Estou no exílio, eu sei
Cada dia abro um livro diferente
Apostei que deles sairiam alguns versos
Não meus, nem seus
Ao mesmo tempo tão meus e seus
É que… alguma coisa
Por entre os dedos escapa
Escolhi quem deveria receber
A primeira leitura desta manhã
Encobrindo, no entanto, seu nome
Das vozes alheias
Há quem procure opulência, acúmulo de metáforas
Há quem queira apenas uma mesa farta
E livros na estante
Se o meu Riacho é fluente
Há de secar –
Se o meu Riacho é silente
Ele é o Mar –
Que cresce. Em meu espanto
Tento escapar
Para um (dizem que existe) Canto
Onde “não há Mar” –
*para Nica, Quel e também Mará, pela tarde de sábado
pelo amor e amizade
11.4.10
17.2.10
Carnaval que não foi
O carnaval que não foi
Deixou saudades
Mas a vida vai seguindo
Ao sabor da carne nos dentes
Gosto de cerveja
Nesta quarta-feira de cinzas
Na mesa, uma toalha bordada
Um prato de bacalhau
Deixou saudades
Mas a vida vai seguindo
Ao sabor da carne nos dentes
Gosto de cerveja
Nesta quarta-feira de cinzas
Na mesa, uma toalha bordada
Um prato de bacalhau
4.12.09
Forma e conteúdo
Em meio aos cacos
Daquilo que restou de quatro anos
A casa perde seu brilho
A embriaguez dos dias, o gosto pela escrita
Foi numa tarde em que a tinta ainda cheirava fresca
Que pude ver um céu azul-azul
Embora comprometido pelos prédios
Vislumbrando o frescor de cada manhã e alguns versos
Sapatos a recortar o piso em noites de festa
Muitos risos e também choro
Hoje, tropeçando nas caixas,
Vejo a vida se resumir a rótulos de frutas, vinhos, enlatados e brinquedos...
A caneta indica o conteúdo,
Numa catalogação imediata
Tudo no mesmo, na mesma caixa?
As verdades do mundo reduzidas a um espaço mínimo
Subdivididas em livros e bolsas, livros e casacos, livros e retratos, livros e músicas, livros e filmes, livros e bibelôs
Parte deste cotidiano improvisado
A janela ficando entre as árvores
Eu a imaginar árvores
Sensação estranha de poder ir para qualquer lugar
Os versos vão deixando a casa em busca de outros
Para além de uma goteira infinita no centro da sala
Daquilo que restou de quatro anos
A casa perde seu brilho
A embriaguez dos dias, o gosto pela escrita
Foi numa tarde em que a tinta ainda cheirava fresca
Que pude ver um céu azul-azul
Embora comprometido pelos prédios
Vislumbrando o frescor de cada manhã e alguns versos
Sapatos a recortar o piso em noites de festa
Muitos risos e também choro
Hoje, tropeçando nas caixas,
Vejo a vida se resumir a rótulos de frutas, vinhos, enlatados e brinquedos...
A caneta indica o conteúdo,
Numa catalogação imediata
Tudo no mesmo, na mesma caixa?
As verdades do mundo reduzidas a um espaço mínimo
Subdivididas em livros e bolsas, livros e casacos, livros e retratos, livros e músicas, livros e filmes, livros e bibelôs
Parte deste cotidiano improvisado
A janela ficando entre as árvores
Eu a imaginar árvores
Sensação estranha de poder ir para qualquer lugar
Os versos vão deixando a casa em busca de outros
Para além de uma goteira infinita no centro da sala
14.11.09
O tempo há
Sei que parece impreciso
Ao invés de um beijo, um sorriso
Mas se em você posto esperança
Em mim também não digo
Impedidos de amar
Esse amor que vai distante...
E se encontra num sonho
Ao invés de um beijo, um sorriso
Mas se em você posto esperança
Em mim também não digo
Impedidos de amar
Esse amor que vai distante...
E se encontra num sonho
8.11.09
Dos lugares que permanecem*
Gosto do tom azul do quarto
Da cozinha vermelha
E da sala escura
As ruas que me deram palavras
São apenas ruas
Se tornando minhas, enquanto caminho
Os adornos das casas deixados para trás como entulhos
Entristece a vista
Os olhos se voltam para o oeste agora
Um centro comercial,
Muitas placas que não exibem o mesmo charme luminoso dos filmes noir
Aos poucos aprendemos a andar sob um sol impetuoso,
Sem árvores, nem pássaros
Nem flor, tão breve,
Ou só flor, simplesmente...
A serra se tornando memória
Lá, um chão de mosaico para refrescar os pés em dias de calor intenso
-----------
*para Ronaldo
Da cozinha vermelha
E da sala escura
As ruas que me deram palavras
São apenas ruas
Se tornando minhas, enquanto caminho
Os adornos das casas deixados para trás como entulhos
Entristece a vista
Os olhos se voltam para o oeste agora
Um centro comercial,
Muitas placas que não exibem o mesmo charme luminoso dos filmes noir
Aos poucos aprendemos a andar sob um sol impetuoso,
Sem árvores, nem pássaros
Nem flor, tão breve,
Ou só flor, simplesmente...
A serra se tornando memória
Lá, um chão de mosaico para refrescar os pés em dias de calor intenso
-----------
*para Ronaldo
19.10.09
no meio da confusão
dos dias sem fim
eis que me vem um canto
uma deliciosa surpresa
das saudades...
nem me fala!
quanto à glaura (a dos poetas)
tem nome de flor que não existe
dos dias sem fim
eis que me vem um canto
uma deliciosa surpresa
das saudades...
nem me fala!
quanto à glaura (a dos poetas)
tem nome de flor que não existe
16.10.09
19.9.09
Sobre a impostura
Li Decamerão aos treze anos de idade, longe do olhar corretivo dos pais. Aos domingos ia à igreja cumprir com os postulados de uma educação católica. Meu pai, um louco indomável, minha mãe, uma mulher sóbria. Embora a vida precária, nunca nos faltou livros na estante. O rearranjo não seguia um rigor bibliográfico, visto que nunca pertencemos à aristocracia. Boccaccio ficava ao lado de Goeth, Flaubert, Baudelaire, Hesse, Miller, Melville, Eça. Já os clássicos da literatura brasileira ficavam numa prateleira acima: Assis, Ramos, Rosa, Nava, dentre outros tantos cuja lista soaria pedante. Não me recordo de haver escritoras, que só me chegariam mais tarde: Hilst, Telles, Lispector , Duras, Wolf. Talvez por isso tenha desenvolvido um humor ácido. Depois descobri por conta própria uma série de outros autores e autoras que atravessariam o meu corpo e a minha alma a tal ponto que, se não menciono, é para não revelar gratuitamente referências tão caras.
Durante as homilias pensava em Decamerão e me perguntava se as coisas de Deus poderiam ser assim tão chatas. Depois verificaria que se tratava de um problema de tradução e que Deus resguardava sua glória também na impostura. Talvez tocasse mesmo bateria num grupo de jazz, como alegou o Lobo.
Para uma filha de Deus que conviveu com bêbados e loucos somente a impostura recuperaria a redenção diante de um mundo tão avarento.
Já não me recordo da estrutura decamerônica. À capa do livro falta um pedaço. Penso se posso descrever com precisão ou se apenas invento repetidas vezes, na parede branca, a famosa passagem em que os jovens se sentam para contar e escutar histórias. A pintura me pareceu mais objetiva. Também me recordo vagamente das homilias. Estas me retornam em sonho. Como a passagem de Maria Madalena que nunca me saiu da cabeça.
O que avassala é a culpa que a fé cristã nos faz carregar. Mais avassalador ainda quando lidamos com pessoas desprovidas de fé. Não que devamos ter fé em algo divino, muito menos no homem, este ser tão tortuoso. Porém se torna fácil, não tendo fé, impingir regras, imprimir dogmas particulares e uma culpa semelhante à imagem do filho de Deus na cruz. Fácil distorcer um apelo. Ou detratar como loucura. É preciso ler as palavras que nos chegam sinceras.
Temendo pela reputação, alguns mantêm a vida como uma grande plantação de tomates. Aquilo que não serve, deitam fora.
Chegarão a artistas?
Já os escritores, sendo mentirosos, são mesmo uns loucos, uns malditos, proferindo aquilo que os atormenta.
Mais vale um sorriso. Nada em troca.
Acúmulo demasiado de energia e verdades
quando muito
deveríamos estar vendo as estrelas deitados no quintal.
Para uma filha de Deus que conviveu com bêbados e loucos somente a impostura recuperaria a redenção diante de um mundo tão avarento.
Já não me recordo da estrutura decamerônica. À capa do livro falta um pedaço. Penso se posso descrever com precisão ou se apenas invento repetidas vezes, na parede branca, a famosa passagem em que os jovens se sentam para contar e escutar histórias. A pintura me pareceu mais objetiva. Também me recordo vagamente das homilias. Estas me retornam em sonho. Como a passagem de Maria Madalena que nunca me saiu da cabeça.
O que avassala é a culpa que a fé cristã nos faz carregar. Mais avassalador ainda quando lidamos com pessoas desprovidas de fé. Não que devamos ter fé em algo divino, muito menos no homem, este ser tão tortuoso. Porém se torna fácil, não tendo fé, impingir regras, imprimir dogmas particulares e uma culpa semelhante à imagem do filho de Deus na cruz. Fácil distorcer um apelo. Ou detratar como loucura. É preciso ler as palavras que nos chegam sinceras.
Temendo pela reputação, alguns mantêm a vida como uma grande plantação de tomates. Aquilo que não serve, deitam fora.
Chegarão a artistas?
Já os escritores, sendo mentirosos, são mesmo uns loucos, uns malditos, proferindo aquilo que os atormenta.
Mais vale um sorriso. Nada em troca.
Acúmulo demasiado de energia e verdades
quando muito
deveríamos estar vendo as estrelas deitados no quintal.
8.9.09
tarde com o vento
pensar, pensar, pensar...
fazer, fazer, fazer...
palavras ditas a ela
ela seguindo seu destino
que bom nos encontrarmos novamente
numa noite de domingo
adoro ler-te
o tempo se aproximando dela
queria ter estado com você mais uma vez
acarinhando a face
as folhas caíam das árvores com o vento
há muito não lhe dedico um poema,
mas o farei em tempo
se aqui já não é,
será com o quebrar das linhas
para carolina junqueira
fazer, fazer, fazer...
palavras ditas a ela
ela seguindo seu destino
que bom nos encontrarmos novamente
numa noite de domingo
adoro ler-te
o tempo se aproximando dela
queria ter estado com você mais uma vez
acarinhando a face
as folhas caíam das árvores com o vento
há muito não lhe dedico um poema,
mas o farei em tempo
se aqui já não é,
será com o quebrar das linhas
para carolina junqueira
7.9.09
sob a imensidão da noite*
Encanta-me caminhar pelas ruas do bairro
Ver os adornos desencontrados das casas
Os portões perdendo a tinta
Sentir a luz do poente
Tingindo de vermelho o topo da montanha
Certos de que estamos envelhecendo
Mergulhados na imensidão da noite
Deitamos café na xícara
Observando as primeiras constelações
Descobrir-se na noite
Na insônia pessoana
Nos versos que agora devoramos
Por onde andou que não me viu em sonho?
Seu olhar, seu silêncio
Imagens que correspondem a este cotidiano
Enquanto a janela recebe a primeira luz da manhã
O corpo ainda insone
Vasculha o que restou
Na mesa onde tomou nota
Repousa uma flor
----
*para o encantador (E.E.)
Ver os adornos desencontrados das casas
Os portões perdendo a tinta
Sentir a luz do poente
Tingindo de vermelho o topo da montanha
Certos de que estamos envelhecendo
Mergulhados na imensidão da noite
Deitamos café na xícara
Observando as primeiras constelações
Descobrir-se na noite
Na insônia pessoana
Nos versos que agora devoramos
Por onde andou que não me viu em sonho?
Seu olhar, seu silêncio
Imagens que correspondem a este cotidiano
Enquanto a janela recebe a primeira luz da manhã
O corpo ainda insone
Vasculha o que restou
Na mesa onde tomou nota
Repousa uma flor
----
*para o encantador (E.E.)
28.8.09
Tempo de embriaguez
Olha a voz que me resta, minha alegria
O coração
Um pote até aqui de mágoa
A gota que falta, meu coração,
Não
O coração
Um pote até aqui de mágoa
A gota que falta, meu coração,
Não
10.8.09
Uísque
quantos copos eu ainda hei-de beber?
se caminho assim desgovernada
e a você posto versos de outrora
ah! quanta lida
quanto amor pelos livros que ora devoro
descubro tardiamente fragmentos de um passado inconfesso
o tempo desperdiçando as horas
queria dizer, mas não tenho boca
meus olhos aguardam os seus
o dia a clarear os lençóis
a você trago uma rosa
se caminho assim desgovernada
e a você posto versos de outrora
ah! quanta lida
quanto amor pelos livros que ora devoro
descubro tardiamente fragmentos de um passado inconfesso
o tempo desperdiçando as horas
queria dizer, mas não tenho boca
meus olhos aguardam os seus
o dia a clarear os lençóis
a você trago uma rosa
6.8.09
El paseo*
A esta altura
a vagar pela cidade
Sem nenhum entendimento
Não dando conta do valor que aos poucos se agrega à vida
Sem saber se o dinheiro chega ao fim do mês
Sem compreender de fato os procedimentos teóricos que me cercam
Achando tudo um grande engodo
Forçando para que faça algum sentido
Ao passo
Tortura a escrita
Por não ter algo que valha tanto a pena
Enquanto aqui caminho
Dispersando palavras
E a ti vejo longe, como uma pintura antiga
A parede do meu quarto perdendo o tom azul
Os sonhos de outrora
Uma estante sem graça
E uns restos de poemas mal passados a limpo
Cortázar caminha por Paris
Olha Paris
Erraticamente descobre fragmentos
Corpos que passeiam,
A música que se faz ouvir,
O sorriso da bela jovem no café de Montparnasse
Eu aqui neste meu horizonte limitado
Ah! Cortázar
Entre as montanhas a me sufocar os versos
O vinho a descer goela abaixo
A ouvir Coltrane
-----
* para meu editor
a vagar pela cidade
Sem nenhum entendimento
Não dando conta do valor que aos poucos se agrega à vida
Sem saber se o dinheiro chega ao fim do mês
Sem compreender de fato os procedimentos teóricos que me cercam
Achando tudo um grande engodo
Forçando para que faça algum sentido
Ao passo
Tortura a escrita
Por não ter algo que valha tanto a pena
Enquanto aqui caminho
Dispersando palavras
E a ti vejo longe, como uma pintura antiga
A parede do meu quarto perdendo o tom azul
Os sonhos de outrora
Uma estante sem graça
E uns restos de poemas mal passados a limpo
Cortázar caminha por Paris
Olha Paris
Erraticamente descobre fragmentos
Corpos que passeiam,
A música que se faz ouvir,
O sorriso da bela jovem no café de Montparnasse
Eu aqui neste meu horizonte limitado
Ah! Cortázar
Entre as montanhas a me sufocar os versos
O vinho a descer goela abaixo
A ouvir Coltrane
-----
* para meu editor
17.7.09
25.5.09
Hilda*
Que seja alcoólatra e desbocada como HH
Mas que não falte a beleza
Dos amantes...
Ah! Como soube, com o mais puro gesto
Versos impagáveis
Que dela herde a escrita eloqüente
A pura lucidez e franqueza
Merda!
Depois o gozo
Desapontá-la talvez
Chamaste de parnasianas as poetisas
Então, infeliz da personagem inventada?
Acreditar no amor, nos pássaros, no vento
Melhor para a poesia destes tempos
---------------
*para Viola
Mas que não falte a beleza
Dos amantes...
Ah! Como soube, com o mais puro gesto
Versos impagáveis
Que dela herde a escrita eloqüente
A pura lucidez e franqueza
Merda!
Depois o gozo
Desapontá-la talvez
Chamaste de parnasianas as poetisas
Então, infeliz da personagem inventada?
Acreditar no amor, nos pássaros, no vento
Melhor para a poesia destes tempos
---------------
*para Viola
17.5.09
regozijo
No corpo a inscrição do nome
A faca a atravessar a carne
Em estado febril não se distingue sonho de realidade
O suor a molhar os lençóis
A faca a atravessar a carne
Em estado febril não se distingue sonho de realidade
O suor a molhar os lençóis
16.5.09
4.5.09
ao ler Michel Foucault
O que me conecta ao amolador de facas?
Seu chamado ritmado
Som a cortar o ar
O código a ser decifrado
O fato de ter facas?
Fou-cault
Seu chamado ritmado
Som a cortar o ar
O código a ser decifrado
O fato de ter facas?
Fou-cault
12.4.09
Uma canção para José Luis Braga*
O seu canto é tão bonito
que a manhã chegou
com o sol na minha janela
O seu canto é tão bonito
que o vento trouxe
o amor, então, não se acabou
O seu canto é tão bonito
que a hora chegou
e é hora de levantar
O seu canto é tão bonito
que atravessou o dia
e já é noite pra descansar
Seu olhar é tão bonito
que encanta meus sonhos
E sonho mais uma vez com sua voz
A tocar os dias
toda manhã
é de manhã...
--------
* José Luis Braga é integrante do grupo graveola e o lixo polifônico – música que inspira o cotidiano da poetisa. Esta canção ou poema é um presente de aniversário para o Zélu.
que a manhã chegou
com o sol na minha janela
O seu canto é tão bonito
que o vento trouxe
o amor, então, não se acabou
O seu canto é tão bonito
que a hora chegou
e é hora de levantar
O seu canto é tão bonito
que atravessou o dia
e já é noite pra descansar
Seu olhar é tão bonito
que encanta meus sonhos
E sonho mais uma vez com sua voz
A tocar os dias
toda manhã
é de manhã...
--------
* José Luis Braga é integrante do grupo graveola e o lixo polifônico – música que inspira o cotidiano da poetisa. Esta canção ou poema é um presente de aniversário para o Zélu.
28.3.09
António Reis e Margarida Cordeiro*
A poesia que imprime o cotidiano
se faz carne
Não lubrificar as dobradiças
Primeira regra do poeta
A tábua a ranger
emite um som familiar
Janelas a bater com o vento
Passos em volta
Casas velhas, empoeiradas,
o mofo a corroer os lençóis
Poeira fina cobrindo a cômoda
A esta hora da noite
nem querosene, nem velas
Separa as partes rente ao osso
Pão, vinho, e um pouco de mel
No preparo do jantar
-------------
* Para Ribão, para Nica, por uma proposta cinematográfica
se faz carne
Não lubrificar as dobradiças
Primeira regra do poeta
A tábua a ranger
emite um som familiar
Janelas a bater com o vento
Passos em volta
Casas velhas, empoeiradas,
o mofo a corroer os lençóis
Poeira fina cobrindo a cômoda
A esta hora da noite
nem querosene, nem velas
Separa as partes rente ao osso
Pão, vinho, e um pouco de mel
No preparo do jantar
-------------
* Para Ribão, para Nica, por uma proposta cinematográfica
23.3.09
16.3.09
13.3.09
2.3.09
POR ENTRE AS FRESTAS*
No pátio de um convento, uma freira surge por trás de uma porta, emerge do fundo da imagem, caminha e toca o sino.
No plano seguinte, o longo corredor tem suas portas abertas, uma a uma, sob o repique do sino no fora-de-campo, sob o som dos passos das freiras.
'Ave Maria', diz a personagem como quem saúda o nascer do dia, o nascer da luz que se imprime no anteparo sensível do cinematógrafo.
Quando as portas se abriam ao tempo, o som já habitava o fora-de-campo.**
O trecho acima se refere a um filme do cineasta francês Robert Bresson, mas poderia ser um excerto de romance.
Um romance no qual a linguagem cinematográfica já faria parte do vocabulário do leitor e as imagens textuais dialogariam entre si à maneira do cinema.
Não quero com isso confundir as duas experiências.
Apenas lembrar que CINEMA e LITERATURA conversam,
por solicitação, por empréstimo (GODARD).
Ninguém irá discordar que há um aspecto formal na obra de alguns cineastas atravessado pela escrita. Como a espada no peito de Píramo a tingir de vermelho as amoras.
Como o instante da dor (que não cessa) ao ver/não ver o amor dilacerado pelos leões.
Amores impossíveis.
Cheiro de gás (CHANTAL).
Uma mulher sobe até o terraço e vê o corpo pender.
Outra lamenta seu amigo.
BALTHAZAR, BALTHAZAR
Rigor e silêncio.
Ler é ler.
Há quem acredite no saber enciclopédico. Já os amantes da conversa ao vento passariam anos com apenas um trecho de romance no bolso, ruminando-o, imprimindo ambiguidade no silêncio.
A espada, o sangue, o tempo das amoras.
Imagens a se dissolverem no instante em que se abandona o livro.
Imagens a fixar em nós uma experiência indecifrável. Quando indeléveis.
Imagens frágeis como os mortais.
Em tempos de guerra, onde andará a ternura?
A incomunicabilidade a produzir fins trágicos.
Sagas, odes, trovas, cantigas, escárnio, fingimento
Há quanto tempo não dormimos?
--------------------
*para Pedrinho, cujo trabalho me inspirou o dia
**Pedro Aspahan, “Entre a escuta e a visão: o lugar do espectador na obra de Robert Bresson” (2008).
No plano seguinte, o longo corredor tem suas portas abertas, uma a uma, sob o repique do sino no fora-de-campo, sob o som dos passos das freiras.
'Ave Maria', diz a personagem como quem saúda o nascer do dia, o nascer da luz que se imprime no anteparo sensível do cinematógrafo.
Quando as portas se abriam ao tempo, o som já habitava o fora-de-campo.**
O trecho acima se refere a um filme do cineasta francês Robert Bresson, mas poderia ser um excerto de romance.
Um romance no qual a linguagem cinematográfica já faria parte do vocabulário do leitor e as imagens textuais dialogariam entre si à maneira do cinema.
Não quero com isso confundir as duas experiências.
Apenas lembrar que CINEMA e LITERATURA conversam,
por solicitação, por empréstimo (GODARD).
Ninguém irá discordar que há um aspecto formal na obra de alguns cineastas atravessado pela escrita. Como a espada no peito de Píramo a tingir de vermelho as amoras.
Como o instante da dor (que não cessa) ao ver/não ver o amor dilacerado pelos leões.
Amores impossíveis.
Cheiro de gás (CHANTAL).
Uma mulher sobe até o terraço e vê o corpo pender.
Outra lamenta seu amigo.
BALTHAZAR, BALTHAZAR
Rigor e silêncio.
Ler é ler.
Há quem acredite no saber enciclopédico. Já os amantes da conversa ao vento passariam anos com apenas um trecho de romance no bolso, ruminando-o, imprimindo ambiguidade no silêncio.
A espada, o sangue, o tempo das amoras.
Imagens a se dissolverem no instante em que se abandona o livro.
Imagens a fixar em nós uma experiência indecifrável. Quando indeléveis.
Imagens frágeis como os mortais.
Em tempos de guerra, onde andará a ternura?
A incomunicabilidade a produzir fins trágicos.
Sagas, odes, trovas, cantigas, escárnio, fingimento
Há quanto tempo não dormimos?
--------------------
*para Pedrinho, cujo trabalho me inspirou o dia
**Pedro Aspahan, “Entre a escuta e a visão: o lugar do espectador na obra de Robert Bresson” (2008).
5.2.09
Ao menos uma vez
No cair da tarde
A luz incide um verde oliva
Incrivelmente posso tocar a cor
Mas não posso descrevê-la
A luz incide um verde oliva
Incrivelmente posso tocar a cor
Mas não posso descrevê-la
1.2.09
30.1.09
9.1.09
Chuva de temporada*
Meu doce amigo
Estamos aqui,
Eu e você,
Embriagados nesta noite
Sem perspectiva de mudar o tempo
Distribuindo baldes pela casa
- Mas o calor não tarda
- É... Amanhã fará sol
- Com cerveja
-----------
*Para o Rafa e o Grave
Estamos aqui,
Eu e você,
Embriagados nesta noite
Sem perspectiva de mudar o tempo
Distribuindo baldes pela casa
- Mas o calor não tarda
- É... Amanhã fará sol
- Com cerveja
-----------
*Para o Rafa e o Grave
5.1.09
Do cotidiano da entomologista
O cotidiano que o anônimo julga interessante pode ser simples e patético.
Então, resta sorrir entre parênteses?
Assim quando se acorda depois de uma noite sem pesadelos.
O cotidiano pode ser leve ou árduo,
como o amor ou a escrita.
Passando dias sem arrancar um verso, uma frase que seja, a poetisa levanta as têmporas diante do espelho.
- Merda!
Metáforas são fáceis.
Deliberá-las sem trava, crê, não é tarefa da poesia deste tempo.
Mas que tempo é este?
Muitas vespas a invadir a casa nesta noite.
Depois das chuvas que alagam ruas e avenidas,
o sono a despencar as pálpebras,
pura lama.
Jargão e superficialidade
O cotidiano dos jornais e suas tendências
Um rio que volta a transbordar
Um corpo, seis tiros, o caso arquivado
A faixa dividida em três ou mais
Dez dias de conflito, mais de 500 mortos, milhares de feridos
Um time de juniores vence um de seus adversários
E um ator estrangeiro às voltas no Rio de Janeiro
Então, resta sorrir entre parênteses?
Assim quando se acorda depois de uma noite sem pesadelos.
O cotidiano pode ser leve ou árduo,
como o amor ou a escrita.
Passando dias sem arrancar um verso, uma frase que seja, a poetisa levanta as têmporas diante do espelho.
- Merda!
Metáforas são fáceis.
Deliberá-las sem trava, crê, não é tarefa da poesia deste tempo.
Mas que tempo é este?
Muitas vespas a invadir a casa nesta noite.
Depois das chuvas que alagam ruas e avenidas,
o sono a despencar as pálpebras,
pura lama.
Jargão e superficialidade
O cotidiano dos jornais e suas tendências
Um rio que volta a transbordar
Um corpo, seis tiros, o caso arquivado
A faixa dividida em três ou mais
Dez dias de conflito, mais de 500 mortos, milhares de feridos
Um time de juniores vence um de seus adversários
E um ator estrangeiro às voltas no Rio de Janeiro
30.12.08
Canção de ninar*
Entre o sono e o estar acordado
Penso frases que me são caras
Jamais irei reproduzi-las tal qual se processam em mim
Porém, se as ouço apenas e não escrevo
Uma insônia absurda toma a mim o sonho desejado
Da cama à caderneta, o que se perdeu?
O pensamento mais ágil do que os dedos
Uma laranja para a digestão
Amor embalado por uma canção de jazz
O menino dorme
-------
* para Matias Monteiro, às 5h da matina
Penso frases que me são caras
Jamais irei reproduzi-las tal qual se processam em mim
Porém, se as ouço apenas e não escrevo
Uma insônia absurda toma a mim o sonho desejado
Da cama à caderneta, o que se perdeu?
O pensamento mais ágil do que os dedos
Uma laranja para a digestão
Amor embalado por uma canção de jazz
O menino dorme
-------
* para Matias Monteiro, às 5h da matina
27.12.08
De cartas e canções
Poderia endereçar a você todos os poemas
Mas o que nos separa
A idade, a monogamia?
Atingir com palavras
Este sentimento comum que atrai os homens
(Amor)
Ouço sua voz, um violão
Ouço amargar uma espécie de solidão
A noite garoando inteira
Vento úmido cortando a espinha
Pés descalços no assoalho frio
Aqui, pairam versos seus
Os meus
Na gaveta, apenas rascunhos
de um romance sem graça
Não posso lhe desejar agora
(Minto)
Desejar eu posso
Mas o que nos separa
A idade, a monogamia?
Atingir com palavras
Este sentimento comum que atrai os homens
(Amor)
Ouço sua voz, um violão
Ouço amargar uma espécie de solidão
A noite garoando inteira
Vento úmido cortando a espinha
Pés descalços no assoalho frio
Aqui, pairam versos seus
Os meus
Na gaveta, apenas rascunhos
de um romance sem graça
Não posso lhe desejar agora
(Minto)
Desejar eu posso
Aporia
Se desvio o olhar é por insegurança
Mas vejo seu rosto recortado na parede branca
Na noite tudo padece
Seus olhos floresta
Sonhei você
Hesitei
Adentrar na floresta
Ajustar o foco
Desfocar o fundo
Amar você?
O toque pareceu impossível
Mas vejo seu rosto recortado na parede branca
Na noite tudo padece
Seus olhos floresta
Sonhei você
Hesitei
Adentrar na floresta
Ajustar o foco
Desfocar o fundo
Amar você?
O toque pareceu impossível
Desenhos
Talvez quisesse uma terra boa
Neste descampado onde vi pinturas rupestres
Crença na origem
Talvez duvidasse da existência dos homens antes dos homens
Se a matriz do desavisado é o plágio
A minha é o fingimento
Neste descampado onde vi pinturas rupestres
Crença na origem
Talvez duvidasse da existência dos homens antes dos homens
Se a matriz do desavisado é o plágio
A minha é o fingimento
18.12.08
Palu
A aldeia fica afastada do grande centro
O sol impera ao meio-dia
queima florestas
Se fosse esperar pelo tempo
não traçaria dois círculos e uma reta
– A estrada precisa atravessar sítios
Os olhos ardendo em febre
Ignorou o gesto do velho Soba
– Talvez não vingue por aqui
O sol impera ao meio-dia
queima florestas
Se fosse esperar pelo tempo
não traçaria dois círculos e uma reta
– A estrada precisa atravessar sítios
Os olhos ardendo em febre
Ignorou o gesto do velho Soba
– Talvez não vingue por aqui
16.12.08
12.12.08
Sem teoria
Na sala de estar: uma cadeira, alguns livros, objetos de porcelana
A TV exibe imagens desgastadas
Não sei se padeço de algum mal
Porção de tempo
A TV exibe imagens desgastadas
Não sei se padeço de algum mal
Porção de tempo
14.11.08
[Ritornelo]
Começar com gestos repetitivos
Abrir mais de uma vez a porta antes de sair de casa
[ver se a chave do gás está virada,
se o ferro está desligado]
Abrir mais uma vez a casa
Abrir mais de uma vez a porta antes de sair de casa
[ver se a chave do gás está virada,
se o ferro está desligado]
Abrir mais uma vez a casa
13.11.08
12.11.08
Pergunta não feita a Carlos Alberto Prates Correia
Em Cabaré Mineiro, após a canção enlevada pelo personagem anônimo de Nelson Dantas e a bela jovem, cena que nos encanta pela delicadeza do gesto amoroso, a onça-mulher é morta pelo personagem em seguida.
Medo ou amor de morte?
Medo ou amor de morte?
18.10.08
dos encontros não programados*
Morrer em Dionísio
Renascer em Pessoa
É de Bethânia o canto atravessado no amor
você está na noite
jamais pegará o telefone
e ligará para ela
mas não deixará de ler jornais
-----
*para kk, joão e rafa
Renascer em Pessoa
É de Bethânia o canto atravessado no amor
você está na noite
jamais pegará o telefone
e ligará para ela
mas não deixará de ler jornais
-----
*para kk, joão e rafa
17.10.08
dos desejos dos poetas
O poema, também uma espécie de traição?
Quantos escritos não postados
Em umas poucas palavras poderia lhe revelar o mundo
(amor)
sentimentos não se escondem numa gaveta
(falsa impressão)
Do portão ao quarto,
sete, oito lances de escada
Menino dos olhos
(floresta)
incapacidade do corpo:
magoar quem não mereça
Quantos escritos não postados
Em umas poucas palavras poderia lhe revelar o mundo
(amor)
sentimentos não se escondem numa gaveta
(falsa impressão)
Do portão ao quarto,
sete, oito lances de escada
Menino dos olhos
(floresta)
incapacidade do corpo:
magoar quem não mereça
5.10.08
Notas para uma biografia s/d
Jogaram suas valises no trem
Partiram pouco antes do galo cantar
Para o Rio de Janeiro
Nicolau e seu pai almoçam no vagão restaurante ao meio-dia em ponto
A passagem pela capital mineira será lembrada em encontros banais
Lufada nas pestanas
A comida sacolejando no estômago
Partiram pouco antes do galo cantar
Para o Rio de Janeiro
Nicolau e seu pai almoçam no vagão restaurante ao meio-dia em ponto
A passagem pela capital mineira será lembrada em encontros banais
Lufada nas pestanas
A comida sacolejando no estômago
4.10.08
Notas de Nicolau Paropas
seja paciente com os vaidosos
deixe que inflem o ego
permita-lhes dizer mais do que deveriam
que haja surdina!
conquistarás o mundo
deixe que inflem o ego
permita-lhes dizer mais do que deveriam
que haja surdina!
conquistarás o mundo
28.9.08
O dia depois do dia
Amor mal curado se resolve na ressaca
No diálogo com o vaso sanitário,
percebe-se a potência do corpo
A tentativa desesperadora de retificar a merda de uma embriaguez
No diálogo com o vaso sanitário,
percebe-se a potência do corpo
A tentativa desesperadora de retificar a merda de uma embriaguez
24.9.08
À maneira de Nicolau Paropas
Os poemas falam a dor, a desonra, a desforra
Também as cabrochas, o desespero, o amor
Um jovem, um tiro, três décadas atrás
No guión, propostas indecorosas
Durante semanas, o peso do tempo
Sorriso a derreter os dentes
Morte, engano
Sentados à mesa
– Prato de sopa, água, pão, azeite para regar
Também as cabrochas, o desespero, o amor
Um jovem, um tiro, três décadas atrás
No guión, propostas indecorosas
Durante semanas, o peso do tempo
Sorriso a derreter os dentes
Morte, engano
Sentados à mesa
– Prato de sopa, água, pão, azeite para regar
23.9.08
Tempo das chuvas
Recebeu a notícia deixando cair a caixa de miudezas
Decerto não entendia a língua
Apenas viu o sorriso indeciso nos lábios de Nicolau
e uma pequena mala no alpendre da casa
Nesse ano, os ipês tardaram a florescer
Sons a povoar os dias
Decerto não entendia a língua
Apenas viu o sorriso indeciso nos lábios de Nicolau
e uma pequena mala no alpendre da casa
Nesse ano, os ipês tardaram a florescer
Sons a povoar os dias
13.9.08
παλίμψηστος
A escrita de Nicolau se mantém à maneira dos palimpsestos
Um vestígio foi encontrado à Rua dos Guajajaras
Na parede do edifício, palavras sobrepostas
Dentre elas riscar
(duas, três vezes ao dia)
O tempo se encarregou de lavar a segunda Isidora
Um vestígio foi encontrado à Rua dos Guajajaras
Na parede do edifício, palavras sobrepostas
Dentre elas riscar
(duas, três vezes ao dia)
O tempo se encarregou de lavar a segunda Isidora
5.9.08
3.9.08
Por volta de 1940*
Seria necessário consultar sistematicamente os arquivos
(como Nava)
Para encontrar a rua exata
Por onde transitou Nicolau Paropas
Dizem que em 1940 esteve em Belo Horizonte
Por causa de um seminário sobre prótese dentária
Na época, seu pai era um respeitado dentista e
francês
Caminhando pela rua
(cujos versos até hoje estariam impressos na calçada)
Nicolau viu Isidora
Nunca se falaram, tampouco se entreolharam
Apenas o poeta,
Com o ar ainda preso no peito,
Experimentou tamanha leveza
---------
* para eassis, para garro
(como Nava)
Para encontrar a rua exata
Por onde transitou Nicolau Paropas
Dizem que em 1940 esteve em Belo Horizonte
Por causa de um seminário sobre prótese dentária
Na época, seu pai era um respeitado dentista e
francês
Caminhando pela rua
(cujos versos até hoje estariam impressos na calçada)
Nicolau viu Isidora
Nunca se falaram, tampouco se entreolharam
Apenas o poeta,
Com o ar ainda preso no peito,
Experimentou tamanha leveza
---------
* para eassis, para garro
31.8.08
Cosmogonia*
Primeiro foi a água
Dos seres que dela surgiram
Homens-peixe desejaram caminhar
Fez-se então uma terra vermelha
Diferentemente da que haviam experimentado no oceano,
Uma poeira ainda mais fina ofuscou-lhes a visão
Descobriram o vento
O calor a arder as têmporas
Aprenderam a tanger a terra com gotas de suor
Fizeram instrumentos
Descobriu-se que o céu já existia há anos
Mais tarde, sua infinita beleza
Inventaram o vinho
Por vezes a pequenez os apanhava completos
Majestosos no tempo
Fugidios, os poetas
Seus olhos
A floresta que veio depois
Da cicatriz escorria-se um líquido pegajoso
Surgiram ruas e avenidas
O barulho dos carros a atravessar-lhes a noite
Previram o desaparecimento da água
Mas não quiseram o retorno
Preferiram compor sinfonias
Ode às estrelas
------------------------------------------------
*para Bu Guanambis e Rafa Barros
Dos seres que dela surgiram
Homens-peixe desejaram caminhar
Fez-se então uma terra vermelha
Diferentemente da que haviam experimentado no oceano,
Uma poeira ainda mais fina ofuscou-lhes a visão
Descobriram o vento
O calor a arder as têmporas
Aprenderam a tanger a terra com gotas de suor
Fizeram instrumentos
Descobriu-se que o céu já existia há anos
Mais tarde, sua infinita beleza
Inventaram o vinho
Por vezes a pequenez os apanhava completos
Majestosos no tempo
Fugidios, os poetas
Seus olhos
A floresta que veio depois
Da cicatriz escorria-se um líquido pegajoso
Surgiram ruas e avenidas
O barulho dos carros a atravessar-lhes a noite
Previram o desaparecimento da água
Mas não quiseram o retorno
Preferiram compor sinfonias
Ode às estrelas
------------------------------------------------
*para Bu Guanambis e Rafa Barros
28.8.08
Novamante*
Pequena imagem num selo
Um homem tocando piano - Liszt
(corta para)
Mulher segurando espelho
De Portinari a primeira
Novamante a segunda
-------------------------------
* para edu
Um homem tocando piano - Liszt
(corta para)
Mulher segurando espelho
De Portinari a primeira
Novamante a segunda
-------------------------------
* para edu
18.8.08
Das dinâmicas do dia
17.8.08
Monte Alegre
Provavelmente
Na Grécia Antiga
As mulheres (tendo voz)
Clamando por seus filhos
Encheriam
de porrada
A boca recalcada dos fazedores de guerra
Sem dentes,
O poeta
Uma besta-quadrada
A guerra,
Invenção dos homens
para a multiplicação de filmes enlatados
Açoitar o inimigo
com palavras vulgares
Coisa do fascismo
Na Grécia Antiga
As mulheres (tendo voz)
Clamando por seus filhos
Encheriam
de porrada
A boca recalcada dos fazedores de guerra
Sem dentes,
O poeta
Uma besta-quadrada
A guerra,
Invenção dos homens
para a multiplicação de filmes enlatados
Açoitar o inimigo
com palavras vulgares
Coisa do fascismo
10.8.08
Jonathan Mangabeira
Não compreendo seu sorriso
Ri para mim dizendo até logo
Nos pés o suor do asfalto
(becos, avenidas, BRs)
Nas mãos marcas esferográficas
Poderia caber o mundo em versos rimados
Escrever caminhando
Poeta
Vinte e quatro horas por dia
Ri para mim dizendo até logo
Nos pés o suor do asfalto
(becos, avenidas, BRs)
Nas mãos marcas esferográficas
Poderia caber o mundo em versos rimados
Escrever caminhando
Poeta
Vinte e quatro horas por dia
9.8.08
6.8.08
educação na pedra
um grito violento atrás da porta
o tiro que atravessou o jovem
atormenta gerações
aristocracia paidéia
em restos de livros
comidos por traças
a casa minando água
as pessoas dos retratos desaparecendo no tempo
um bife pra cinco,
no domingo refresco
aristocracia paidéia ou
o imaginário bufão
o tiro que atravessou o jovem
atormenta gerações
aristocracia paidéia
em restos de livros
comidos por traças
a casa minando água
as pessoas dos retratos desaparecendo no tempo
um bife pra cinco,
no domingo refresco
aristocracia paidéia ou
o imaginário bufão
2.8.08
Da Torre Mais Alta*
Falemos na mocidade presa
Deprimida
Delicadeza perder a vida
Da alma
Não posso negar
Flores sobre a mesa vazia
Disse: – Acaba (devagar)
Promessas ao vento
O bem que seja
Aspiro
Retirante
Amor derradeiro
Ao menos pudesse sonhar
Diria palavras
Erguida aos céus
Sede estranha que ofusca a garganta
Que campos visitar?
Condenada
Duvidando do hálito amargo
Moscas selvagens
Na imagem que assola
Uma senhora, um grito
Quem rezaria Ave Maria?
Oprimida mocidade
A pureza, o encanto
Num estalar de dedos,
Que o tempo venha
– Arthur!
Sua poesia esfola viva
-------
*para Quel Junqueira, para Fred Sabino
Deprimida
Delicadeza perder a vida
Da alma
Não posso negar
Flores sobre a mesa vazia
Disse: – Acaba (devagar)
Promessas ao vento
O bem que seja
Aspiro
Retirante
Amor derradeiro
Ao menos pudesse sonhar
Diria palavras
Erguida aos céus
Sede estranha que ofusca a garganta
Que campos visitar?
Condenada
Duvidando do hálito amargo
Moscas selvagens
Na imagem que assola
Uma senhora, um grito
Quem rezaria Ave Maria?
Oprimida mocidade
A pureza, o encanto
Num estalar de dedos,
Que o tempo venha
– Arthur!
Sua poesia esfola viva
-------
*para Quel Junqueira, para Fred Sabino
13.7.08
para o tirano oswaldiano
ô caralho!
estou puta
que a sua poesia tá melhor que a minha
anacrônico é tu, cara de angu
pro caralho que te partiu
tenho que trabalhá
desemprego assola
papo intelectual conversa de botequim
volto já
se me tirar eu berro, falô, glauborô albino
amo
tão desesperadamente
não entendeu que não sou glauceste e sim glaucoma?
estou puta
que a sua poesia tá melhor que a minha
anacrônico é tu, cara de angu
pro caralho que te partiu
tenho que trabalhá
desemprego assola
papo intelectual conversa de botequim
volto já
se me tirar eu berro, falô, glauborô albino
amo
tão desesperadamente
não entendeu que não sou glauceste e sim glaucoma?
12.7.08
à ciel ouvert
ser celestial pousou em mim perfeito.
matanada-nativa. amor pelos pássaros, dislexia.
esta dor inexata,
abandono. não entendo.
arrogância.
circunlóquio.
anacronia maculada.
pro escambau o contemplativo.
prejudica a vida.
permissão para sonhar.
verdade quase-nada. queimapele.
fui ver onde-dá. "tempestê à ciel ouvert"
glauboró-aurá, glauceste, glaucoma.
matanada-nativa. amor pelos pássaros, dislexia.
esta dor inexata,
abandono. não entendo.
arrogância.
circunlóquio.
anacronia maculada.
pro escambau o contemplativo.
prejudica a vida.
permissão para sonhar.
verdade quase-nada. queimapele.
fui ver onde-dá. "tempestê à ciel ouvert"
glauboró-aurá, glauceste, glaucoma.
21.6.08
Da impossibilidade de descrever as coisas
(um livro-poema para Rafael Barros)
O homem atravessa três ruas até o escritório
No percurso, avalia o tempo, compra um jornal, toma um café
Corre o olho pela vitrine:
meias, um casaco de lã, caixa de lenços
Ontem recebeu uma carta
Receita para amar
O destino de um poema
Umidade deixada pela chuva fez lembrar a casa da infância
A avó cozinhando mingau,
a mãe preparando a mesa do jantar
Corpo ardendo em febre
(água e açúcar)
Correr no tempo
A memória a trazer o gesto
Quis ver o rio, mas já era hora de levantar a porta
Atender ao chamado insistente do dia
Três ruas até o escritório
(um livro-poema para Rafael Barros)
O homem atravessa três ruas até o escritório
No percurso, avalia o tempo, compra um jornal, toma um café
Corre o olho pela vitrine:
meias, um casaco de lã, caixa de lenços
Ontem recebeu uma carta
Receita para amar
O destino de um poema
Umidade deixada pela chuva fez lembrar a casa da infância
A avó cozinhando mingau,
a mãe preparando a mesa do jantar
Corpo ardendo em febre
(água e açúcar)
Correr no tempo
A memória a trazer o gesto
Quis ver o rio, mas já era hora de levantar a porta
Atender ao chamado insistente do dia
Três ruas até o escritório
15.6.08
tradução e sonho*
sonhei
descoberto o segredo de llansol
a fase de um poema
to be
vi no traço,
não inventei o sonho
esquecendo-se do que foi visto
enrolou-se no pano
o traço
invenção de um parto
a mulher sangra mais de uma vez
* para carolina fenati
descoberto o segredo de llansol
a fase de um poema
to be
vi no traço,
não inventei o sonho
esquecendo-se do que foi visto
enrolou-se no pano
o traço
invenção de um parto
a mulher sangra mais de uma vez
* para carolina fenati
23.5.08
aparentemente sós*
dos pequenos gestos do cotidiano
lustrar os móveis da casa
deitar água nas plantas
fazer o almoço de domingo
convidar a família
uns restos de amor,
um livro, uma vela, um copo d’água
*para bernard
lustrar os móveis da casa
deitar água nas plantas
fazer o almoço de domingo
convidar a família
uns restos de amor,
um livro, uma vela, um copo d’água
*para bernard
30.4.08
Tarde desperdiçada
Não quero lhe chatear
Uma prece aos ignorantes
Esta dor é temporária
O estômago está vazio, eu sei
Deixe a melancolia instalar de vez
Três livros para ler
Perdida em Tchaikovsky
Escrevo um poema
Você vai me reprimir porque tenho uma casa a varrer?
Uma prece aos ignorantes
Esta dor é temporária
O estômago está vazio, eu sei
Deixe a melancolia instalar de vez
Três livros para ler
Perdida em Tchaikovsky
Escrevo um poema
Você vai me reprimir porque tenho uma casa a varrer?
28.4.08
Seus olhos, ou da polifonia nesta manhã desconsolada*
Talvez fosse melhor não mencionar nada
Que o tempo se encarregue de dizer,
na experiência dos dias,
o apelo deste corpo
Um copo d’água, por favor
Não adianta negar
O espírito transita no tilintar das lágrimas
Alegria, gozo e dor
Nesta manhã de sábado,
a cabeça ainda zumbindo,
vejo sua asa partir no chão
Três movimentos ao redor do corpo
No sonho ainda se podia ouvir
instrumentos, vozes,
passantes a bater o pé no cimento
Corte seco
Um dia inteiro pela frente
Arrumar a casa
Postar o lixo, roupa no varal
Misturar arroz no feijão
Barulho que vem do asfalto
anuncia a partida e chegada dos carros
Crianças brincando no jardim
Esquartejam gafanhotos no meu cérebro
Cumprida a ordem
À tarde estarei na cama
Um romance que não acaba
Livros de poesia
No cair do dia,
talvez uma festa,
um jantar entre amigos
ou o sono dos justos
Escrever é menos complicado sob efeito do álcool
A palavra corta a folha
Navalha afiada
Os dedos sangrando
Nem clichê, nem rima
Sem lentes de aumento
Não há foco que resista
Espera a ressaca passar
-------------------------------------------------
*depois do Graveola, também para o Rafa
Que o tempo se encarregue de dizer,
na experiência dos dias,
o apelo deste corpo
Um copo d’água, por favor
Não adianta negar
O espírito transita no tilintar das lágrimas
Alegria, gozo e dor
Nesta manhã de sábado,
a cabeça ainda zumbindo,
vejo sua asa partir no chão
Três movimentos ao redor do corpo
No sonho ainda se podia ouvir
instrumentos, vozes,
passantes a bater o pé no cimento
Corte seco
Um dia inteiro pela frente
Arrumar a casa
Postar o lixo, roupa no varal
Misturar arroz no feijão
Barulho que vem do asfalto
anuncia a partida e chegada dos carros
Crianças brincando no jardim
Esquartejam gafanhotos no meu cérebro
Cumprida a ordem
À tarde estarei na cama
Um romance que não acaba
Livros de poesia
No cair do dia,
talvez uma festa,
um jantar entre amigos
ou o sono dos justos
Escrever é menos complicado sob efeito do álcool
A palavra corta a folha
Navalha afiada
Os dedos sangrando
Nem clichê, nem rima
Sem lentes de aumento
Não há foco que resista
Espera a ressaca passar
-------------------------------------------------
*depois do Graveola, também para o Rafa
7.4.08
2.4.08
2.3.08
Nada como antes
As pernas saradas das mordidas de pulga
Costas arqueadas
Antes era normal
Voar em sonho
Deitar o azeite no pão
Vinho e jazz
Costas arqueadas
Antes era normal
Voar em sonho
Deitar o azeite no pão
Vinho e jazz
16.2.08
Do mundo
Esfregar bobagens na cara
Da verdade que imprime o mundo
(ruir)
Discurso armado
– Foda-se! – disse um bêbado
e me bebeu inteira.
Da verdade que imprime o mundo
(ruir)
Discurso armado
– Foda-se! – disse um bêbado
e me bebeu inteira.
2.2.08
Fevereiro
Fui ver a chuva
que cai inteira
Na montanha, duas, três árvores apenas
Alguns casarões e uma neblina
que cai inteira
Na montanha, duas, três árvores apenas
Alguns casarões e uma neblina
28.1.08
21.1.08
radiografado
7.1.08
Sonhar morbidez
Vez em quando posso lhe dizer palavras delicadas
Pedaços de algodão, água para lavar o corte
Comer o algodão
Sonhar que se morre sufocando
No desespero do quarto escuro a faca em punho
Palavras delicadas ao vento
nomeiam a loucura do outro
Pedaços de algodão, água para lavar o corte
Comer o algodão
Sonhar que se morre sufocando
No desespero do quarto escuro a faca em punho
Palavras delicadas ao vento
nomeiam a loucura do outro
1.1.08
Caixa acústica
Numa caixa de plástico crescem animais estranhos
Metade pássaro e homem
Algumas linhas costuram a barriga em espiral
São postados algodão e açúcar
Um rio corre por dentro
Alguns peixes tentam fugir para a superfície
e sentem o ar cegá-los
Não podendo voltar, criam pernas
Tornam-se guardiões da água
O homem quer virar peixe alado
Não consegue
Seu corpo está ardendo
Da boca vemos brotar uma árvore
Flores explodem um líquido pegajoso
Os lábios se arrebentam
Palavras são como eletricidade
O som invade a caixa
as paredes tremem
(oxigênio)
A caixa é como uma estufa
Transforma seres eletrônicos em animais da terra
Metade pássaro e homem
Algumas linhas costuram a barriga em espiral
São postados algodão e açúcar
Um rio corre por dentro
Alguns peixes tentam fugir para a superfície
e sentem o ar cegá-los
Não podendo voltar, criam pernas
Tornam-se guardiões da água
O homem quer virar peixe alado
Não consegue
Seu corpo está ardendo
Da boca vemos brotar uma árvore
Flores explodem um líquido pegajoso
Os lábios se arrebentam
Palavras são como eletricidade
O som invade a caixa
as paredes tremem
(oxigênio)
A caixa é como uma estufa
Transforma seres eletrônicos em animais da terra
29.12.07
Da lembrança
Esqueci novamente de acender a luz
Deixei cair sobre a mesa batom e moedas
No canto esquerdo da sala há uma foto sua
Entre os bibelôs uma estampa
Meu pai dizia que a natureza do homem é suicida
Preparo para a festa
São duas horas da manhã
A geladeira está vazia
Nada é importante agora
Deixei cair sobre a mesa batom e moedas
No canto esquerdo da sala há uma foto sua
Entre os bibelôs uma estampa
Meu pai dizia que a natureza do homem é suicida
Preparo para a festa
São duas horas da manhã
A geladeira está vazia
Nada é importante agora
28.12.07
No deserto do Arizona
Assistia ingenuamente a esta série e pensava nos dois cientistas condenados a vagar no tempo. "Quem iria querer enfrentar dinossauros e conflitos armados apenas para provar que a máquina não era mero desperdício ao Estado?"
(um jovem galã e um pensador maduro)
No deserto do Arizona estava escondida a maior de todas as invenções da vida moderna.
A lógica da aventura consistia em enfrentar o perigo, as paixões e o abandono, mas resta a dúvida sobre os procedimentos metodológicos dessa viagem.
Hoje compreendo melhor, apesar de não me recordar dos episódios – a não ser da antológica imagem espiralar que leva os dois personagens para passear no tempo. Tudo pelo entretenimento que contém a descoberta, ou o desejo impossível de sair ileso das tormentas e colapsos do mundo?
A máquina do tempo é uma homenagem ao cinema que se acreditava fazer na época
no deserto do Arizona.

(o túnel e o tempo)
(um jovem galã e um pensador maduro)
No deserto do Arizona estava escondida a maior de todas as invenções da vida moderna.
A lógica da aventura consistia em enfrentar o perigo, as paixões e o abandono, mas resta a dúvida sobre os procedimentos metodológicos dessa viagem.
Hoje compreendo melhor, apesar de não me recordar dos episódios – a não ser da antológica imagem espiralar que leva os dois personagens para passear no tempo. Tudo pelo entretenimento que contém a descoberta, ou o desejo impossível de sair ileso das tormentas e colapsos do mundo?
A máquina do tempo é uma homenagem ao cinema que se acreditava fazer na época
no deserto do Arizona.

(o túnel e o tempo)
27.12.07
Com Sinatra*
Ouço Sinatra cantar
Como é bom encerrar elegantemente esta temporada
e também triste
como um filme antigo
(Your fabulous face)
Cinco minutos mais, cinco minutos mais
para estar em seus braços
Apenas cinco minutos mais
(I see, I see)
Posso ver você
Lá do outro lado
Posso ser você
Onde o rosto toca o vento
Dançar com o corpo mole
no escuro
(I lost my heart)
Queria falar sobre coisas assim
Cantar assim
(Every time. You and I. Every time)
Nem chá, nem suco de tomate
(A cup of coffee, please)
----------------
*para a equipe
Como é bom encerrar elegantemente esta temporada
e também triste
como um filme antigo
(Your fabulous face)
Cinco minutos mais, cinco minutos mais
para estar em seus braços
Apenas cinco minutos mais
(I see, I see)
Posso ver você
Lá do outro lado
Posso ser você
Onde o rosto toca o vento
Dançar com o corpo mole
no escuro
(I lost my heart)
Queria falar sobre coisas assim
Cantar assim
(Every time. You and I. Every time)
Nem chá, nem suco de tomate
(A cup of coffee, please)
----------------
*para a equipe
19.12.07
b. brecht
A fumaça (der rauch) mistura no vento uma cor delicada
Alguns pontos de luz a atravessam
Sorte o dia ter amanhecido claro
Nas árvores uma poeira fina
Ao entardecer esperamos chuva no lago
para João Lúcio
Alguns pontos de luz a atravessam
Sorte o dia ter amanhecido claro
Nas árvores uma poeira fina
Ao entardecer esperamos chuva no lago
para João Lúcio
13.12.07
Pazes com o imaginário*
O tronco estava úmido
Entre as folhas das árvores restos de chuva
O nariz fica gelado nesta época do ano
Tenho apenas três páginas de anotações
(a saudade é algo para se beber)
Aceite um ramo
------------------------------------
*para Cinara Araújo
Entre as folhas das árvores restos de chuva
O nariz fica gelado nesta época do ano
Tenho apenas três páginas de anotações
(a saudade é algo para se beber)
Aceite um ramo
------------------------------------
*para Cinara Araújo
18.11.07
16.11.07
Elogio escondido numa gaveta*
Desisti do amor.
Seu sentimento grandioso,
sua celebração.
As coisas menores agora me são caras.
Em espírito febril
ergo o espelho,
deixo o vento tocar o rosto,
sinto-o inteiramente livre.
Rodar os pulsos,
torcer o corpo inteiro.
Olho seu sorriso no retrato que se apaga no tempo.
*para Eassis, para Carolina Junqueira
Seu sentimento grandioso,
sua celebração.
As coisas menores agora me são caras.
Em espírito febril
ergo o espelho,
deixo o vento tocar o rosto,
sinto-o inteiramente livre.
Rodar os pulsos,
torcer o corpo inteiro.
Olho seu sorriso no retrato que se apaga no tempo.
*para Eassis, para Carolina Junqueira
29.9.07
Insônia
Meu pai barrigudo louco sem dentes.
Sai pela madrugada gritando meus irmãos.
Vou atrás dele. Momentos antes pulava a linha do trem.
A cabeça está pesada.
O sonho escapa os loucos da casa.
Sai pela madrugada gritando meus irmãos.
Vou atrás dele. Momentos antes pulava a linha do trem.
A cabeça está pesada.
O sonho escapa os loucos da casa.
12.9.07
Fim do cacimbo*
Cheiro de terra molhada.
Sangue espesso. Barro amontoado.
No alto daquele morro tem um Baobá, sim sinhô.
Os galhos tocam o céu.
De maio a agosto, floresce uma única noite.
De lá, do alto daquele morro,
o mar pode ser visto.
Agora é setembro. Não recomendo.
Terra vermelha, terra molhada.
*para Nazareth Fonseca, para Zetho Gonçalves
Sangue espesso. Barro amontoado.
No alto daquele morro tem um Baobá, sim sinhô.
Os galhos tocam o céu.
De maio a agosto, floresce uma única noite.
De lá, do alto daquele morro,
o mar pode ser visto.
Agora é setembro. Não recomendo.
Terra vermelha, terra molhada.
*para Nazareth Fonseca, para Zetho Gonçalves
5.9.07
Umbigada
O umbigo é um poço
Não tocar nele
Inocente achar que se fala a verdade
Não se transfere o poço
Não se transfere dor
Amar com a pele inflamada
Não tocar nele
Inocente achar que se fala a verdade
Não se transfere o poço
Não se transfere dor
Amar com a pele inflamada
14.8.07
Vento do mar
A noite caiu
Estava com a xícara de chá na mão
Sobre a mesa uns restos de pão
Em tempo de guerra não se arrisca desperdiçar nada
Morreu do efeito do gás
Estava com a xícara de chá na mão
Sobre a mesa uns restos de pão
Em tempo de guerra não se arrisca desperdiçar nada
Morreu do efeito do gás
30.7.07
Lições para amar
Estou a cair, a cair, a cair
Do cineasta que mais inspira a poetisa
Os silêncios, os dramas, os fantasmas
A casa de Bergman
Um relógio sem ponteiros, uma cama, um lençol branco
Seu sopro: - Ágnes...
Do cineasta que mais inspira a poetisa
Os silêncios, os dramas, os fantasmas
A casa de Bergman
Um relógio sem ponteiros, uma cama, um lençol branco
Seu sopro: - Ágnes...
26.7.07
D'este seu pequeno canto de Luanda*
Vento de terra vermelha,
poeira fina que cobre os carros
O sol que cai no mar coagula imensa bola de fogo
Musseques a perder de vista,
ruas por asfaltar,
crianças agarradas às costas
(amor)
Pensar em Luanda
seus mercados, seus ritmos, suas falas
Máquinas de costura reta,
pernas de furar tecido,
língua no céu da boca
Amiga, amiga, amiga...
Pano bonito, estampa de elefante, olha amiga
(para John, Forrest, Marília, e Mário)
*frase extraída de mensagem enviada por John
poeira fina que cobre os carros
O sol que cai no mar coagula imensa bola de fogo
Musseques a perder de vista,
ruas por asfaltar,
crianças agarradas às costas
(amor)
Pensar em Luanda
seus mercados, seus ritmos, suas falas
Máquinas de costura reta,
pernas de furar tecido,
língua no céu da boca
Amiga, amiga, amiga...
Pano bonito, estampa de elefante, olha amiga
(para John, Forrest, Marília, e Mário)
*frase extraída de mensagem enviada por John
20.7.07
Entre as montanhas
Da cama pode-se ver o horizonte.
O céu impondo uma cor turva.
No colchão uma pata de urso mole.
O que mais choca é a estupidez.
No fundo da bacia um rio e uma neblina.
Um filme passando na TV.
O céu impondo uma cor turva.
No colchão uma pata de urso mole.
O que mais choca é a estupidez.
No fundo da bacia um rio e uma neblina.
Um filme passando na TV.
5.7.07
O flautista mágico
A ponta dos dedos corrói a pedra.
Se nasce uma flor espremida entre a pedra e os dedos
dizem que somos poetas vulgares.
Enquanto a água corre no corpo, e a flor teima em nascer,
o corpo quebra pedras no momento inoportuno.
Se nasce uma flor espremida entre a pedra e os dedos
dizem que somos poetas vulgares.
Enquanto a água corre no corpo, e a flor teima em nascer,
o corpo quebra pedras no momento inoportuno.
Naus
Sou um náufrago
tocado pelo ronco do mar.
- Meu amor me espera.
Enamorado de você,
o vento carrega meu espírito.
Se não sou eu a dizer palavras,
a pele queima.
Beijar, beijar, beijar
Num instante sinto frio.
Procuro um canto.
O olhar tenta colher seu sorriso.
Pouso as mãos no assoalho,
toco as irregularidades da madeira.
- Meu amor me espera.
(para Bardo)
tocado pelo ronco do mar.
- Meu amor me espera.
Enamorado de você,
o vento carrega meu espírito.
Se não sou eu a dizer palavras,
a pele queima.
Beijar, beijar, beijar
Num instante sinto frio.
Procuro um canto.
O olhar tenta colher seu sorriso.
Pouso as mãos no assoalho,
toco as irregularidades da madeira.
- Meu amor me espera.
(para Bardo)
25.6.07
De amigos etnográficos
Acabo de chegar em Sintra.
O destino é a Praia das Maçãs.
Ver o litoral.
A cidade é charmosa
onde deveria ter hospedado uns dias.
Tiro impressões de uma tarde.
Sozinha.
Lembrar das pessoas queridas, tarefa do poeta?
O silêncio é mesmo o lugar da escrita.
Corro o risco da metáfora.
Não tenho pressa. Digo devagar.
- A visão é sempre um corte cinematográfico.
(Para Oswaldo)
O destino é a Praia das Maçãs.
Ver o litoral.
A cidade é charmosa
onde deveria ter hospedado uns dias.
Tiro impressões de uma tarde.
Sozinha.
Lembrar das pessoas queridas, tarefa do poeta?
O silêncio é mesmo o lugar da escrita.
Corro o risco da metáfora.
Não tenho pressa. Digo devagar.
- A visão é sempre um corte cinematográfico.
(Para Oswaldo)
23.6.07
19.6.07
De anjos e pássaros
Deixei de escrever há um tempo para dar lugar às notas práticas.
Onde seguir, que rua é melhor pegar, onde ir.
Mudei de casa em Lisboa, mas já estive em mais três e dois hotéis nesta estada Luanda-Dundo-Lisboa-Porto-Vila Real-Paris.
Durante um tempo tive vontade de estar em casa, por uma noite apenas, colocar os pés em água quente e sal.
Beijar Ronaldo. E voltar.
Agora aproveito os últimos dias na cidade de Pessoa e possível visita a Évora e Sintra, lugares que não poderia deixar de conhecer por estarem tão perto. A Praia das Maçãs fica em Sintra e a curiosidade é imensa.
Comprei as cartas de guerra de Lobo Antunes e senti o amor de um jovem casal. Um esforço para se manter vivo.
Na guerra nada parece escrito.
Retomo os exercícios de fixar as ruas e reaprender a me localizar.
Agora, sentada numa igreja de pedra, se fechar os olhos posso estar na de São José, no centro de Belo Horizonte, onde tantas vezes fui.
- Traz de volta o sentimento que me deste na infância. O amor pelos pássaros, pelo ar, pelo céu azul.
Não imploro aos santos uma sanidade. O sentimento beato não deveria ser encoberto.
- Quem nunca pediu a Deus a cura de uma indigestão?
- Rogai por nós.
Desligaram a música. Desço a rua até a Baixa para postar esta carta.
(Para Ronaldo)
Onde seguir, que rua é melhor pegar, onde ir.
Mudei de casa em Lisboa, mas já estive em mais três e dois hotéis nesta estada Luanda-Dundo-Lisboa-Porto-Vila Real-Paris.
Durante um tempo tive vontade de estar em casa, por uma noite apenas, colocar os pés em água quente e sal.
Beijar Ronaldo. E voltar.
Agora aproveito os últimos dias na cidade de Pessoa e possível visita a Évora e Sintra, lugares que não poderia deixar de conhecer por estarem tão perto. A Praia das Maçãs fica em Sintra e a curiosidade é imensa.
Comprei as cartas de guerra de Lobo Antunes e senti o amor de um jovem casal. Um esforço para se manter vivo.
Na guerra nada parece escrito.
Retomo os exercícios de fixar as ruas e reaprender a me localizar.
Agora, sentada numa igreja de pedra, se fechar os olhos posso estar na de São José, no centro de Belo Horizonte, onde tantas vezes fui.
- Traz de volta o sentimento que me deste na infância. O amor pelos pássaros, pelo ar, pelo céu azul.
Não imploro aos santos uma sanidade. O sentimento beato não deveria ser encoberto.
- Quem nunca pediu a Deus a cura de uma indigestão?
- Rogai por nós.
Desligaram a música. Desço a rua até a Baixa para postar esta carta.
(Para Ronaldo)
13.6.07
Em pequena via meu pai cortar o calo com uma navalha.
Vazava em mim um sentimento de sangue.
(Temo os objetos cortantes)
Hoje, na Praça da Figueira, tive medo da vida.
Temi pelos antepassados. Temi por terem cruzado o Atlântico.
Talvez fosse apenas vontade de virar as costas.
Dizem muito adeus por aqui.
A metade que existe em mim, o medo, está no gesto de rasgar o calo em água quente e sal.
Dos livros que meu pai depositou na estante
Quixote, Werther, Dom Casmurro, Glaura.
Vazava em mim um sentimento de sangue.
(Temo os objetos cortantes)
Hoje, na Praça da Figueira, tive medo da vida.
Temi pelos antepassados. Temi por terem cruzado o Atlântico.
Talvez fosse apenas vontade de virar as costas.
Dizem muito adeus por aqui.
A metade que existe em mim, o medo, está no gesto de rasgar o calo em água quente e sal.
Dos livros que meu pai depositou na estante
Quixote, Werther, Dom Casmurro, Glaura.
7.6.07
Poema para Ronaldo
A orquestra acorda suavemente.
Por favor, grita o homem ao centro.
Faz uma pausa.
Quem está de pé no escuro? - diz o maestro.
Os dedos estão leves, a reger os instrumentos.
Homem inquieto.
Em minha mente faço versos menores. Tradução desse som.
Imagino palavra e música.
Procuro Samuel Beckett.
Girar Girar Girar
Diga as regras. Cairei em sono profundo.
Todos os poemas endereçados a você.
Por favor, grita o homem ao centro.
Faz uma pausa.
Quem está de pé no escuro? - diz o maestro.
Os dedos estão leves, a reger os instrumentos.
Homem inquieto.
Em minha mente faço versos menores. Tradução desse som.
Imagino palavra e música.
Procuro Samuel Beckett.
Girar Girar Girar
Diga as regras. Cairei em sono profundo.
Todos os poemas endereçados a você.
1.6.07
Pardon
As máscaras sorriem.
Não é tempo de sonhar.
Se pudesse escreveria compulsivamente.
Mas tudo vira metáfora imprópria.
Corvos no pátio.
Catedral sombria.
Paris
em qualquer museu.
Podemos ser mais perturbados.
Caminhar perdendo o jogo das pernas.
Loucos, portanto.
Não é tempo de sonhar.
Se pudesse escreveria compulsivamente.
Mas tudo vira metáfora imprópria.
Corvos no pátio.
Catedral sombria.
Paris
em qualquer museu.
Podemos ser mais perturbados.
Caminhar perdendo o jogo das pernas.
Loucos, portanto.
27.5.07
Meu pai me ensinou a ver mapas.
Essa estranha maneira de viajar me fez inventar os lugares.
Sempre imaginei na folha achatada como seria sua arquitetura.
Espaço entre os olhos.
Hoje, do alto de um castelo de Lisboa, vejo construções em labirinto.
Parece que sempre estive aqui.
Tudo soa melancólico e triste.
Essa estranha maneira de viajar me fez inventar os lugares.
Sempre imaginei na folha achatada como seria sua arquitetura.
Espaço entre os olhos.
Hoje, do alto de um castelo de Lisboa, vejo construções em labirinto.
Parece que sempre estive aqui.
Tudo soa melancólico e triste.
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