrealistas que viram pessoas em objetos, objetos em pessoas e criaram seres que não se metamorfosearam por completo.
Corpo de homem, cabeça de maçã:
o cotidiano substituindo a figura do centauro ou do minotauro.
Mas, aqui, não espere do “mito” o que o mito representa… E me pergunto se Teseu não se lembraria do ditado "one apple a day…”, devorando assim a suculenta e gigantesca cabeça verde de Magritte.
Outro dia, a respeito de Gogol, pensei no nariz a passear pelas ruas.
A função da hipérbole é causar estranhamento: alguém já viu um nariz gigante dando ordens por aí?
Para quem já sonhou ser um e-mail e a dificuldade de baixar um arquivo consistia numa azeitona entalada na garganta, isso de nariz me soa até muito realista.
Não há nada demais…, somente a transformação de brincadeiras e de estórias extraordinárias da infância – ou dessa nossa possibilidade de ver nas nuvens baianas, animais, almofadas, algodão – em algo mais insólito, transposto para um universo igualmente especial. A pedra contém a escultura mas o homem, para constatar, vai lá e dá umas lascadinhas…
Já outros pintam pássaros de pedra voando…
nem pedra, nem pássaro, é tinta sobre tela… o tal poema de que lhe falei.
*Os olhos ficando aguçados na leitura do episódio da banana…
Faço, então, uma inversão, nos moldes da literatura infantil:
a fome era tanta
que,
diante do risco da queixa,
a banana devorou a ana.
Quantas anas cabem dentro da banana…?
Alguns escritores, para suportar o cotidiano, riam de si mesmos adquirindo assim o hábito de uma escrita leve, entenda-se leveza. Isso seria um tipo de ironia refinada, desfrutada por alguns cuja vida muitas vezes era até dramática. O caso de Ferreira Botelho pode ser um bom exemplo.
Algum tempo depois vieram os surrealistas que viram pessoas em objetos, objetos em pessoas e criaram seres que não se metamorfosearam por completo.
Corpo de homem, cabeça de maçã:
o cotidiano substituindo a figura do centauro ou do minotauro.
Mas, aqui, não espere do “mito” o que o mito representa… E me pergunto se Teseu não se lembraria do ditado "one apple a day…”, devorando assim a suculenta e gigantesca cabeça verde de Magritte.
Outro dia, a respeito de Gogol, pensei no nariz a passear pelas ruas.
A função da hipérbole é causar estranhamento: alguém já viu um nariz gigante dando ordens por aí?
Para quem já sonhou ser um e-mail e a dificuldade de baixar um arquivo consistia numa azeitona entalada na garganta, isso de nariz me soa até muito realista.
Não há nada demais…, somente a transformação de brincadeiras e de estórias extraordinárias da infância – ou dessa nossa possibilidade de ver nas nuvens baianas, animais, almofadas, algodão – em algo mais insólito, transposto para um universo igualmente especial. A pedra contém a escultura mas o homem, para constatar, vai lá e dá umas lascadinhas…
Já outros pintam pássaros de pedra voando…
nem pedra, nem pássaro, é tinta sobre tela… o tal poema de que lhe falei.
*Os olhos ficando aguçados na leitura do episódio da banana…
Faço, então, uma inversão, nos moldes da literatura infantil:
a fome era tanta
que,
diante do risco da queixa,
a banana devorou a ana.
29.3.06
# lições de tradução #
os cus de judas
ou
le cul de judas
ou
der judas kuss
ou
de judas kus
ou
in culo al mondo
ou
sarutul lui iuda
ou
hinsides helvete
ou
de forrudda
ou
sjovernes odyssé
ou
hevonkuusessa
ou
south of nowhere…
como vê, quando não tem cu, tem judas, salvo erro de entendimento do sueco, norueguês, dinamarquês.
ando enferrujada.
em inglês, somente a idéia persiste.
isso é o que chamamos de tradução não-literal.
*resta ainda uma outra tradução, de língua eqüidistante:
“saduj ed suc so”. mas a publicação ainda não está prevista, por causa da alta do betelnut.
os cus de judas
ou
le cul de judas
ou
der judas kuss
ou
de judas kus
ou
in culo al mondo
ou
sarutul lui iuda
ou
hinsides helvete
ou
de forrudda
ou
sjovernes odyssé
ou
hevonkuusessa
ou
south of nowhere…
como vê, quando não tem cu, tem judas, salvo erro de entendimento do sueco, norueguês, dinamarquês.
ando enferrujada.
em inglês, somente a idéia persiste.
isso é o que chamamos de tradução não-literal.
*resta ainda uma outra tradução, de língua eqüidistante:
“saduj ed suc so”. mas a publicação ainda não está prevista, por causa da alta do betelnut.
27.3.06
11.3.06
# kein thema
meu pai sempre escreveu cartas.
um dia, comprou envelope, selo, papel de arroz.
num movimento com os punhos escreveu um poema.
endereçou para si mesmo e postou.
quer prova maior de solidão do que essa?
hoje,
para manter o hotmail ativo,
mando mensagens de outra conta para mim mesma e as respondo em seguida.
estranho movimento com os punhos.
quer prova de vidinha mais medíocre do que esta?
meu pai sempre escreveu cartas.
um dia, comprou envelope, selo, papel de arroz.
num movimento com os punhos escreveu um poema.
endereçou para si mesmo e postou.
quer prova maior de solidão do que essa?
hoje,
para manter o hotmail ativo,
mando mensagens de outra conta para mim mesma e as respondo em seguida.
estranho movimento com os punhos.
quer prova de vidinha mais medíocre do que esta?
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