14.5.12



Sr. G. Huberman 


eles gritam
gritam como se fossem dizer: terra à vista!
gritam ao pé da minha janela 
encerrando mais um dia de trabalho 


tenho sono
uma pilha de livros para ler
xícaras de café se acumulam na pia 
penso em você


como seria bom 
se chegasse uma mensagem 
e pudesse descer as escadinhas
deixando ecoar os gritos que ditam o fim do expediente  


eles olham ao redor 
conferem pela última vez se está tudo no lugar 
e se despedem sorrindo 
como em todas as tardes

11.5.12



um velho deitado sobre o rio


lá ao fundo está o rio
como pintura fotocopiada
o céu se impõe perante a ruína 
e modifica o dia


o frio se aproxima da noite
quando a chuva finalmente lava as escadinhas
nada como ver emoldurado
o velho sobre o rio


da janela de onde se vê 
um velho sobre a cama 
guardando para si
aquilo que não há de ser dito





7.5.12

venho pra cama e não consigo dormir
as costas doem
queimam como fogo 


o peso da escrita


os livros conversam comigo
procuro por um poema
que possa narrar esta noite 
em que corremos perigo 

19.4.12

Noite infinita 


terminado um livro
já não há mais o passado
o que há em mim hoje se traduz
na escadaria que liga o Castelo à Sé de Lisboa
uma luz indescritível invade a casa
atravessando as frestas da janela
o amante veio me visitar 
e foi embora
para não mais voltar



16.4.12

Lisboa


Aqui o frio corta como lâmina
Os dedos já não respondem ao apelo do lápis
Todo o corpo treme
Dizem que é quase verão
Se vier na mesma intensidade
Estaremos todos fritos
Como sardinhas na chapa

5.4.12

tentei escrever um poema solene
juro que tentei
para me despedir 
um poema que pudesse falar da imensa alegria que sinto
um poema que não fosse meramente descritivo
mas que aflorasse nele
um encontro que não se sabe onde, quando, como 
ainda por ser escrito?
são tantos versos sem endereço
sem motivo  


tomo tudo como verdadeiro
queria poder lhe dar o melhor de mim
porém sou apenas alguém 
em busca de qualquer coisa que me tire do lugar
em você existo 
mais do que em qualquer outro
que tenha possuído a carne 
e o grito
penso em minh'alma condenada a seguir
à espera de um abrigo
penso em romper a noite
também o medo   
penso nos poemas que ofereço
sem preço

26.3.12

da mãe, herdei o sorriso 
do pai, o gosto pela escrita
nesta foto, em que os dois aparecem felizes caminhando na Avenida Afonso Pena dos anos 60,
não havia ainda o peso do cotidiano, nem as dores de um passado
nem a ausência do vô Benedito, possível autor da fotografia 
nem a perda irreparável do tio Marco
os dois caminham rumo à promessa de felicidade
numa época de opressão, compondo a massa anônima
uma família comum, vinda do interior, em busca de trabalho
a vantagem de vir de uma família comum é a possibilidade de reinventar a própria história
sem apego, sem assinatura


10.3.12

(ontem eu tive uma queda de pressão na rua, a vista ficou escura e me socorreram 
 tive muito medo de não conseguir. não sou muito afeita a mudanças. 
mas a vida é um lançar-se contínuo. 
cada vez mais fica evidente que perdemos muito tempo em desespero) 

7.3.12

mostra, João, a sua canção
e que seja simples
para que possamos compreender
os mistérios do entardecer
   
tocando as coisas tais como são
ou não
as que se modificam sobre o seu violão

vem abrandar os dias como o vento
nas noites de calor
e faça da sua canção
o seu gesto de amor

daqui, vejo o azul
e um pássaro a cortar o céu
arriscando rimas próprias de um tempo
que não conhecemos:

                                 Wallace  Stevens


3.3.12

e daí você vem e me beija
me abraça e torna a me beijar
nesse movimento incerto
vem com seu canto e violão
repousa no meu ombro
em busca de abrigo
vem dormir comigo

27.2.12

o tempo resta como um apêndice
é necessário aprender a ir
para não supurá-lo
vou partir, meu segredo
preciso aprender a morrer em outras terras
logo retorno

e o amor também
será enfim a vez do nosso?

ou escolheremos os dois
cada um, um destino

23.2.12

foi numa quarta-feira de cinzas
que o meu carnaval acabou
junto dele o beijo de despedida
já não tenho forças
nem mesmo o último poema
nem mesmo você

7.2.12

sempre pensei que a casa fosse um lugar de acolhimento
e não uma prisão
ao mesmo tempo, trancava portas e gavetas
criando obstáculos para evitar
a passagem de desconhecidos
essa falsa ideia de segurança
enquanto o medo apavora aqui dentro 

durante muito tempo a casa foi apenas o quarto
onde acumulava livros, roupas e discos 
enquanto as portas e gavetas permaneciam trancadas
descobria no quarto escuro a possibilidade de não temer o mundo

portas e gavetas trancadas 
não permitiam a passagem de desconhecidos
tampouco da escrita

* escrito especialmente para you tell me | versão para o inglês Ana Carvalho

31.1.12

que eu seja sua
não por aparência
que me faça sua
quando me toma em seus braços
e que possa ouvir
sem pranto
a sua canção

que eu lute madrugada afora
pelas palavras que agora ofereço
e saiba encontrar palavras sem tropeços

que eu diga
num só gesto
o amor que se inicia
sem se dissipar num gozo
eis que desfaleço mais uma vez
e mais uma
confiando no seu olhar 
meu sorriso


se puder me possuir
como me possui a noite
romperei os céus para o encontrar
assim um pássaro 
à procura de abrigo

que não existam despedidas
nem mesmo a morte
que não me ignore
e me eleja
não apenas em busca da beleza



26.1.12

um homem, um violão
como não desejar sua boca
e não entregar meu corpo inteiro?
a alegria ronda a casa
o quarto tomado pelo calor da minha dura hora

há esperança nos versos
há delicadeza no gesto
fazendo-me mulher e pura
sorri, ao tocar meu rosto


12.1.12

linha do equador
o mais perto que consegui chegar
aqui, o sol desaparece mais rápido ao tocar o infinito
felicidades pra você, julia hansen


8.1.12

para você, meu segredo,
que tem meu coração
sem se dar conta disso
aceita mais uma vez
os poemas que ofereço?
e o meu corpo inteiro



3.1.12

O sol chega depois de muito chover
O quarto pode enfim compartilhar da luz  do meio-dia
Secar paredes
Cheiro de mofo que invade a casa
Sensação de espera

Os livros úmidos
Como meu corpo
No calor da hora
Numa noite febril

30.12.11

Só sinto o presente
Não consigo viver da lembrança
tampouco de imaginar o futuro
Só sei que é dor, quando dói
Não sinto frio
a menos que invada o quarto

Sinto o corte sangrar
quando a faca atravessa o punho
Consigo pensar seu sorriso
mas não saberia capturá-lo
com os olhos de quem olha apaixonado

É preciso que a noite chegue
e que me tome em seus braços
É preciso possuir o meu corpo, como antes
No poema, vivo a lembrança e imagino o futuro
Apenas na sua presença
se torna carne

15.12.11

meu bem,
não importa a quem este corpo pertença
se é pelo seu que clama e chora
pelas noites sem fim
pelo beijo
pela luz da manhã
a romper em versos

vem mais uma vez, vem?

na sua cama
adormeço
vem trazer a paz
abrandar a minha alma
ensaiando nova despedida

11.11.11

levamos a vida no trabalho
o corpo reclama
e a gente 
que só sabe levar a vida no trabalho
ignora 
mas é chegada a hora 
de numa cama 
dormir até acordar


ai meu amigo,
queria mesmo
depois da vida que se leva no trabalho
era em seu ombro
repousar

31.10.11

2. fragmento no bolso


o seu sorriso me transporta para o sul de Luanda. numa praia que vi quase deserta.
praia de puro sal 

onde a imensidão do mar provoca uma saudade. 
acompanhei as tardes virarem noite 
e as noites virarem dia. 

o sol, antes mesmo de tocar o infinito, se desmanchava  
como uma bola de fogo que se desfaz com o vento,
misturando no céu matizes que não posso descrever.

lá, percebi que estava sozinha. que o amor era também uma invenção 

e que apenas a mim pertencia. 
assim como os versos que por ora lia ou escrevia.
sempre suspeitei disso.

certa noite, vendo-o dormir, me lembrei dessas imagens eternizadas pela memória. 

toquei seu corpo sem que percebesse. 
e o menino, em pele de homem, abrandou meu coração,
do mais puro afeto.

nesse momento, tive medo de que despertasse dos seus sonhos
e descobrisse o meu segredo.
alguém haverá de compreender tudo isso um dia.  




30.10.11

17# do canto

1. fragmentos no bolso

Nesta manhã, enquanto tudo parece calmo, lembrei-me do seu rosto colado à janela. Você sorrindo. Era ainda dezembro e não sabíamos por quanto tempo adormeceríamos juntos. Foi súbita a sua partida. Hoje as palavras me faltam. Não sei se escreverei todos os dias como antes. Faltam-me ânimo, coragem, vontade. Um romance por fazer. Fragmentos deixados de lado. Já não mais existem gavetas e os papéis se espalham pelo quarto. Uma pequena caixa guarda cadernos inconclusos. Os livros em colunas até o teto.

Vontade de me lançar em outro corpo 
sem medo, restrição ou condições. 
Como caminhar de mãos dadas numa praia.  

18.10.11

uma canção de amor

passei a suspeitar da dor
porque era preciso
e na solidão que ela produz
encontro versos menores
para que você
apenas você
pudesse tocar

não falar das paixões
é quase impossível
o calor dos corpos na cama
a noite que se torna dia
e das mágoas passadas
dessas que deixam marcas
uma canção de amor

entrego-me completamente
despindo-me de toda vaidade
deixando de lado a timidez
lançando-me no abismo
para que o poema não morra
e da pedra
faça brotar uma flor

10.10.11



















um novo tempo se aproxima
trazendo o riso de um garoto
enquanto o vento toca a face,
vem como ninguém
deitar nos meus braços

abranda os dias com as suas mãos
abraçando o meu corpo
pois os seus abraços
provocam a minha alegria
e permaneceremos os dois
inertes
aguardando mais uma manhã chegar 

8.10.11

prenúncio 

pelo cotidiano partilhado
por todos os poemas que não pude lhe endereçar
resta nos arquivos esta canção
quando ainda sonhávamos juntos
um mundo a ser conquistado
esteja bem, que eu estarei também 








6.10.11

perco-me mais uma vez na imensidão da noite
procuro um rosto
ou o rastro do seu sorriso
e quando meu corpo encontra o seu
não há forma de controle
restrição da vontade
e me coloco mais uma vez perante o espelho
na tentativa de compreender
o que de fato movimenta sentidos e desejos 

29.9.11


meu corpo
completamente entregue ao seu
ainda assim
nos despedimos na madrugada
interrompendo o fluir da nossa existência
eu sempre querendo mais e mais
toca a minha face lânguida
e diz vem!

28.9.11

e na vida, quando a gente quis,
foi bom o tempo das conversas ao vento
da troca de sorrisos
do meu
corpo sobre o seu
 
e a lua que sempre nos sorriu
alegrou as noites sim
sem prever um fim
meu bem

procuro um amor solene
um canto para me deitar
mas é preciso que a cama esfrie
antes de por outro no lugar

ou será apenas mais um
sem que eu possa
o poema endereçar

22.9.11

álvaro de campos

li seus versos pela manhã

neles encontrei um nome
para a solidão que devora os dias

três, quatro ruas apenas

da casa para o trabalho
do trabalho para o bar
do bar para a cama que o recebe

meu corpo tomado pelo seu

permanece insone 

escreve todas as noites sem fim
aguardando a hora de dormir
e não mais acordar

15.9.11

Biografia literária (ao querido Mangabeira e aos jovens leitores)


A minha biografia literária  sofre do mesmo mal que o da maioria dos jovens da minha época que não faziam parte (nem de longe) da paidéia aristocrática. A escola me fez ler todos os livros da Coleção vaga-lume e eu li até descobrir o poema "Ismália" de Alphonsus de Guimaraens, quando começava a perceber o mundo se abrindo na estante de casa. Meu pai consumia tudo que podia e nunca fez questão de nos apresentar ou impor a leitura. Mas reproduzia em voz alta o que sabia dos clássicos, dos manuais de medicina e das ficções científicas. Desde então passei a desenvolver a escuta e perceber cada dobra do corpo no ato da fala. Ele contava muitas histórias como se fossem aventuras dele. Daí passei a desconfiar de que não nos dizia toda a verdade. Precisava rapidamente conferir nos livros todo aquele emaranhado de histórias narradas pelo meu pai. Tornei-me uma leitora esquizofrênica, catando trechos de tudo que podia ler sem que ninguém percebesse, porque havia livros proibidos para minha idade,  incluindo gibis pornográficos mocados num cantinho onde a Barsa imperava.

Do poema “Ismália”, aos 13 anos, a Werther, na juventude. Tentei compreender o que é desejar duas coisas ao mesmo tempo e a impossibilidade de realização do desejo a não ser pelo fim trágico. Essa é a tensão das duas histórias. Quanto à de Goethe, meu pai advertia que o livro conduziu, na época de seu lançamento, ao suicídio de vários jovens comovidos com o sofrimento do pobre Werther. Percebi que era preciso ler com distanciamento, o contrário disso seria a loucura. Descobri que os poetas antecipavam as coisas pra gente
e que não precisávamos ser tão literais nas nossas ações. Nesse sentido, quando não era a vida a nos dizer, como leitores a gente também amadurecia à força.


É saudável nos distanciar das "verdades" do livro e compreender que a literatura lida com a ironia. Mas a maioria dos meus amigos que liam, liam pouco, ocupados com o eterno movimento da conquista, e não estavam interessados em desenvolver sobre assuntos tão complicados, a não ser como artifício de sedução. 

Por fim, descobri a física e, ao desdobrar um mapa do universo, vi que Ismália era uma gota no oceano e Werther um ser perdido no espaço. Encantei-me com as possibilidades de ler no céu o infinito que nos aguardava. Porém, ao invés de ir pra física, fui fazer letras, para apreender um pouco mais o infinito que há nos livros. 

Um amigo dizia que os poetas só amam aquilo que escrevem e que não se importam com os leitores. 

Glaura C.
Belo Horizonte, 15 de setembro de 2011

13.9.11

talvez siga o mesmo destino dos poetas
para não fugir à regra
despertar antes que adormeça

10.9.11

Morro como meu filho no ventre
porque é insuportável conviver com a dor

Morro como quem pede abrigo

querendo apenas uma cama para se deitar

Morro como todas morreram
para nascer num poema

Morro como despencam
as folhas das árvores
com a chegada do vento

Morro para que a alegria prevaleça
como a última lembrança

Morro deixando vestígios
de uma vida ordinária

Morro como morrem os pássaros
que caem dos ninhos

Morro como quem espera
o tempo das chuvas

Morro para que ninguém saiba

8.9.11

caro leitor,

este mês faz sete anos de publicações. quero agradecer sobretudo aos que sempre acompanharam este desembaraçar cotidiano e os cuidados do Eassis, meu editor e amigo querido.


recuperei um post de setembro de 2004 que pode funcionar como uma síntese do que aqui se pode encontrar:


chega pra cá,
que eu quero lhe dizer
palavras de amor.



abraço,

glaura.

6.9.11

Caiçara - CE

 

Nesse dia havia três cães a nos seguir. Vinham na trilha e remexiam carcaças, ossadas de animais que não identificávamos. Eles vinham como a gente vinha, também em três, atentos aos sons da mata e fugindo das formigas vermelhas que nos maltratavam os pés. O caminho não era longo. Abaixávamos no entrecruzar das árvores, para que os galhos não nos furassem a face.

O destino era a lagoa, onde pudemos desfrutar da água morna e cristalina, vendo a lua e o sol ao mesmo tempo. Os dedos rosa da aurora a nos encher de esperança quando tocam o infinito. 

















Fotos de Philipi Bandeira


5.9.11

posso ainda sentir
o calor do seu corpo
e o seu cheiro
na manhã que chega

depois de me possuir 

e me beijar o rosto
já quase sem forças
desfaleço

sem suspeitar

vamos transformando
a noite em dia

se ao menos deixasse entrar

saberia o quão amoroso
se faz um encontro

4.9.11

Se um dia for para você me tomar como sua mulher
Poderá ter quantas outras quiser
Em mim
e fora de casa

Eu saberei, meu querido

Quando você se sentir sozinho
É para meus braços

que retornará sorrindo
forumdoc.bh



1.9.11

por que me tortura tanto?
quando muito peço apenas um sorriso
amor solene
e por isso resiste
mesmo quando você vai embora
sem dizer até logo

por que negar?
se tudo é como um sonho
de quem espera para ver a moça passar
e ensaia, em frente ao espelho,
o momento certo
mas nunca é o bastante

por que nos torturar?
como o vento que agora faz curva
batendo portas e janelas
grita e ri alto o meu destino
sendo ingrato, eu sei,
como todos os homens
coração de pedra

25.8.11

nesta vida mergulhada em versos
sigo com palavras sem retorno 
e não consigo compreender
um olhar distante

parece... apenas parece
que Hilda está comigo
e antecipa, como em todas as manhãs,
aquele que virá me visitar

sobre tudo aquilo que sinto

nem sempre procuro
mas quando encontro
crio formas simples de dizer
o amor que imagino por você

(do livro: noite infinita)

24.8.11

III

e agora, meu caro amigo
o que fazer com isso?
tão rápido não valeu a despedida
e o corpo que lhe deu abrigo
esperando pelo seu
na insônia que ronda o quarto

razão esta que me faz escrever
versos ainda mal curados
na esperança de compreender
o mistério que há entre o desejo e a vaidade

mas se fecho os olhos, ah...
é só você que eu vejo
quando a lua começa a sorrir com ironia
parece querer dizer
sou toda sua, mulher e poeta

20.8.11

II

como descrever uma alegria?
o beijo doce de um poeta...
as horas até o dia amanhecer
meu corpo, ao encontrar o seu,
sonha intranquilo
na busca de um sorriso

e este corpo recebe o seu corpo
na esperança de abrigar palavras
que poderia ignorar
como se ignora o tempo

só que às vezes simplesmente
bastava dizer um ao outro
o desejo de fazer durar
tento tornar a insônia produtiva. sei que tenho que levantar, acender a luz, procurar lápis e papel, achar a razão do poema. mas a razão permanece no corpo imóvel. que busca, com o pensamento, ordenar frases. o corpo se nega a acender a luz. mesmo sabendo que, se não o fizer, amargará por não deixar fluir as notas que ofereço.

a lua sorri mais uma vez com ironia, enquanto Pessoa nos rouba os sonhos. os mesmos que permaneceram guardados, para que apenas você pudesse tocar.  somente pela manhã saberemos. a cama do poeta é um bom lugar para se deitar.


(para o grave)

15.8.11

o que dizem os pássaros

I

na minha solidão
ouço os pássaros conversarem
e eles dizem de um tempo distante
em que toda a dor se dissolveu
para dar abrigo a este corpo sobre o meu

e é neste instante
embalado pelo som de um trem
quando a vida parece mesmo possível
que você sorri e diz vem

não importa 
quem não compreende
a conversa dos pássaros
e este canto todo seu e meu

11.8.11

Llansol:

Quantas vezes os nossos olhares se trocam. Quase sempre, vão e voltam e, quando não voltam, quantas vezes nos esquecemos de libertar o segredo da posse. E é de propísito que o fazemos.

Sabemos que em nada nos podemos mentir e, mesmo mentindo, o outro conhece a verdade e acredita na mentira que estamos trocando. E não é por mal. 

a Ela você pergunta:

O quanto se pode mentir quando a escrita é mais importante?

Llansol: 
  
Quantas vezes sabemos que a alma está pairando no rebordo dos dedos pousados na mesa. E continuamos como se não tivéssemos a alma que, de facto, temos. 

E me diz, olhando o horizonte:

Vejo um jardim magoado







9.8.11

já é noite
daqui a pouco vem o sono
a espera de que o dia comece mais uma vez...

pela manhã, uma xícara de café 
para que os ânimos se renovem
à tarde, como todas as tardes,
com o sol ainda quente
tomaremos algo gelado
para que o calor não nos derreta a alma
a noite chegue
depois o sono
e a espera


6.8.11

António Lobo Antunes

Os relógios
A casa de Bergman
Também o peso de papel
Uma imagem da infância
                                Kane
As tias a rodopiar pelo assoalho
como bailarinas na caixinha de música
                                                 Mozart

Então é assim que se escreve?
Pousar a caneta no papel
Fazer correr as palavras
Repetir, repetir, repetir
Deixar que o tempo se encarregue do resto
Escrevi em outros tempos versos amargos
Era raiva, quem sabe
Mas o amor parece mais forte do que a morte