14.7.10

do tempo que se espera um canto

                                                      para Luiz Gabriel

O tempo mais sincero é o da infância
Depois nos debatemos
Tentando encontrar as palavras que julgamos certas
Cansei de esperar...
Se são palavras, apenas palavras,
Como haveremos de lhes dar sentimento?
Sua voz vem chegando sobre mim
Atravessada por seu canto
Você me faz sentir as primeiras horas desta manhã
Como ontem e anteontem 



13.7.10

sou ave de rapina
perdida em mim mesma
procurando o sabor da carne
nas palavras e nos sentimentos do mundo
escrevo tão rapidamente
posso sentir os dedos sangrarem


é dor
 

penso todas as noites
no dia em que nos tornaremos
fotografias deixadas sobre a mesa 

penso na verdade do mundo
no que agora me tornei

imagem

para meu pai

10.7.10

um poema por uma imagem

Quando ele chega
Vem de mansinho dar um beijo
A mão tocando a pele
O sorriso se desmanchando no rosto
Esta é a história que se quer contar
Dos corpos que se encontram na noite
E caminham sem pressa  
Rumo ao infinito 


















foto: Ana Carvalho


9.7.10

Perguntar pela razão das coisas não conduz ao imediato encontro da resposta.

Jean Rouch

 

 

 

5.7.10

as chaves entregues
o encontro onde tudo começou
no fim da noite
eu me vejo condenada à solidão
à melancolia pontuando o poema
à saudade de um tempo bom

está tudo tão triste agora
o futuro que nos guarde para sempre

29.6.10

O silêncio em Beckett

Sentirei a intensidade do vento à sua porta
Aguardarei o sol
Esperarei por toda a eternidade
Movida pelas paixões
A minha força segue em direção ao infinito
                                                                                                                      
Adentrarei nele
Inteiramente
Sentirei as primeiras horas da manhã
Torcerei o pulso, tocarei com os dedos a face
                               Beckett me acompanha

Meu impulso é sair pelo mundo
À procura do seu corpo
Em mim habita um sentimento fecundo
Mergulhado na noite
Encontrando o vazio
A lua desaparecendo atrás da montanha
O dia trazendo mais uma vez a luz que incidirá sobre os lençóis 

Tive uma revelação quando pequena
Repeti insistentemente o meu nome
Gritei abafado
Até que se tornasse apenas o eco de um nome
                                                                              Aura
Descobri que o primeiro não me pertencia
O pavor tomou conta de mim
E vi perder no tempo a inocência 

Passei a prever o futuro
Suspeitei da realidade
Sei o que é quente
o que é frio
o que corta

No mais, vejo e sinto tudo como num sonho
Tenho medo de acordar e deixar de acreditar na vida
Já sabe e tem a minha alma
O quarto preparado para os dois 


para os amantes

28.6.10

Words and Music

By passion we are to understand a movement of the mind
pursuing
or fleeing
real or imagined pleasure or pain


S. Beckett


27.6.10

a propósito de três

um vai pra irlanda
o outro se tornando alcoólatra crônico
(criando uma barriga igualmente crônica que não errará mais pela cidade)
o que será desta aqui com o trio repartido?
abandonarei a pretensão de teórica, pelo menos por um tempo
mas não a de poeta

vou ver um jardim

24.6.10

Tenho lido Álvaro de Campos
Tudo muito terno e triste
Se tudo continuar assim
Eu me interno no exílio de vez

23.6.10


três coisas me maltratam
o tédio
a inapetência
e a burrice

20.6.10

parênteses

O que me atormenta é o fato de algo tão simples não vir à tona
Passo os dias em frente a um texto que não acredito
Uma forma de dizer que não domino
O tédio invade meu ser
Tenho fadiga
Meu peito está ferido
O projeto de uma tese é a pior coisa que se pode desejar para um poeta
Mesmo assim não vou pular do quarto andar

11.6.10

Ele respira devagar
Beija como se fosse o ar
Não revela os sentimentos

Ela tem uma dor
A imagem de um corpo jovem
Arrastado e jogado no vazio

Não permite que ele adentre
Ou descubra
O segredo de sua alma

Deseja simplesmente as manhãs ensolaradas
E o perfume dos corpos nus

Mantém-se calma e bela
Quem sabe a claridade possa entrar por uma pequena fresta


7.6.10

Nunca quis um poema altamente biográfico
Mas às vezes a escrita trai, como o pensamento
A imagem da nossa história é a de um almoço na relva
Solene, amigo

Meu querido, perdoa este corpo que cai doente
Preciso ganhar o mundo
Antes que este mundo me devore

Os poemas procuram agora o sabor da carne nos dentes
Seu nome resguardo
E guardo para sempre

8.5.10

ARQUIVO

Das imagens do nosso tempo
Uma flor, um rio, um caminho


Ele, o cineasta, inspirou meus dias
Como quando olhamos para o céu
A fim de cegar do azul
Não era para estarmos acordados?

O anjo disse uma vez
Que nos guardaria a todos,
Que nos guardaria de nós mesmos
Para toda a eternidade

Que venham então
As árvores
Os pássaros
O vento
Imprimindo nossas manhãs com a palavra
Amor

Tantos quantos forem os dias
Melhor para a arte que pretendemos
Melhor ainda o sono (que não nos falte)
E com ele as imagens
Lembraremos de tudo ao acordar?

ARQUIVO
(para Ana Carvalho – do aniversário de Janeiro)

1.5.10

o vinho é o elixir da verdade
disse o poeta uma vez
mais vinho para celebrar o poema!
que nasce de dentro dos porões da mente
eis que embriagados rimos felizes
eis que uma lágrima corre melancólica
sobre a face

25.4.10

A insônia tomou conta de mim
Ouço o barulho da casa
A respiração do vento
Você vem e me diz para eu dormir
Prefiro sentir o hálito frio
Das primeiras horas da manhã

11.4.10

EMILY DICKINSON*

Estou no exílio, eu sei
Cada dia abro um livro diferente
Apostei que deles sairiam alguns versos
Não meus, nem seus
Ao mesmo tempo tão meus e seus
É que… alguma coisa
Por entre os dedos escapa

Escolhi quem deveria receber
A primeira leitura desta manhã
Encobrindo, no entanto, seu nome
Das vozes alheias

Há quem procure opulência, acúmulo de metáforas
Há quem queira apenas uma mesa farta
E livros na estante

Se o meu Riacho é fluente
Há de secar –
Se o meu Riacho é silente
Ele é o Mar –

Que cresce. Em meu espanto
Tento escapar
Para um (dizem que existe) Canto
Onde “não há Mar” –


*para Nica, Quel e também Mará, pela tarde de sábado
pelo amor e amizade

17.2.10

Carnaval que não foi

O carnaval que não foi
Deixou saudades
Mas a vida vai seguindo
Ao sabor da carne nos dentes

Gosto de cerveja
Nesta quarta-feira de cinzas
Na mesa, uma toalha bordada
Um prato de bacalhau

4.12.09

Forma e conteúdo

Em meio aos cacos
Daquilo que restou de quatro anos
A casa perde seu brilho
A embriaguez dos dias, o gosto pela escrita
Foi numa tarde em que a tinta ainda cheirava fresca
Que pude ver um céu azul-azul
Embora comprometido pelos prédios
Vislumbrando o frescor de cada manhã e alguns versos
Sapatos a recortar o piso em noites de festa
Muitos risos e também choro
Hoje, tropeçando nas caixas,
Vejo a vida se resumir a rótulos de frutas, vinhos, enlatados e brinquedos...
A caneta indica o conteúdo,
Numa catalogação imediata
Tudo no mesmo, na mesma caixa?
As verdades do mundo reduzidas a um espaço mínimo
Subdivididas em livros e bolsas, livros e casacos, livros e retratos, livros e músicas, livros e filmes, livros e bibelôs
Parte deste cotidiano improvisado
A janela ficando entre as árvores
Eu a imaginar árvores
Sensação estranha de poder ir para qualquer lugar
Os versos vão deixando a casa em busca de outros
Para além de uma goteira infinita no centro da sala

14.11.09

O tempo há

Sei que parece impreciso
Ao invés de um beijo, um sorriso
Mas se em você posto esperança
Em mim também não digo
Impedidos de amar
Esse amor que vai distante...
E se encontra num sonho

8.11.09

Dos lugares que permanecem*

Gosto do tom azul do quarto
Da cozinha vermelha
E da sala escura
As ruas que me deram palavras
São apenas ruas
Se tornando minhas, enquanto caminho
Os adornos das casas deixados para trás como entulhos
Entristece a vista

Os olhos se voltam para o oeste agora
Um centro comercial,
Muitas placas que não exibem o mesmo charme luminoso dos filmes noir
Aos poucos aprendemos a andar sob um sol impetuoso,
Sem árvores, nem pássaros
Nem flor, tão breve,
Ou só flor, simplesmente...
A serra se tornando memória
Lá, um chão de mosaico para refrescar os pés em dias de calor intenso

-----------

*para Ronaldo

19.10.09

no meio da confusão
dos dias sem fim
eis que me vem um canto
uma deliciosa surpresa

das saudades...
nem me fala!


quanto à glaura (a dos poetas)
tem nome de flor que não existe

16.10.09

Mulher de sombrinha na esquina
Neste fim do dia
Aguardando a chuva que ainda cai tímida
Fui buscar a câmera
Porém, o quadro já não era o mesmo
O que restou da imagem
O verde da cor

19.9.09

Sobre a impostura

Li Decamerão aos treze anos de idade, longe do olhar corretivo dos pais. Aos domingos ia à igreja cumprir com os postulados de uma educação católica. Meu pai, um louco indomável, minha mãe, uma mulher sóbria. Embora a vida precária, nunca nos faltou livros na estante. O rearranjo não seguia um rigor bibliográfico, visto que nunca pertencemos à aristocracia. Boccaccio ficava ao lado de Goeth, Flaubert, Baudelaire, Hesse, Miller, Melville, Eça. Já os clássicos da literatura brasileira ficavam numa prateleira acima: Assis, Ramos, Rosa, Nava, dentre outros tantos cuja lista soaria pedante. Não me recordo de haver escritoras, que só me chegariam mais tarde: Hilst, Telles, Lispector , Duras, Wolf. Talvez por isso tenha desenvolvido um humor ácido. Depois descobri por conta própria uma série de outros autores e autoras que atravessariam o meu corpo e a minha alma a tal ponto que, se não menciono, é para não revelar gratuitamente referências tão caras.

Durante as homilias pensava em Decamerão e me perguntava se as coisas de Deus poderiam ser assim tão chatas. Depois verificaria que se tratava de um problema de tradução e que Deus resguardava sua glória também na impostura. Talvez tocasse mesmo bateria num grupo de jazz, como alegou o Lobo.

Para uma filha de Deus que conviveu com bêbados e loucos somente a impostura recuperaria a redenção diante de um mundo tão avarento.

Já não me recordo da estrutura decamerônica. À capa do livro falta um pedaço. Penso se posso descrever com precisão ou se apenas invento repetidas vezes, na parede branca, a famosa passagem em que os jovens se sentam para contar e escutar histórias. A pintura me pareceu mais objetiva. Também me recordo vagamente das homilias. Estas me retornam em sonho. Como a passagem de Maria Madalena que nunca me saiu da cabeça.

O que avassala é a culpa que a fé cristã nos faz carregar. Mais avassalador ainda quando lidamos com pessoas desprovidas de fé. Não que devamos ter fé em algo divino, muito menos no homem, este ser tão tortuoso. Porém se torna fácil, não tendo fé, impingir regras, imprimir dogmas particulares e uma culpa semelhante à imagem do filho de Deus na cruz. Fácil distorcer um apelo. Ou detratar como loucura. É preciso ler as palavras que nos chegam sinceras.

Temendo pela reputação, alguns mantêm a vida como uma grande plantação de tomates. Aquilo que não serve, deitam fora.

Chegarão a artistas?

Já os escritores, sendo mentirosos, são mesmo uns loucos, uns malditos, proferindo aquilo que os atormenta.

Mais vale um sorriso. Nada em troca.

Acúmulo demasiado de energia e verdades

quando muito

deveríamos estar vendo as estrelas deitados no quintal.

8.9.09

tarde com o vento

pensar, pensar, pensar...
fazer, fazer, fazer...


palavras ditas a ela
ela seguindo seu destino
que bom nos encontrarmos novamente
numa noite de domingo

adoro ler-te

o tempo se aproximando dela
queria ter estado com você mais uma vez
acarinhando a face
as folhas caíam das árvores com o vento

há muito não lhe dedico um poema,
mas o farei em tempo
se aqui já não é,
será com o quebrar das linhas


para carolina junqueira

7.9.09

sob a imensidão da noite*

Encanta-me caminhar pelas ruas do bairro
Ver os adornos desencontrados das casas
Os portões perdendo a tinta
Sentir a luz do poente
Tingindo de vermelho o topo da montanha

Certos de que estamos envelhecendo
Mergulhados na imensidão da noite
Deitamos café na xícara
Observando as primeiras constelações

Descobrir-se na noite
Na insônia pessoana
Nos versos que agora devoramos
Por onde andou que não me viu em sonho?

Seu olhar, seu silêncio
Imagens que correspondem a este cotidiano
Enquanto a janela recebe a primeira luz da manhã
O corpo ainda insone
Vasculha o que restou

Na mesa onde tomou nota
Repousa uma flor

----
*para o encantador (E.E.)

28.8.09

Tempo de embriaguez

Olha a voz que me resta, minha alegria
O coração
Um pote até aqui de mágoa
A gota que falta, meu coração,
Não

10.8.09

Uísque

quantos copos eu ainda hei-de beber?
se caminho assim desgovernada
e a você posto versos de outrora
ah! quanta lida
quanto amor pelos livros que ora devoro

descubro tardiamente fragmentos de um passado inconfesso
o tempo desperdiçando as horas
queria dizer, mas não tenho boca
meus olhos aguardam os seus
o dia a clarear os lençóis
a você trago uma rosa

6.8.09

El paseo*

A esta altura
a vagar pela cidade
Sem nenhum entendimento
Não dando conta do valor que aos poucos se agrega à vida
Sem saber se o dinheiro chega ao fim do mês
Sem compreender de fato os procedimentos teóricos que me cercam
Achando tudo um grande engodo
Forçando para que faça algum sentido

Ao passo
Tortura a escrita
Por não ter algo que valha tanto a pena

Enquanto aqui caminho
Dispersando palavras
E a ti vejo longe, como uma pintura antiga
A parede do meu quarto perdendo o tom azul
Os sonhos de outrora
Uma estante sem graça
E uns restos de poemas mal passados a limpo

Cortázar caminha por Paris
Olha Paris
Erraticamente descobre fragmentos
Corpos que passeiam,
A música que se faz ouvir,
O sorriso da bela jovem no café de Montparnasse

Eu aqui neste meu horizonte limitado
Ah! Cortázar
Entre as montanhas a me sufocar os versos
O vinho a descer goela abaixo
A ouvir Coltrane

-----
* para meu editor

25.5.09

Hilda*

Que seja alcoólatra e desbocada como HH
Mas que não falte a beleza
Dos amantes...
Ah! Como soube, com o mais puro gesto
Versos impagáveis

Que dela herde a escrita eloqüente
A pura lucidez e franqueza

Merda!

Depois o gozo

Desapontá-la talvez
Chamaste de parnasianas as poetisas
Então, infeliz da personagem inventada?
Acreditar no amor, nos pássaros, no vento
Melhor para a poesia destes tempos


---------------
*para Viola

17.5.09

regozijo

No corpo a inscrição do nome
A faca a atravessar a carne
Em estado febril não se distingue sonho de realidade
O suor a molhar os lençóis

4.5.09

ao ler Michel Foucault

O que me conecta ao amolador de facas?
Seu chamado ritmado
Som a cortar o ar
O código a ser decifrado
O fato de ter facas?

Fou-cault

12.4.09

Uma canção para José Luis Braga*

O seu canto é tão bonito
que a manhã chegou
com o sol na minha janela

O seu canto é tão bonito
que o vento trouxe
o amor, então, não se acabou

O seu canto é tão bonito
que a hora chegou
e é hora de levantar

O seu canto é tão bonito
que atravessou o dia
e já é noite pra descansar

Seu olhar é tão bonito
que encanta meus sonhos
E sonho mais uma vez com sua voz

A tocar os dias
toda manhã

é de manhã
...

--------

* José Luis Braga é integrante do grupo graveola e o lixo polifônico – música que inspira o cotidiano da poetisa. Esta canção ou poema é um presente de aniversário para o Zélu.

28.3.09

António Reis e Margarida Cordeiro*

A poesia que imprime o cotidiano
se faz carne
Não lubrificar as dobradiças
Primeira regra do poeta

A tábua a ranger
emite um som familiar
Janelas a bater com o vento
Passos em volta

Casas velhas, empoeiradas,
o mofo a corroer os lençóis
Poeira fina cobrindo a cômoda

A esta hora da noite
nem querosene, nem velas

Separa as partes rente ao osso
Pão, vinho, e um pouco de mel
No preparo do jantar

-------------
* Para Ribão, para Nica, por uma proposta cinematográfica

23.3.09

Quantos poemas endereçados a você haverei de escrever
E nunca se dará conta disso
A não ser que alguém o diga
E eu negue eternamente

16.3.09

Lisboa

Saudades de estar no estrangeiro,
onde não é necessário explicar tudo.

2.3.09

POR ENTRE AS FRESTAS*

No pátio de um convento, uma freira surge por trás de uma porta, emerge do fundo da imagem, caminha e toca o sino.
No plano seguinte, o longo corredor tem suas portas abertas, uma a uma, sob o repique do sino no fora-de-campo, sob o som dos passos das freiras.
'Ave Maria', diz a personagem como quem saúda o nascer do dia, o nascer da luz que se imprime no anteparo sensível do cinematógrafo.
Quando as portas se abriam ao tempo, o som já habitava o fora-de-campo.**


O trecho acima se refere a um filme do cineasta francês Robert Bresson, mas poderia ser um excerto de romance.

Um romance no qual a linguagem cinematográfica já faria parte do vocabulário do leitor e as imagens textuais dialogariam entre si à maneira do cinema.

Não quero com isso confundir as duas experiências.

Apenas lembrar que CINEMA e LITERATURA conversam,

por solicitação, por empréstimo (GODARD).

Ninguém irá discordar que há um aspecto formal na obra de alguns cineastas atravessado pela escrita. Como a espada no peito de Píramo a tingir de vermelho as amoras.
Como o instante da dor (que não cessa) ao ver/não ver o amor dilacerado pelos leões.

Amores impossíveis.
Cheiro de gás (CHANTAL).
Uma mulher sobe até o terraço e vê o corpo pender.
Outra lamenta seu amigo.

BALTHAZAR, BALTHAZAR

Rigor e silêncio.


Ler é ler.
Há quem acredite no saber enciclopédico. Já os amantes da conversa ao vento passariam anos com apenas um trecho de romance no bolso, ruminando-o, imprimindo ambiguidade no silêncio. 

A espada, o sangue, o tempo das amoras.

Imagens a se dissolverem no instante em que se abandona o livro.
Imagens a fixar em nós uma experiência indecifrável. Quando indeléveis.
Imagens frágeis como os mortais.

Em tempos de guerra, onde andará a ternura?
A incomunicabilidade a produzir fins trágicos.

Sagas, odes, trovas, cantigas, escárnio, fingimento
Há quanto tempo não dormimos?

--------------------
*para Pedrinho, cujo trabalho me inspirou o dia
**Pedro Aspahan, “Entre a escuta e a visão: o lugar do espectador na obra de Robert Bresson” (2008).

5.2.09

Ao menos uma vez

No cair da tarde
A luz incide um verde oliva
Incrivelmente posso tocar a cor
Mas não posso descrevê-la

1.2.09

daqui sai um poema, quem sabe?
carregado de afetos
mas o livro que me aguarda,
tem opinião contrária

30.1.09

Das inseguranças do poeta
Já disse um dia o catador
Três palavras incompletas
O amor desta vez não dá

9.1.09

Chuva de temporada*

Meu doce amigo
Estamos aqui,
Eu e você,
Embriagados nesta noite
Sem perspectiva de mudar o tempo
Distribuindo baldes pela casa

- Mas o calor não tarda
- É... Amanhã fará sol
- Com cerveja


-----------
*Para o Rafa e o Grave

5.1.09

Do cotidiano da entomologista

O cotidiano que o anônimo julga interessante pode ser simples e patético.
Então, resta sorrir entre parênteses?
Assim quando se acorda depois de uma noite sem pesadelos.
O cotidiano pode ser leve ou árduo,
como o amor ou a escrita.

Passando dias sem arrancar um verso, uma frase que seja, a poetisa levanta as têmporas diante do espelho.

- Merda!

Metáforas são fáceis.
Deliberá-las sem trava, crê, não é tarefa da poesia deste tempo.

Mas que tempo é este?

Muitas vespas a invadir a casa nesta noite.
Depois das chuvas que alagam ruas e avenidas,
o sono a despencar as pálpebras,
pura lama.

Jargão e superficialidade
O cotidiano dos jornais e suas tendências
Um rio que volta a transbordar
Um corpo, seis tiros, o caso arquivado
A faixa dividida em três ou mais
Dez dias de conflito, mais de 500 mortos, milhares de feridos
Um time de juniores vence um de seus adversários
E um ator estrangeiro às voltas no Rio de Janeiro

30.12.08

Canção de ninar*

Entre o sono e o estar acordado
Penso frases que me são caras
Jamais irei reproduzi-las tal qual se processam em mim
Porém, se as ouço apenas e não escrevo
Uma insônia absurda toma a mim o sonho desejado
Da cama à caderneta, o que se perdeu?
O pensamento mais ágil do que os dedos
Uma laranja para a digestão
Amor embalado por uma canção de jazz
O menino dorme

-------
* para Matias Monteiro, às 5h da matina

27.12.08

De cartas e canções

Poderia endereçar a você todos os poemas
Mas o que nos separa
A idade, a monogamia?

Atingir com palavras
Este sentimento comum que atrai os homens
(Amor)
Ouço sua voz, um violão
Ouço amargar uma espécie de solidão

A noite garoando inteira
Vento úmido cortando a espinha
Pés descalços no assoalho frio

Aqui, pairam versos seus
Os meus
Na gaveta, apenas rascunhos
de um romance sem graça

Não posso lhe desejar agora
(Minto)
Desejar eu posso

Aporia

Se desvio o olhar é por insegurança
Mas vejo seu rosto recortado na parede branca
Na noite tudo padece

Seus olhos floresta
Sonhei você
Hesitei

Adentrar na floresta
Ajustar o foco
Desfocar o fundo

Amar você?
O toque pareceu impossível

Desenhos

Talvez quisesse uma terra boa
Neste descampado onde vi pinturas rupestres
Crença na origem
Talvez duvidasse da existência dos homens antes dos homens
Se a matriz do desavisado é o plágio
A minha é o fingimento

18.12.08

Palu

A aldeia fica afastada do grande centro
O sol impera ao meio-dia
queima florestas

Se fosse esperar pelo tempo
não traçaria dois círculos e uma reta

– A estrada precisa atravessar sítios

Os olhos ardendo em febre
Ignorou o gesto do velho Soba

– Talvez não vingue por aqui

16.12.08

Se o sono dos justos vem com o cair da noite
O meu
Carregado de pesadelos
A casa, goteira e mofo
O andar de cima guarda algum mistério
Na caixa escura, a imagem da Senhora Aparecida
(o vestido faltando um pedaço)

– Quando as coisas irão melhorar?
Dizia o pai:
– Breve...

12.12.08

Sem teoria

Na sala de estar: uma cadeira, alguns livros, objetos de porcelana
A TV exibe imagens desgastadas
Não sei se padeço de algum mal
Porção de tempo

20.11.08

As horas que separam a noite da entrevista
O lugar mais confortável
A escrita?

14.11.08

[Ritornelo]

Começar com gestos repetitivos

Abrir mais de uma vez a porta antes de sair de casa

[ver se a chave do gás está virada,
se o ferro está desligado]

Abrir mais uma vez a casa

12.11.08

Pergunta não feita a Carlos Alberto Prates Correia

Em Cabaré Mineiro, após a canção enlevada pelo personagem anônimo de Nelson Dantas e a bela jovem, cena que nos encanta pela delicadeza do gesto amoroso, a onça-mulher é morta pelo personagem em seguida.
Medo ou amor de morte?

18.10.08

dos encontros não programados*

Morrer em Dionísio
Renascer em Pessoa
É de Bethânia o canto atravessado no amor

você está na noite
jamais pegará o telefone
e ligará para ela

mas não deixará de ler jornais

-----
*para kk, joão e rafa

17.10.08

dos desejos dos poetas

O poema, também uma espécie de traição?
Quantos escritos não postados
Em umas poucas palavras poderia lhe revelar o mundo
(amor)

sentimentos não se escondem numa gaveta
(falsa impressão)

Do portão ao quarto,
sete, oito lances de escada
Menino dos olhos
(floresta)

incapacidade do corpo:
magoar quem não mereça

5.10.08

Notas para uma biografia s/d

Jogaram suas valises no trem
Partiram pouco antes do galo cantar
Para o Rio de Janeiro
Nicolau e seu pai almoçam no vagão restaurante ao meio-dia em ponto
A passagem pela capital mineira será lembrada em encontros banais
Lufada nas pestanas
A comida sacolejando no estômago

4.10.08

Notas de Nicolau Paropas

seja paciente com os vaidosos
deixe que inflem o ego
permita-lhes dizer mais do que deveriam
que haja surdina!
conquistarás o mundo

28.9.08

O dia depois do dia

Amor mal curado se resolve na ressaca
No diálogo com o vaso sanitário,
percebe-se a potência do corpo
A tentativa desesperadora de retificar a merda de uma embriaguez

24.9.08

À maneira de Nicolau Paropas

Os poemas falam a dor, a desonra, a desforra
Também as cabrochas, o desespero, o amor
Um jovem, um tiro, três décadas atrás
No guión, propostas indecorosas
Durante semanas, o peso do tempo
Sorriso a derreter os dentes
Morte, engano

Sentados à mesa
– Prato de sopa, água, pão, azeite para regar

23.9.08

Tempo das chuvas

Recebeu a notícia deixando cair a caixa de miudezas
Decerto não entendia a língua
Apenas viu o sorriso indeciso nos lábios de Nicolau
e uma pequena mala no alpendre da casa
Nesse ano, os ipês tardaram a florescer
Sons a povoar os dias

13.9.08

παλίμψηστος

A escrita de Nicolau se mantém à maneira dos palimpsestos
Um vestígio foi encontrado à Rua dos Guajajaras
Na parede do edifício, palavras sobrepostas
Dentre elas riscar
(duas, três vezes ao dia)
O tempo se encarregou de lavar a segunda Isidora

5.9.08

Do jogo

O apego do artista com a obra é tão importante quanto uma partida de pif-paf.

3.9.08

Por volta de 1940*

Seria necessário consultar sistematicamente os arquivos
(como Nava)
Para encontrar a rua exata
Por onde transitou Nicolau Paropas

Dizem que em 1940 esteve em Belo Horizonte
Por causa de um seminário sobre prótese dentária
Na época, seu pai era um respeitado dentista e
francês

Caminhando pela rua
(cujos versos até hoje estariam impressos na calçada)
Nicolau viu Isidora
Nunca se falaram, tampouco se entreolharam
Apenas o poeta,
Com o ar ainda preso no peito,
Experimentou tamanha leveza

---------
* para eassis, para garro

31.8.08

Cosmogonia*

Primeiro foi a água
Dos seres que dela surgiram
Homens-peixe desejaram caminhar
Fez-se então uma terra vermelha

Diferentemente da que haviam experimentado no oceano,
Uma poeira ainda mais fina ofuscou-lhes a visão
Descobriram o vento
O calor a arder as têmporas
Aprenderam a tanger a terra com gotas de suor
Fizeram instrumentos

Descobriu-se que o céu já existia há anos
Mais tarde, sua infinita beleza
Inventaram o vinho
Por vezes a pequenez os apanhava completos
Majestosos no tempo
Fugidios, os poetas

Seus olhos
A floresta que veio depois

Da cicatriz escorria-se um líquido pegajoso
Surgiram ruas e avenidas
O barulho dos carros a atravessar-lhes a noite
Previram o desaparecimento da água
Mas não quiseram o retorno
Preferiram compor sinfonias

Ode às estrelas

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*para Bu Guanambis e Rafa Barros

28.8.08

Novamante*

Pequena imagem num selo
Um homem tocando piano - Liszt
(corta para)
Mulher segurando espelho

De Portinari a primeira
Novamante a segunda

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* para edu

18.8.08

Das dinâmicas do dia
















Descer o lixo
Conferir a caixa postal
Subir três lances de escada
Jogar as chaves sobre a mesa
Tomar um copo d’água
Ler um livro,
desligar-se deste mundo

A dona de casa apanha capítulos dispersos
Arthur, Herberto, Gabriel, Orides

17.8.08

Monte Alegre

Provavelmente
Na Grécia Antiga
As mulheres (tendo voz)
Clamando por seus filhos
Encheriam
de porrada
A boca recalcada dos fazedores de guerra

Sem dentes,
O poeta
Uma besta-quadrada

A guerra,
Invenção dos homens
para a multiplicação de filmes enlatados

Açoitar o inimigo
com palavras vulgares
Coisa do fascismo

10.8.08

Jonathan Mangabeira

Não compreendo seu sorriso
Ri para mim dizendo até logo
Nos pés o suor do asfalto

(becos, avenidas, BRs)

Nas mãos marcas esferográficas
Poderia caber o mundo em versos rimados
Escrever caminhando
Poeta
Vinte e quatro horas por dia

6.8.08

educação na pedra

um grito violento atrás da porta
o tiro que atravessou o jovem
atormenta gerações

aristocracia paidéia
em restos de livros
comidos por traças
a casa minando água
as pessoas dos retratos desaparecendo no tempo

um bife pra cinco,
no domingo refresco
aristocracia paidéia ou
o imaginário bufão

2.8.08

Da Torre Mais Alta*

Falemos na mocidade presa
Deprimida
Delicadeza perder a vida

Da alma
Não posso negar
Flores sobre a mesa vazia
Disse: – Acaba (devagar)
Promessas ao vento
O bem que seja
Aspiro
Retirante
Amor derradeiro

Ao menos pudesse sonhar
Diria palavras
Erguida aos céus
Sede estranha que ofusca a garganta

Que campos visitar?
Condenada
Duvidando do hálito amargo
Moscas selvagens
Na imagem que assola
Uma senhora, um grito
Quem rezaria Ave Maria?

Oprimida mocidade
A pureza, o encanto
Num estalar de dedos,
Que o tempo venha
– Arthur!
Sua poesia esfola viva


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*para Quel Junqueira, para Fred Sabino

13.7.08

para o tirano oswaldiano

ô caralho!
estou puta
que a sua poesia tá melhor que a minha

anacrônico é tu, cara de angu
pro caralho que te partiu

tenho que trabalhá

desemprego assola

papo intelectual conversa de botequim

volto já

se me tirar eu berro, falô, glauborô albino

amo
tão desesperadamente

não entendeu que não sou glauceste e sim glaucoma?

para o poeta anacrônico

o vaso sanitário é um elefante.

12.7.08

à ciel ouvert

ser celestial pousou em mim perfeito.
matanada-nativa. amor pelos pássaros, dislexia.
esta dor inexata,
abandono. não entendo.
arrogância.
circunlóquio.
anacronia maculada.
pro escambau o contemplativo.
prejudica a vida.
permissão para sonhar.
verdade quase-nada. queimapele.
fui ver onde-dá. "tempestê à ciel ouvert"
glauboró-aurá, glauceste, glaucoma.

21.6.08

Da impossibilidade de descrever as coisas
(um livro-poema para Rafael Barros)


O homem atravessa três ruas até o escritório
No percurso, avalia o tempo, compra um jornal, toma um café
Corre o olho pela vitrine:
meias, um casaco de lã, caixa de lenços
Ontem recebeu uma carta
Receita para amar
O destino de um poema

Umidade deixada pela chuva fez lembrar a casa da infância
A avó cozinhando mingau,
a mãe preparando a mesa do jantar
Corpo ardendo em febre
(água e açúcar)

Correr no tempo
A memória a trazer o gesto
Quis ver o rio, mas já era hora de levantar a porta
Atender ao chamado insistente do dia
Três ruas até o escritório

15.6.08

tradução e sonho*

sonhei
descoberto o segredo de llansol
a fase de um poema

to be

vi no traço,
não inventei o sonho

esquecendo-se do que foi visto
enrolou-se no pano

o traço

invenção de um parto
a mulher sangra mais de uma vez


* para carolina fenati

23.5.08

aparentemente sós*

dos pequenos gestos do cotidiano
lustrar os móveis da casa
deitar água nas plantas
fazer o almoço de domingo
convidar a família

uns restos de amor,
um livro, uma vela, um copo d’água



*para bernard

30.4.08

Tarde desperdiçada

Não quero lhe chatear
Uma prece aos ignorantes
Esta dor é temporária
O estômago está vazio, eu sei
Deixe a melancolia instalar de vez
Três livros para ler
Perdida em Tchaikovsky
Escrevo um poema
Você vai me reprimir porque tenho uma casa a varrer?

28.4.08

Seus olhos, ou da polifonia nesta manhã desconsolada*

Talvez fosse melhor não mencionar nada
Que o tempo se encarregue de dizer,
na experiência dos dias,
o apelo deste corpo

Um copo d’água, por favor
Não adianta negar
O espírito transita no tilintar das lágrimas
Alegria, gozo e dor

Nesta manhã de sábado,
a cabeça ainda zumbindo,
vejo sua asa partir no chão
Três movimentos ao redor do corpo

No sonho ainda se podia ouvir
instrumentos, vozes,
passantes a bater o pé no cimento
Corte seco

Um dia inteiro pela frente
Arrumar a casa
Postar o lixo, roupa no varal
Misturar arroz no feijão

Barulho que vem do asfalto
anuncia a partida e chegada dos carros
Crianças brincando no jardim
Esquartejam gafanhotos no meu cérebro

Cumprida a ordem
À tarde estarei na cama
Um romance que não acaba
Livros de poesia

No cair do dia,
talvez uma festa,
um jantar entre amigos
ou o sono dos justos

Escrever é menos complicado sob efeito do álcool
A palavra corta a folha
Navalha afiada
Os dedos sangrando

Nem clichê, nem rima
Sem lentes de aumento
Não há foco que resista
Espera a ressaca passar


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*depois do Graveola, também para o Rafa

2.4.08

2.3.08

Nada como antes

As pernas saradas das mordidas de pulga
Costas arqueadas

Antes era normal
Voar em sonho
Deitar o azeite no pão
Vinho e jazz

16.2.08

Do mundo

Esfregar bobagens na cara
Da verdade que imprime o mundo

(ruir)

Discurso armado


– Foda-se! – disse um bêbado
e me bebeu inteira.

2.2.08

21.1.08

radiografado

















Foi quando o pássaro anunciou a sua descida
A manhã estava azul
Entendeu que era mais do que mera contemplação

7.1.08

Sonhar morbidez

Vez em quando posso lhe dizer palavras delicadas
Pedaços de algodão, água para lavar o corte
Comer o algodão
Sonhar que se morre sufocando
No desespero do quarto escuro a faca em punho
Palavras delicadas ao vento
nomeiam a loucura do outro

1.1.08

Caixa acústica

Numa caixa de plástico crescem animais estranhos
Metade pássaro e homem
Algumas linhas costuram a barriga em espiral
São postados algodão e açúcar
Um rio corre por dentro
Alguns peixes tentam fugir para a superfície
e sentem o ar cegá-los
Não podendo voltar, criam pernas
Tornam-se guardiões da água

O homem quer virar peixe alado
Não consegue
Seu corpo está ardendo

Da boca vemos brotar uma árvore
Flores explodem um líquido pegajoso
Os lábios se arrebentam

Palavras são como eletricidade
O som invade a caixa
as paredes tremem

(oxigênio)

A caixa é como uma estufa
Transforma seres eletrônicos em animais da terra

29.12.07

Da lembrança

Esqueci novamente de acender a luz
Deixei cair sobre a mesa batom e moedas
No canto esquerdo da sala há uma foto sua
Entre os bibelôs uma estampa
Meu pai dizia que a natureza do homem é suicida

Preparo para a festa
São duas horas da manhã
A geladeira está vazia

Nada é importante agora

28.12.07

No deserto do Arizona

Assistia ingenuamente a esta série e pensava nos dois cientistas condenados a vagar no tempo. "Quem iria querer enfrentar dinossauros e conflitos armados apenas para provar que a máquina não era mero desperdício ao Estado?"

(um jovem galã e um pensador maduro)

No deserto do Arizona estava escondida a maior de todas as invenções da vida moderna.
A lógica da aventura consistia em enfrentar o perigo, as paixões e o abandono, mas resta a dúvida sobre os procedimentos metodológicos dessa viagem.

Hoje compreendo melhor, apesar de não me recordar dos episódios – a não ser da antológica imagem espiralar que leva os dois personagens para passear no tempo. Tudo pelo entretenimento que contém a descoberta, ou o desejo impossível de sair ileso das tormentas e colapsos do mundo?
A máquina do tempo é uma homenagem ao cinema que se acreditava fazer na época
no deserto do Arizona.








(o túnel e o tempo)

27.12.07

Com Sinatra*

Ouço Sinatra cantar
Como é bom encerrar elegantemente esta temporada
e também triste
como um filme antigo

(Your fabulous face)

Cinco minutos mais, cinco minutos mais
para estar em seus braços
Apenas cinco minutos mais

(I see, I see)

Posso ver você
Lá do outro lado
Posso ser você
Onde o rosto toca o vento

Dançar com o corpo mole
no escuro

(I lost my heart)

Queria falar sobre coisas assim
Cantar assim

(Every time. You and I. Every time)

Nem chá, nem suco de tomate

(A cup of coffee, please)


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*para a equipe

19.12.07

b. brecht

A fumaça (der rauch) mistura no vento uma cor delicada
Alguns pontos de luz a atravessam
Sorte o dia ter amanhecido claro
Nas árvores uma poeira fina
Ao entardecer esperamos chuva no lago



para João Lúcio

13.12.07

Pazes com o imaginário*

O tronco estava úmido
Entre as folhas das árvores restos de chuva
O nariz fica gelado nesta época do ano
Tenho apenas três páginas de anotações

(a saudade é algo para se beber)

Aceite um ramo

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*para Cinara Araújo

16.11.07

Elogio escondido numa gaveta*

Desisti do amor.
Seu sentimento grandioso,
sua celebração.

As coisas menores agora me são caras.
Em espírito febril
ergo o espelho,
deixo o vento tocar o rosto,
sinto-o inteiramente livre.

Rodar os pulsos,
torcer o corpo inteiro.
Olho seu sorriso no retrato que se apaga no tempo.


*para Eassis, para Carolina Junqueira