10.10.10

A passageira
                                                      Para Raquel Junqueira

A sombra das árvores a incidir na casa
O corredor guarda o corpo
Embocadura
O corpo gemendo
Lentidão dos gestos

Andar por entre as árvores
Lábios afastados
Beleza indecisa
A boca mordendo o vestido
Sombra sobre a forma

O homem caminha em direção a ela
Presa à sombra
Não tem como escapar ao apelo do corpo
Rola pelas escadas
Tem as mãos vazias
Os olhos febris
Um peso nos ombros
Ferida que não estanca

Desfalecida, deixa pender a mão
Adentra na noite
As pedras recebem a água da manhã
Ensopada, vê os ânimos se renovarem
Despe-se agora

Abandona o corpo
Olha o rio como da primeira vez
A floresta que o rio reflete

A nudez da planície
A chuva se dirigindo ao mar
O mar é o que não vejo

(anotações de viagem, diário sem data)

6.10.10

dois corpos se encontram na noite infinita
e se separam na manhã seguinte
é sempre um despedir
não adianta forçar o destino

 

os caminhos são múltiplos
os corpos que se encontram na noite infinita
e se separam na manhã seguinte
não são garantia de felicidade
 

algo está para acontecer
temos o mundo e a escrita
a escrita é o amor, o ódio, a alegria
ao mesmo tempo outra coisa
superior a qualquer sentimento comum aos homens

28.9.10

sonho com um mundo sem excessos
e nele apenas a página branca
e um único poema

23.9.10

Entre continentes
(o meio é o mar)

                       para Nica e Ribão 
                       por uma proposta cinematográfica

aquilo que nos afeta
neste cotidiano
faz valer estes versos
que ora trago em imagens

caminha sempre pensando
as ruas, o rio, o canto e o amor
uma flor nascendo
em cada uma das fendas
destas paredes brancas

sinto saudades de todos
ao navegar nesta luz
refletida no Tejo

um barco passeia pelo plano
atravessando o quadro

(anotações de viagem, diário sem data)
Sintra
                                                                                 

O rio que corre entre as macieiras
Deságua no mar e não em outro rio
O que mais me impressiona
É o mar
A devorar as rochas 


(anotações de viagem, diário sem data)

21.9.10

Amor

Desperdiçaram esta palavra
                                  Amor
Em muitos livros e filmes
que  não valem a pena

Usaram, por outro lado,
o amor (ou a ausência dele)
para fazer poemas nos intervalos do dia

Do amor
(o sentimento)
Quem o tem sabe

O poeta está sentado sozinho
Numa mesa de bar
A espera do amor entrar
Como uma lufada ele o vê
O amor, porém, passou longe
Como um golpe
E o poeta escreve a dor de não poder amar ninguém 

(anotações de viagem, diário sem data)

19.9.10

é estranho olhar para os objetos e não perceber nada neles
é estranho quando o cotidiano não lhe traz sentimento algum
onde você está?
sinto-me seca, vazia
o camponês partido em três
todos os poemas espalhados na cama
poemas que um dia
hão de narrar a vida...

17.9.10

De Angola trago um vestido, uma rosa, uma pequena escultura

Na esperança de ver novamente seu horizonte

Ouvir seu canto

Tatear o seu ar

Relatar seu pranto



Das viagens que ainda não fiz

Circuladas no mapa

Já se tornaram saudade

De tempos ainda não vividos

De livros ainda não lidos

Poemas ainda não escritos



A árvore centenária guarda seu nome

Guarda você

E estes versos 

(anotações de viagem, diário sem data)

14.9.10

Sinto nostalgia do tempo em que escrevia no sobrado da Serra
A atmosfera do escritório, os livros na estante
Os galhos das árvores na janela imprimiam um ritmo incomum
O vento fazendo curva na Oriente
Os gatos da vizinha empoleirados


Era feliz o tempo em que os amigos lá iam
E fazíamos festa
Tudo passou pela sala escura

O tempo hoje é um florescer contínuo
Não cabendo mais a melancolia
Tateando as letras
Procuro uma imagem escondida
O sorriso de agora que não posso revelar 


para Nica, Edu e Garro

13.9.10

Memórias I


Ela fez as malas. Buscou colocar na bolsa alguns pequenos objetos da casa que tinha mais afeição. São apenas objetos de porcelana e metal. Lembranças de viagens escassas. Olhou para dentro de si e viu um mundo precário.  Um passado estilhaçado. O pai, um louco adorável, nunca soube que ela chorava escondida atrás da porta do quarto. Desde então, quando o quarto não conseguia abrigar sua alma, procurou descobrir esconderijos pela casa. Passava horas no escuro contando até mil. Adormecia. Inventou uma realidade paralela. Jogos de enganar a solidão, de enganar a morte. Sempre temeu a morte. O pai repetia insistentemente que o mundo não valia a pena. Ela tinha apenas seis anos quando perdera a ilusão, se dando conta das paixões febris que tornavam este mundo doente. Procurou se encontrar na noite sem fim. Abandonou os esconderijos e mirou o céu.  As estrelas pareciam lhe sorrir. Primeiro achou, pelas histórias que a mãe contava, que eram as pessoas que morriam e que lá estavam felizes. As três Marias haveriam de andar sempre juntas.  A maior, Estrela Dalva - cujo brilho ofuscava os olhos. Depois descobriu que eram corpos celestes, que poderia passar por dentro delas, que Dalva não era estrela, que se chamava Vênus, e que a vida era finita. Não se reconheceu no universo, imaginou a própria morte, viu seu corpo tornar poeira fina, dessas que o vento carrega. Tocou na terra e viu que de lá surgiam pequenos insetos, todos eles trabalhando independentemente dela, de seus medos. Mirou as árvores, os pássaros, as vespas. Sorriu com o dia. Esperou a chuva e se viu novamente sozinha. Na estante de livros se deparou com os clássicos, também com as imagens que narram a história da arte. Reconheceu-se fascinada pelas figuras antes das letras. Aprendeu a decompor as cenas. Com o olhar aguçado, tomando para si as particularidades da vida, começou a desvendar os horrores e maravilhas da realidade que se faz nos livros. Voltou a se esconder na solidão do quarto depois de descoberto que podia escrever, escrever, escrever.  O relógio marcou a hora de ir. Não olhou o entorno. Esqueceu o caderno, esqueceu do último poema. Fechou o passado em ata.

2.9.10

Ruy Duarte de Carvalho

                                     
Marquei no mapa um lugar
onde o tempo demore a passar:
Namíbia.
Suportarei o deserto?

Amor ao vento

que balança o véu
que cobre o seu rosto

As cartas são afagos

Seu canto
para ser lembrado



para o Zetho 
que muito sabe desta vida 
pela carta enviada ao amigo 
por compartilhar sua Angola comigo
 

1.9.10

das imagens que ora carrego
o corpo de uma jovem
derretendo no chão de agosto

a ideia primeira
a mão pendida 
o sopro do vento

ela tem os cabelos claros
um sorriso amável
uns olhos desconfiados

a culpa que carrego comigo
não saber distinguir
rumor de grito

a carta*

por que eu haveria de apagá-la?
por que preciso apagá-la?
tão lindas palavras me chegam
com o vento nesta tarde de calor
como é lindo poder ler você

que amor é este entre os homens?
que amor é este que se encontra
entre as flores que caem das árvores
e o rio cuja margem não se alcança
só sei fazer poemas, minha amiga
e hoje quase desisti

eu me sinto enfraquecida
triste e risonha

*para Nica
toda palavra é crueldade
a palavra fere

(censura e dor)

no amor
não há miséria

no silêncio se faz
um filho

29.8.10

foi em agosto

é estranho voltar ao bairro da infância
tudo parece familiar
ao mesmo tempo distante
 

os doidos do bairro
são os mesmos doidos
cada vez mais doidos
 

minha mãe a lhes dar comida
eles a agradecerem a Deus
ao Sr. Nosso Jesus Cristo

estamos a envelhecer

como antes o velho padeiro e português
ou o espanhol da casa verde

estamos a envelhecer, amiga

já se passaram anos...
ainda não nasceram os filhos

tudo igual no bairro da infância

e você como uma estrela
que do céu ri da nossa sorte

23.8.10

Eassis

na caixa de correios
um cartão
o cartão de um amigo
triste a distância
este estar sozinho?

dos afetos

que vêm e vão
vez em quando, a alegria

doces tardes de agosto

cuja luz (que luz!) não tem igual
e o frio que timidamente vai nos deixando
não tarda esquecido

o tempo está seco

mas o amor floresce
como as flores vespertinas

meu amigo,

você é um querido.
Van Gogh repousa
entre as estampas e memórias 
daqui a pouco
nos encontramos para uma cerveja
quiçá um jogo de cartas?



19.8.10

a vespa e a orquídea

5#10

entre seus olhos
o meio
nosso amor é rizomático
não tem início nem fim
sempre em vias de se fazer
no infinito

você atravessa em mim
desejos segredados
eu em você sou vespa e orquídea

no rio
roendo as margens
adquirimos velocidade no meio

o filósofo diz:
faça a linha e nunca o ponto

o poeta diz:
o mundo do rio não é o mundo da ponte


o que é o amor?
justo onde ele se esconde

16.8.10

A noite infinita

4#10


Meus olhos procuram os seus na noite incerta.
Ao encontrá-los buscam,
escondido atrás da árvore dos enamorados,
o abrigo dos dias felizes. 

É tão puro e simples aqui dentro de mim.
Como mergulhar os pés em água morna e sal
para lavar o corte.
Ou cobrir o rosto com as mãos
e reaparecer logo em seguida. 

Negra noite sem fim. 

Meus olhos que procuram os seus
são olhos de avenca.
Encontrando seu sorriso em cada uma das nossas manhãs.
Pudesse não permitiria que existisse a dor
ou que nenhum mal alguém lhe fizesse.  

Meu bem, durma um sono tranquilo.
A chuva renovará o ar
e a esperança de uma vida mais sincera.
A você uma flor e os meus encantos. 

Um bom dia vem quando menos se espera.

9.8.10

Sentados na Irlanda

                                                      Para o Eduardo Assis     

Nem sempre o que eu escrevo
é o que eu escrevo
Às vezes é exatamente o sentimento atravessando a alma
Como uma lâmina afiada
Por vezes, a evidência de uma voz alheia
Um grito
Quase sempre blefo
Como num jogo de cartas

Aprendi a ganhar muitos feijões no pôquer

Fingindo não saber jogar
A tabela de combinações ao lado
Não é que as cartas me saíam por entre os dedos?
Pousá-las uma a uma
Requinte de sarcasmo
Ai como é gostoso o gosto de cerveja...

Alguém está na Irlanda

Vagando pelas ruas
Se perdendo nas livrarias e cafés
Procurando uma mesa, alguns feijões
Cortando o baralho em três
Quem me ensinou a blefar


6.8.10

Maria Madalena

Sentirá a pedra rasgar a carne
Sem a intervenção de Deus
Sob tortura,
Não há quem resista em silêncio
Prevalecerá a versão do algoz
 
Engana-se quem acredita aqui ser diferente 
Com a faca o carrasco corta a carne,
Divide as partes e as redistribui
Da ferida escorre um líquido quente 
A liberdade um ato de lograr?

5.8.10

A loja de quinquilharias

A porta do vizinho sempre estava aberta
Nunca precisou tocar campainha
Ou gritar no portão
Quando dele necessitava algum aviamento
Era só entrar, escolher, depositar as moedas na registradora
Um dia, havia apenas um corpo no chão
Fora a imagem mais forte de então

Recuperei esta imagem
Ao ouvir o trem nesta manhã de sol
Estendendo as roupas no varal

Pensei na sorte
Olhei para o céu
A luz acariciando a face

3.8.10

Da infância*


Olhar para o passado
Remexer em imagens que julgava extintas
O porão da casa guardava mistérios
Já não sei se tudo ali foi real
Ou se invento na parede branca

Era bom o tempo da infância
Da alegria de viver no quintal,
Caçando minhoca e tatu-bolinha,
Guardo a imagem de uma tarde ensolarada
Duas crianças felizes
Colocando fogo nas bananeiras
Três jovens aflitos
A apagar com baldes e mangueira


Seria bom se tudo de ruim fosse apagado
A escrita ganharia mais leveza
Missão do poeta
Não poupar quem quer que seja

*para meus quatro irmãos

2.8.10

Pensei na morte?
Tardes melancólicas
Embora o céu esteja limpo
Queimei o braço com o ferro
Feri com a faca o meu peito
Marcas indeléveis
A impossibilidade de congelar o tempo
Por isso eu canto


para meus pais
diante de tudo que passou

31.7.10

da beleza e da amizade


                                        
Seu sorriso ante o inesperado 
A alegria de viver surpreendido
Imagem que não se apaga
Um mergulho no lago 
Três homens nadando
Todos lindos, selvagens e amigos

                                       
Lindo é olhar para o horizonte
E se perder no infinito
Ter o sol e a lua ao mesmo tempo
O vermelho da tardinha
E o azul da noite chegando

                                  
O rosto de um menino
A vida nos olhos dele
Quanto tempo mais
Para reafirmar esta beleza?
É olhar para ele
E o coração inflama

Obrigada aos três!

29.7.10

Se o amor não tardar



O céu está turvo
Mas a lua resplandecente 
Uma aura em torno dela
Eu me sinto tão pequena 
Ao mesmo tempo gigante 
Ao olhar pra ela

o dia e a noite


3#10
Percorra em mim
Com as mãos firmes
Renovando o ar desta manhã
Com seu líquido viscoso

Deita sobre meu corpo
Sem que eu perceba
Somente em seus braços posso sentir
A minha dura hora


Procuro em seus olhos
A imensidão da noite
Busco tocar seu rosto
E não esquecer este presente inconfesso 

18.7.10

Da noite que restou

2#10


Nosso futuro incerto
Buscando a estranheza da noite
Seu perfume na manhã
Guarda o que ontem se rompeu

O olhar de um para o outro
Sentindo, suspirando
Afaga, afaga o meu corpo
Mergulhando no orvalho
Que de dentro da minha alma
Vem surgindo devagar

Flor da noite


1#10

Em seu coração de pedra pousa uma flor
Cabe a você acolhe-la como uma flor
Que repousa em seu coração de pedra
Sem lhe pedir amor

Em meu coração escrevo com a pedra
O primeiro dentre muitos poemas
Cabe a mim recebê-los
Sem lhes pedir a dor

17.7.10

para o anônimo

não costumo revelar aqui a intimidade
não gosto da ideia de um diário
mas este encontro celebra um momento histórico
que merece fazer parte desta tempestade
mais de 10 anos celebramos ao som de Pedrães
escritores, poetas e músicos
não importa






























16.7.10

Sabe o que eu quero
Ser uma grande poeta como Hilda Hilst
Construir minha casa do sol no mato
Lá viver com marido e filhos

Antes, vou ganhar o mundo
Ter muitos amantes
Cada amante um livro


14.7.10

do tempo que se espera um canto

                                                      para Luiz Gabriel

O tempo mais sincero é o da infância
Depois nos debatemos
Tentando encontrar as palavras que julgamos certas
Cansei de esperar...
Se são palavras, apenas palavras,
Como haveremos de lhes dar sentimento?
Sua voz vem chegando sobre mim
Atravessada por seu canto
Você me faz sentir as primeiras horas desta manhã
Como ontem e anteontem 



13.7.10

sou ave de rapina
perdida em mim mesma
procurando o sabor da carne
nas palavras e nos sentimentos do mundo
escrevo tão rapidamente
posso sentir os dedos sangrarem


é dor
 

penso todas as noites
no dia em que nos tornaremos
fotografias deixadas sobre a mesa 

penso na verdade do mundo
no que agora me tornei

imagem

para meu pai

10.7.10

um poema por uma imagem

Quando ele chega
Vem de mansinho dar um beijo
A mão tocando a pele
O sorriso se desmanchando no rosto
Esta é a história que se quer contar
Dos corpos que se encontram na noite
E caminham sem pressa  
Rumo ao infinito 


















foto: Ana Carvalho


9.7.10

Perguntar pela razão das coisas não conduz ao imediato encontro da resposta.

Jean Rouch

 

 

 

5.7.10

as chaves entregues
o encontro onde tudo começou
no fim da noite
eu me vejo condenada à solidão
à melancolia pontuando o poema
à saudade de um tempo bom

está tudo tão triste agora
o futuro que nos guarde para sempre

29.6.10

O silêncio em Beckett

Sentirei a intensidade do vento à sua porta
Aguardarei o sol
Esperarei por toda a eternidade
Movida pelas paixões
A minha força segue em direção ao infinito
                                                                                                                      
Adentrarei nele
Inteiramente
Sentirei as primeiras horas da manhã
Torcerei o pulso, tocarei com os dedos a face
                               Beckett me acompanha

Meu impulso é sair pelo mundo
À procura do seu corpo
Em mim habita um sentimento fecundo
Mergulhado na noite
Encontrando o vazio
A lua desaparecendo atrás da montanha
O dia trazendo mais uma vez a luz que incidirá sobre os lençóis 

Tive uma revelação quando pequena
Repeti insistentemente o meu nome
Gritei abafado
Até que se tornasse apenas o eco de um nome
                                                                              Aura
Descobri que o primeiro não me pertencia
O pavor tomou conta de mim
E vi perder no tempo a inocência 

Passei a prever o futuro
Suspeitei da realidade
Sei o que é quente
o que é frio
o que corta

No mais, vejo e sinto tudo como num sonho
Tenho medo de acordar e deixar de acreditar na vida
Já sabe e tem a minha alma
O quarto preparado para os dois 


para os amantes

28.6.10

Words and Music

By passion we are to understand a movement of the mind
pursuing
or fleeing
real or imagined pleasure or pain


S. Beckett


27.6.10

a propósito de três

um vai pra irlanda
o outro se tornando alcoólatra crônico
(criando uma barriga igualmente crônica que não errará mais pela cidade)
o que será desta aqui com o trio repartido?
abandonarei a pretensão de teórica, pelo menos por um tempo
mas não a de poeta

vou ver um jardim

24.6.10

Tenho lido Álvaro de Campos
Tudo muito terno e triste
Se tudo continuar assim
Eu me interno no exílio de vez

23.6.10


três coisas me maltratam
o tédio
a inapetência
e a burrice

20.6.10

parênteses

O que me atormenta é o fato de algo tão simples não vir à tona
Passo os dias em frente a um texto que não acredito
Uma forma de dizer que não domino
O tédio invade meu ser
Tenho fadiga
Meu peito está ferido
O projeto de uma tese é a pior coisa que se pode desejar para um poeta
Mesmo assim não vou pular do quarto andar

11.6.10

Ele respira devagar
Beija como se fosse o ar
Não revela os sentimentos

Ela tem uma dor
A imagem de um corpo jovem
Arrastado e jogado no vazio

Não permite que ele adentre
Ou descubra
O segredo de sua alma

Deseja simplesmente as manhãs ensolaradas
E o perfume dos corpos nus

Mantém-se calma e bela
Quem sabe a claridade possa entrar por uma pequena fresta


7.6.10

Nunca quis um poema altamente biográfico
Mas às vezes a escrita trai, como o pensamento
A imagem da nossa história é a de um almoço na relva
Solene, amigo

Meu querido, perdoa este corpo que cai doente
Preciso ganhar o mundo
Antes que este mundo me devore

Os poemas procuram agora o sabor da carne nos dentes
Seu nome resguardo
E guardo para sempre

8.5.10

ARQUIVO

Das imagens do nosso tempo
Uma flor, um rio, um caminho


Ele, o cineasta, inspirou meus dias
Como quando olhamos para o céu
A fim de cegar do azul
Não era para estarmos acordados?

O anjo disse uma vez
Que nos guardaria a todos,
Que nos guardaria de nós mesmos
Para toda a eternidade

Que venham então
As árvores
Os pássaros
O vento
Imprimindo nossas manhãs com a palavra
Amor

Tantos quantos forem os dias
Melhor para a arte que pretendemos
Melhor ainda o sono (que não nos falte)
E com ele as imagens
Lembraremos de tudo ao acordar?

ARQUIVO
(para Ana Carvalho – do aniversário de Janeiro)

1.5.10

o vinho é o elixir da verdade
disse o poeta uma vez
mais vinho para celebrar o poema!
que nasce de dentro dos porões da mente
eis que embriagados rimos felizes
eis que uma lágrima corre melancólica
sobre a face

25.4.10

A insônia tomou conta de mim
Ouço o barulho da casa
A respiração do vento
Você vem e me diz para eu dormir
Prefiro sentir o hálito frio
Das primeiras horas da manhã

11.4.10

EMILY DICKINSON*

Estou no exílio, eu sei
Cada dia abro um livro diferente
Apostei que deles sairiam alguns versos
Não meus, nem seus
Ao mesmo tempo tão meus e seus
É que… alguma coisa
Por entre os dedos escapa

Escolhi quem deveria receber
A primeira leitura desta manhã
Encobrindo, no entanto, seu nome
Das vozes alheias

Há quem procure opulência, acúmulo de metáforas
Há quem queira apenas uma mesa farta
E livros na estante

Se o meu Riacho é fluente
Há de secar –
Se o meu Riacho é silente
Ele é o Mar –

Que cresce. Em meu espanto
Tento escapar
Para um (dizem que existe) Canto
Onde “não há Mar” –


*para Nica, Quel e também Mará, pela tarde de sábado
pelo amor e amizade