17.9.10

De Angola trago um vestido, uma rosa, uma pequena escultura

Na esperança de ver novamente seu horizonte

Ouvir seu canto

Tatear o seu ar

Relatar seu pranto



Das viagens que ainda não fiz

Circuladas no mapa

Já se tornaram saudade

De tempos ainda não vividos

De livros ainda não lidos

Poemas ainda não escritos



A árvore centenária guarda seu nome

Guarda você

E estes versos 

(anotações de viagem, diário sem data)

14.9.10

Sinto nostalgia do tempo em que escrevia no sobrado da Serra
A atmosfera do escritório, os livros na estante
Os galhos das árvores na janela imprimiam um ritmo incomum
O vento fazendo curva na Oriente
Os gatos da vizinha empoleirados


Era feliz o tempo em que os amigos lá iam
E fazíamos festa
Tudo passou pela sala escura

O tempo hoje é um florescer contínuo
Não cabendo mais a melancolia
Tateando as letras
Procuro uma imagem escondida
O sorriso de agora que não posso revelar 


para Nica, Edu e Garro

13.9.10

Memórias I


Ela fez as malas. Buscou colocar na bolsa alguns pequenos objetos da casa que tinha mais afeição. São apenas objetos de porcelana e metal. Lembranças de viagens escassas. Olhou para dentro de si e viu um mundo precário.  Um passado estilhaçado. O pai, um louco adorável, nunca soube que ela chorava escondida atrás da porta do quarto. Desde então, quando o quarto não conseguia abrigar sua alma, procurou descobrir esconderijos pela casa. Passava horas no escuro contando até mil. Adormecia. Inventou uma realidade paralela. Jogos de enganar a solidão, de enganar a morte. Sempre temeu a morte. O pai repetia insistentemente que o mundo não valia a pena. Ela tinha apenas seis anos quando perdera a ilusão, se dando conta das paixões febris que tornavam este mundo doente. Procurou se encontrar na noite sem fim. Abandonou os esconderijos e mirou o céu.  As estrelas pareciam lhe sorrir. Primeiro achou, pelas histórias que a mãe contava, que eram as pessoas que morriam e que lá estavam felizes. As três Marias haveriam de andar sempre juntas.  A maior, Estrela Dalva - cujo brilho ofuscava os olhos. Depois descobriu que eram corpos celestes, que poderia passar por dentro delas, que Dalva não era estrela, que se chamava Vênus, e que a vida era finita. Não se reconheceu no universo, imaginou a própria morte, viu seu corpo tornar poeira fina, dessas que o vento carrega. Tocou na terra e viu que de lá surgiam pequenos insetos, todos eles trabalhando independentemente dela, de seus medos. Mirou as árvores, os pássaros, as vespas. Sorriu com o dia. Esperou a chuva e se viu novamente sozinha. Na estante de livros se deparou com os clássicos, também com as imagens que narram a história da arte. Reconheceu-se fascinada pelas figuras antes das letras. Aprendeu a decompor as cenas. Com o olhar aguçado, tomando para si as particularidades da vida, começou a desvendar os horrores e maravilhas da realidade que se faz nos livros. Voltou a se esconder na solidão do quarto depois de descoberto que podia escrever, escrever, escrever.  O relógio marcou a hora de ir. Não olhou o entorno. Esqueceu o caderno, esqueceu do último poema. Fechou o passado em ata.

2.9.10

Ruy Duarte de Carvalho

                                     
Marquei no mapa um lugar
onde o tempo demore a passar:
Namíbia.
Suportarei o deserto?

Amor ao vento

que balança o véu
que cobre o seu rosto

As cartas são afagos

Seu canto
para ser lembrado



para o Zetho 
que muito sabe desta vida 
pela carta enviada ao amigo 
por compartilhar sua Angola comigo
 

1.9.10

das imagens que ora carrego
o corpo de uma jovem
derretendo no chão de agosto

a ideia primeira
a mão pendida 
o sopro do vento

ela tem os cabelos claros
um sorriso amável
uns olhos desconfiados

a culpa que carrego comigo
não saber distinguir
rumor de grito

a carta*

por que eu haveria de apagá-la?
por que preciso apagá-la?
tão lindas palavras me chegam
com o vento nesta tarde de calor
como é lindo poder ler você

que amor é este entre os homens?
que amor é este que se encontra
entre as flores que caem das árvores
e o rio cuja margem não se alcança
só sei fazer poemas, minha amiga
e hoje quase desisti

eu me sinto enfraquecida
triste e risonha

*para Nica
toda palavra é crueldade
a palavra fere

(censura e dor)

no amor
não há miséria

no silêncio se faz
um filho

29.8.10

foi em agosto

é estranho voltar ao bairro da infância
tudo parece familiar
ao mesmo tempo distante
 

os doidos do bairro
são os mesmos doidos
cada vez mais doidos
 

minha mãe a lhes dar comida
eles a agradecerem a Deus
ao Sr. Nosso Jesus Cristo

estamos a envelhecer

como antes o velho padeiro e português
ou o espanhol da casa verde

estamos a envelhecer, amiga

já se passaram anos...
ainda não nasceram os filhos

tudo igual no bairro da infância

e você como uma estrela
que do céu ri da nossa sorte

23.8.10

Eassis

na caixa de correios
um cartão
o cartão de um amigo
triste a distância
este estar sozinho?

dos afetos

que vêm e vão
vez em quando, a alegria

doces tardes de agosto

cuja luz (que luz!) não tem igual
e o frio que timidamente vai nos deixando
não tarda esquecido

o tempo está seco

mas o amor floresce
como as flores vespertinas

meu amigo,

você é um querido.
Van Gogh repousa
entre as estampas e memórias 
daqui a pouco
nos encontramos para uma cerveja
quiçá um jogo de cartas?



19.8.10

a vespa e a orquídea

5#10

entre seus olhos
o meio
nosso amor é rizomático
não tem início nem fim
sempre em vias de se fazer
no infinito

você atravessa em mim
desejos segredados
eu em você sou vespa e orquídea

no rio
roendo as margens
adquirimos velocidade no meio

o filósofo diz:
faça a linha e nunca o ponto

o poeta diz:
o mundo do rio não é o mundo da ponte


o que é o amor?
justo onde ele se esconde

16.8.10

A noite infinita

4#10


Meus olhos procuram os seus na noite incerta.
Ao encontrá-los buscam,
escondido atrás da árvore dos enamorados,
o abrigo dos dias felizes. 

É tão puro e simples aqui dentro de mim.
Como mergulhar os pés em água morna e sal
para lavar o corte.
Ou cobrir o rosto com as mãos
e reaparecer logo em seguida. 

Negra noite sem fim. 

Meus olhos que procuram os seus
são olhos de avenca.
Encontrando seu sorriso em cada uma das nossas manhãs.
Pudesse não permitiria que existisse a dor
ou que nenhum mal alguém lhe fizesse.  

Meu bem, durma um sono tranquilo.
A chuva renovará o ar
e a esperança de uma vida mais sincera.
A você uma flor e os meus encantos. 

Um bom dia vem quando menos se espera.

9.8.10

Sentados na Irlanda

                                                      Para o Eduardo Assis     

Nem sempre o que eu escrevo
é o que eu escrevo
Às vezes é exatamente o sentimento atravessando a alma
Como uma lâmina afiada
Por vezes, a evidência de uma voz alheia
Um grito
Quase sempre blefo
Como num jogo de cartas

Aprendi a ganhar muitos feijões no pôquer

Fingindo não saber jogar
A tabela de combinações ao lado
Não é que as cartas me saíam por entre os dedos?
Pousá-las uma a uma
Requinte de sarcasmo
Ai como é gostoso o gosto de cerveja...

Alguém está na Irlanda

Vagando pelas ruas
Se perdendo nas livrarias e cafés
Procurando uma mesa, alguns feijões
Cortando o baralho em três
Quem me ensinou a blefar


6.8.10

Maria Madalena

Sentirá a pedra rasgar a carne
Sem a intervenção de Deus
Sob tortura,
Não há quem resista em silêncio
Prevalecerá a versão do algoz
 
Engana-se quem acredita aqui ser diferente 
Com a faca o carrasco corta a carne,
Divide as partes e as redistribui
Da ferida escorre um líquido quente 
A liberdade um ato de lograr?

5.8.10

A loja de quinquilharias

A porta do vizinho sempre estava aberta
Nunca precisou tocar campainha
Ou gritar no portão
Quando dele necessitava algum aviamento
Era só entrar, escolher, depositar as moedas na registradora
Um dia, havia apenas um corpo no chão
Fora a imagem mais forte de então

Recuperei esta imagem
Ao ouvir o trem nesta manhã de sol
Estendendo as roupas no varal

Pensei na sorte
Olhei para o céu
A luz acariciando a face

3.8.10

Da infância*


Olhar para o passado
Remexer em imagens que julgava extintas
O porão da casa guardava mistérios
Já não sei se tudo ali foi real
Ou se invento na parede branca

Era bom o tempo da infância
Da alegria de viver no quintal,
Caçando minhoca e tatu-bolinha,
Guardo a imagem de uma tarde ensolarada
Duas crianças felizes
Colocando fogo nas bananeiras
Três jovens aflitos
A apagar com baldes e mangueira


Seria bom se tudo de ruim fosse apagado
A escrita ganharia mais leveza
Missão do poeta
Não poupar quem quer que seja

*para meus quatro irmãos

2.8.10

Pensei na morte?
Tardes melancólicas
Embora o céu esteja limpo
Queimei o braço com o ferro
Feri com a faca o meu peito
Marcas indeléveis
A impossibilidade de congelar o tempo
Por isso eu canto


para meus pais
diante de tudo que passou

31.7.10

da beleza e da amizade


                                        
Seu sorriso ante o inesperado 
A alegria de viver surpreendido
Imagem que não se apaga
Um mergulho no lago 
Três homens nadando
Todos lindos, selvagens e amigos

                                       
Lindo é olhar para o horizonte
E se perder no infinito
Ter o sol e a lua ao mesmo tempo
O vermelho da tardinha
E o azul da noite chegando

                                  
O rosto de um menino
A vida nos olhos dele
Quanto tempo mais
Para reafirmar esta beleza?
É olhar para ele
E o coração inflama

Obrigada aos três!

29.7.10

Se o amor não tardar



O céu está turvo
Mas a lua resplandecente 
Uma aura em torno dela
Eu me sinto tão pequena 
Ao mesmo tempo gigante 
Ao olhar pra ela

o dia e a noite


3#10
Percorra em mim
Com as mãos firmes
Renovando o ar desta manhã
Com seu líquido viscoso

Deita sobre meu corpo
Sem que eu perceba
Somente em seus braços posso sentir
A minha dura hora


Procuro em seus olhos
A imensidão da noite
Busco tocar seu rosto
E não esquecer este presente inconfesso 

18.7.10

Da noite que restou

2#10


Nosso futuro incerto
Buscando a estranheza da noite
Seu perfume na manhã
Guarda o que ontem se rompeu

O olhar de um para o outro
Sentindo, suspirando
Afaga, afaga o meu corpo
Mergulhando no orvalho
Que de dentro da minha alma
Vem surgindo devagar

Flor da noite


1#10

Em seu coração de pedra pousa uma flor
Cabe a você acolhe-la como uma flor
Que repousa em seu coração de pedra
Sem lhe pedir amor

Em meu coração escrevo com a pedra
O primeiro dentre muitos poemas
Cabe a mim recebê-los
Sem lhes pedir a dor

17.7.10

para o anônimo

não costumo revelar aqui a intimidade
não gosto da ideia de um diário
mas este encontro celebra um momento histórico
que merece fazer parte desta tempestade
mais de 10 anos celebramos ao som de Pedrães
escritores, poetas e músicos
não importa






























16.7.10

Sabe o que eu quero
Ser uma grande poeta como Hilda Hilst
Construir minha casa do sol no mato
Lá viver com marido e filhos

Antes, vou ganhar o mundo
Ter muitos amantes
Cada amante um livro


14.7.10

do tempo que se espera um canto

                                                      para Luiz Gabriel

O tempo mais sincero é o da infância
Depois nos debatemos
Tentando encontrar as palavras que julgamos certas
Cansei de esperar...
Se são palavras, apenas palavras,
Como haveremos de lhes dar sentimento?
Sua voz vem chegando sobre mim
Atravessada por seu canto
Você me faz sentir as primeiras horas desta manhã
Como ontem e anteontem 



13.7.10

sou ave de rapina
perdida em mim mesma
procurando o sabor da carne
nas palavras e nos sentimentos do mundo
escrevo tão rapidamente
posso sentir os dedos sangrarem


é dor
 

penso todas as noites
no dia em que nos tornaremos
fotografias deixadas sobre a mesa 

penso na verdade do mundo
no que agora me tornei

imagem

para meu pai

10.7.10

um poema por uma imagem

Quando ele chega
Vem de mansinho dar um beijo
A mão tocando a pele
O sorriso se desmanchando no rosto
Esta é a história que se quer contar
Dos corpos que se encontram na noite
E caminham sem pressa  
Rumo ao infinito 


















foto: Ana Carvalho


9.7.10

Perguntar pela razão das coisas não conduz ao imediato encontro da resposta.

Jean Rouch

 

 

 

5.7.10

as chaves entregues
o encontro onde tudo começou
no fim da noite
eu me vejo condenada à solidão
à melancolia pontuando o poema
à saudade de um tempo bom

está tudo tão triste agora
o futuro que nos guarde para sempre

29.6.10

O silêncio em Beckett

Sentirei a intensidade do vento à sua porta
Aguardarei o sol
Esperarei por toda a eternidade
Movida pelas paixões
A minha força segue em direção ao infinito
                                                                                                                      
Adentrarei nele
Inteiramente
Sentirei as primeiras horas da manhã
Torcerei o pulso, tocarei com os dedos a face
                               Beckett me acompanha

Meu impulso é sair pelo mundo
À procura do seu corpo
Em mim habita um sentimento fecundo
Mergulhado na noite
Encontrando o vazio
A lua desaparecendo atrás da montanha
O dia trazendo mais uma vez a luz que incidirá sobre os lençóis 

Tive uma revelação quando pequena
Repeti insistentemente o meu nome
Gritei abafado
Até que se tornasse apenas o eco de um nome
                                                                              Aura
Descobri que o primeiro não me pertencia
O pavor tomou conta de mim
E vi perder no tempo a inocência 

Passei a prever o futuro
Suspeitei da realidade
Sei o que é quente
o que é frio
o que corta

No mais, vejo e sinto tudo como num sonho
Tenho medo de acordar e deixar de acreditar na vida
Já sabe e tem a minha alma
O quarto preparado para os dois 


para os amantes

28.6.10

Words and Music

By passion we are to understand a movement of the mind
pursuing
or fleeing
real or imagined pleasure or pain


S. Beckett


27.6.10

a propósito de três

um vai pra irlanda
o outro se tornando alcoólatra crônico
(criando uma barriga igualmente crônica que não errará mais pela cidade)
o que será desta aqui com o trio repartido?
abandonarei a pretensão de teórica, pelo menos por um tempo
mas não a de poeta

vou ver um jardim

24.6.10

Tenho lido Álvaro de Campos
Tudo muito terno e triste
Se tudo continuar assim
Eu me interno no exílio de vez

23.6.10


três coisas me maltratam
o tédio
a inapetência
e a burrice

20.6.10

parênteses

O que me atormenta é o fato de algo tão simples não vir à tona
Passo os dias em frente a um texto que não acredito
Uma forma de dizer que não domino
O tédio invade meu ser
Tenho fadiga
Meu peito está ferido
O projeto de uma tese é a pior coisa que se pode desejar para um poeta
Mesmo assim não vou pular do quarto andar

11.6.10

Ele respira devagar
Beija como se fosse o ar
Não revela os sentimentos

Ela tem uma dor
A imagem de um corpo jovem
Arrastado e jogado no vazio

Não permite que ele adentre
Ou descubra
O segredo de sua alma

Deseja simplesmente as manhãs ensolaradas
E o perfume dos corpos nus

Mantém-se calma e bela
Quem sabe a claridade possa entrar por uma pequena fresta


7.6.10

Nunca quis um poema altamente biográfico
Mas às vezes a escrita trai, como o pensamento
A imagem da nossa história é a de um almoço na relva
Solene, amigo

Meu querido, perdoa este corpo que cai doente
Preciso ganhar o mundo
Antes que este mundo me devore

Os poemas procuram agora o sabor da carne nos dentes
Seu nome resguardo
E guardo para sempre

8.5.10

ARQUIVO

Das imagens do nosso tempo
Uma flor, um rio, um caminho


Ele, o cineasta, inspirou meus dias
Como quando olhamos para o céu
A fim de cegar do azul
Não era para estarmos acordados?

O anjo disse uma vez
Que nos guardaria a todos,
Que nos guardaria de nós mesmos
Para toda a eternidade

Que venham então
As árvores
Os pássaros
O vento
Imprimindo nossas manhãs com a palavra
Amor

Tantos quantos forem os dias
Melhor para a arte que pretendemos
Melhor ainda o sono (que não nos falte)
E com ele as imagens
Lembraremos de tudo ao acordar?

ARQUIVO
(para Ana Carvalho – do aniversário de Janeiro)

1.5.10

o vinho é o elixir da verdade
disse o poeta uma vez
mais vinho para celebrar o poema!
que nasce de dentro dos porões da mente
eis que embriagados rimos felizes
eis que uma lágrima corre melancólica
sobre a face

25.4.10

A insônia tomou conta de mim
Ouço o barulho da casa
A respiração do vento
Você vem e me diz para eu dormir
Prefiro sentir o hálito frio
Das primeiras horas da manhã

11.4.10

EMILY DICKINSON*

Estou no exílio, eu sei
Cada dia abro um livro diferente
Apostei que deles sairiam alguns versos
Não meus, nem seus
Ao mesmo tempo tão meus e seus
É que… alguma coisa
Por entre os dedos escapa

Escolhi quem deveria receber
A primeira leitura desta manhã
Encobrindo, no entanto, seu nome
Das vozes alheias

Há quem procure opulência, acúmulo de metáforas
Há quem queira apenas uma mesa farta
E livros na estante

Se o meu Riacho é fluente
Há de secar –
Se o meu Riacho é silente
Ele é o Mar –

Que cresce. Em meu espanto
Tento escapar
Para um (dizem que existe) Canto
Onde “não há Mar” –


*para Nica, Quel e também Mará, pela tarde de sábado
pelo amor e amizade

17.2.10

Carnaval que não foi

O carnaval que não foi
Deixou saudades
Mas a vida vai seguindo
Ao sabor da carne nos dentes

Gosto de cerveja
Nesta quarta-feira de cinzas
Na mesa, uma toalha bordada
Um prato de bacalhau

4.12.09

Forma e conteúdo

Em meio aos cacos
Daquilo que restou de quatro anos
A casa perde seu brilho
A embriaguez dos dias, o gosto pela escrita
Foi numa tarde em que a tinta ainda cheirava fresca
Que pude ver um céu azul-azul
Embora comprometido pelos prédios
Vislumbrando o frescor de cada manhã e alguns versos
Sapatos a recortar o piso em noites de festa
Muitos risos e também choro
Hoje, tropeçando nas caixas,
Vejo a vida se resumir a rótulos de frutas, vinhos, enlatados e brinquedos...
A caneta indica o conteúdo,
Numa catalogação imediata
Tudo no mesmo, na mesma caixa?
As verdades do mundo reduzidas a um espaço mínimo
Subdivididas em livros e bolsas, livros e casacos, livros e retratos, livros e músicas, livros e filmes, livros e bibelôs
Parte deste cotidiano improvisado
A janela ficando entre as árvores
Eu a imaginar árvores
Sensação estranha de poder ir para qualquer lugar
Os versos vão deixando a casa em busca de outros
Para além de uma goteira infinita no centro da sala

14.11.09

O tempo há

Sei que parece impreciso
Ao invés de um beijo, um sorriso
Mas se em você posto esperança
Em mim também não digo
Impedidos de amar
Esse amor que vai distante...
E se encontra num sonho

8.11.09

Dos lugares que permanecem*

Gosto do tom azul do quarto
Da cozinha vermelha
E da sala escura
As ruas que me deram palavras
São apenas ruas
Se tornando minhas, enquanto caminho
Os adornos das casas deixados para trás como entulhos
Entristece a vista

Os olhos se voltam para o oeste agora
Um centro comercial,
Muitas placas que não exibem o mesmo charme luminoso dos filmes noir
Aos poucos aprendemos a andar sob um sol impetuoso,
Sem árvores, nem pássaros
Nem flor, tão breve,
Ou só flor, simplesmente...
A serra se tornando memória
Lá, um chão de mosaico para refrescar os pés em dias de calor intenso

-----------

*para Ronaldo

19.10.09

no meio da confusão
dos dias sem fim
eis que me vem um canto
uma deliciosa surpresa

das saudades...
nem me fala!


quanto à glaura (a dos poetas)
tem nome de flor que não existe

16.10.09

Mulher de sombrinha na esquina
Neste fim do dia
Aguardando a chuva que ainda cai tímida
Fui buscar a câmera
Porém, o quadro já não era o mesmo
O que restou da imagem
O verde da cor

19.9.09

Sobre a impostura

Li Decamerão aos treze anos de idade, longe do olhar corretivo dos pais. Aos domingos ia à igreja cumprir com os postulados de uma educação católica. Meu pai, um louco indomável, minha mãe, uma mulher sóbria. Embora a vida precária, nunca nos faltou livros na estante. O rearranjo não seguia um rigor bibliográfico, visto que nunca pertencemos à aristocracia. Boccaccio ficava ao lado de Goeth, Flaubert, Baudelaire, Hesse, Miller, Melville, Eça. Já os clássicos da literatura brasileira ficavam numa prateleira acima: Assis, Ramos, Rosa, Nava, dentre outros tantos cuja lista soaria pedante. Não me recordo de haver escritoras, que só me chegariam mais tarde: Hilst, Telles, Lispector , Duras, Wolf. Talvez por isso tenha desenvolvido um humor ácido. Depois descobri por conta própria uma série de outros autores e autoras que atravessariam o meu corpo e a minha alma a tal ponto que, se não menciono, é para não revelar gratuitamente referências tão caras.

Durante as homilias pensava em Decamerão e me perguntava se as coisas de Deus poderiam ser assim tão chatas. Depois verificaria que se tratava de um problema de tradução e que Deus resguardava sua glória também na impostura. Talvez tocasse mesmo bateria num grupo de jazz, como alegou o Lobo.

Para uma filha de Deus que conviveu com bêbados e loucos somente a impostura recuperaria a redenção diante de um mundo tão avarento.

Já não me recordo da estrutura decamerônica. À capa do livro falta um pedaço. Penso se posso descrever com precisão ou se apenas invento repetidas vezes, na parede branca, a famosa passagem em que os jovens se sentam para contar e escutar histórias. A pintura me pareceu mais objetiva. Também me recordo vagamente das homilias. Estas me retornam em sonho. Como a passagem de Maria Madalena que nunca me saiu da cabeça.

O que avassala é a culpa que a fé cristã nos faz carregar. Mais avassalador ainda quando lidamos com pessoas desprovidas de fé. Não que devamos ter fé em algo divino, muito menos no homem, este ser tão tortuoso. Porém se torna fácil, não tendo fé, impingir regras, imprimir dogmas particulares e uma culpa semelhante à imagem do filho de Deus na cruz. Fácil distorcer um apelo. Ou detratar como loucura. É preciso ler as palavras que nos chegam sinceras.

Temendo pela reputação, alguns mantêm a vida como uma grande plantação de tomates. Aquilo que não serve, deitam fora.

Chegarão a artistas?

Já os escritores, sendo mentirosos, são mesmo uns loucos, uns malditos, proferindo aquilo que os atormenta.

Mais vale um sorriso. Nada em troca.

Acúmulo demasiado de energia e verdades

quando muito

deveríamos estar vendo as estrelas deitados no quintal.

8.9.09

tarde com o vento

pensar, pensar, pensar...
fazer, fazer, fazer...


palavras ditas a ela
ela seguindo seu destino
que bom nos encontrarmos novamente
numa noite de domingo

adoro ler-te

o tempo se aproximando dela
queria ter estado com você mais uma vez
acarinhando a face
as folhas caíam das árvores com o vento

há muito não lhe dedico um poema,
mas o farei em tempo
se aqui já não é,
será com o quebrar das linhas


para carolina junqueira

7.9.09

sob a imensidão da noite*

Encanta-me caminhar pelas ruas do bairro
Ver os adornos desencontrados das casas
Os portões perdendo a tinta
Sentir a luz do poente
Tingindo de vermelho o topo da montanha

Certos de que estamos envelhecendo
Mergulhados na imensidão da noite
Deitamos café na xícara
Observando as primeiras constelações

Descobrir-se na noite
Na insônia pessoana
Nos versos que agora devoramos
Por onde andou que não me viu em sonho?

Seu olhar, seu silêncio
Imagens que correspondem a este cotidiano
Enquanto a janela recebe a primeira luz da manhã
O corpo ainda insone
Vasculha o que restou

Na mesa onde tomou nota
Repousa uma flor

----
*para o encantador (E.E.)

28.8.09

Tempo de embriaguez

Olha a voz que me resta, minha alegria
O coração
Um pote até aqui de mágoa
A gota que falta, meu coração,
Não

10.8.09

Uísque

quantos copos eu ainda hei-de beber?
se caminho assim desgovernada
e a você posto versos de outrora
ah! quanta lida
quanto amor pelos livros que ora devoro

descubro tardiamente fragmentos de um passado inconfesso
o tempo desperdiçando as horas
queria dizer, mas não tenho boca
meus olhos aguardam os seus
o dia a clarear os lençóis
a você trago uma rosa

6.8.09

El paseo*

A esta altura
a vagar pela cidade
Sem nenhum entendimento
Não dando conta do valor que aos poucos se agrega à vida
Sem saber se o dinheiro chega ao fim do mês
Sem compreender de fato os procedimentos teóricos que me cercam
Achando tudo um grande engodo
Forçando para que faça algum sentido

Ao passo
Tortura a escrita
Por não ter algo que valha tanto a pena

Enquanto aqui caminho
Dispersando palavras
E a ti vejo longe, como uma pintura antiga
A parede do meu quarto perdendo o tom azul
Os sonhos de outrora
Uma estante sem graça
E uns restos de poemas mal passados a limpo

Cortázar caminha por Paris
Olha Paris
Erraticamente descobre fragmentos
Corpos que passeiam,
A música que se faz ouvir,
O sorriso da bela jovem no café de Montparnasse

Eu aqui neste meu horizonte limitado
Ah! Cortázar
Entre as montanhas a me sufocar os versos
O vinho a descer goela abaixo
A ouvir Coltrane

-----
* para meu editor

25.5.09

Hilda*

Que seja alcoólatra e desbocada como HH
Mas que não falte a beleza
Dos amantes...
Ah! Como soube, com o mais puro gesto
Versos impagáveis

Que dela herde a escrita eloqüente
A pura lucidez e franqueza

Merda!

Depois o gozo

Desapontá-la talvez
Chamaste de parnasianas as poetisas
Então, infeliz da personagem inventada?
Acreditar no amor, nos pássaros, no vento
Melhor para a poesia destes tempos


---------------
*para Viola

17.5.09

regozijo

No corpo a inscrição do nome
A faca a atravessar a carne
Em estado febril não se distingue sonho de realidade
O suor a molhar os lençóis

4.5.09

ao ler Michel Foucault

O que me conecta ao amolador de facas?
Seu chamado ritmado
Som a cortar o ar
O código a ser decifrado
O fato de ter facas?

Fou-cault

12.4.09

Uma canção para José Luis Braga*

O seu canto é tão bonito
que a manhã chegou
com o sol na minha janela

O seu canto é tão bonito
que o vento trouxe
o amor, então, não se acabou

O seu canto é tão bonito
que a hora chegou
e é hora de levantar

O seu canto é tão bonito
que atravessou o dia
e já é noite pra descansar

Seu olhar é tão bonito
que encanta meus sonhos
E sonho mais uma vez com sua voz

A tocar os dias
toda manhã

é de manhã
...

--------

* José Luis Braga é integrante do grupo graveola e o lixo polifônico – música que inspira o cotidiano da poetisa. Esta canção ou poema é um presente de aniversário para o Zélu.

28.3.09

António Reis e Margarida Cordeiro*

A poesia que imprime o cotidiano
se faz carne
Não lubrificar as dobradiças
Primeira regra do poeta

A tábua a ranger
emite um som familiar
Janelas a bater com o vento
Passos em volta

Casas velhas, empoeiradas,
o mofo a corroer os lençóis
Poeira fina cobrindo a cômoda

A esta hora da noite
nem querosene, nem velas

Separa as partes rente ao osso
Pão, vinho, e um pouco de mel
No preparo do jantar

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* Para Ribão, para Nica, por uma proposta cinematográfica

23.3.09

Quantos poemas endereçados a você haverei de escrever
E nunca se dará conta disso
A não ser que alguém o diga
E eu negue eternamente

16.3.09

Lisboa

Saudades de estar no estrangeiro,
onde não é necessário explicar tudo.

2.3.09

POR ENTRE AS FRESTAS*

No pátio de um convento, uma freira surge por trás de uma porta, emerge do fundo da imagem, caminha e toca o sino.
No plano seguinte, o longo corredor tem suas portas abertas, uma a uma, sob o repique do sino no fora-de-campo, sob o som dos passos das freiras.
'Ave Maria', diz a personagem como quem saúda o nascer do dia, o nascer da luz que se imprime no anteparo sensível do cinematógrafo.
Quando as portas se abriam ao tempo, o som já habitava o fora-de-campo.**


O trecho acima se refere a um filme do cineasta francês Robert Bresson, mas poderia ser um excerto de romance.

Um romance no qual a linguagem cinematográfica já faria parte do vocabulário do leitor e as imagens textuais dialogariam entre si à maneira do cinema.

Não quero com isso confundir as duas experiências.

Apenas lembrar que CINEMA e LITERATURA conversam,

por solicitação, por empréstimo (GODARD).

Ninguém irá discordar que há um aspecto formal na obra de alguns cineastas atravessado pela escrita. Como a espada no peito de Píramo a tingir de vermelho as amoras.
Como o instante da dor (que não cessa) ao ver/não ver o amor dilacerado pelos leões.

Amores impossíveis.
Cheiro de gás (CHANTAL).
Uma mulher sobe até o terraço e vê o corpo pender.
Outra lamenta seu amigo.

BALTHAZAR, BALTHAZAR

Rigor e silêncio.


Ler é ler.
Há quem acredite no saber enciclopédico. Já os amantes da conversa ao vento passariam anos com apenas um trecho de romance no bolso, ruminando-o, imprimindo ambiguidade no silêncio. 

A espada, o sangue, o tempo das amoras.

Imagens a se dissolverem no instante em que se abandona o livro.
Imagens a fixar em nós uma experiência indecifrável. Quando indeléveis.
Imagens frágeis como os mortais.

Em tempos de guerra, onde andará a ternura?
A incomunicabilidade a produzir fins trágicos.

Sagas, odes, trovas, cantigas, escárnio, fingimento
Há quanto tempo não dormimos?

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*para Pedrinho, cujo trabalho me inspirou o dia
**Pedro Aspahan, “Entre a escuta e a visão: o lugar do espectador na obra de Robert Bresson” (2008).

5.2.09

Ao menos uma vez

No cair da tarde
A luz incide um verde oliva
Incrivelmente posso tocar a cor
Mas não posso descrevê-la

1.2.09

daqui sai um poema, quem sabe?
carregado de afetos
mas o livro que me aguarda,
tem opinião contrária

30.1.09

Das inseguranças do poeta
Já disse um dia o catador
Três palavras incompletas
O amor desta vez não dá

9.1.09

Chuva de temporada*

Meu doce amigo
Estamos aqui,
Eu e você,
Embriagados nesta noite
Sem perspectiva de mudar o tempo
Distribuindo baldes pela casa

- Mas o calor não tarda
- É... Amanhã fará sol
- Com cerveja


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*Para o Rafa e o Grave

5.1.09

Do cotidiano da entomologista

O cotidiano que o anônimo julga interessante pode ser simples e patético.
Então, resta sorrir entre parênteses?
Assim quando se acorda depois de uma noite sem pesadelos.
O cotidiano pode ser leve ou árduo,
como o amor ou a escrita.

Passando dias sem arrancar um verso, uma frase que seja, a poetisa levanta as têmporas diante do espelho.

- Merda!

Metáforas são fáceis.
Deliberá-las sem trava, crê, não é tarefa da poesia deste tempo.

Mas que tempo é este?

Muitas vespas a invadir a casa nesta noite.
Depois das chuvas que alagam ruas e avenidas,
o sono a despencar as pálpebras,
pura lama.

Jargão e superficialidade
O cotidiano dos jornais e suas tendências
Um rio que volta a transbordar
Um corpo, seis tiros, o caso arquivado
A faixa dividida em três ou mais
Dez dias de conflito, mais de 500 mortos, milhares de feridos
Um time de juniores vence um de seus adversários
E um ator estrangeiro às voltas no Rio de Janeiro

30.12.08

Canção de ninar*

Entre o sono e o estar acordado
Penso frases que me são caras
Jamais irei reproduzi-las tal qual se processam em mim
Porém, se as ouço apenas e não escrevo
Uma insônia absurda toma a mim o sonho desejado
Da cama à caderneta, o que se perdeu?
O pensamento mais ágil do que os dedos
Uma laranja para a digestão
Amor embalado por uma canção de jazz
O menino dorme

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* para Matias Monteiro, às 5h da matina

27.12.08

De cartas e canções

Poderia endereçar a você todos os poemas
Mas o que nos separa
A idade, a monogamia?

Atingir com palavras
Este sentimento comum que atrai os homens
(Amor)
Ouço sua voz, um violão
Ouço amargar uma espécie de solidão

A noite garoando inteira
Vento úmido cortando a espinha
Pés descalços no assoalho frio

Aqui, pairam versos seus
Os meus
Na gaveta, apenas rascunhos
de um romance sem graça

Não posso lhe desejar agora
(Minto)
Desejar eu posso

Aporia

Se desvio o olhar é por insegurança
Mas vejo seu rosto recortado na parede branca
Na noite tudo padece

Seus olhos floresta
Sonhei você
Hesitei

Adentrar na floresta
Ajustar o foco
Desfocar o fundo

Amar você?
O toque pareceu impossível

Desenhos

Talvez quisesse uma terra boa
Neste descampado onde vi pinturas rupestres
Crença na origem
Talvez duvidasse da existência dos homens antes dos homens
Se a matriz do desavisado é o plágio
A minha é o fingimento

18.12.08

Palu

A aldeia fica afastada do grande centro
O sol impera ao meio-dia
queima florestas

Se fosse esperar pelo tempo
não traçaria dois círculos e uma reta

– A estrada precisa atravessar sítios

Os olhos ardendo em febre
Ignorou o gesto do velho Soba

– Talvez não vingue por aqui

16.12.08

Se o sono dos justos vem com o cair da noite
O meu
Carregado de pesadelos
A casa, goteira e mofo
O andar de cima guarda algum mistério
Na caixa escura, a imagem da Senhora Aparecida
(o vestido faltando um pedaço)

– Quando as coisas irão melhorar?
Dizia o pai:
– Breve...

12.12.08

Sem teoria

Na sala de estar: uma cadeira, alguns livros, objetos de porcelana
A TV exibe imagens desgastadas
Não sei se padeço de algum mal
Porção de tempo

20.11.08

As horas que separam a noite da entrevista
O lugar mais confortável
A escrita?

14.11.08

[Ritornelo]

Começar com gestos repetitivos

Abrir mais de uma vez a porta antes de sair de casa

[ver se a chave do gás está virada,
se o ferro está desligado]

Abrir mais uma vez a casa

12.11.08

Pergunta não feita a Carlos Alberto Prates Correia

Em Cabaré Mineiro, após a canção enlevada pelo personagem anônimo de Nelson Dantas e a bela jovem, cena que nos encanta pela delicadeza do gesto amoroso, a onça-mulher é morta pelo personagem em seguida.
Medo ou amor de morte?