12.12.08

Sem teoria

Na sala de estar: uma cadeira, alguns livros, objetos de porcelana
A TV exibe imagens desgastadas
Não sei se padeço de algum mal
Porção de tempo

20.11.08

As horas que separam a noite da entrevista
O lugar mais confortável
A escrita?

14.11.08

[Ritornelo]

Começar com gestos repetitivos

Abrir mais de uma vez a porta antes de sair de casa

[ver se a chave do gás está virada,
se o ferro está desligado]

Abrir mais uma vez a casa

12.11.08

Pergunta não feita a Carlos Alberto Prates Correia

Em Cabaré Mineiro, após a canção enlevada pelo personagem anônimo de Nelson Dantas e a bela jovem, cena que nos encanta pela delicadeza do gesto amoroso, a onça-mulher é morta pelo personagem em seguida.
Medo ou amor de morte?

18.10.08

dos encontros não programados*

Morrer em Dionísio
Renascer em Pessoa
É de Bethânia o canto atravessado no amor

você está na noite
jamais pegará o telefone
e ligará para ela

mas não deixará de ler jornais

-----
*para kk, joão e rafa

17.10.08

dos desejos dos poetas

O poema, também uma espécie de traição?
Quantos escritos não postados
Em umas poucas palavras poderia lhe revelar o mundo
(amor)

sentimentos não se escondem numa gaveta
(falsa impressão)

Do portão ao quarto,
sete, oito lances de escada
Menino dos olhos
(floresta)

incapacidade do corpo:
magoar quem não mereça

5.10.08

Notas para uma biografia s/d

Jogaram suas valises no trem
Partiram pouco antes do galo cantar
Para o Rio de Janeiro
Nicolau e seu pai almoçam no vagão restaurante ao meio-dia em ponto
A passagem pela capital mineira será lembrada em encontros banais
Lufada nas pestanas
A comida sacolejando no estômago

4.10.08

Notas de Nicolau Paropas

seja paciente com os vaidosos
deixe que inflem o ego
permita-lhes dizer mais do que deveriam
que haja surdina!
conquistarás o mundo

28.9.08

O dia depois do dia

Amor mal curado se resolve na ressaca
No diálogo com o vaso sanitário,
percebe-se a potência do corpo
A tentativa desesperadora de retificar a merda de uma embriaguez

24.9.08

À maneira de Nicolau Paropas

Os poemas falam a dor, a desonra, a desforra
Também as cabrochas, o desespero, o amor
Um jovem, um tiro, três décadas atrás
No guión, propostas indecorosas
Durante semanas, o peso do tempo
Sorriso a derreter os dentes
Morte, engano

Sentados à mesa
– Prato de sopa, água, pão, azeite para regar

23.9.08

Tempo das chuvas

Recebeu a notícia deixando cair a caixa de miudezas
Decerto não entendia a língua
Apenas viu o sorriso indeciso nos lábios de Nicolau
e uma pequena mala no alpendre da casa
Nesse ano, os ipês tardaram a florescer
Sons a povoar os dias

13.9.08

παλίμψηστος

A escrita de Nicolau se mantém à maneira dos palimpsestos
Um vestígio foi encontrado à Rua dos Guajajaras
Na parede do edifício, palavras sobrepostas
Dentre elas riscar
(duas, três vezes ao dia)
O tempo se encarregou de lavar a segunda Isidora

5.9.08

Do jogo

O apego do artista com a obra é tão importante quanto uma partida de pif-paf.

3.9.08

Por volta de 1940*

Seria necessário consultar sistematicamente os arquivos
(como Nava)
Para encontrar a rua exata
Por onde transitou Nicolau Paropas

Dizem que em 1940 esteve em Belo Horizonte
Por causa de um seminário sobre prótese dentária
Na época, seu pai era um respeitado dentista e
francês

Caminhando pela rua
(cujos versos até hoje estariam impressos na calçada)
Nicolau viu Isidora
Nunca se falaram, tampouco se entreolharam
Apenas o poeta,
Com o ar ainda preso no peito,
Experimentou tamanha leveza

---------
* para eassis, para garro

31.8.08

Cosmogonia*

Primeiro foi a água
Dos seres que dela surgiram
Homens-peixe desejaram caminhar
Fez-se então uma terra vermelha

Diferentemente da que haviam experimentado no oceano,
Uma poeira ainda mais fina ofuscou-lhes a visão
Descobriram o vento
O calor a arder as têmporas
Aprenderam a tanger a terra com gotas de suor
Fizeram instrumentos

Descobriu-se que o céu já existia há anos
Mais tarde, sua infinita beleza
Inventaram o vinho
Por vezes a pequenez os apanhava completos
Majestosos no tempo
Fugidios, os poetas

Seus olhos
A floresta que veio depois

Da cicatriz escorria-se um líquido pegajoso
Surgiram ruas e avenidas
O barulho dos carros a atravessar-lhes a noite
Previram o desaparecimento da água
Mas não quiseram o retorno
Preferiram compor sinfonias

Ode às estrelas

------------------------------------------------
*para Bu Guanambis e Rafa Barros

28.8.08

Novamante*

Pequena imagem num selo
Um homem tocando piano - Liszt
(corta para)
Mulher segurando espelho

De Portinari a primeira
Novamante a segunda

-------------------------------
* para edu

18.8.08

Das dinâmicas do dia
















Descer o lixo
Conferir a caixa postal
Subir três lances de escada
Jogar as chaves sobre a mesa
Tomar um copo d’água
Ler um livro,
desligar-se deste mundo

A dona de casa apanha capítulos dispersos
Arthur, Herberto, Gabriel, Orides

17.8.08

Monte Alegre

Provavelmente
Na Grécia Antiga
As mulheres (tendo voz)
Clamando por seus filhos
Encheriam
de porrada
A boca recalcada dos fazedores de guerra

Sem dentes,
O poeta
Uma besta-quadrada

A guerra,
Invenção dos homens
para a multiplicação de filmes enlatados

Açoitar o inimigo
com palavras vulgares
Coisa do fascismo

10.8.08

Jonathan Mangabeira

Não compreendo seu sorriso
Ri para mim dizendo até logo
Nos pés o suor do asfalto

(becos, avenidas, BRs)

Nas mãos marcas esferográficas
Poderia caber o mundo em versos rimados
Escrever caminhando
Poeta
Vinte e quatro horas por dia

6.8.08

educação na pedra

um grito violento atrás da porta
o tiro que atravessou o jovem
atormenta gerações

aristocracia paidéia
em restos de livros
comidos por traças
a casa minando água
as pessoas dos retratos desaparecendo no tempo

um bife pra cinco,
no domingo refresco
aristocracia paidéia ou
o imaginário bufão

2.8.08

Da Torre Mais Alta*

Falemos na mocidade presa
Deprimida
Delicadeza perder a vida

Da alma
Não posso negar
Flores sobre a mesa vazia
Disse: – Acaba (devagar)
Promessas ao vento
O bem que seja
Aspiro
Retirante
Amor derradeiro

Ao menos pudesse sonhar
Diria palavras
Erguida aos céus
Sede estranha que ofusca a garganta

Que campos visitar?
Condenada
Duvidando do hálito amargo
Moscas selvagens
Na imagem que assola
Uma senhora, um grito
Quem rezaria Ave Maria?

Oprimida mocidade
A pureza, o encanto
Num estalar de dedos,
Que o tempo venha
– Arthur!
Sua poesia esfola viva


-------
*para Quel Junqueira, para Fred Sabino

13.7.08

para o tirano oswaldiano

ô caralho!
estou puta
que a sua poesia tá melhor que a minha

anacrônico é tu, cara de angu
pro caralho que te partiu

tenho que trabalhá

desemprego assola

papo intelectual conversa de botequim

volto já

se me tirar eu berro, falô, glauborô albino

amo
tão desesperadamente

não entendeu que não sou glauceste e sim glaucoma?

para o poeta anacrônico

o vaso sanitário é um elefante.

12.7.08

à ciel ouvert

ser celestial pousou em mim perfeito.
matanada-nativa. amor pelos pássaros, dislexia.
esta dor inexata,
abandono. não entendo.
arrogância.
circunlóquio.
anacronia maculada.
pro escambau o contemplativo.
prejudica a vida.
permissão para sonhar.
verdade quase-nada. queimapele.
fui ver onde-dá. "tempestê à ciel ouvert"
glauboró-aurá, glauceste, glaucoma.

21.6.08

Da impossibilidade de descrever as coisas
(um livro-poema para Rafael Barros)


O homem atravessa três ruas até o escritório
No percurso, avalia o tempo, compra um jornal, toma um café
Corre o olho pela vitrine:
meias, um casaco de lã, caixa de lenços
Ontem recebeu uma carta
Receita para amar
O destino de um poema

Umidade deixada pela chuva fez lembrar a casa da infância
A avó cozinhando mingau,
a mãe preparando a mesa do jantar
Corpo ardendo em febre
(água e açúcar)

Correr no tempo
A memória a trazer o gesto
Quis ver o rio, mas já era hora de levantar a porta
Atender ao chamado insistente do dia
Três ruas até o escritório

15.6.08

tradução e sonho*

sonhei
descoberto o segredo de llansol
a fase de um poema

to be

vi no traço,
não inventei o sonho

esquecendo-se do que foi visto
enrolou-se no pano

o traço

invenção de um parto
a mulher sangra mais de uma vez


* para carolina fenati

23.5.08

aparentemente sós*

dos pequenos gestos do cotidiano
lustrar os móveis da casa
deitar água nas plantas
fazer o almoço de domingo
convidar a família

uns restos de amor,
um livro, uma vela, um copo d’água



*para bernard

30.4.08

Tarde desperdiçada

Não quero lhe chatear
Uma prece aos ignorantes
Esta dor é temporária
O estômago está vazio, eu sei
Deixe a melancolia instalar de vez
Três livros para ler
Perdida em Tchaikovsky
Escrevo um poema
Você vai me reprimir porque tenho uma casa a varrer?

28.4.08

Seus olhos, ou da polifonia nesta manhã desconsolada*

Talvez fosse melhor não mencionar nada
Que o tempo se encarregue de dizer,
na experiência dos dias,
o apelo deste corpo

Um copo d’água, por favor
Não adianta negar
O espírito transita no tilintar das lágrimas
Alegria, gozo e dor

Nesta manhã de sábado,
a cabeça ainda zumbindo,
vejo sua asa partir no chão
Três movimentos ao redor do corpo

No sonho ainda se podia ouvir
instrumentos, vozes,
passantes a bater o pé no cimento
Corte seco

Um dia inteiro pela frente
Arrumar a casa
Postar o lixo, roupa no varal
Misturar arroz no feijão

Barulho que vem do asfalto
anuncia a partida e chegada dos carros
Crianças brincando no jardim
Esquartejam gafanhotos no meu cérebro

Cumprida a ordem
À tarde estarei na cama
Um romance que não acaba
Livros de poesia

No cair do dia,
talvez uma festa,
um jantar entre amigos
ou o sono dos justos

Escrever é menos complicado sob efeito do álcool
A palavra corta a folha
Navalha afiada
Os dedos sangrando

Nem clichê, nem rima
Sem lentes de aumento
Não há foco que resista
Espera a ressaca passar


-------------------------------------------------
*depois do Graveola, também para o Rafa

2.4.08

2.3.08

Nada como antes

As pernas saradas das mordidas de pulga
Costas arqueadas

Antes era normal
Voar em sonho
Deitar o azeite no pão
Vinho e jazz

16.2.08

Do mundo

Esfregar bobagens na cara
Da verdade que imprime o mundo

(ruir)

Discurso armado


– Foda-se! – disse um bêbado
e me bebeu inteira.

2.2.08

21.1.08

radiografado

















Foi quando o pássaro anunciou a sua descida
A manhã estava azul
Entendeu que era mais do que mera contemplação

7.1.08

Sonhar morbidez

Vez em quando posso lhe dizer palavras delicadas
Pedaços de algodão, água para lavar o corte
Comer o algodão
Sonhar que se morre sufocando
No desespero do quarto escuro a faca em punho
Palavras delicadas ao vento
nomeiam a loucura do outro

1.1.08

Caixa acústica

Numa caixa de plástico crescem animais estranhos
Metade pássaro e homem
Algumas linhas costuram a barriga em espiral
São postados algodão e açúcar
Um rio corre por dentro
Alguns peixes tentam fugir para a superfície
e sentem o ar cegá-los
Não podendo voltar, criam pernas
Tornam-se guardiões da água

O homem quer virar peixe alado
Não consegue
Seu corpo está ardendo

Da boca vemos brotar uma árvore
Flores explodem um líquido pegajoso
Os lábios se arrebentam

Palavras são como eletricidade
O som invade a caixa
as paredes tremem

(oxigênio)

A caixa é como uma estufa
Transforma seres eletrônicos em animais da terra

29.12.07

Da lembrança

Esqueci novamente de acender a luz
Deixei cair sobre a mesa batom e moedas
No canto esquerdo da sala há uma foto sua
Entre os bibelôs uma estampa
Meu pai dizia que a natureza do homem é suicida

Preparo para a festa
São duas horas da manhã
A geladeira está vazia

Nada é importante agora

28.12.07

No deserto do Arizona

Assistia ingenuamente a esta série e pensava nos dois cientistas condenados a vagar no tempo. "Quem iria querer enfrentar dinossauros e conflitos armados apenas para provar que a máquina não era mero desperdício ao Estado?"

(um jovem galã e um pensador maduro)

No deserto do Arizona estava escondida a maior de todas as invenções da vida moderna.
A lógica da aventura consistia em enfrentar o perigo, as paixões e o abandono, mas resta a dúvida sobre os procedimentos metodológicos dessa viagem.

Hoje compreendo melhor, apesar de não me recordar dos episódios – a não ser da antológica imagem espiralar que leva os dois personagens para passear no tempo. Tudo pelo entretenimento que contém a descoberta, ou o desejo impossível de sair ileso das tormentas e colapsos do mundo?
A máquina do tempo é uma homenagem ao cinema que se acreditava fazer na época
no deserto do Arizona.








(o túnel e o tempo)

27.12.07

Com Sinatra*

Ouço Sinatra cantar
Como é bom encerrar elegantemente esta temporada
e também triste
como um filme antigo

(Your fabulous face)

Cinco minutos mais, cinco minutos mais
para estar em seus braços
Apenas cinco minutos mais

(I see, I see)

Posso ver você
Lá do outro lado
Posso ser você
Onde o rosto toca o vento

Dançar com o corpo mole
no escuro

(I lost my heart)

Queria falar sobre coisas assim
Cantar assim

(Every time. You and I. Every time)

Nem chá, nem suco de tomate

(A cup of coffee, please)


----------------
*para a equipe

19.12.07

b. brecht

A fumaça (der rauch) mistura no vento uma cor delicada
Alguns pontos de luz a atravessam
Sorte o dia ter amanhecido claro
Nas árvores uma poeira fina
Ao entardecer esperamos chuva no lago



para João Lúcio

13.12.07

Pazes com o imaginário*

O tronco estava úmido
Entre as folhas das árvores restos de chuva
O nariz fica gelado nesta época do ano
Tenho apenas três páginas de anotações

(a saudade é algo para se beber)

Aceite um ramo

------------------------------------
*para Cinara Araújo

16.11.07

Elogio escondido numa gaveta*

Desisti do amor.
Seu sentimento grandioso,
sua celebração.

As coisas menores agora me são caras.
Em espírito febril
ergo o espelho,
deixo o vento tocar o rosto,
sinto-o inteiramente livre.

Rodar os pulsos,
torcer o corpo inteiro.
Olho seu sorriso no retrato que se apaga no tempo.


*para Eassis, para Carolina Junqueira

29.9.07

Insônia

Meu pai barrigudo louco sem dentes.
Sai pela madrugada gritando meus irmãos.
Vou atrás dele. Momentos antes pulava a linha do trem.
A cabeça está pesada.
O sonho escapa os loucos da casa.

12.9.07

Fim do cacimbo*

Cheiro de terra molhada.
Sangue espesso. Barro amontoado.

No alto daquele morro tem um Baobá, sim sinhô.
Os galhos tocam o céu.
De maio a agosto, floresce uma única noite.

De lá, do alto daquele morro,
o mar pode ser visto.

Agora é setembro. Não recomendo.
Terra vermelha, terra molhada.


*para Nazareth Fonseca, para Zetho Gonçalves

5.9.07

Umbigada

O umbigo é um poço
Não tocar nele
Inocente achar que se fala a verdade
Não se transfere o poço
Não se transfere dor

Amar com a pele inflamada

14.8.07

Vento do mar

A noite caiu
Estava com a xícara de chá na mão
Sobre a mesa uns restos de pão
Em tempo de guerra não se arrisca desperdiçar nada
Morreu do efeito do gás

30.7.07

Lições para amar

Estou a cair, a cair, a cair
Do cineasta que mais inspira a poetisa
Os silêncios, os dramas, os fantasmas
A casa de Bergman

Um relógio sem ponteiros, uma cama, um lençol branco
Seu sopro: - Ágnes...

26.7.07

D'este seu pequeno canto de Luanda*

Vento de terra vermelha,
poeira fina que cobre os carros
O sol que cai no mar coagula imensa bola de fogo

Musseques a perder de vista,
ruas por asfaltar,
crianças agarradas às costas

(amor)

Pensar em Luanda
seus mercados, seus ritmos, suas falas

Máquinas de costura reta,
pernas de furar tecido,
língua no céu da boca

Amiga, amiga, amiga...
Pano bonito, estampa de elefante, olha amiga


(para John, Forrest, Marília, e Mário)

*frase extraída de mensagem enviada por John

20.7.07

Entre as montanhas

Da cama pode-se ver o horizonte.
O céu impondo uma cor turva.
No colchão uma pata de urso mole.

O que mais choca é a estupidez.

No fundo da bacia um rio e uma neblina.
Um filme passando na TV.

5.7.07

O flautista mágico

A ponta dos dedos corrói a pedra.
Se nasce uma flor espremida entre a pedra e os dedos
dizem que somos poetas vulgares.
Enquanto a água corre no corpo, e a flor teima em nascer,
o corpo quebra pedras no momento inoportuno.

Naus

Sou um náufrago
tocado pelo ronco do mar.
- Meu amor me espera.

Enamorado de você,
o vento carrega meu espírito.
Se não sou eu a dizer palavras,
a pele queima.

Beijar, beijar, beijar

Num instante sinto frio.
Procuro um canto.
O olhar tenta colher seu sorriso.

Pouso as mãos no assoalho,
toco as irregularidades da madeira.
- Meu amor me espera.

(para Bardo)

25.6.07

De amigos etnográficos

Acabo de chegar em Sintra.
O destino é a Praia das Maçãs.
Ver o litoral.

A cidade é charmosa
onde deveria ter hospedado uns dias.

Tiro impressões de uma tarde.
Sozinha.

Lembrar das pessoas queridas, tarefa do poeta?

O silêncio é mesmo o lugar da escrita.
Corro o risco da metáfora.
Não tenho pressa. Digo devagar.

- A visão é sempre um corte cinematográfico.

(Para Oswaldo)

23.6.07

Joaquim

Estivesse em Belo Horizonte iria beijar a mulher e cumprimentar o homem mais lindo do mundo, o marido.
Ela sabe que é verdade. Não preciso rodear a carne e fingir que não vejo.
Todos concordam, inclusive o meu.

19.6.07

De anjos e pássaros

Deixei de escrever há um tempo para dar lugar às notas práticas.
Onde seguir, que rua é melhor pegar, onde ir.
Mudei de casa em Lisboa, mas já estive em mais três e dois hotéis nesta estada Luanda-Dundo-Lisboa-Porto-Vila Real-Paris.
Durante um tempo tive vontade de estar em casa, por uma noite apenas, colocar os pés em água quente e sal.
Beijar Ronaldo. E voltar.
Agora aproveito os últimos dias na cidade de Pessoa e possível visita a Évora e Sintra, lugares que não poderia deixar de conhecer por estarem tão perto. A Praia das Maçãs fica em Sintra e a curiosidade é imensa.
Comprei as cartas de guerra de Lobo Antunes e senti o amor de um jovem casal. Um esforço para se manter vivo.
Na guerra nada parece escrito.

Retomo os exercícios de fixar as ruas e reaprender a me localizar.
Agora, sentada numa igreja de pedra, se fechar os olhos posso estar na de São José, no centro de Belo Horizonte, onde tantas vezes fui.
- Traz de volta o sentimento que me deste na infância. O amor pelos pássaros, pelo ar, pelo céu azul.
Não imploro aos santos uma sanidade. O sentimento beato não deveria ser encoberto.
- Quem nunca pediu a Deus a cura de uma indigestão?
- Rogai por nós.
Desligaram a música. Desço a rua até a Baixa para postar esta carta.


(Para Ronaldo)

13.6.07

Em pequena via meu pai cortar o calo com uma navalha.
Vazava em mim um sentimento de sangue.
(Temo os objetos cortantes)

Hoje, na Praça da Figueira, tive medo da vida.
Temi pelos antepassados. Temi por terem cruzado o Atlântico.
Talvez fosse apenas vontade de virar as costas.
Dizem muito adeus por aqui.

A metade que existe em mim, o medo, está no gesto de rasgar o calo em água quente e sal.
Dos livros que meu pai depositou na estante
Quixote, Werther, Dom Casmurro, Glaura.

7.6.07

Poema para Ronaldo

A orquestra acorda suavemente.
Por favor, grita o homem ao centro.
Faz uma pausa.
Quem está de pé no escuro? - diz o maestro.
Os dedos estão leves, a reger os instrumentos.
Homem inquieto.
Em minha mente faço versos menores. Tradução desse som.
Imagino palavra e música.
Procuro Samuel Beckett.

Girar Girar Girar
Diga as regras. Cairei em sono profundo.
Todos os poemas endereçados a você.

1.6.07

Pardon

As máscaras sorriem.
Não é tempo de sonhar.

Se pudesse escreveria compulsivamente.
Mas tudo vira metáfora imprópria.

Corvos no pátio.
Catedral sombria.

Paris
em qualquer museu.

Podemos ser mais perturbados.
Caminhar perdendo o jogo das pernas.
Loucos, portanto.

27.5.07

Meu pai me ensinou a ver mapas.
Essa estranha maneira de viajar me fez inventar os lugares.
Sempre imaginei na folha achatada como seria sua arquitetura.
Espaço entre os olhos.
Hoje, do alto de um castelo de Lisboa, vejo construções em labirinto.
Parece que sempre estive aqui.
Tudo soa melancólico e triste.

26.4.07

Rumo ao Norte

Não, não se pode ser covarde com os dedos.
A impaciência ilude o cara.
Estou em Omaha, Saint Louis, Memphis.
Amanhã, no porto, farei versos melhores.
Missouri, Ohio, Mississippi.

- Ao encontrar Dora pedirei desculpas.
Cantarei um ritmo incomum.
Trarei para perto do meu ombro uma mulher sorrindo.

(dos Cadernos de Jazz)

19.4.07

Hibisco

Esta flor marca bem a infância.
O jardim da capela, a frente da casa,
a brincadeira da rainha com sua coroa e saia rodada.
Várias flores marcam a infância.
Pequenas bailarinas, anjos, borboletas,
mas são flores.


16.4.07

Em 1915

Procurei dados sobre Nicolau Paropas.
Pouco se sabe de Nicolau.

(que gostava de café e cigarros
que era poeta
que não disse para onde iria)

Poema sobre a moça inclinada.
Toque delicado de vento na árvore.
Ela sonhava Isidora.

12.4.07

Extracampo*

(O pulso esquerdo dói um pouco.
Não consigo carregar o pires com uma das mãos
e levantar a xícara elegantemente com a outra.)

Não consigo.
Estou cansada.

Trocando palavras.
- Rubricas.
Procurando imagens.
- Contas a pagar.

No canto do armário,
a foto de um falecido,
as primeiras ilustrações,
um argumento.

- Arquivo

(Se girar, queimo a pele.)


*para Sil e Bu/ Ana e Beto.

7.4.07

Clareira

Vejo uma usina sair de dentro da montanha.
Cilindros tocam o céu
e uma fumaça cinza dissolve a atmosfera.
Vejo uma casa verde e uma estufa.
Animais passeando pelo capim.
Um filete de água, roupas no varal.
É dia, e não vejo árvores.

2.4.07

A dor do poeta

Se perguntar ao poeta,
ele dirá que não sabe como se arranca uma dor.
Eu, que não sou poeta,
também não sei arrancar com as mãos a dor.
Queria ouvir uma música suave,
apenas isso,
mas os ouvidos estão tampados.
Se há música, se há tom suave,
ele passará pelas frestas da janela e tocará o rosto.
Acariciará a pele,
talvez amanhã, talvez sempre.

(para Júnia)

22.3.07

De jovens e reacionários

– Jovens e já andam velhos.
(Diz a quinta página do romance a ser lido)
O peito inflado.
Angustiadas esperanças sobre verdade alguma.

O poeta
(nada mais o impede)
espia da janela,
sente fisgar a face.

Trava a respiração.
– Sou eu, sou você falando asneiras?
Fora do estômago, o jantar de ontem
coalhando na pia.
O ar está excessivamente puro nesta manhã.
Os pulmões se arrebentam em folhos.
E a vizinha dos gatos amarga na área de serviço.

Diga alto, por favor,
ninguém dorme na casa.

17.3.07

Mesa posta

A faca atravessa o bife dividindo-o em quatro.
Assim, servia o jantar.
Naquela noite, um tio ainda bateria à porta.

(para minha mãe)

12.3.07

Novembro, 1935

Rasgar os dedos ao escrever.
Bela metáfora nos olhos dos outros,
já não dizia o ditado?
Geração triste sem memória.

8.3.07

Poesia dentro*

De quando a máquina de filmar não é remédio.
Como é bom, numa tarde como esta, deitar a cabeça em fronha limpa.
Longe do sol quente, longe do barulho de buzinas e motores.
Cada vez mais creio que tudo, praticamente tudo, pode virar poesia
quando se tem o peito a arder em febre,
quando o nó, apenas o nó na garganta impede o ar,
quando não o pulso, mas o estômago está cortado,
quando os olhos estão fechados
e a tela escura é apenas passagem cinematográfica.
No sonho, tudo vira poema.

(na ponta dos dedos toca-se o mundo)

*para Ana C., Júnia T., M. Lúcia, Claudete

5.3.07

O exercício contínuo

Estar sentado à mesa. Tomar café morno para que as pálpebras levantem.
Banho quente. Roupas de ontem.
Buscar na janela a razão do dia.
Pousar a caneta sobre o cheque.

- Toma.

Quando a poesia se equilibrar,
nesse clima úmido, a trama se instala de vez.

25.2.07

Tableau

Quando Rubia se deita, pende a cabeça no lado esquerdo do colchão.
Não vê luzes piscarem na placa do hotel.
O homem está de pé, espreitando a rua entre as tabuinhas da persiana.
A noite acabou.
Olha para ela e vê um anjo dormindo.
Amanhã partem para outra cidade.

A voz está cansada.

homem

16.2.07

Da máquina de fitar

Aprendi (bem ou mal) duas coisas a respeito da literatura:
não confiar na voz do narrador, duas vezes menos na voz do autor.
Discordância e ambiguidade valorizam o diálogo?
A intriga parece ser mais sutil que isso.

"Desculpar-se é ato generoso". A voz de um dos clássicos.
"Se lhe pedir desculpas, ainda assim continuarei a mentir". A mulher que chega no balcão.
"Pedindo desculpas não serei mais o que pareço. Passemos a régua. Estou cansado". Um poeta moderno.
(Ele pede uma xícara de café.
Tem os olhos fixos e tristes.
Já não consegue ver generosidade em nada,
mas se encanta com a jovem que passa.
Ela não o repara.
Anda meio sem jeito.
Tem os dedos firmes na carteira.
Pede fósforos)

Evito anotações.
Não há nada demais,
apenas um gato arranhando o vidro da janela.
Do quarto, poderia escrever até os dedos sangrarem.
Ainda ouço a voz da mulher solfejando.
Ela era como um anjo.

(um romance por fazer, rascunhos - 2004)

7.2.07

As coisas ardem.
Como numa guerra. Como no amor?
Ainda podemos ler a inscrição no que ficou da máquina de cozinhar.
Forte demais para os olhos.
Tenho taquicardia.

(para carol e ribs)

3.2.07

Criptologia sobre um mapa em papel cartão

Quando eu tinha 9 anos, meus irmãos jogavam war na sala de jantar. Por ser menina e muito criança ainda, podia apenas ficar sentada vendo-os jogar.
"- Digamos que você seja do serviço de inteligência. Poderá ser consultada a qualquer momento".
Lá, no lugar que ocupava, sem saber ao certo qual dos grupos ajudaria, se um, se todos, percebia pastilhas, aviões e navios avançando territórios. Os exércitos se uniam e tomavam as regiões com estratégias absurdas. Garotos de 14 e 15 anos tinham nas mãos o mundo. Fixar os olhos no mapa colorido de rosa, amarelo e verde, tarefa difícil.
O "inimigo" espuma a boca e arrasa dois continentes inteiros.
É o fim. Não é o fim, por enquanto.
Hoje, lendo o cinema menor, pensei: daqui alguns anos, na falta de água doce, seria capaz dois inimigos de agora se tornarem "amigos" para invadirem territórios juntos?
Observando o war, sabia que não dava para confiar em nenhum dos grupos. Burlavam as regras para que o jogo se tornasse mais emocionante. Além de a inteligência estar constantemente ameaçada.
Sobre a voz com sotaque britânico na rádio iraquiana, a menina de 9 anos diria: "parece mensagem cifrada. Além do endereçado, apenas uma equipe poderia decifrá-la".

28.1.07

Velho Oeste






A tela não é das maiores.
Tenho uma TV de carvoaria.
A imagem atrita um momento,
Robert Redford e Paul Newman.







Velho Oeste,
se olho, não posso tocar.

27.1.07










Tem a lembrança de uma ida à casa da tia Milá.
Da janela do ônibus uma menina vê o penhasco:
- "Olha mãe! Se a gente cair lá embaixo morre na horinha!"
Então é assim?


(o gato da vizinha não pára de me fitar)

19.1.07

Bom Jardim

tem a história de um cavalo, cego de um olho, que ganhou competição.
tem a história de um menino que se perdia nos bairros de Curvelo. que fazia todos rirem.
tem a história de um outro menino, tão bom, tão doce, que me emociono ao lembrar de sua leveza.
tem a história de uma menina e sua roupa de quadrilha com gigantescas frutas bordadas ao invés das tradicionais flores. a mãe sempre inovava.
tem a história de um casal, tão unido, tão alegre.
(tudo registrado em fotografias)

um sussurro, uma lembrança.

(para Pedrães)

9.1.07

cidade

pessoas caminham em diagonal.
(depois que todas passarem)
ainda estarei sentada
num bar, num café, num ponto de ônibus.
uma caneta, por favor.
nesta noite,
chá quente e uma canção.

(para nica e beto)

4.1.07

Moro numa vila de pescadores. Há dias o céu insiste nublado.
O mar está tranquilo apesar da correnteza.
As pedras sentem o peso da água.
(se fechar os olhos, lembrará dos parentes mortos)
Não há tristeza nos olhos. Apenas o tempo.

Quando o vir, direi palavras desnecessárias.
Distante de você, escrevo melhor o que não sinto.


(Paraty, dezembro de 2006)

25.12.06

quando vejo os pinheiros
altos e assustadores,
penso no jovem Winllink
poeta que, a respeito do amor,
disse ter encontrado
(no extremo norte)
uma flor de vidro.

19.12.06

Encontrar com Angola cria uma certa confusão
(difícil explicar)

É cedo para esquecer seu dilaceramento.
Canto que invade os cômodos da casa.
O português continuará sendo o colonizador?

Olhos condensam passado e presente.
(difícil dizer)
Tudo acaba incerto.

17.12.06










a história é velha.
um amor não correspondido,
uma amizade.
basta fechar os olhos,
para o amor passar.
diria minha mãe, com os olhos fixos no tricô.

10.12.06

com o amor

não se deve comportar
como um caminhão desgovernado.
agir com os sentidos,
também pensar, sorrir.
desconfie sempre da poesia.
o cotidiano é mais duro do que a bela escrita.

(da caderneta de uma mulher velha)
Enquanto o sono não vem.
Não fosse o headphone enlouquecia.
Mais do que insônia, entende?
Talvez soe mais forte que isso.

3.12.06
















se o vejo entre as pessoas,
o espero mais ainda,
meu amor.
sem você sou ar sem vento.
e sem vento,
a noite não pode me tocar.

2.12.06

de encontros e de mensagens

















num simples gesto de apertar a tecla do telefone móvel,
assim como se abre uma caixa de correspondências,
além das urgências do dia:
um sorriso, uma flor.

pousar os braços sobre o corpo
deixar que a noite entre no quarto
sentir o tempo tocar o rosto

antes que me torne sonho,
ainda percebo:
pessoas na calçada, a chuva que cai inteira, o gato a arranhar o vidro.


(para carolina, ana c. e pat)

19.11.06

da leitura de "negro el diez" - cortázar

A estrela

Nasce a claridade.
As cores se espalham.
Mas a dor se abriga inteira.
Toda a luz se abisma.

(simples)

Derramar lírios.
Palavras, silêncio.


(para o ronaldo)

15.11.06

Plano de uma mulher deitando a imagem

Se esta não é umas das cenas que mais arrebata a poetisa,
pelo menos é a que mais imprime nela o sonho



















sair sem destino.
sair.

à sua frente,
um carro que filma.


(para cacá maia)